1- CAPÍTULO
SENTINELA DAS TREVAS, novos guardiões.
Capítulo 7 — A ameaça de Astiel: A batalha dos cinco heróis
Meses depois...
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São Paulo já não era a mesma.
Desde que Caim e Abel haviam descoberto suas verdadeiras origens, os dois irmãos
combatiam juntos as forças do mal. Suas aparências também haviam mudado. O
uso constante de seus poderes transformara suas armaduras, tornando-as mais
resistentes e dando a elas um aspecto quase sobrenatural.
Abel, o Guardião da Noite, continuava usando o preto e o branco, mas sua armadura
agora apresentava detalhes metálicos luminosos, correntes douradas vivas e uma
capa branca que parecia irradiar energia.
Caim, o Sentinela das Trevas, mantinha o vermelho e o amarelo, porém sua
armadura havia adquirido placas negras, chifres mais pronunciados e correntes que
ardiam com uma energia avermelhada. Ele aprendera a controlar as trevas sem se
deixar dominar por elas, suas armaduras oscilavam entre o normal e o sinistro
conforme precisavam.
Os irmãos haviam se tornado uma dupla temida pelos criminosos e pelas criaturas
sobrenaturais.
Mas, naquela noite, algo terrível estava prestes a acontecer.
O retorno da besta infernal
Uma tempestade cobriu a cidade. Relâmpagos cortavam o céu, e uma enorme
nuvem negra se formou sobre os edifícios.
No alto de uma torre abandonada, Abel sentiu uma presença familiar.
— Caim... você está sentindo isso?
O irmão ergueu o rosto.
— Estou. É ele.
Um rugido atravessou a noite.
O céu abriu-se numa fenda flamejante, e uma criatura colossal desceu das alturas.
Sua armadura negra estava atravessada por veios de fogo infernal, seus chifres
retorcidos pareciam lâminas e seus seis olhos brilhavam como brasas. Enormes
asas de fumaça e fogo se abriram sobre a cidade.
Astiel havia retornado.
— HA! HA! HA! — gargalhou o demônio. — Sentiram minha falta, pequenos heróis?
Abel desembainhou sua arma, enquanto as correntes douradas se erguiam ao redor
de seus braços.
— Desta vez você não vai escapar, Astiel!
Caim avançou um passo.
— E não estamos mais sozinhos!
Astiel inclinou a cabeça, divertido.
— Então mostrem-me o que aprenderam!
Com um movimento de suas garras, lançou uma onda de fogo infernal contra os dois
irmãos.
Eles saltaram em direções opostas. Abel lançou suas correntes luminosas contra o
peito do demônio, enquanto Caim atacou por trás, golpeando-o com suas correntes
vermelhas.
Astiel rugiu e bateu as asas.
Uma explosão de energia arremessou os dois heróis contra o topo de um edifício.
Antes que pudessem se levantar, o chão começou a rachar.
Dezenas de criaturas demoníacas emergiram das fendas. Eram seres semelhantes
a Calisiel, com corpos avermelhados, armaduras negras, chifres retorcidos e olhos
incandescentes.
O exército infernal havia chegado!
A chegada dos reforços
Abel levantou-se com dificuldade.
— São muitos!
Caim girou suas correntes.
— Então teremos que trabalhar um pouco mais!
Uma criatura avançou contra eles, mas, antes que pudesse atacar, um vulto metálico
surgiu entre os dois irmãos e a fera.
Um golpe poderoso lançou o demônio contra uma parede.
Era o Caveira de Aço!
Seu corpo estava protegido por uma armadura metálica escura, e seu rosto
lembrava uma caveira blindada. Seus olhos brilhavam através das aberturas do
capacete.
— Espero não ter chegado tarde para a festa!
Caim sorriu.
— Você chegou bem na hora!
O Caveira de Aço ergueu os braços, acionando mecanismos de sua armadura. Uma
descarga de energia atingiu um grupo de demônios, derrubando vários deles.
Então, um assobio cortou o ar.
Uma figura saltou de uma estrutura próxima e aterrissou sobre uma criatura infernal,
imobilizando-a com uma sequência rápida de golpes.
Era o Coruja, o vigilante que dominava as sombras da noite e utilizava equipamentos
especiais para enfrentar seus inimigos.
— Vocês começaram a batalha sem mim? — perguntou ele.
— Estávamos guardando os melhores para você! — respondeu Caim.
O Coruja lançou pequenos dispositivos luminosos contra as criaturas. As explosões
iluminaram o campo de batalha e abriram caminho para os outros heróis.
Mas Astiel ainda não havia mostrado todo o seu poder.
O demônio ergueu os seis olhos para o céu.
— Legiões infernais! Destruam todos eles!
As criaturas avançaram em massa.
Foi quando uma terceira presença apareceu.
Uma figura de capa escura desceu entre os relâmpagos. Seu uniforme reunia
elementos dos heróis presentes: a imponência do Guardião da Noite, a energia
ameaçadora do Sentinela das Trevas, a resistência do Caveira de Aço e os traços
sombrios do Coruja.
Seu rosto estava oculto por uma máscara que parecia reunir luz e escuridão numa
única expressão.
Era o Arauto das Trevas.
Sua presença provocou um silêncio momentâneo até mesmo entre os demônios.
Ele ergueu os braços, e duas forças distintas se manifestaram: uma energia escura
em uma das mãos e um brilho intenso na outra.
— Astiel! Sua invasão termina aqui!
O demônio soltou uma gargalhada.
— Outro fantoche querendo desafiar o senhor do inferno!
O Arauto respondeu lançando uma onda de energia que atingiu as criaturas e abriu
uma passagem entre elas.
— Não sou fantoche de ninguém!
O Gárgula desperta
A batalha se espalhava pelos telhados e pelas ruas. Os cinco heróis lutavam sem
descanso, mas o exército infernal continuava chegando.
Então, um grito monstruoso ecoou de uma igreja abandonada.
Uma enorme criatura de aparência pétrea surgiu no alto da torre, abriu suas asas e
saltou para o campo de batalha.
Seu corpo parecia esculpido em pedra escura. Possuía garras poderosas, asas
imensas e um rosto assustador, mas seus olhos demonstravam inteligência e
determinação.
Ele mergulhou sobre o exército infernal, atingindo o chão com tanta força que várias
criaturas foram lançadas para longe.
— Astiel! — rugiu o Gárgula. — Você escolheu a cidade errada para invadir!
O demônio virou-se lentamente.
Pela primeira vez, seus seis olhos demonstraram irritação.
— Mais um defensor dos humanos? Vou transformar todos vocês em pó!
O Gárgula bateu as asas e lançou-se contra ele.
Astiel tentou agarrá-lo, mas a criatura desviou no último instante e golpeou o peito do
demônio com suas garras.
Abel percebeu a oportunidade.
— Caim! Agora!
Os irmãos uniram suas correntes, formando um poderoso arco de energia branca e
vermelha. O Arauto das Trevas acrescentou sua força ao ataque, enquanto o
Caveira de Aço disparava uma descarga energética.
O Coruja lançou seus dispositivos contra os demônios que tentavam interromper a
ofensiva.
E o Gárgula, ainda no ar, atingiu Astiel mais uma vez.
Cinco heróis cercavam a besta infernal.
O céu se iluminou com uma explosão de energia.
Astiel cambaleou, rugindo de fúria.
— IMPOSSÍVEL! VOCÊS NÃO PODEM ME DERROTAR!
Abel avançou.
— Talvez não possamos sozinhos!
Caim posicionou-se ao lado dele.
— Mas juntos somos mais fortes!
O Arauto das Trevas ergueu as mãos. O Caveira de Aço preparou sua próxima
descarga. O Coruja assumiu posição de ataque, e o Gárgula abriu as asas diante da
criatura infernal.
Astiel percebeu que, pela primeira vez, enfrentava adversários capazes de desafiar
seu poder.
Mas então sorriu.
Um sorriso lento, cruel e ameaçador.
— Seus tolos... vocês pensam que eu vim sozinho?
Atrás dele, a fenda infernal começou a se alargar.
Dezenas de novos olhos vermelhos surgiram na escuridão.
E uma sombra gigantesca começou a atravessar o portal.
SENTINELA DAS TREVAS
Capítulo 8 — A luz que habita nas sombras
O céu de São Paulo havia se transformado num pesadelo. A gigantesca fenda
infernal permanecia aberta sobre a cidade, enquanto dezenas de criaturas
aguardavam o comando de Astiel.
Os seis heróis estavam reunidos diante da besta: Abel, o Guardião da Noite; Caim, o
Sentinela das Trevas; o Caveira de Aço; o Coruja; o Arauto das Trevas; e o Gárgula.
Astiel abriu seus seis olhos e ergueu as mãos. Uma onda de energia atravessou o
campo de batalha, envolvendo os heróis numa névoa avermelhada.
— Antes de destruí-los, quero contemplar suas almas! Quero ver o que existe dentro
daqueles que ousam desafiar o senhor do inferno!
Seus olhos brilharam intensamente.
De repente, o demônio teve uma visão.
Viu Abel e Caim ainda crianças, separados na noite em que nasceram. Viu a
inocência de Abel, protegido por Galiel, e a infância de Caim, roubada por Calisiel.
Viu a dor, a revolta e as trevas que haviam tentado consumir os dois irmãos.
Mas também viu algo que não compreendia: uma luz que jamais havia abandonado
suas almas.
Então, sua visão alcançou os outros quatro heróis.
O Caveira de Aço carregava marcas de sofrimento e uma força interior que o
impedira de sucumbir à escuridão.
O Coruja conhecia as sombras como poucos, mas usava sua inteligência e suas
habilidades para proteger os indefesos.
O Arauto das Trevas possuía em seu interior forças aparentemente opostas,
equilibradas por uma vontade que nenhuma entidade conseguira dominar.
E o Gárgula, apesar de sua aparência monstruosa, guardava um coração capaz de
reconhecer o sofrimento alheio e lutar pela vida.
Astiel recuou.
— Não... Isso não pode ser!
Ele contemplou novamente os seis heróis.
Todos haviam sido tocados pelas trevas de alguma maneira. Alguns carregavam
cicatrizes profundas; outros haviam enfrentado forças que poderiam ter destruído
suas almas.
Mas a luz também os havia tocado.
E era justamente essa combinação que os tornava perigosos para os demônios.
— Porque nossas escolhas não são determinadas pelas sombras que encontramos.
Caim ergueu suas correntes avermelhadas.
— Eu fui criado no inferno, mas não pertenço a ele!
O Coruja acrescentou:
— Conhecer a escuridão não significa servi-la.
O Caveira de Aço fechou os punhos.
— E nenhuma força pode nos obrigar a abandonar aquilo em que acreditamos!
Astiel soltou um rugido que fez os edifícios estremecerem.
— ENTÃO MORRAM!
A abominação infernal
O demônio abriu os braços, e a fenda no céu começou a pulsar.
Algo colossal surgiu das profundezas.
Era uma criatura tão monstruosa que os próprios demônios se afastaram para abrir
caminho. Seu corpo era formado por dezenas de criaturas infernais cujas carnes
haviam sido fundidas numa única massa viva. Braços se projetavam de lugares
impossíveis, rostos demoníacos gritavam em meio à carne retorcida, e inúmeras
bocas soltavam fumaça e chamas.
Algumas cabeças possuíam chifres; outras exibiam mandíbulas enormes, presas
afiadas e olhos vermelhos que se moviam independentemente.
As várias criaturas, unidas à força, formavam uma única abominação gigantesca.
Astiel apontou para ela.
— Contemplem minha obra-prima! Uma legião transformada numa única criatura!
Ela possui a força de todos os demônios que a compõem e não conhece piedade!
A abominação golpeou o chão.
Uma onda de destruição atravessou a avenida, derrubando postes e abrindo
enormes rachaduras no asfalto.
O Gárgula foi atingido e lançado contra uma construção. O Caveira de Aço protegeu
o Coruja de uma chuva de destroços, enquanto o Arauto das Trevas ergueu um
escudo de energia para impedir que a onda alcançasse os civis que ainda estavam
sendo retirados da região.
Abel e Caim avançaram juntos.
As correntes dos irmãos envolveram um dos braços da criatura, mas a abominação
rugiu e os arrastou pelo chão.
— Ela é forte demais! — gritou Caim.
— Então não vamos enfrentá-la separadamente! — respondeu Abel.
O Gárgula levantou-se dos escombros e voltou à batalha. O Coruja encontrou uma
abertura entre as placas de carne endurecida, enquanto o Caveira de Aço preparou
uma descarga energética.
O Arauto das Trevas observou os movimentos da criatura.
— Seus corpos estão unidos, mas ainda existe energia infernal circulando entre eles!
Se atacarmos juntos, poderemos romper essa ligação!
Astiel ouviu as palavras e gargalhou.
— Vocês não conseguirão! Minha criatura esmagará suas esperanças!
A abominação avançou.
Mas os seis heróis não recuaram.
A união dos seis.
Abel ergueu suas correntes douradas. Caim posicionou-se ao seu lado, e a energia
vermelha começou a se entrelaçar com a luz branca.
O Caveira de Aço concentrou toda a energia de sua armadura. O Coruja ativou seus
dispositivos, criando um campo que canalizou a força dos companheiros. O Gárgula
abriu suas enormes asas e lançou-se ao céu, enquanto o Arauto das Trevas ergueu
as mãos, reunindo as forças que carregava em sua própria essência.
Então aconteceu.
Uma luz angelical começou a emanar dos seis heróis.
Primeiro, envolveu suas mãos. Depois, percorreu suas armaduras, iluminando as
correntes, as asas e os rostos mascarados.
A luz cresceu até transformar a noite numa imensa claridade.
Astiel recuou, protegendo os seis olhos.
— O que vocês fizeram?!
Abel respondeu:
— Descobrimos que nossas diferenças não são nossa fraqueza!
Caim completou:
— E que as trevas não podem nos dominar enquanto escolhermos lutar pelo bem!
Os seis se posicionaram lado a lado.
As energias se uniram numa única corrente luminosa, envolvendo os heróis como
um gigantesco círculo de proteção.
A abominação atacou, mas suas garras se desfizeram ao tocar a luz.
Os rostos demoníacos começaram a gritar. Os braços fundidos se romperam em
partículas incandescentes, e os corpos que formavam aquela criatura foram
separados pela energia celestial.
A abominação tentou recuar em direção ao portal.
Era tarde demais.
— AGORA! — gritou Abel.
Os seis heróis lançaram uma poderosa rajada de luz.
O feixe atravessou a criatura e atingiu o exército infernal que avançava atrás dela.
Os demônios foram envolvidos por clarões sucessivos, desaparecendo em nuvens
de cinzas que se espalharam pelo vento.
A gigantesca abominação soltou um último rugido.
Seu corpo se desintegrou completamente, libertando uma explosão luminosa que
iluminou toda a cidade.
O portal começou a fechar-se.
Astiel, furioso, tentou sustentar a abertura com suas próprias forças.
— NÃO! EU SOU ASTIEL! NENHUM SER PODE ME DESTRUIR!
Mas a luz já o havia alcançado.
Rachaduras luminosas surgiram em sua armadura negra. Os veios de fogo infernal
apagaram-se um após o outro, seus chifres começaram a se desfazer e suas
enormes asas se transformaram em fumaça.
Os seis olhos incandescentes perderam o brilho.
Astiel caiu de joelhos.
— Isso... não... pode...
Abel observou o demônio sem baixar a guarda.
Caim permaneceu ao lado do irmão.
Astiel ergueu a cabeça uma última vez, contemplando os seis heróis que haviam
frustrado seus planos.
Então, seu corpo inteiro se desfez em cinzas.
Uma rajada de vento espalhou os restos da criatura pela noite.
O portal infernal fechou-se com um estrondo.
E o silêncio voltou a São Paulo.
O amanhecer dos heróis.
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As primeiras luzes da manhã começaram a surgir no horizonte.
Os seis heróis estavam exaustos, mas permaneciam de pé. As energias que haviam
emanado de seus corpos diminuíram lentamente, embora um brilho discreto ainda
pudesse ser visto nas armaduras dos irmãos.
Caim olhou para Abel.
— Durante tanto tempo, pensei que as trevas fossem a minha única natureza.
Abel colocou a mão no ombro do irmão.
— Todos nós carregamos alguma batalha dentro de nós. O importante é aquilo que
escolhemos fazer com a força que temos.
O Arauto das Trevas permaneceu em silêncio, olhando para o lugar onde o portal
havia desaparecido.
A cidade estava salva.
Pelo menos por enquanto.
Os seis heróis se reuniram no alto de um edifício, contemplando São Paulo
despertar para um novo dia.
Não eram iguais. Não possuíam a mesma origem, os mesmos poderes ou as
mesmas aparências.
Mas, naquela batalha, haviam descoberto algo que nenhum deles poderia ter
aprendido sozinho.
A luz não pertence apenas aos que nunca conheceram as trevas. Ela também pode
brilhar naqueles que atravessaram a escuridão e escolheram não se tornar parte
dela.
E, assim, nasceu uma nova aliança.
Os Vigilantes da Noite.
SENTINELA DAS TREVAS
Epílogo — O nascimento dos Vigilantes e a Caminhante da Luz
A batalha contra Astiel havia terminado. São Paulo voltava lentamente à normalidade, mas seis homens sabiam que suas vidas jamais seriam as mesmas. Eles haviam enfrentado o inferno e descoberto que, apesar de suas diferenças, estavam unidos por algo muito maior do que seus próprios poderes.
Naquela manhã, reunidos no esconderijo subterrâneo do Guardião da Noite,
decidiram revelar suas verdadeiras identidades.
O primeiro foi Abel.
— Meu nome é Abel. Durante toda a minha vida, fui guiado pela luz de Galiel. Agora,
uso meus poderes para proteger aqueles que não podem se defender. Sou o
Guardião da Noite.
Ao seu lado, Caim retirou o capacete, revelando o rosto marcado por uma história de
sofrimento.
— Eu sou Caim. Fui criado pelas trevas, mas não serei escravo delas. Meu nome
será lembrado como Sentinela das Trevas!
Os dois irmãos apertaram as mãos. A luz branca de Abel e a energia avermelhada
de Caim se encontraram por um instante, demonstrando que forças opostas
poderiam caminhar juntas.
Em seguida, apresentou-se o Caveira de Aço.
— Meu nome verdadeiro é Jorge Tufão. Esta armadura não é uma simples máquina.
Ela é sobrenatural, indestrutível e capaz de resistir a forças que destruiriam qualquer
equipamento convencional. Desde que a encontrei, compreendi que deveria usá-la
para proteger os inocentes.
Sua voz era grave, mas havia tristeza em suas palavras.
— Meu nome era Max Silva. Fui morto por um demônio, e meu espírito acabou
aprisionado numa estátua de gárgula. Durante muito tempo, fiquei preso entre dois
mundos, incapaz de retornar à vida ou encontrar descanso.
Ele olhou para suas próprias mãos de pedra.
— Então, o anjo Otoniel apareceu. Ele me libertou daquela prisão e concedeu vida
novamente ao meu espírito, mas numa forma diferente. Agora sou o Gárgula. Talvez
meu corpo assuste as pessoas, mas meu coração continua sendo o de Max Silva.
Abel aproximou-se e colocou a mão em seu ombro.
— O que importa é aquilo que você escolhe fazer com essa segunda oportunidade.
Max inclinou a cabeça, agradecido.
O próximo foi o Coruja.
O homem retirou a máscara, revelando um rosto sério e inteligente.
— Sou Tomás Eine. Passei boa parte da minha vida desenvolvendo tecnologias
avançadas. Meu laboratório foi destruído por uma explosão sobrenatural, e todos os
meus equipamentos foram expostos a uma energia espiritual desconhecida.
Ele ativou um dispositivo no pulso. Pequenas luzes percorreram sua armadura.
Tomás respondeu com um sorriso discreto.
Por último, o Arauto das Trevas deu um passo à frente.
— Meu nome é Luiz Bolsone. Eu vivia nas ruas, sem imaginar que um dia faria parte
de algo assim.
Ele respirou fundo antes de continuar.
— Durante a batalha contra Astiel, uma rajada de energia atravessou o lugar onde
eu estava. Pensei que fosse morrer, mas, em vez disso, absorvi aquela força arcana.
Ela se alojou dentro de mim e transformou meu corpo. Passei a sentir energias que
não sabia que existiam, a enxergar coisas escondidas dos olhos humanos e a
controlar forças que parecem vir de dois mundos.
— Não sei por que fui escolhido. Mas, enquanto puder usar esse poder para
proteger alguém, não desperdiçarei essa oportunidade.
O Guardião da Noite estendeu a mão para o centro do grupo.
Um a um, os outros cinco colocaram as mãos sobre a dele.
Naquele instante, uma discreta luminosidade percorreu o esconderijo.
Não era um juramento feito diante de reis, generais ou autoridades. Era um
compromisso entre homens que conheciam o medo, a dor e as sombras.
A partir daquele dia, seriam conhecidos como os Vigilantes da Noite.
E suas aventuras estavam apenas começando.
A Caminhante da Luz.
Algum tempo depois...
Era uma noite chuvosa quando Caim despertou de repente.
Ele estava em seu esconderijo, mas sentiu algo estranho atravessar sua
consciência. Não era uma presença demoníaca. Tampouco se parecia com a
energia dos anjos que conhecera.
Era uma força espiritual intensa, familiar e, ao mesmo tempo, inexplicável.
Caim levantou-se imediatamente.
— Não pode ser...
A energia vinha de um hospital psiquiátrico na periferia de São Paulo.
Sem perder tempo, Caim chamou Abel.
— Irmão, encontrei algo. Ou melhor... alguém.
— Quem?
Caim ficou em silêncio por alguns segundos.
— Sarah.
Abel reconheceu o nome.
Sarah havia sido uma enfermeira envolvida em acontecimentos sobrenaturais no
passado. Depois de relatar experiências que ninguém conseguia explicar, fora
considerada louca. Suas histórias sobre vozes, aparições e pessoas que já haviam
morrido fizeram com que muitos desacreditassem dela.
Os irmãos partiram imediatamente para o hospital.
Entre dois mundos
Dentro de um quarto silencioso, Sarah permanecia sentada perto da janela. A chuva
escorria pelo vidro, enquanto as luzes do corredor piscavam de maneira irregular.
De repente, ela fechou os olhos.
Seu corpo permaneceu sentado, respirando normalmente, mas uma luminosidade
começou a surgir ao seu redor.
Era uma luz pura, intensa e delicada, que se espalhava pelo quarto sem produzir
calor.
Sarah abriu os olhos novamente.
Porém, o que ela via agora não pertencia inteiramente ao mundo físico.
As paredes pareciam transparentes. Espíritos caminhavam pelos corredores, alguns
confusos, outros carregando a tristeza de histórias que jamais haviam terminado.
Figuras luminosas apareciam ao longe, enquanto sombras tentavam esconder-se
nos cantos.
Sarah havia descoberto como caminhar pelo mundo espiritual.
E havia algo ainda mais extraordinário: seu corpo físico não ficava inconsciente
durante essas viagens. Ela continuava desperta, consciente e capaz de perceber o
que acontecia ao seu redor.
Uma asa formada por energia luminosa surgiu atrás dela.
Não era feita de penas, mas de filamentos brilhantes que se abriam como as asas de
um anjo. Quando Sarah caminhava entre os espíritos, aquela asa acompanhava
seus movimentos, iluminando o caminho.
Ao seu redor, uma aura sobrenatural envolvia seu corpo. A energia protegia Sarah
contra influências espirituais hostis e podia estender-se às pessoas próximas,
formando um escudo contra presenças malignas.
Os espíritos começaram a chamá-la por um nome.
A Caminhante da Luz.
Sarah não sabia quem lhe havia concedido aquele dom. Não sabia por que fora
escolhida, nem compreendia os limites de seus poderes.
Mas conhecia uma coisa: podia ajudar aqueles que estavam perdidos entre os dois
mundos.
O encontro
Quando Caim e Abel chegaram ao hospital, encontraram Sarah sentada na cama,
envolvida por uma luminosidade suave.
Caim ficou imóvel diante da porta.
— É ela...
Sarah virou lentamente o rosto.
— Eu sabia que você viria, Caim.
Abel olhou para o irmão, surpreso.
— Ela sabe quem somos?
Sarah sorriu.
— No mundo espiritual, as máscaras não escondem as almas. Eu conheço vocês
dois. Conheço suas dores, suas origens e a luz que carregam dentro de si.
Caim aproximou-se, cauteloso.
— Eu não enlouqueci. Eu estava vendo coisas que ninguém mais conseguia ver. E
agora posso atravessar a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos espíritos sem
abandonar meu próprio corpo.
Atrás dela, a asa de energia surgiu novamente, iluminando o quarto.
Abel sentiu uma presença serena, semelhante à energia angelical que o havia
acompanhado desde o nascimento.
— Você não é nossa inimiga, Sarah.
— Não — respondeu ela. — Mas existem coisas no outro lado que nem mesmo
vocês conhecem.
A expressão de Caim tornou-se séria.
— Que coisas?
Sarah olhou para a janela.
Por um instante, sua aura oscilou.
Sarah voltou a olhar para os irmãos.
— Existem espíritos que não são anjos. Existem criaturas que não pertencem ao
inferno. E há forças antigas que observam o mundo dos vivos desde antes de nossa
história começar.
Caim sentiu suas correntes vibrarem.
Abel apertou os punhos.
Sarah levantou-se da cama. A aura luminosa expandiu-se por todo o quarto,
envolvendo os três numa proteção sobrenatural.
— Vocês derrotaram Astiel — disse ela. — Mas aquela batalha chamou a atenção
de seres que estavam adormecidos há muito tempo.
A figura desapareceu do reflexo da janela.
Caim aceitou sua mão.
Abel sorriu.
Naquela noite, os Vigilantes da Noite descobriram que sua aliança estava prestes a
crescer.
E uma nova heroína havia surgido, capaz de atravessar a fronteira entre a vida e a
morte sem pertencer inteiramente a nenhum dos dois mundos.
Sarah, a Caminhante da Luz.
Fim do epílogo.
Mas, nas profundezas de uma dimensão esquecida, alguma coisa abriu os olhos. E, pela primeira vez em milhares de anos, pronunciou o nome de Abel. Continua........