O sol começava a desaparecer atrás das montanhas quando Tex Willer puxou as rédeas de seu cavalo. Depois de tantas aventuras, tantas guerras e tantas viagens através do tempo e do espaço, finalmente chegara a hora de seguir um caminho diferente.
Ao seu lado estava Zagor, o Espírito da Machadinha, seu velho companheiro de inúmeras batalhas.
Haviam passado os últimos meses ao lado do conde Drácula e de seus extraordinários aliados: Frankenstein, o Lobisomem, a Múmia e outras criaturas que, apesar de suas aparências assustadoras, haviam demonstrado possuir honra e lealdade.
Depois de enfrentarem ameaças que poderiam destruir mundos inteiros, Tex sentia que chegara o momento de voltar às suas origens.
Drácula os acompanhou até os portões de seu castelo, escondido nas profundezas dos montes Apalaches.
— Então é isso, velho amigo? — perguntou o conde, com sua voz grave. — Depois de enfrentarmos demônios, deuses e senhores do tempo, você simplesmente vai embora?
Tex sorriu, ajeitando o chapéu.
— Já passei tempo demais correndo atrás de encrenca, conde. Acho que mereço uma aposentadoria.
Drácula abriu um sorriso discreto.
— A eternidade me ensinou uma coisa, Tex. Ninguém escolhe quando sua última noite chegará.
Depois, Drácula abraçou Zagor, algo que teria parecido impossível alguns anos antes.
— Cuide dele, Espírito da Machadinha.
— Pode deixar, conde. Conheço esse sujeito há tempo suficiente para saber que ele costuma se meter em problemas.
Tex já estava montado quando respondeu:
— E você fala como se nunca tivesse me acompanhado!
Os três riram.
Foi a última vez que Drácula ouviu a risada de Tex Willer.
Tex e Zagor cavalgavam por uma antiga trilha cercada por árvores gigantescas. A lua iluminava parcialmente o caminho, enquanto uma névoa fina deslizava entre os troncos.
Durante algumas horas, falaram sobre as aventuras que haviam vivido.
— Sabe, Zagor — comentou Tex —, se alguém tivesse me dito, quando comecei a trabalhar como ranger, que um dia eu viajaria por outros universos ao lado de um vampiro e de um sujeito que anda com uma machadinha, eu teria mandado essa pessoa procurar um médico.
Zagor soltou uma gargalhada.
— E olha que você ainda não conheceu metade das coisas que existem por aí!
Tex ia responder quando um estampido cortou a noite.
BANG!
Seu cavalo relinchou, assustado, e Tex tombou da sela, caindo pesadamente sobre o chão.
— TEX!
Zagor saltou imediatamente de seu cavalo e correu até o amigo.
Uma mancha escura se espalhava pela camisa de Tex.
— Droga! Quem foi o desgraçado?
Zagor sacou sua arma e girou o corpo, procurando a origem do disparo. Olhou para as árvores, examinou as encostas e correu até uma formação rochosa de onde um atirador poderia ter disparado.
Nada.
Nenhum movimento.
Nenhuma pegada.
Nenhum vulto desaparecendo entre as árvores.
Tex estava deitado, respirando com dificuldade. Mesmo assim, tentou esboçar um sorriso.
— Parece que... minha aposentadoria chegou mais cedo do que eu esperava.
— Cale a boca! — gritou Zagor, ajoelhando-se ao lado dele. — Vou levá-lo até o castelo. Drácula pode fazer alguma coisa!
Tex segurou o braço do amigo.
— Não adianta, Zagor...
— Não fale isso!
— Escute... já enfrentamos coisas que nenhum homem deveria enfrentar. Viajamos por mundos que nem sequer deveriam existir. E, apesar de tudo, continuamos aqui.
Zagor apertou a mão dele.
— Nós vamos continuar, Tex. Você e eu. Como sempre.
Por um instante, pareceu enxergar algo que seu companheiro não conseguia ver.
Uma luz distante.
Uma estrada sem fim.
E, no final dela, figuras conhecidas que o aguardavam em silêncio.
— Diga ao conde... que foi uma honra cavalgar com ele.
— Você mesmo vai dizer isso a ele!
Tex sorriu fracamente.
— E cuide do mundo, velho amigo. Ele sempre encontra um jeito de precisar da gente.
Seus dedos perderam a força.
A cabeça tombou suavemente para o lado.
Zagor permaneceu ajoelhado, incapaz de aceitar o que acabara de acontecer.
— Não... Não pode ser...
Ele sacudiu o ombro do amigo.
— Tex! Acorde, maldição!
Mas Tex não respondeu.
Naquela noite, sob as árvores silenciosas dos Apalaches, Zagor chorou a morte de um dos maiores companheiros que a vida lhe dera.
E, em algum lugar muito distante, uma presença maligna observava tudo.
Uma voz profunda atravessou a escuridão.
— Finalmente... a primeira peça foi retirada do tabuleiro.
Capítulo II — O túmulo esquecido
Zagor não abandonou o amigo.
Cavou uma sepultura perto de uma velha árvore, num lugar de onde se podia contemplar a lua entre as montanhas. Usou pedras para marcar o túmulo e gravou numa placa de madeira o nome daquele que considerava um irmão.
TEX WILLER
Um homem livre, um guerreiro e uma lenda.
Que sua cavalgada jamais termine.
Zagor ficou diante da sepultura até o amanhecer.
Antes de partir, deixou o próprio medalhão sobre a lápide.
Os anos passaram.
A floresta cresceu ao redor do túmulo. A madeira apodreceu. O medalhão desapareceu sob a terra. O nome de Tex foi esquecido naquele canto isolado dos Apalaches.
Décadas se transformaram em gerações.
O mundo mudou.
Os cavalos deram lugar aos automóveis. As antigas cidades cresceram, novas guerras começaram e terminaram, e a humanidade entrou numa era em que as pessoas carregavam pequenos computadores nas mãos.
Chegou o ano de 2026.
Ninguém, exceto os mortos.
E naquela noite, algo despertou sob a terra.
Uma luz azulada atravessou a lápide.
O vento parou.
Os galhos das árvores se curvaram, embora não houvesse tempestade.
Então uma mão surgiu do chão.
Uma mão coberta por uma luva de couro envelhecida.
Logo depois, um homem ergueu-se lentamente da sepultura.
Usava um chapéu preto, um lenço no pescoço e as roupas de um tempo distante.
Seu rosto conservava os traços do velho ranger, mas seus olhos brilhavam com uma luz sobrenatural.
Tex Willer estava de volta.
Ele olhou para as próprias mãos, depois para o túmulo aberto.
— Bom... isso é novidade.
Abaixou-se para examinar a lápide.
— Zagor... espero que você tenha uma boa explicação para isso.
Uma voz respondeu atrás dele:
— Acho que você deveria se preocupar com coisas muito piores do que a minha explicação.
Tex virou-se.
Diante dele estava um homem alto, vestido de preto, com uma capa viva que se movimentava como se tivesse vontade própria. Seus olhos brilhavam através das sombras, e uma corrente negra envolvia seu corpo.
Spawn.
Ao lado dele, uma motocicleta soltava labaredas infernais. Sobre ela estava uma figura de crânio em chamas, com correntes ardentes enroladas nos braços.
O Motoqueiro Fantasma.
Tex observou os dois por alguns segundos.
— Deixe-me adivinhar. Morri, fui parar no inferno e agora vocês vieram me buscar?
Spawn cruzou os braços.
— Você morreu há muito tempo, cowboy. E não estamos aqui para levá-lo ao inferno.
O Motoqueiro Fantasma inclinou o crânio flamejante.
— Estamos aqui porque o inferno está vindo até nós.
O sorriso de Tex desapareceu.
Ao ouvir aquele nome, o chão tremeu.
Uma gargalhada distante ecoou entre as montanhas.
E Tex reconheceu aquela sensação.
Era a mesma presença que sentira na noite em que fora assassinado.
— Então foi você... — murmurou o ranger.
Spawn olhou para ele.
— Você se lembra?
Tex colocou o chapéu na cabeça.
— Lembro de uma bala que veio do nada. E lembro de ter prometido descobrir quem puxou o gatilho.
O Motoqueiro Fantasma ligou o motor. As chamas iluminaram a floresta.
— Então prepare-se, cowboy. Porque desta vez não haverá apenas criminosos para enfrentar.
Tex verificou o revólver que carregava no coldre. A arma parecia ter atravessado a morte com ele.
— Já enfrentei demônios antes.
Spawn abriu sua capa, revelando uma escuridão que parecia não ter fim.
— Este é diferente.
Uma explosão de fogo vermelho surgiu no céu.
E, no meio das chamas, apareceu a imagem gigantesca de um rosto demoníaco.
Mephisto.
— TEX WILLER! — bradou o demônio. — Até mesmo a morte foi incapaz de mantê-lo longe dos meus planos!
Tex ergueu o olhar.
— Pois é, Mephisto. Você devia ter mirado melhor.
O demônio rugiu.
E a cavalgada final começou.
Capítulo III — O Espírito da Machadinha retorna.
Porque Tex ainda não sabia de duas coisas: a primeira era que Zagor também havia morrido. A segunda era que a bala que o matara não fora disparada por um homem comum.
Ela havia sido enviada através do tempo pelo próprio Mephisto, para eliminar Tex antes que o ranger descobrisse o segredo que poderia destruir o domínio do demônio sobre as almas.
E agora, em 2026, Mephisto teria de enfrentar aquilo que mais temia: um homem que já não podia morrer uma segunda vez... e que não tinha mais nada a perder.
O segredo da bala infernal
A floresta dos Apalaches estava mergulhada numa escuridão sobrenatural. As chamas que envolviam a imagem de Mephisto iluminavam as árvores, enquanto Spawn e o Motoqueiro Fantasma se preparavam para enfrentar o demônio.
Tex Willer, porém, permanecia imóvel, observando o inimigo.
— Antes de começarmos essa briga, quero respostas — declarou o ranger. — Esse desgraçado acabou de dizer que foi responsável pela minha morte. Quero saber como fez isso!
Uma voz familiar ecoou entre as árvores.
— Porque ele não precisava de um atirador, Tex. Precisava apenas de uma fração de segundo.
Tex virou-se imediatamente.
Uma figura surgiu da névoa, usando um chapéu largo e carregando uma machadinha na cintura. Seu corpo era translúcido, envolvido por uma luminosidade azulada. Apesar da aparência espectral, o rosto era inconfundível.
— Zagor?!
O Espírito da Machadinha sorriu tristemente.
— Olá, velho amigo.
Tex aproximou-se, sem esconder a surpresa.
— Mas que diabo aconteceu com você?
— A mesma coisa que aconteceu com você. Só que eu demorei muito mais para entender o que estava acontecendo.
Zagor olhou para a própria mão fantasmagórica.
— Depois que enterrei você, passei anos procurando seu assassino. Voltei àquela floresta inúmeras vezes. Investiguei criminosos, procurei rastros, interroguei pessoas. Nunca encontrei nada. Nenhum projétil, nenhuma cápsula, nenhuma testemunha.
— E você nunca desistiu? — perguntou Tex.
— Conhece alguém mais teimoso do que eu?
Tex deu uma risada curta.
— Infelizmente, conheço. Estou olhando para ele.
Os dois amigos se abraçaram, embora os braços espectrais de Zagor atravessassem parcialmente o corpo de Tex. Por um instante, a tragédia de tantos anos atrás pareceu perder sua força.
Mas Spawn interrompeu o reencontro.
— Lamento acabar com esse momento, mas precisamos ouvir o restante. O tempo está se esgotando.
Zagor ficou sério.
— Foi depois da minha própria morte que descobri a verdade. Como espírito inquieto, consegui enxergar coisas que jamais perceberia quando estava vivo. Passei anos vagando entre o mundo dos vivos e o dos mortos, seguindo rastros espirituais. Até que encontrei uma ruptura na realidade, exatamente no lugar onde Tex foi atingido.
O Motoqueiro Fantasma inclinou a cabeça flamejante.
— Exatamente — respondeu Zagor. — Mephisto abriu uma passagem entre dois pontos do tempo. Ela permaneceu aberta por apenas alguns microssegundos, tempo suficiente para desviar uma bala de sua trajetória original.
Tex franziu a testa.
— Espere aí. Você está me dizendo que nem sequer fui atingido por um tiro disparado naquela época?
— Isso mesmo. Mephisto encontrou um disparo feito por um bandido qualquer, em algum outro lugar e em outro momento. No instante em que a bala deixou a arma, o demônio abriu uma fenda infernal e desviou o projétil para a nossa trilha nos Apalaches.
Spawn completou a explicação:
— Para quem observava de fora, foi um tiro comum. Nenhuma magia visível, nenhum atirador por perto. A bala atravessou a passagem e chegou até você. Logo depois, a fenda se fechou. A realidade não deixou vestígios que um homem vivo pudesse encontrar.
Tex levou a mão ao queixo.
— Então um bandido que nem sabia da minha existência acabou sendo usado como arma por um demônio.
— Sim — respondeu Zagor. — O verdadeiro assassino nunca precisou puxar o gatilho. Mephisto transformou o tempo numa arma.
O ranger olhou para o demônio, cuja imagem ainda pairava sobre as árvores.
— Isso explica a bala. Mas você disse que esse Mephisto não é o mesmo que conhecemos.
Zagor assentiu.
— E essa é a parte mais perigosa.
Capítulo IV — O demônio e o feiticeiro
O Motoqueiro Fantasma fez sua motocicleta avançar alguns metros. As chamas do motor rugiram, lançando sombras sobre a floresta.
— Existem seres que recebem nomes semelhantes, mas não pertencem à mesma natureza — explicou ele. — O Mephisto diante de nós é um demônio verdadeiro, uma entidade infernal que existe muito além das fronteiras do mundo mortal.
Tex estreitou os olhos.
— E o outro?
— O feiticeiro que você enfrentou durante toda a sua vida — respondeu Zagor. — Aquele inimigo que conhecemos, o homem que manipulava forças ocultas e tentava dominar seus adversários por meio da magia. Ele não era este demônio.
Tex ficou em silêncio por alguns segundos, recordando seus confrontos com o feiticeiro.
— Então por que usam o mesmo nome?
Spawn respondeu:
— Porque o nome foi adotado antes de você compreender a origem do poder que enfrentava.
Zagor aproximou-se de Tex e continuou:
— O feiticeiro descobriu a existência da entidade infernal e tentou usar seu poder. Realizou um ritual proibido e invocou o verdadeiro Mephisto. Pensou que poderia controlá-lo, obrigá-lo a obedecer e se tornar invencível.
— Mas ninguém invoca uma criatura dessas sem pagar um preço. —Eu mesmo o enfrentei diversas vezes, ele é muito perigoso e cheio de artimanhas, disse o Motoqueiro Fantasma.
— Exatamente — confirmou Zagor. — O feiticeiro acreditava que havia feito um pacto vantajoso. Na verdade, abriu uma porta para algo que não compreendia. O demônio permitiu que ele usasse parte de seu poder, enquanto preparava seus próprios planos.
Tex soltou um suspiro.
— Passei uma vida inteira enfrentando um homem que brincava com forças que não entendia... e agora descubro que o verdadeiro monstro estava por trás de tudo.
— Não necessariamente por trás de tudo o que aconteceu na sua vida — advertiu Spawn. — Mas, no momento da sua morte, ele estava interessado em você. E isso significa que havia algo que temia perder.
Mephisto soltou uma gargalhada tão poderosa que a terra estremeceu.
— QUANTA SABEDORIA PARA CRIATURAS QUE JÁ DEVERIAM ESTAR MORTAS!
Sua imagem cresceu no céu, e as nuvens adquiriram um tom vermelho-sangue.
— O feiticeiro era apenas um instrumento! Um mortal ambicioso que acreditava poder negociar com o inferno! Ele me ofereceu sua alma em troca de poder, e eu lhe concedi o suficiente para que acreditasse em sua própria grandeza.
Tex sacou seu revólver.
— E depois resolveu matar a mim também?
— Você era uma anomalia, Tex Willer! — rugiu Mephisto. — Um homem que atravessou épocas, sobreviveu a acontecimentos que deveriam ter destruído sua existência e se tornou testemunha de segredos que jamais deveriam ser revelados. Enquanto você continuasse vivo, havia a possibilidade de descobrir o que eu estava preparando!
— Então você mandou uma bala para me apagar da história?
— E funcionou!
Tex sorriu por baixo do chapéu.
— Por alguns anos, talvez.
O rosto de Mephisto se contorceu de ódio.
— Você não compreende! Sua morte era apenas o primeiro passo!
Zagor olhou para Spawn.
— Ele está escondendo alguma coisa.
Spawn abriu a capa, revelando um portal de energia escura que girava lentamente.
— Não. Ele acabou de nos dizer o suficiente.
O Motoqueiro Fantasma ergueu a corrente flamejante.
— Mephisto está tentando alterar a fronteira entre a vida e a morte. Se conseguir, poderá arrastar almas de qualquer época para o seu domínio, sem precisar esperar que morram.
Tex olhou para o amigo.
— Foi por isso que você ficou preso entre os mundos?
— Sim — respondeu Zagor. — E foi por isso que você despertou agora. A passagem que trouxe a bala até você deixou uma cicatriz no tempo. Mephisto está usando essa mesma cicatriz para preparar algo muito maior.
Tex girou o tambor do revólver, embora soubesse que uma arma comum talvez não pudesse ferir aquele adversário.
— Muito bem. Eu, um homem morto, meu velho amigo fantasma, um sujeito que parece ter saído das profundezas do inferno e um motociclista com a cabeça em chamas. Contra um demônio que manipula o tempo.
Ele guardou o revólver no coldre.
— Já estive em situações piores.
— Quando? — perguntou Zagor.
— Não me lembro. Provavelmente morri naquela também.
Pela primeira vez desde que aparecera, Spawn soltou uma risada discreta.
Mas Mephisto não achou graça.
O céu se abriu numa gigantesca fenda vermelha, revelando torres negras, rios de fogo e milhares de almas acorrentadas.
No centro daquele reino infernal, uma figura humana estava ajoelhada diante de um trono.
O feiticeiro.
O antigo inimigo de Tex Willer.
E, atrás dele, Mephisto preparava a próxima etapa de seu plano.
Continua no Capítulo V — O feiticeiro diante do inferno.
TEX WILLER — A CAVALGADA FINAL
Capítulo V — O cadáver diante do trono infernal
O portal se alargou sobre os montes Apalaches, revelando um reino de pesadelos. Torres negras erguiam-se sobre rios de lava, correntes gigantescas pendiam de abóbadas de pedra e gritos ecoavam por uma vastidão onde a esperança parecia não existir.
Tex Willer, Spawn, o Motoqueiro Fantasma e o espírito de Zagor atravessaram a passagem.
Do outro lado, encontraram um salão colossal. No fundo, sobre um trono esculpido em rocha negra, estava sentado Mephisto, o verdadeiro senhor daquele domínio.
O demônio tinha a aparência de um soberano infernal. Seus olhos ardiam como brasas, e um sorriso cruel se desenhava em seu rosto.
Aos pés do trono, ajoelhado, havia um homem.
Tex aproximou-se alguns passos.
— Aquele é...
Zagor reconheceu imediatamente o rosto.
— O feiticeiro Mephisto!
Mas havia algo errado.
O homem não se movia. Sua cabeça pendia para a frente, seus braços estavam caídos e sua pele tinha a palidez de um cadáver. Não havia vida nele, nem mesmo o menor sinal de respiração.
Tex observou o corpo em silêncio.
— Está morto.
Mephisto explodiu numa gargalhada.
— HAHAHAHAHA! Naturalmente! O grande feiticeiro, aquele que sonhava controlar as forças ocultas, agora não passa de um cadáver diante do meu trono!
O demônio ergueu uma das mãos, e correntes avermelhadas envolveram o corpo ajoelhado.
— Ele me invocou! Ofereceu pactos, prometeu sacrifícios e acreditou que poderia usar meu poder para realizar seus desejos. Durante anos, julgou-se meu aliado. Imaginava que, quando chegasse a hora, poderia exigir de mim aquilo que lhe havia sido prometido.
Mephisto inclinou-se para a frente.
— Mas todo pacto tem um preço. E ele pagou até a última moeda!
Zagor apertou os punhos.
— Então esse desgraçado foi condenado pelas próprias maldades?
— Sua alma me pertence! — respondeu o demônio. — Todo o sofrimento que causou, toda a crueldade que praticou, todas as vidas que destruiu... nada disso foi esquecido. Ele pensou que o poder o protegeria das consequências. Agora, nem sequer possui forças para erguer a cabeça.
Tex olhou novamente para o cadáver.
Durante tantos anos, enfrentara aquele feiticeiro, acreditando que o nome Mephisto pertencia apenas a um inimigo mortal que se escondia atrás de seus encantamentos.
Agora compreendia a verdade.
O feiticeiro fora apenas um homem ambicioso. Invocara uma entidade que não podia controlar e terminara pagando com a própria alma.
— Então você deixou que ele acreditasse que era seu parceiro — disse Tex. — Quando, na verdade, ele sempre foi seu escravo.
Mephisto abriu um sorriso.
— Finalmente, cowboy! Está começando a compreender como funciona o inferno.
— Compreendo o suficiente para saber que você é um covarde que prefere fazer os outros puxarem o gatilho.
O sorriso do demônio desapareceu por um instante.
O Motoqueiro Fantasma girou sua corrente flamejante.
— Cuidado, Tex. Ele quer provocar você.
— Pois vai precisar se esforçar mais.
Spawn permaneceu calado, observando o trono. Havia algo naquele lugar que o incomodava. Mephisto não demonstrava preocupação com a invasão. Pelo contrário: parecia satisfeito por ter seus visitantes diante dele.
Como se tivesse esperado por aquele momento.
— Por que nos trouxe até aqui? — perguntou Spawn. — Se queria destruir Tex, poderia ter tentado outra vez.
Mephisto recostou-se no trono.
— Porque a morte de Tex Willer nunca foi o verdadeiro objetivo.
O salão ficou em silêncio.
O demônio virou lentamente os olhos para o ranger.
— O verdadeiro problema é o seu amigo, aquele que você chama de conde.
Ao recusar as trevas e abraçar sua antiga fé cristã, ele abraçou a luz, e por isso deve ser derrotado.
Tex compreendeu imediatamente.
— Drácula.
Mephisto bateu as mãos nos braços do trono e voltou a gargalhar.
— SIM! O conde Drácula! A criatura que deveria ter permanecido nas trevas, escravizada pela própria natureza! Aquele que atravessou séculos como um símbolo do terror e que, contra todas as expectativas, venceu a escuridão que o dominava!
Zagor franziu a testa.
— Está falando do fato de que ele já não teme a luz do sol?
— Não apenas isso! — rugiu Mephisto. — Drácula rompeu as correntes que o prendiam à antiga maldição. Conservou a imortalidade, mas deixou de ser escravo dela. Aprendeu a caminhar sob a luz, a resistir às forças que antes o condenavam e a escolher o próprio destino!
O demônio levantou-se.
Sua sombra cresceu sobre as paredes, assumindo a forma de asas monstruosas.
— Vocês não compreendem o perigo! Durante milênios, conheci criaturas que buscavam a vida eterna. Reis, feiticeiros, conquistadores e homens desesperados. Todos acabaram corrompidos pelo desejo de permanecer para sempre. Drácula, porém, tornou-se algo diferente.
Tex encarou o demônio.
— Ele continua sendo meu amigo.
— EXATAMENTE!
O grito de Mephisto fez as correntes do salão estremecerem.
— E é essa ligação que me preocupa! Drácula atravessou as trevas e encontrou algo que raríssimos seres encontram: um motivo para usar sua eternidade em defesa de outros. Ele não deseja conquistar o mundo, nem construir um império de mortos. Não quer dominar os vivos. E, mesmo assim, possui poder, conhecimento e tempo suficientes para ameaçar meus planos!
Spawn finalmente compreendeu.
— Você não teme apenas a força de Drácula. Teme o que ele representa.
Mephisto virou-se para ele.
— Um imortal que venceu sua própria maldição pode desafiar as regras que sustentam o meu domínio. Ele conhece os segredos da noite, os caminhos entre mundos e os limites da morte. E agora possui aliados que já enfrentaram ameaças temporais e cósmicas.
— E você, cowboy, tornou-se um desses aliados. Viajou ao lado dele por universos e épocas que jamais deveriam se encontrar. Se continuasse vivo, cedo ou tarde descobriria aquilo que eu precisava manter escondido.
Tex não desviou o olhar.
— Então você me matou porque eu era amigo de Drácula?
— Matei você porque sua amizade com ele poderia mudar o destino de muitas almas!
Zagor aproximou-se de Tex.
— Agora tudo faz sentido. A bala, a passagem temporal, o disparo impossível... Você não queria apenas eliminar Tex. Queria afastá-lo de Drácula antes que os dois descobrissem seu plano.
Mephisto sorriu.
— O ranger era uma peça importante. Mas não era a peça principal.
O cadáver do feiticeiro estremeceu diante do trono.
Por um breve instante, uma fumaça negra escapou de sua boca e desapareceu pelas frestas do chão. O corpo voltou a ficar imóvel.
Tex observou a cena.
— Até morto esse sujeito continua servindo ao inferno.
— Todos servem a alguma coisa, Tex Willer — respondeu Mephisto. — A diferença é que alguns sabem a quem obedecem.
O Motoqueiro Fantasma avançou, arrastando a corrente pelo chão.
— Chega de conversa. Você manipulou o tempo, assassinou um homem e agora ameaça alguém que conquistou a própria liberdade. Está na hora de responder por isso.
As chamas em seu crânio ficaram mais intensas.
Mephisto abriu os braços, e o salão inteiro começou a tremer.
— Vocês vieram ao meu reino acreditando que poderiam me julgar? Aqui, eu determino o destino das almas!
Spawn estendeu suas correntes vivas.
Zagor sacou a machadinha espectral.
Tex colocou a mão no revólver.
— Talvez. Mas já enfrentei homens que pensavam ser donos do mundo. Nenhum deles terminou bem.
Mephisto ergueu a mão.
Milhares de portões se abriram nas paredes, revelando exércitos de criaturas infernais.
— Então venham! Mostrem-me se suas lendas são tão poderosas quanto dizem!
O chão se abriu entre os combatentes, e um rio de fogo separou os quatro do trono.
Mas, antes que a batalha começasse, uma voz profunda ecoou por todo o reino.
— Mephisto!
O demônio congelou.
Aquela voz não vinha de Tex, nem de Spawn, nem do Motoqueiro Fantasma.
Vinha de muito longe.
De um castelo escondido nas montanhas dos Apalaches.
Uma voz que Mephisto reconheceria em qualquer dimensão.
Drácula estava chamando por ele.
O demônio fechou os punhos.
Pela primeira vez, o sorriso desapareceu completamente de seu rosto.
— Impossível...
Tex percebeu a reação.
E sorriu.
— Parece que o conde ficou sabendo da nossa visita.
Mephisto voltou a sentar-se no trono, mas agora havia algo diferente em seus olhos.
Medo.
Não o medo de ser derrotado numa batalha comum, mas o temor de que seu maior segredo estivesse prestes a ser revelado.
Porque Drácula não estava vindo sozinho.
E, dessa vez, o senhor das trevas teria de enfrentar alguém que conhecia a imortalidade por dentro — e que já havia provado que nem mesmo o inferno precisava ser eterno.
Continua no Capítulo VI — Drácula, o imortal que venceu as trevas.
Capítulo VI — O fogo que fere o inferno
O salão infernal tremia.
Mephisto permanecia diante de seu trono, tentando esconder a inquietação provocada por aquela voz que atravessara as dimensões. Pela primeira vez, o demônio compreendia que havia cometido um erro terrível.
Ele acreditara que, ao matar Tex Willer, eliminaria uma ameaça.
Mas não conhecia a paciência de Drácula.
E, muito menos, a teimosia de Tex.
O guardião do túmulo.
Mais de um século havia se passado desde a morte do ranger.
Durante todo aquele tempo, Drácula procurara uma passagem para o inferno. Vasculhara grimórios antigos, interrogara entidades das trevas, atravessara ruínas esquecidas e percorrera lugares onde nem mesmo os demônios gostavam de permanecer.
O conde não tinha pressa.
A eternidade lhe permitia esperar.
E ele esperou.
Nos montes Apalaches, sob as árvores que haviam crescido ao redor do túmulo de Tex, Drácula aparecia em noites silenciosas. Permanecia diante da sepultura, observando a lápide envelhecida e as marcas deixadas pelo tempo.
Às vezes, falava com o amigo morto.
— Ainda não encontrei a porta, Tex. Mas vou encontrá-la. Conheço você bem demais para acreditar que sua história terminou naquela noite.
O vento atravessava a floresta.
Drácula continuava imóvel.
— Você me ensinou que a coragem não depende da imortalidade. Talvez seja por isso que não consigo aceitar sua morte.
Décadas após décadas, o conde procurou a origem da energia que havia arrancado Tex do mundo dos vivos. Finalmente, encontrou um rastro: uma cicatriz temporal escondida sob a floresta, criada no instante em que Mephisto desviara a bala.
Era a passagem que procurava.
O portão do inferno.
E agora estava aberto.
Ele poderia entrar no Reino infernal de Mephisto.
O erro de Mephisto
De volta ao reino infernal, o demônio caminhava diante de seu trono, furioso.
— Um século! — rosnou. — Mais de um século procurando uma passagem que deveria permanecer oculta!
Spawn observava-o atentamente.
— Você deveria ter destruído o túmulo de Tex.
Mephisto virou-se violentamente.
— O quê?
— Você matou o homem, mas deixou a história dele continuar. Deixou um amigo sobreviver à própria morte. E deixou Drácula procurar respostas durante mais de cem anos.
Zagor soltou uma risada.
— Conheço Tex há muito tempo. Você deveria ter aprendido uma coisa sobre ele.
Mephisto estreitou os olhos.
— E o que seria?
Zagor ergueu a machadinha.
— Tex Willer não desiste!
O ranger abriu um sorriso e ajeitou o chapéu.
— Finalmente alguém neste inferno disse alguma coisa inteligente.
Mephisto rugiu e lançou uma onda de energia vermelha contra os quatro.
Spawn abriu sua capa, protegendo o grupo. A explosão atingiu as paredes do salão, espalhando pedras incandescentes.
Tex sacou seus revólveres e disparou.
Você ainda acredita que essas armas podem me atingir, cowboy?
— Não. Mas gosto de testar as coisas antes de desistir delas.
O Motoqueiro Fantasma avançou lentamente.
A bênção da vingança
O crânio flamejante do Motoqueiro Fantasma brilhou intensamente. As chamas deixaram de ser alaranjadas e adquiriram um tom branco-azulado, cercadas por labaredas vermelhas.
Ele estendeu as mãos.
— Tex, entregue suas armas.
O ranger hesitou por um instante.
— Espero que saiba o que está fazendo.
— O fogo que carrego não é uma chama comum. Ele queima pecados, atravessa maldições e atinge criaturas protegidas por forças sobrenaturais. Mas, para ferir Mephisto em seu próprio reino, preciso ligar suas armas à energia infernal que ele não consegue controlar completamente.
Tex entregou os revólveres.
O Motoqueiro Fantasma segurou as armas, uma de cada vez. Correntes flamejantes envolveram o metal, enquanto símbolos antigos surgiam nas superfícies.
As armas começaram a vibrar.
Uma chama escura percorreu os canos dos revólveres, mas não os deformou. Pelo contrário: o metal parecia tornar-se mais resistente, como se tivesse sido forjado novamente nas profundezas de uma estrela infernal.
A machadinha de Zagor recebeu um tratamento semelhante. Sua lâmina ficou envolvida por fogo sobrenatural, e uma luz vermelha brilhou ao longo do fio.
O Motoqueiro Fantasma devolveu as armas.
— Agora vocês podem ferir criaturas que normalmente seriam intocáveis. Esse fogo não pertence inteiramente ao inferno. É a chama da vingança, dirigida contra aqueles que abusam do poder e acreditam estar acima de qualquer julgamento.
Tex girou um dos revólveres.
As chamas acompanharam o movimento, deixando rastros luminosos no ar.
— Nunca tive uma arma dessas.
— Nem eu — disse Zagor, examinando sua machadinha.
Spawn aproximou-se.
— Não desperdicem essa oportunidade. A energia é poderosa, mas não é infinita. Mephisto conhece o próprio reino melhor do que nós.
Tex guardou um revólver no coldre.
— Então vamos fazer com que ele tenha de prestar atenção em nós.
O conde atravessa o portão
Um estrondo percorreu o salão.
As portas gigantescas do reino infernal se abriram, e uma corrente de vento atravessou os corredores. As criaturas que guardavam a entrada recuaram, assustadas por uma presença que avançava sem pressa.
Uma silhueta surgiu no meio da fumaça.
O conde caminhou pelo salão como se estivesse entrando em seu próprio castelo. As criaturas infernais abriram caminho, incapazes de compreender como um ser mortalmente amaldiçoado — e depois liberto de sua antiga condição — ousava atravessar aquelas portas.
Mephisto levantou-se.
— Você!
Drácula parou diante do trono.
— Mephisto.
— Mephiiisto.
— Como encontrou meu portão?
— Tive mais de um século para procurar.
O demônio mostrou os dentes.
— Você deveria ter permanecido nas sombras, vampiro!
Drácula inclinou ligeiramente a cabeça.
— Durante muito tempo, foi exatamente isso que fiz. Mas aprendi que a eternidade não tem valor quando é vivida como uma prisão.
Seus olhos se voltaram para Tex.
O ranger estava ali, de pé, com os revólveres flamejantes nos coldres.
Por um momento, nenhum dos dois falou.
Drácula aproximou-se lentamente.
— Eu esperei muito tempo por este encontro.
Tex sorriu.
— Você demorou, conde.
Drácula abriu os braços.
Dessa vez, Tex sentiu o contato. O poder que o mantinha entre os mundos permitia que tocasse o amigo, embora seu corpo já não pertencesse inteiramente à vida.
— Eu sabia que viria — disse Tex.
— Nunca duvidei de que você precisaria de ajuda para sair de alguma encrenca.
Zagor aproximou-se e abraçou Drácula também.
— É bom vê-lo, velho amigo.
O conde olhou para a machadinha flamejante.
— Vejo que trouxeram algumas novidades.
O Motoqueiro Fantasma apontou para Mephisto.
— E estamos prestes a descobrir se elas funcionam.
O primeiro ferimento
Mephisto já não ria.
A presença de Drácula, a união dos antigos companheiros e o fogo que envolvia as armas haviam transformado a situação. O demônio compreendeu que seus adversários não estavam ali apenas para sobreviver.
Eles haviam vindo para feri-lo.
— Vocês são tolos! — bradou. — Nenhum de vocês pode me destruir dentro do meu próprio reino!
Tex sacou os dois revólveres.
— Talvez não.
Zagor ergueu a machadinha.
— Mas podemos tentar!
O Motoqueiro Fantasma lançou sua corrente contra os guardiões infernais, abrindo caminho. Spawn atacou pela lateral, envolvendo os demônios menores em sua capa viva.
Drácula avançou diretamente contra Mephisto.
O senhor do inferno lançou uma rajada de energia que atingiu o conde e o arremessou contra uma coluna. As pedras se partiram.
Drácula levantou-se imediatamente.
O golpe não o destruíra.
— Você continua resistente, vampiro! — gritou Mephisto.
— E você continua falando demais.
Drácula voltou a atacar, obrigando o demônio a concentrar sua atenção nele.
Era a oportunidade de Tex.
O ranger firmou os pés, ergueu os revólveres e disparou.
BANG! BANG!
Duas balas envolvidas em fogo infernal atravessaram o salão.
Mephisto tentou desviá-las com um gesto, como fizera com incontáveis ataques ao longo dos séculos.
Mas aquelas balas não obedeceram às leis comuns.
Uma atingiu seu ombro.
A outra atravessou seu braço.
Pela primeira vez, o demônio gritou de dor.
Uma substância escura, brilhante como sangue misturado a lava, escorreu de seus ferimentos. As chamas sobrenaturais consumiam a energia que normalmente o protegeria.
Mephisto cambaleou.
O salão inteiro silenciou.
Tex baixou ligeiramente os revólveres, surpreso com o resultado.
Zagor arregalou os olhos.
— Tex! Você conseguiu!
O Motoqueiro Fantasma ergueu o crânio em chamas.
— O fogo está funcionando.
Spawn encarou o inimigo ferido.
— Agora sabemos que ele pode sangrar.
Drácula sorriu, revelando discretamente os dentes.
— E isso significa que pode ser derrotado.
Ódio verdadeiro.
— Vocês... ousaram me ferir!
Tex girou os revólveres e tornou a apontá-los.
— Você matou um amigo meu, Mephisto. Mandou uma bala através do tempo e acreditou que poderia apagar meu nome da história.
O ranger deu um passo à frente.
— Pois agora chegou a sua vez de descobrir o que acontece quando alguém se recusa a ficar morto.
Mephisto ergueu os braços.
O trono explodiu em chamas vermelhas, e uma onda de energia percorreu o reino inteiro. No céu infernal, milhares de figuras começaram a se mover, despertando de um sono que durara séculos.
Drácula colocou-se ao lado de Tex. Spawn abriu a capa, e o Motoqueiro Fantasma fez sua corrente arder ainda mais intensamente.
Zagor segurou a machadinha com as duas mãos.
Cinco guerreiros.
Um reino de trevas.
E um demônio que acabara de descobrir que seus inimigos podiam feri-lo.
A batalha pelo inferno estava apenas começando.
Continua no Capítulo VII — O exército das almas condenadas.
Capítulo VII — O último feitiço de Mephisto
O reino infernal estremeceu quando Mephisto ergueu os braços e convocou seu exército.
Das profundezas surgiram milhares de almas condenadas. Guerreiros de eras esquecidas, reis cruéis, assassinos, feiticeiros e criaturas que haviam vendido a própria existência ao senhor das trevas. Todos avançaram pelo salão, empunhando armas negras e gritando em uma língua que não pertencia ao mundo dos vivos.
O horizonte tornou-se vermelho.
— AGORA VOCÊS COMPREENDERÃO O VERDADEIRO PODER DO INFERNO! — rugiu Mephisto.
Tex girou os revólveres envoltos em fogo sobrenatural.
Tex disparava contra as criaturas que tentavam cercá-los, enquanto Zagor abria caminho com sua machadinha flamejante, mas um portal se abre e guerreiros de épocas diferentes surgem, se unindo a Tex e Zagor. Cada golpe dispersava as forças malignas, e cada disparo incendiava as armaduras espectrais dos guerreiros condenados e os aliados de Tex conseguiam diminuir o avanço das almas condenadas, mas aos poucos iam desaparecendo, pois o inferno não era seu lugar, mas suas presenças, mesmo que por pouco tempo deu uma vantagem aos heróis.
O Motoqueiro Fantasma atravessou o campo de batalha com sua motocicleta em chamas, arrastando a corrente infernal e abrindo uma trilha de fogo.
Mas foi Drácula quem mudou o destino daquela guerra.
A luz do imortal
O conde permaneceu imóvel no centro do salão, observando o exército que avançava em sua direção.
Mephisto sorriu.
— O que foi, Drácula? Acabou sua coragem? Está vendo milhares de almas que jamais poderão escapar do meu domínio?
Drácula fechou os olhos.
Durante séculos, fora associado às trevas, ao medo e à maldição da imortalidade. Muitos o haviam considerado uma criatura condenada a existir eternamente entre os vivos e os mortos.
Mas ele havia vencido a própria escuridão.
Algumas recuaram, cobrindo os rostos. Outras largaram suas armas. As correntes que as prendiam começaram a se desfazer, uma a uma, como se aquela luz despertasse nelas a lembrança de uma liberdade perdida.
Mephisto recuou.
— Não! Isso não é possível!
Drácula caminhou em sua direção.
— Você cometeu um erro, Mephisto. Acreditou que minha imortalidade era uma maldição que me manteria eternamente preso às trevas.
A luz tornou-se mais intensa.
— Mas a eternidade também pode ser uma oportunidade de mudar. Eu não sou mais escravo daquilo que fui.
O conde ergueu uma das mãos.
Uma onda luminosa percorreu
o reino infernal.
As muralhas começaram a rachar. As torres negras desmoronaram, e as correntes que prendiam as almas se partiram. O exército de Mephisto perdeu sua força, dispersando-se em milhares de partículas brilhantes.
Spawn observou a cena, impressionado.
— Ele está desfazendo o domínio do demônio!
O Motoqueiro Fantasma ergueu sua corrente.
— Não é apenas luz. É a própria vontade de Drácula, livre das antigas correntes que o prendiam.
Tex sorriu.
— Sempre soube que o conde era capaz de surpreender.
Zagor golpeou o chão com a machadinha.
— Então vamos terminar o serviço!
Os cinco avançaram contra Mephisto.
Tex disparou suas últimas balas flamejantes. Zagor atingiu o chão com a machadinha, abrindo uma fenda luminosa. Spawn envolveu o demônio com suas correntes, enquanto o Motoqueiro Fantasma lançou sobre ele as chamas da vingança.
Drácula ergueu as duas mãos.
A luz atingiu Mephisto em cheio.
O demônio gritou.
Seu corpo começou a se desfazer, e o trono atrás dele desmoronou em uma tempestade de pedras e fogo.
— NÃO! EU SOU ME-PHIS-TO! O SENHOR DESTE REINO!
Tex aproximou-se, mantendo os revólveres apontados.
— E eu sou Tex Willer. Acho que já ouviu falar de mim.
Mephisto caiu de joelhos.
Pela primeira vez em eras incontáveis, o senhor do inferno estava derrotado.
Mas, mesmo à beira do desaparecimento, seus olhos ainda escondiam um último plano.
O último feitiço
Ao mesmo tempo, o cadáver do feiticeiro Mephisto, que permanecera ajoelhado diante do trono infernal, ergueu-se lentamente.
O corpo morto flutuou até o centro do salão.
Uma espiral de energia vermelha envolveu os restos mortais de Tex e o cadáver do feiticeiro.
Zagor tentou avançar, mas correntes mágicas prenderam seus braços espectrais.
— O que você está fazendo, demônio?!
Mephisto gargalhou.
— Aquilo que deveria ter feito desde o começo!
A energia tornou-se tão intensa que até Drácula precisou recuar.
— Pare! — ordenou o conde.
— Tarde demais, imortal!
Tex sentiu como se uma força gigantesca o puxasse para dentro de um abismo. Zagor tentou resistir, mas ambos foram envolvidos por uma luz avermelhada e lançados contra os corpos que Mephisto havia preparado.
O cadáver do feiticeiro começou a se desfazer, transformando-se em matéria escura, enquanto os restos mortais de Tex desapareceram dentro de uma massa luminosa.
Carne, ossos e sangue foram recriados.
Os corpos antigos foram substituídos por corpos novos, moldados pela magia infernal.
Tex caiu de joelhos.
Inspirou profundamente.
Sentiu o ar entrar nos pulmões.
Seu coração voltou a bater.
— Vocês dois... eram perigosos demais como espíritos. Mortos, podiam atravessar fronteiras que nenhum ser vivo consegue alcançar. Podiam entrar em lugares onde minhas leis não tinham força suficiente para detê-los.
Ele olhou diretamente para Tex.
— E você, Willer... mesmo depois de morto, continuou lutando contra mim.
Uma risada rouca escapou de sua garganta.
— Por isso, decidi devolver a vocês aquilo que perderam.
Tex apertou os punhos.
— Você nos devolveu
a vida?
Zagor cerrou os dentes.
— Maldito!
Mephisto começou a desaparecer completamente.
— Vão viver nesse mundo como homens vivos. Terão de enfrentar as mesmas limitações que os outros mortais. E eu, mesmo derrotado, encontrarei maneiras de atormentá-los!
Seu rosto tornou-se uma sombra.
— Cada estrada poderá esconder uma armadilha. Cada inimigo poderá ser meu instrumento. Cada vitória de vocês será seguida por uma nova provação!
Tex sacou um dos revólveres flamejantes, mas as chamas haviam desaparecido. A arma continuava em seu coldre, agora aparentemente comum.
A última gargalhada do demônio ecoou pelo salão em ruínas.
— Então vivam, Tex Willer! Vivam enquanto puderem!
E desapareceu.
O silêncio tomou conta do reino infernal.
Epílogo — Uma nova cavalgada
Spawn aproximou-se dos dois amigos.
— Ele perdeu seu domínio, mas conseguiu realizar o último encantamento. Não sei quanto tempo os corpos de vocês durarão, nem quais consequências essa magia poderá trazer.
O Motoqueiro Fantasma examinou Tex e Zagor.
— Agora são homens vivos. Mas a marca do inferno ainda está sobre vocês.
Drácula permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Depois, colocou a mão no ombro de Tex.
— Passei mais de um século esperando para encontrá-lo novamente. Não pretendo desperdiçar o tempo que nos resta.
Tex ajeitou o chapéu.
— Então vamos sair daqui, conde. Preciso encontrar um cavalo, conseguir roupas novas e descobrir em que ano estamos.
— 2026 — respondeu Spawn.
Tex olhou para ele.
— Mais de um século perdido... Vou precisar de um bom café e de muitas explicações.
Zagor começou a rir.
— E eu quero comida! Estou morto de fome!
Todos olharam para ele.
O Espírito da Machadinha percebeu o que havia dito e abriu um sorriso.
— Bem... acho que agora posso dizer isso literalmente.
Pela primeira vez desde que Tex fora assassinado, os dois amigos riram juntos como antigamente.
Atrás deles, o reino infernal continuava desmoronando.
Drácula, Spawn e o Motoqueiro Fantasma seguiram para a saída, enquanto Tex e Zagor caminhavam lado a lado, sentindo novamente o chão sob os pés.
A morte os havia separado.
A eternidade os havia transformado.
E Mephisto, em seu último ato, devolvera aos dois aquilo que parecia impossível: uma nova vida.
Mas também os condenara a enfrentar um futuro desconhecido.
Tex Willer olhou para as montanhas distantes, visíveis através do portal que se fechava.
— Vamos, Zagor. Ainda temos uma cavalgada pela frente.
Zagor sorriu.
— Dessa vez, espero que ninguém atire em você.
Tex colocou o chapéu na cabeça.
— Se alguém tentar, vai descobrir que continua sendo uma péssima ideia.
Os dois atravessaram o portal.
Atrás deles, a última centelha de Mephisto desapareceu na escuridão.
Seria esse o Fim....!?
Epílogo — Uma nova vida, novas aventuras
O sol nascia sobre os montes Apalaches quando Tex Willer e Zagor chegaram à estrada que levava à cidade mais próxima.
Pela primeira vez em mais de um século, os dois caminhavam como homens vivos. Sentiam fome, cansaço e frio, mas também experimentavam algo que julgavam perdido para sempre: a oportunidade de recomeçar.
Ao chegarem à cidade, ficaram parados diante de uma avenida movimentada, observando automóveis, motocicletas e pessoas olhando para pequenas telas luminosas.
— Tex, que espécie de carroças são essas? E por que não precisam de cavalos?
Tex ajeitou o chapéu.
— Não faço a menor ideia, Zagor. Mas tenho certeza de que alguma coisa vai dar errado quando eu tentar atravessar essa rua.
Um jovem passou por eles segurando um celular e perguntou:
— Fantasia de cowboy? Vocês estão indo para alguma convenção?
Tex olhou para Zagor.
— O que é uma convenção?
— Não sei. Mas acho que precisamos aprender a responder a essas perguntas.
Os dois acabaram descobrindo um mundo completamente diferente daquele que haviam deixado para trás. Aprenderam a usar telefones, conheceram cidades modernas e, depois de algumas confusões, conseguiram documentos e roupas adequadas à nova época.
Zagor, porém, continuava preferindo uma boa refeição a qualquer novidade tecnológica.
— Pode inventar o que quiserem, Tex. Mas ainda não encontrei nada que supere um prato de carne assada!
Tex riu.
— Finalmente, alguma coisa neste século que faz sentido!
O protetor das sombras
Enquanto os dois se adaptavam à vida moderna, Drácula permanecia por perto.
Às vezes, observava-os do alto de um edifício. Em outras ocasiões, aparecia discretamente em um restaurante ou numa estrada deserta. Nunca interferia sem necessidade, mas estava sempre atento.
Ele conhecia os perigos daquele mundo — e sabia que Mephisto poderia não ter desaparecido para sempre.
— Passei mais de cem anos esperando por você, Tex. Acha mesmo que vou deixá-lo sozinho agora?
Zagor deu uma gargalhada.
— Deixe o conde ficar! Pelo menos, se aparecer algum vampiro, já teremos alguém para conversar com ele!
Drácula ergueu uma sobrancelha.
— Muito engraçado, Zagor.
Os três riram.
E assim, enquanto o mundo seguia seu curso, uma nova história começava.
Tex e Zagor ainda precisariam descobrir muitas coisas sobre o século XXI. Fariam novos amigos, conheceriam aliados inesperados e enfrentariam mistérios que nem mesmo a tecnologia moderna conseguiria explicar.
Drácula continuaria ao lado deles, guardião silencioso de dois homens que haviam desafiado a morte.
E, em algum lugar além das fronteiras conhecidas, outras aventuras já começavam a tomar forma.
Tex colocou o chapéu, olhou para o horizonte e sorriu.
— Muito bem, Zagor. Vamos descobrir o que este século tem a oferecer.
Zagor pegou sua machadinha.
— Desde que tenha comida, estradas e alguma confusão para resolver!
Drácula abriu a porta.
— Então, meus amigos, acredito que não ficarão decepcionados.
Os três partiram noite adentro, uma amizade que atravessou o tempo, Drácula estará sempre ao lado desses homens.
A morte havia encerrado uma cavalgada, mas não a lenda.
Porque Tex Willer e Zagor estavam de volta, e o século XXI ainda não fazia ideia das aventuras que o aguardavam.
FIM... POR ENQUANTO!