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A partir da meia-noite

JuliaFornes
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O relógio marca 22:00 , está na hora de você dormir

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Conteúdo da publicação

O relógio marca 22:00, está na hora de você dormir

Mas você prefere a vida e a leveza do respirar

Você quer fechar os olhos, mas os espinhos percorrem sobre a sua íris cor-de-mel

Logo você o vê, o clarão da televisão caminhando pelo corredor escuro

Se permite assistir à programação por uma fresta, fazendo com que a preencha em uma noite tão fria

Mas você não estava só, estava na companhia dele

Ansiando por você, estava salivando e sentindo fome da sua pureza

O sabonete com aroma adocicado, o seu pijama de inverno, o seu diário azul. Tudo sempre foi tirado de sua alma

A sua boca insiste em dizer, mas o vento a fecha antes mesmo de ouvir a sua voz

As palavras das quais escreveu foram devoradas por ele, jogadas em um canto esquecido e sujo

Os seus lábios tiveram o primeiro beijo roubado por ele, seu corpo foi tocado antes mesmo de você o descobrir 

Os seus olhos não irão abrir esta manhã, ninguém assistirá à televisão.

Seus ossos foram expostos à luz, seus olhos o alimentaram, o seu sangue o saciou.

Hoje, minha pequena, você acordará em um limbo, mas poderá chamar de seu 

Não verá mais o laranja do outono, mas ele mora dentro de você 

E então amanhece com sol quente e sangrento, pingando em gotas tom vermelho-vivo como lágrimas pelo caminho trilhado por pequenos passos de ingenuidade até o velho espelho em que ele as coleciona e as guarda.

Hoje a madrugada acordou sentindo a sua falta, o relógio estava solitário e sedento por suas perguntas indiscretas

A manhã e o entardecer nunca irão chegar para você, apenas aprecie a pobre vista escura ao seu redor

Te enxergo mediante um espelho nesse limbo e sinto falta de nós, de tudo o que nos foi tirado

Você está tão pálida, vejo suas veias esbranquiçadas assumirem o azul em sua pele

Está voltando para a casa

Você recriou a sua alma

Ela é sua

Thoughts

  • Doralice

    O relógio marcando 22:00 e o clarão da televisão andando pelo corredor escuro. Você deixou o medo inteiro nesses dois detalhes, sem precisar dizer o resto.

    E a última linha é ela recriando a própria alma. Você escolheu terminar ali.

    O "tudo o que nos foi tirado" ficou comigo. Se quiser continuar escrevendo isso, eu leio.

    Permalink

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