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Romero Britto e a Romerobrittozação

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Conteúdo da publicação

Uma vez, eu estava em um bar na Augusta com um amigo. Tínhamos bebido até encher a caveira quando um grupo na mesa ao lado começou a falar de Romero Britto.

Diziam que ele era um “designer de superfície”, que sua arte era extremamente comercial, que qualquer pessoa poderia replicá-la. Que uma criança de cinco anos faria o que ele faz. Que tudo era igual. Um deles dizia ter lido entrevistas do Romero Britto e achava o cara chato, que não rendia, que não tinha assunto.

Eu fiquei ouvindo aquilo e pensei: eu não gosto nem desgosto de Romero Britto.

Acho a arte dele legal. Alegre. Diferente. Reconhecível.

Já vi algumas entrevistas dele e, realmente, parece que ele sempre responde naquela linha de “eu só quero fazer a minha arte”. E, sinceramente, qual é o problema?

Romero Britto é um dos artistas mais bem-sucedidos comercialmente. Vende obras por valores enormes, tem uma equipe que produz trabalhos dentro do estilo que ele criou, colocou sua linguagem em produtos, guarda-chuvas, papéis de presente, rótulos, objetos e até sacolas de supermercado.

E eu acho isso genial.

Talvez justamente porque ele tenha conseguido fazer algo que parece simples.

Ele faz desenhos que uma criança de cinco anos poderia fazer.

E isso é justamente o mais difícil: fazer algo tão simples, tão reconhecível e tão comercial que milhões de pessoas olhem e saibam imediatamente quem fez.

O que me chama atenção é que muita gente adulta olha para isso e diz:

“Uma criança faria isso.”

E eu penso:

Então por que você não fez primeiro?

Porque talvez o problema não seja a simplicidade da obra.

Talvez seja o fato de outra pessoa ter descoberto que aquela simplicidade poderia valer milhões.

Existem duas coisas no Romero Britto de que eu não gosto.

A primeira é o preço.

Eu nunca pagaria por uma obra dele o valor de uma casa. Dentro das minhas condições e daquilo que considero que uma obra vale para mim, talvez eu comprasse uma. Mas chega uma hora em que o preço deixa de ser sobre a obra e passa a ser sobre o mercado, a assinatura, a raridade e o status.

Eu poderia ter um Romero Britto na parede.

Só não pagaria o preço que dizem que ele vale.

A segunda coisa que me incomoda é que ele parece não evoluir.

Ele encontrou uma fórmula, e continua nela.

É uma espécie de miojização da arte: você encontrou uma fórmula que funciona, coloca água quente, espera três minutos e está pronto.

Mas aí eu penso:

O que eu tenho a ver com isso?

Se o sujeito está feliz, vende, trabalha, emprega gente, vive bem e continua fazendo exatamente aquilo que quer fazer, problema dele.

“Time que está ganhando não se mexe.”

Quem sou eu para dizer que ele deveria mudar?

O que me incomoda mais são os pseudo-críticos de arte.

Aqueles que precisam transformar qualquer quadro em uma tese de doutorado.

A obra não pode simplesmente ser bonita, feia, estranha, interessante ou entediante.

Não.

Tem que existir uma explicação.

“A composição estabelece uma relação dialética com a desmaterialização da coisa enquanto objeto de representação...”

E todo mundo olha para o quadro e balança a cabeça:

“Sim, sim. Claro.”

Ninguém entendeu porra nenhuma, mas ninguém quer ser o primeiro a admitir.

Lembro daquele caso de David Bowie e do escritor que criou um artista fictício, cuja obra foi apresentada como se fosse real. As pessoas começaram a analisar, elogiar, escrever sobre o artista, construir interpretações e até criar uma biografia para alguém que não existia.

E justamente aí estava a piada.

A obra não precisava ser boa.

Ela precisava ser chancelada.

Depois que descobriram a farsa, ficou evidente o quanto algumas pessoas estavam mais interessadas em parecer inteligentes diante da arte do que em olhar para a própria arte.

E isso me faz pensar em Van Gogh.

Não na obra dele, que eu acho maravilhosa, mas na maneira como algumas pessoas falam sobre ela.

Você ouve um curador explicando que Van Gogh utilizou determinada cor em determinado período para expressar determinada condição emocional, dentro de determinada fase de sua vida.

Tudo tem significado.

Tudo é símbolo.

Tudo é conceito.

Às vezes eu imagino Van Gogh pintando às três da manhã, querendo terminar o quadro, olhando para a paleta e percebendo que acabou a cor que queria.

Ele olha para o quadro.

Olha para a tinta.

E pensa:

“Ah, vai essa mesmo. Que se foda.”

E continua pintando.

Talvez tenha sido exatamente assim.

Talvez não.

Mas eu gosto da possibilidade.

Porque existe uma coisa que me incomoda na maneira como falamos sobre arte: a necessidade de transformar todo gesto do artista em uma decisão genial e consciente.

Às vezes o artista simplesmente fez.

Às vezes ele experimentou.

Às vezes errou.

Às vezes gostou do erro.

Às vezes faltou tinta.

Às vezes estava cansado.

Às vezes queria terminar logo.

E às vezes uma escolha feita quase por acaso acaba se tornando parte daquilo que, décadas depois, alguém vai chamar de “fase cromática fundamental da obra do artista”.

Eu teria um quadro de Van Gogh.

Teria um Romero Britto.

Teria vários artistas que admiro.

Mas não necessariamente pagaria os preços que o mercado atribuiu a eles.

Eu pagaria um valor que, para mim, fizesse sentido e que também permitisse ao artista continuar trabalhando, pintando e sobrevivendo.

Porque, no fim, talvez seja isso que realmente importa.

O artista fazendo arte.

E o artista conseguindo continuar fazendo arte.

O resto — o mercado, os milionários, os críticos, os pseudo-críticos e as palavras difíceis — pode ficar discutindo se aquilo é “a coisificação da coisa” enquanto o sujeito está lá, simplesmente pintando.

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