O relógio marca 22:00, está na hora de você dormir
Mas você prefere a vida e a leveza do respirar
Você quer fechar os olhos, mas os espinhos percorrem sobre a sua íris cor-de-mel
Logo você o vê, o clarão da televisão caminhando pelo corredor escuro
Se permite assistir à programação por uma fresta, fazendo com que a preencha em uma noite tão fria
Mas você não estava só, estava na companhia dele
Ansiando por você, estava salivando e sentindo fome da sua pureza
O sabonete com aroma adocicado, o seu pijama de inverno, o seu diário azul. Tudo sempre foi tirado de sua alma
A sua boca insiste em dizer, mas o vento a fecha antes mesmo de ouvir a sua voz
As palavras das quais escreveu foram devoradas por ele, jogadas em um canto esquecido e sujo
Os seus lábios tiveram o primeiro beijo roubado por ele, seu corpo foi tocado antes mesmo de você o descobrir
Os seus olhos não irão abrir esta manhã, ninguém assistirá à televisão.
Seus ossos foram expostos à luz, seus olhos o alimentaram, o seu sangue o saciou.
Hoje, minha pequena, você acordará em um limbo, mas poderá chamar de seu
Não verá mais o laranja do outono, mas ele mora dentro de você
E então amanhece com sol quente e sangrento, pingando em gotas tom vermelho-vivo como lágrimas pelo caminho trilhado por pequenos passos de ingenuidade até o velho espelho em que ele as coleciona e as guarda.
Hoje a madrugada acordou sentindo a sua falta, o relógio estava solitário e sedento por suas perguntas indiscretas
A manhã e o entardecer nunca irão chegar para você, apenas aprecie a pobre vista escura ao seu redor
Te enxergo mediante um espelho nesse limbo e sinto falta de nós, de tudo o que nos foi tirado
Você está tão pálida, vejo suas veias esbranquiçadas assumirem o azul em sua pele
Está voltando para a casa
Você recriou a sua alma
Ela é sua