URBEX, LO E BRU — AVENTURAS ASSOMBRADAS
Capítulo 1 — O prêmio dos sonhos… ou o começo de um pesadelo?
Tudo começou numa tarde que Lo e Bru jamais esqueceriam.
Os dois tinham sido convidados para participar do programa Domingão com Huck. Lo, como sempre, levou sua inseparável câmera, enquanto Bru apareceu com sua GoPro presa à cabeça, dizendo que aquele momento precisava ficar registrado para o canal Urbex, Lo e Bru.
Trice, namorada de Lo, acompanhava tudo da plateia, torcendo para que os dois não fizessem nenhuma besteira diante das câmeras.
Bru ajeitou a GoPro e cochichou:
— Lo, pelo amor de Deus, hoje se comporta. A gente tá na televisão nacional!
— Relaxa, Bru! Eu sou um profissional!
— Profissional? Você tropeçou no tapete da entrada!
— Aquilo foi um teste de gravidade, seu idiota!
Os dois começaram a discutir, arrancando gargalhadas da plateia que observava eles atrás do palco central.
Quando finalmente entraram no palco, foram recebidos pelo apresentador, que explicou que participariam de uma rodada especial de perguntas e respostas. O prêmio seria revelado somente no final.
Lo ficou confiante.
A primeira pergunta apareceu no telão. Era sobre filmes clássicos de terror. Lo acertou. A segunda era sobre lugares históricos dos Estados Unidos. Bru acertou. A terceira envolvia mistérios arqueológicos, e os dois, depois de uma discussão absurda, conseguiram responder corretamente.
A plateia vibrou!
No fim da rodada, o apresentador anunciou:
— E os nossos aventureiros ganharam o grande prêmio!
Confetes caíram do teto. Lo pulou, Bru quase derrubou o apresentador num abraço, e Trice levou as mãos à boca, emocionada.
— Vocês acabam de ganhar uma viagem para três pessoas aos Estados Unidos!
— EU SABIA! — gritou Lo.
— Sabia coisa nenhuma! Você tava quase respondendo que as pirâmides foram construídas pelos extraterrestres!
— E quem prova que não foram?
O apresentador sorriu e revelou o destino.
— Vocês vão conhecer a pequena cidade de Pine Creek, onde visitarão uma antiga mina abandonada e uma misteriosa casa do século XIX, cercada por histórias e lendas locais.
O sorriso de Lo desapareceu por um instante.
Bru percebeu.
— Ué, Lo? Você não vive dizendo que não tem medo de nada?
— E não tenho!
— Então por que você ficou branco?
— É a iluminação do estúdio, Bru!
A plateia caiu na gargalhada.
— Imagina as imagens que vamos gravar! Uma mina abandonada, uma casa antiga, histórias de fantasmas… Nosso canal vai explodir!
— Isso mesmo! — respondeu Lo. — Vamos mostrar que essas histórias são tudo invenção!
Naquele momento, o telão exibiu uma fotografia antiga da cidade de Pine Creek. Apareciam uma entrada de mina escavada na montanha e uma casa enorme de madeira, com janelas estreitas e uma varanda deteriorada.
A legenda dizia:
PINE CREEK — UMA CIDADE QUE O TEMPO ESQUECEU.
Mas, quando a imagem desapareceu, um senhor sentado na primeira fila levantou-se lentamente. Ele parecia assustado.
— Não… — murmurou, quase sem voz. — Justamente aquele lugar…
Ninguém ouviu, exceto uma senhora sentada ao seu lado.
— O que foi? — ela perguntou.
O homem olhou para o telão apagado.
— Eles não deveriam ter ganhado essa viagem.
E sentou-se novamente.
Lo, Bru e Trice desembarcaram nos Estados Unidos. Depois de algumas horas de estrada, chegaram a Pine Creek, uma pequena cidade cercada por montanhas, florestas densas e estradas sinuosas.
O céu estava cinzento. Uma neblina fina cobria as árvores, e o vento soprava entre os postes da rua principal.
Lo filmava tudo.
— Fala, galera! Cês tão focados! Estamos aqui, diretamente dos Estados Unidos, na famosa Pine Creek! Hoje vamos explorar uma mina abandonada e uma casa do século XIX. Se tiver fantasma, vai aparecer no canal!
Bru virou a câmera para si mesmo.
— E se tiver um fantasma, eu vou entrevistar ele!
Trice cruzou os braços.
— Vocês dois são uns idiotas. Se acontecer alguma coisa, eu vou ser a primeira a voltar para o hotel.
— Amor, fica tranquila — disse Lo. — O máximo que vamos encontrar é um rato.
Nesse exato momento, um corvo pousou no capô do carro e soltou um grito estridente.
Bru deu um pulo.
— AI, MINHA NOSSA SENHORA!
Lo começou a rir tanto que quase deixou a câmera cair.
— Você não ia entrevistar o fantasma? O corvo já tá aqui!
— Eu não tenho medo de corvo! Ele apareceu de surpresa!
— Vocês são os brasileiros que vão visitar a mina e a casa velha?
— Somos nós mesmos! — respondeu Lo, orgulhoso.
Walter ficou em silêncio por alguns segundos.
— Então escutem um conselho. Visitem a cidade, tirem suas fotografias, conheçam a região. Mas não entrem naquela casa depois do pôr do sol.
Lo sorriu.
— Por quê? O fantasma da dona da casa não gosta de visitas?
O motorista não riu.
— Porque, há muitos anos, quem entra naquela casa depois que escurece nem sempre consegue encontrar o caminho de volta.
O sorriso de Lo diminuiu.
— Se ouvirem alguém chamando pelo nome de vocês na floresta, não respondam.
Trice olhou para o homem.
— Por que alguém chamaria por nós?
Walter encarou a mata distante.
— Porque nem tudo o que vive lá quer que vocês vão embora.
Ele entrou no carro e partiu.
Os três ficaram parados na calçada.
Bru quebrou o silêncio:
— Muito bem. Temos duas opções. A primeira: fingir que nunca ouvimos isso. A segunda: pegar o primeiro avião de volta para o Brasil.
Lo ergueu a câmera.
— Terceira opção: vamos descobrir o que está acontecendo!
Trice suspirou.
— Eu sabia que devia ter trazido uma mala maior. Vou precisar de roupas para fugir.
Lo apontou para a estrada que levava à montanha.
Ao longe, quase escondida pela neblina, havia uma construção de madeira no alto de uma colina.
A velha casa.
Uma das janelas estava aberta.
E, atrás dela, alguma coisa parecia observá-los.
O primeiro, um homem chamado Peter, passou correndo por Lo e gritou:
— Dessa vez não dá! Temos que sair daqui!
Outro homem, Ray, veio logo atrás.
— Não mesmo! Essa coisa está muito mais forte do que imaginávamos!
Um terceiro tropeçou nos degraus, levantou-se rapidamente e continuou correndo.
— Eu avisei que não devíamos ter vindo a Pine Creek!
O quarto nem sequer olhou para trás. Parecia estar fugindo do próprio diabo.
Bru virou-se lentamente para ele.
— O quê, Lo? Perdeu a fala?
Lo engoliu em seco.
— ELES ERAM… ERAM…
Trice terminou a frase, quase sem acreditar:
— Os Caça-Fantasmas?
Bru levou as mãos à cabeça.
— OS CAÇA-FANTASMAS! ELES ESTAVAM FUGINDO! Se aqueles caras fugiram, imagina nós três!
Lo tentou recuperar a pose diante da câmera.
— Calma, pessoal. Pode ser uma estratégia profissional de retirada!
— Estratégia profissional? — gritou Bru. — Eles abandonaram até a ambulância, seu animal!
— Três idiotas! — corrigiu Trice. — Porque, se vocês entrarem, eu vou atrás para não deixar vocês morrerem sozinhos!
Lo sorriu.
— Sabia que você me amava!
— Eu amo você. A sua inteligência é que me preocupa!
E os três atravessaram a entrada.
A visita inesperada
O interior da casa cheirava a madeira podre, mofo e poeira. O chão rangia a cada passo. Quadros antigos pendiam das paredes, e um lustre quebrado balançava no teto, embora não houvesse vento.
Bru iluminou um corredor com sua lanterna.
Lo, olha aquilo!
No fundo do corredor havia um chapéu velho, pendurado num cabide. Abaixo dele, uma fotografia mostrava um homem de bigode, com o rosto muito familiar.
Lo aproximou a câmera.
— Espera aí… Esse homem parece…
Um ruído veio do andar superior.
— Tá, tá, tá, tááá!
Os três congelaram.
Depois veio uma voz conhecida, irritada e chorosa:
— Foi sem querer querendo!
Era o fantasma do Seu Madruga. E ao lado dele estava o fantasma do Chaves!
Seu Madruga olhou para os três intrusos e resmungou:
— Lá vem mais gente! Será que ninguém respeita a propriedade alheia?
O Chaves inclinou a cabeça.
— Seu Madruga, quem são eles?
— Não sei, Chaves! E também não quero saber! Já basta o aluguel atrasado do além!
O menino olhou para Lo e Bru.
— Vocês trouxeram sanduíches de presunto?
Bru soltou um grito tão alto que até os corvos lá fora levantaram voo.
— AAAAAAAAH! É O CHAVES!
— Levanta! Levanta, pelo amor de Deus!
Seu Madruga desceu alguns degraus, coçando a cabeça.
— Mas que sujeito escandaloso! Nem parece que está numa casa mal-assombrada!
Chaves sorriu.
— Ele está com medo, Seu Madruga!
— Medo? Eu também estaria, Chaves! Olha a cara desses três!
O menino se aproximou mais um degrau.
— Vocês vieram brincar de esconde-esconde?
— NÃO! — responderam Lo, Bru e Trice ao mesmo tempo.
De repente, todas as portas da casa bateram simultaneamente.
PÁ! PÁ! PÁ! PÁ!
As luzes das lanternas começaram a piscar.
Seu Madruga perdeu o sorriso.
O Chaves correu para trás dele.
— Seu Madruga… ele voltou!
— Quem voltou, Chaves?
Uma gargalhada profunda ecoou do porão.
As paredes estremeceram. Uma névoa negra começou a subir pela escadaria, e dois olhos brilhantes surgiram na escuridão.
Seu Madruga agarrou o braço do menino.
— Corre, Chaves!
Bru disparou pelo corredor, gritando:
— EU QUERO MINHA MÃE! EU QUERO O BRASIL!
Trice correu atrás deles, mas, antes de alcançar a porta, ouviu uma voz sussurrar bem perto de seu ouvido:
— Vocês não deveriam ter entrado…
Ela virou-se.
A escadaria estava vazia.
Seu Madruga e Chaves haviam desaparecido.
E os olhos brilhantes continuavam observando os três, imóveis, no meio da névoa.
Então a porta da frente bateu violentamente.
BUM!
Bru olhou para ele, quase chorando.
— Lo… me diz que você tem um plano, tá me dando uma crise de choro!
Lo continuou puxando a maçaneta.
— Tenho, buá.... buá...!
— Qual?
— ENTRAR EM PÂNICO, e o colo da minha mãe.... buá....!
E, lá do fundo da casa, o Chaves voltou a gritar:
— FOI SEM QUERER QUERENDO!
Uma gargalhada monstruosa respondeu.
— EU FALEI QUE A GENTE DEVIA TER FICADO NO HOTEL! — gritava Trice.
— E EU FALEI QUE ERA UMA PÉSSIMA IDEIA ENTRAR AQUI! — respondeu Bru.
Lo, correndo na frente, apontou para uma porta entreaberta.
— POR AQUI! ACHEI A SAÍDA!
Os três atravessaram a porta e desceram uma escada estreita. Mas, em vez de encontrarem a saída, foram parar num porão escuro, cheio de móveis velhos, ferramentas enferrujadas e teias de aranha.
Lo iluminou o lugar com a lanterna.
— Bom… tecnicamente, saímos de um corredor e entramos em outro lugar.
Bru olhou para ele, indignado.
— Lo, se você não calar a boca, eu mesmo vou te transformar num fantasma!
Bru tapou a própria boca.
— Lo… fala que isso é o seu estômago!
— Meu estômago não fala inglês, ou melhor, nem eu, não sei como estamos entendendo tudo por aqui, Bru!
Os passos pararam exatamente sobre suas cabeças.
Uma sombra comprida surgiu por baixo da porta do porão.
Então, uma figura desceu a escada.
Era um homem coberto de poeira, vestindo roupas antigas de mineiro, com um capacete amassado e uma lanterna que emitia uma luz amarelada. Seu rosto estava pálido, e seus olhos pareciam fundos como buracos na terra.
— Gente… eu acho que encontrei o motivo pelo qual aquela casa está abandonada.
Lo ergueu a câmera, mas suas mãos tremiam tanto que a imagem ficou toda borrada.
— Galera… se vocês estão vendo isso… saibam que eu gosto muito de vocês…
Bru puxou Lo pela camisa.
— GUARDA ESSA CÂMERA E ENTRA NO BURACO!
Os três se abaixaram e passaram pela abertura na parede.
Atrás deles, ouviram a voz da mulher:
— Não podem fugir…
O mineiro bateu a picareta contra o chão.
CLAAANG!
Trice iluminou uma placa enferrujada:
PINE CREEK MINING COMPANY — 1947.
Bru engoliu em seco.
— Espera aí… A gente saiu da casa e entrou na mina?
Lo assentiu.
— Pelo jeito, a casa foi construída em cima de uma passagem subterrânea.
— Maravilha! — resmungou Bru. — Agora temos dois lugares assombrados pelo preço de um!
Um barulho veio de uma galeria lateral.
— Shhh! — sussurrou Trice.
Ouviram vozes.
— Scooby-Doo, cadê você? — chamou um rapaz.
— Raaqui! — respondeu uma voz abafada.
Lo apontou a lanterna para a escuridão.
— Tem alguém ali!
Bru pegou um pedaço de madeira do chão.
— Se for outro fantasma, eu juro que vou…
Uma figura alta e magra apareceu na curva do túnel, segurando uma lanterna numa mão e um sanduíche na outra.
Ao lado dela surgiu um enorme cão dinamarquês, com uma coleira azul e uma plaquinha com as letras SD.
O rapaz arregalou os olhos.
— Epa! Quem são vocês?
Lo ficou de boca aberta.
— Não… Não pode ser!
Bru deixou o pedaço de madeira cair.
— Primeiro os Caça-Fantasmas, depois o Chaves e agora…
Trice completou, espantada:
— Salsicha e Scooby-Doo!
Salsicha deu um passo para trás.
— Scoob, acho que encontramos mais fantasmas!
— Fantasmas?! — Lo protestou. — Nós somos brasileiros!
Scooby inclinou a cabeça.
— Brasileiros?
— É! — respondeu Bru. — E estamos perdidos!
Salsicha soltou um suspiro de alívio.
— Ah, bom! Então vocês não são fantasmas!
Scooby farejou Lo, depois Bru e, finalmente, a mochila de Trice.
— Ranche!
Trice abriu a mochila.
— Você está com fome?
Scooby assentiu freneticamente, abanando o rabo.
Ela retirou um pacote de biscoitos que havia comprado na cidade. Scooby pegou o pacote inteiro, enquanto Salsicha se aproximava, emocionado.
— Finalmente alguém que entende nossas necessidades!
Bru olhou para os dois.
— Espera aí. O que vocês estão fazendo aqui embaixo?
Salsicha terminou de mastigar e explicou:
— Nós viemos investigar os mistérios de Pine Creek com o resto da turma. Fred, Daphne e Velma estavam examinando a velha mansão, enquanto eu e Scooby procurávamos uma passagem para sair da mina.
Scooby abaixou as orelhas.
— Rerramos…
— Nos perdemos do resto da turma — admitiu Salsicha. — Entramos numa galeria, depois noutra, depois numa terceira… E agora não fazemos ideia de onde estamos!
Lo encarou Bru.
Bru encarou Trice.
Trice encarou Salsicha.
Os três disseram ao mesmo tempo:
— A GENTE TAMBÉM!
Salsicha deu de ombros.
— Bom, pelo menos agora somos cinco.
Scooby levantou uma pata.
— Seis!
— Verdade, Scooby. Seis.
Lo voltou a ligar a câmera.
— Galera, isso é inacreditável! Estamos dentro de uma mina abandonada nos Estados Unidos, acompanhados de Salsicha e Scooby-Doo!
Salsicha apontou para a câmera.
— Ei, cara, você pode desligar isso? Não quero aparecer num vídeo quando encontrar um fantasma!
— Agora é tarde — respondeu Lo. — Já está gravando!
De repente, um ruído metálico ecoou pela galeria.
CLANG… CLANG… CLANG…
Salsicha parou de sorrir.
Scooby deixou cair o pacote de biscoitos.
Lá longe, uma luz amarelada começou a se aproximar.
E uma voz grave ecoou pelos túneis:
— QUEM ESTÁ INVADINDO A MINHA MINA?
Salsicha ficou branco.
— Scoob… você está pensando o mesmo que eu?
— Rrrrrr…
— Que precisamos de um sanduíche?
Scooby balançou a cabeça negativamente e apontou para a luz.
A silhueta de um homem apareceu na curva. Na mão, carregava uma picareta. Seu capacete estava rachado, e a luz amarelada iluminava um rosto que parecia ter saído de uma fotografia de 1947.
O Mineiro de 47 havia encontrado o caminho até a mina.
E, atrás dele, flutuando alguns centímetros acima do chão, vinha a Mulher de Branco.
Salsicha soltou um grito.
— CORRE, SCOOBY!
— RUIIIII!
Os seis dispararam pela galeria, enquanto as gargalhadas da Mulher de Branco ecoavam atrás deles.
Lo corria segurando a câmera.
Bru corria sem olhar para trás.
Trice corria prometendo a si mesma nunca mais acompanhar Lo numa aventura.
Salsicha corria com o sanduíche na boca.
Scooby corria com o pacote de biscoitos entre os dentes.
E, atrás de todos, o Mineiro de 47 levantou a picareta e gritou:
— VOCÊS NUNCA SAIRÃO DAQUI!
Naquele instante, a galeria se dividiu em três caminhos.
Lo apontou para a esquerda.
— POR AQUI!
Salsicha apontou para a direita.
— NÃO! POR AQUI!
Scooby apontou para o túnel do meio.
Todos pararam por uma fração de segundo.
Bru olhou para as três passagens.
— Deixa eu adivinhar… Ninguém sabe qual é a saída?
Salsicha sorriu nervosamente.
— Agora você entendeu o nosso problema!
Atrás deles, a luz do mineiro ficou cada vez mais forte.
E os seis entraram no túnel do meio… sem imaginar o que os aguardava lá dentro.
URBEX, LO E BRU — AVENTURAS ASSOMBRADAS
Capítulo 4 — O mistério de Pine Creek e o prêmio de consolação
A galeria subterrânea parecia não ter fim. Lo, Bru, Trice, Salsicha e Scooby-Doo corriam desesperadamente, enquanto o som da picareta do Mineiro de 47 ecoava atrás deles.
— Eu não aguento mais! — gritou Bru. — Quando eu chegar em casa, vou virar um homem sedentário!
— Você já é sedentário! — respondeu Lo, sem parar de correr.
— ENTÃO VOU FICAR MAIS
De repente, Scooby farejou alguma coisa e parou diante de uma passagem lateral.
— Scooby-Doo, por que você parou?! — perguntou Salsicha.
— Ruma pista!
O cão apontou para uma luz que vinha do outro lado.
Os cinco atravessaram a passagem e chegaram a uma antiga sala de manutenção. Para a surpresa deles, lá estavam Fred, Daphne e Velma!
— Salsicha! Scooby! Finalmente encontramos vocês! — exclamou Daphne.
— E vocês trouxeram companhia! — observou Velma, ajeitando os óculos.
Fred olhou para Lo e Bru.
— Quem são os dois?
— Somos Lo e Bru, do canal Urbex! — respondeu Lo. — E estamos sendo perseguidos por um mineiro fantasma e uma mulher de branco!
Velma levantou uma sobrancelha.
— Fantasmas? Interessante…
Fred sorriu e bateu as mãos.
— Então vamos fazer o que sabemos fazer de melhor: preparar uma armadilha!
Bru ficou animado.
— Uma armadilha? Finalmente alguém com um plano!
Lo olhou para o amigo.
Fred distribuiu as tarefas. Velma estudou o mapa das galerias, Daphne organizou os equipamentos e Salsicha e Scooby ficaram encarregados de servir como isca.
— Por que sempre nós?! — reclamou Salsicha.
Scooby concordou:
— É! Por que nóis?
— Porque vocês são excelentes em atrair monstros — explicou Fred.
— Isso não é um elogio! — respondeu Salsicha.
Lo e Bru ajudaram a instalar cordas, roldanas e uma enorme rede sobre uma velha poltrona encontrada na sala. A ideia era atrair os fantasmas até o centro do cômodo e derrubar a rede sobre eles.
Trice cruzou os braços.
— E quem vai ficar sentado nessa poltrona?
Fred olhou para Lo.
Lo olhou para Fred.
— Nem pensar! — protestou Lo.
— Você tem uma câmera. Pode fingir que está filmando tranquilamente — explicou Velma.
— Ah, claro! E o fantasma vai pensar: "Que rapaz simpático, vou pedir um autógrafo!"
Bru começou a rir.
— Senta logo, Lo!
Lo se acomodou na poltrona, segurando a câmera com as duas mãos.
Bru ficou ao lado dele.
— Se alguma coisa aparecer, eu vou pular no seu colo!
— Você não vai fazer isso!
— Quer apostar?
Fred apagou as lanternas.
Todos se esconderam atrás de caixas, pilares e equipamentos antigos.
O silêncio tomou conta da sala.
Então…
CLANG! CLANG! CLANG!
Uma voz feminina cantou pelos corredores:
— Onde estão vocês, meus queridos visitantes?
Scooby começou a tremer tanto que seus dentes batiam.
— S-S-Salsicha…
— Eu também estou ouvindo, Scoob!
Uma sombra apareceu na entrada.
Depois outra.
O Mineiro de 47 entrou lentamente, arrastando sua picareta. Atrás dele flutuava a Mulher de Branco, com os cabelos cobrindo o rosto.
— AGORA! — sussurrou Fred.
Os fantasmas avançaram.
Scooby deu um salto espetacular e caiu nos braços de Salsicha.
— SOCORRO, Salsicha! É o fim!
Salsicha tentou segurá-lo, mas os dois tombaram atrás de uma caixa.
Lo levantou-se tão depressa que tropeçou nos próprios pés e caiu sentado na poltrona.
Bru, apavorado, deu um pulo e foi parar no colo de Lo!
— SAI DE CIMA DE MIM, BRU!
— EU NÃO QUERO MORRER!
— VOCÊ PESA MAIS QUE O FANTASMA!
— ENTÃO ME AJUDA A LEVANTAR!
— Eu não acredito que vim até os Estados Unidos para assistir a isso!
Os fantasmas chegaram ao centro da sala.
Fred puxou uma corda.
VRUUUUM!
A rede caiu do teto e envolveu as duas figuras. Uma roldana foi acionada, puxando os prisioneiros para o alto.
— Conseguimos! — gritou Fred.
Velma acendeu as luzes.
Daphne correu até a rede e começou a retirar as máscaras.
Primeiro, tirou o capacete do mineiro.
Lo arregalou os olhos.
— Walter?!
O motorista idoso de Pine Creek resmungou, preso na rede.
— Muito bem, vocês descobriram!
Velma retirou o véu branco da segunda figura.
Era a esposa de Walter!
— Eu sabia que havia alguma coisa estranha naquela história! — declarou Velma.
Bru finalmente saiu do colo de Lo.
— Espera aí… Então não existiam fantasmas?
Walter suspirou.
— Não. Fomos nós que criamos tudo aquilo.
O segredo de Pine Creek
Walter explicou que havia descoberto um veio de ouro numa antiga galeria subterrânea, exatamente abaixo da mansão abandonada.
O problema era que a propriedade atraía exploradores, curiosos e caçadores de tesouros. Se alguém descobrisse o ouro, Walter perderia a oportunidade de explorá-lo secretamente.
Por isso, ele e a esposa inventaram a lenda do Mineiro de 47 e da Mulher de Branco. Usavam passagens escondidas, efeitos sonoros, lanternas especiais e roupas assustadoras para manter as pessoas longe.
Até os avisos ameaçadores faziam parte do plano.
Salsicha cruzou os braços.
— Quer dizer que corremos por toda essa mina, quase morremos de susto e tudo por causa de ouro?
Scooby ficou indignado.
— E nem ganhamos sanduíches!
Lo apontou a câmera para Walter.
— Você enganou a cidade inteira!
Walter deu de ombros.
— Funcionou durante anos.
Fred sorriu.
— Até encontrarem a turma do Scooby-Doo!
Bru ergueu o dedo.
— E o Lo e Bru, que também tiveram uma participação importantíssima!
Trice olhou para ele.
— Você passou metade da aventura no colo do Lo!
— Estratégia de sobrevivência!
Todos começaram a rir.
Lo, porém, ficou pensativo.
— Espera… Se isso tudo foi uma armação, como é que o Chaves e o Seu Madruga apar
eceram naquela casa?
Salsicha olhou para Scooby.
Scooby olhou para Salsicha.
Os dois começaram a tremer.
— Fred… — disse Salsicha. — Acho melhor a gente ir embora.
De repente, uma voz familiar ecoou do fundo da mina:
— Foi sem querer querendo!
E outra respondeu:
— Tá bom, mas quem vai pagar o aluguel?
PÁ!
A luz apagou.
— AAAAAAAAAAAAH!
Uma voz insistente parecia vir de muito longe.
— LO, PELO AMOR DE DEUS, ACORDA!
Lo abriu os olhos lentamente.
Estava sentado numa cadeira, sob as luzes brilhantes de um estúdio de televisão.
À sua frente, Luciano Huck segurava um cartão e o observava com uma expressão divertida.
A plateia inteira ria.
Bru estava ao lado dele, sacudindo seu ombro.
Trice, sentada na plateia, cobria o rosto com as mãos.
Lo piscou várias vezes.
Olhou para a esquerda.
Ele estava no palco do Domingão com Huck!
— Ué… — murmurou Lo. — Cadê o Walter?
Luciano franziu a testa.
— Walter? Quem é Walter?
— O mineiro! A mina de ouro! A Mulher de Branco!
Bru arregalou os olhos.
— Lo, você dormiu durante o programa inteiro!
A plateia caiu na gargalhada.
Lo olhou para o telão, onde ainda apareciam as perguntas da competição.
De repente, tudo voltou à sua memória.
As perguntas.
As respostas erradas.
O prêmio que ele imaginara ganhar.
A viagem para os Estados Unidos.
A mansão.
Os fantasmas.
Tudo tinha sido um sonho!
Luciano segurou o cartão e anunciou:
— Bom, meus amigos, chegou a hora de revelar o prêmio de vocês!
Lo levantou-se, ajeitou a camiseta e abriu um sorriso enorme.
— Eu sabia! Eu sabia que a viagem era verdadeira!
— Lo, vocês foram muito divertidos, mas, infelizmente, erraram todas as perguntas!
O sorriso de Lo desapareceu.
— Todas?
— Todas! — confirmou Luciano.
Bru começou a rir tanto que precisou se apoiar no apresentador.
Luciano continuou:
— Mas, como vocês deram um show de entretenimento, a produção preparou um prêmio de consolação!
Um assistente trouxe uma pequena caixa embrulhada para presente.
Lo abriu a caixa com entusiasmo.
Dentro havia…
DOIS SANDUÍCHES DE PRESUNTO E UM PACOTE DE BISCOITOS PARA CACHORRO!
O estúdio inteiro explodiu em gargalhadas.
Bru caiu de joelhos, fingindo desespero.
— EU ATRAVESSEI O MUNDO INTEIRO NA MINHA IMAGINAÇÃO E GANHEI BISCOITO DE CACHORRO!
Lo segurou um dos sanduíches e olhou para a câmera.
— Fala, galera… cês tão focados? Porque eu acabei de descobrir que meu cérebro produz filmes de terror melhores que Hollywood!
Luciano começou a rir.
— Pelo menos você ganhou alguma coisa!
Lo apontou para o pacote de biscoitos.
— Luciano, com todo o respeito… isso aqui é para o Scooby-Doo?
Bru pegou o pacote.
— Se ele não quiser, eu aceito!
— BRU, ISSO É BISCOITO PARA CACHORRO!
— E daí? Depois dessa humilhação, eu como até a caixa!
Na plateia, Trice gritava:
Lo tentou sair discretamente do palco, mas Luciano o chamou de volta.
— Só mais uma pergunta, Lo! Se você tivesse que escolher entre entrar numa casa mal-assombrada e responder mais cinco perguntas, o que escolheria?
Lo nem pensou.
— A CASA MAL-ASSOMBRADA!
Bru levantou os braços.
— EU TAMBÉM!
A plateia veio abaixo.
E assim terminou a participação de Lo e Bru no Domingão com Huck: sem viagem, sem ouro, sem caça aos fantasmas…
Mas com uma história tão absurda que, quando contassem aos inscritos do canal, ninguém acreditaria.
Lo olhou para Bru e sorriu.
— URBEX, LO E BRU: A AVENTURA DO PRÊMIO DE CONSOLAÇÃO!
E, naquele exato momento, Lo percebeu uma coisa terrível.
Ele havia esquecido de gravar o sonho inteiro.
— NÃO! EU NÃO GRAVEI NADA, embora fosse só imaginação, e ainda por cima, nem falo inglês, como eu entendi tudo sem legendas?!
Bru deu um tapinha no ombro dele.
— Relaxa, Lo. Pelo menos dessa vez você não precisou fugir de fantasma nenhum.
Lo ficou em silêncio por dois segundos.
Então olhou para a câmera e começou sua intro.
— Galera… cês tão focados?
FIM!