Não vejo o sol há dias, talvez semanas
Meu rosto se tornou desconhecido
E meu riso, inexistente
Ouço suavemente o som da chuva
Talvez seja mais um de meus delírios
Hoje cedo conheci alguém
Alto, gelado, risonho e vermelho
Esse é ele
Com quem divido minha cela
Agora minha sentença
Não sei quando anoitece
Que diferença faz?
Tenho que comer essa comida nojenta
Mas ele diz que seria melhor esperar
Diz que pode alimentar-me com um sentimento mais saboroso
Logo terei que doar meu sangue a ele
Está ficando sem cor
Tome todo o meu corpo
Me leve até as rachaduras cobertas por heras
Mostre sua cintilância ao pisar em liberdade
Quero ser como você
Contorne meu corpo com espinhos
More dentro de meus olhos e me guie até o inferno deste mundo
Seremos um só corpo
Abro os olhos e enxergo apenas o esbranquiçado do teto
Onde estou?
Por que estamos aqui?
Em minhas veias não circula mais sangue
Tenho que me livrar delas
Alimentar-me de meus restos
Sinto frio e medo
Mas agora sou mais resistente aos meus pensamentos
Estou fora daquela caixa
Porém ainda não vejo o dia
Revivo noites e a escuridão
Me vejo dormindo em uma cama ao som de gritos ardentes em silêncio
Estou sem voz
Também não o ouço
Talvez tenha chegado minha hora de repousar em cinzas
De ser jogado aos demônios que desejo
Essas duas merdas brancas
Não irei dar chance de adentrarem meu corpo
Estou melhor assim
Quando irei acordar novamente?
Sinto falta da paz em meu limbo recheado de tédio
Gostaria de reviver minha morte
Hoje sofro com o burburinho em meu crânio
Essa multidão barulhenta
Querem meu silêncio
Mas eu quero apenas conhecer minha voz
Olhar para dentro de mim
Respirar o meu eu
Me devolva meus olhos e deixe-me enxergar a saída
Logo estarei em meu lar
Irei saciar sua fome com meu retorno
Queimará em vida
E eu o servirei