“O quê? Décimo quarto degrau?” O quão louco era isso? Poucos momentos antes, o velho havia dito que raramente uma existência de primeira viagem passava do vigésimo degrau. Agora, não só sua mãe passara do vigésimo, como chegara ao décimo quarto!
Seria sua mãe alguém especial? Ou será que ela não era uma alma de primeira viagem? Christopher ficou refletindo sobre aquilo, sem saber o que sentir no momento. Se esse fosse o caso, entenderia o motivo de ela ter subido tão alto; mas, se não fosse… como tivera forças para subir?
O velho deixara clara a dificuldade de escalar os degraus. Como sua mãe — a mulher que ele via ser tão meiga e gentil — conseguira suportar uma dor maior do que a de ser queimada viva? Na cabeça de Christopher, aquilo parecia um absurdo.
O velho pareceu perceber o que se passava na mente do garoto e continuou:
“Jovem, acho que você deve ter entendido algo errado.” Christopher saiu de seus devaneios e passou a prestar atenção nele. “Não existe uma regra exata de como se deve subir os degraus. Tudo depende inteiramente de você e de quem você é.”
Christopher ainda parecia não entender; aquilo não explicava muita coisa.
“Como eu havia dito, a pressão causada pelos degraus é extremamente horrível e agonizante, mas existem outros meios de subir.”
“Algumas almas mais experientes utilizam um meio um pouco extremo para conseguir subir: elas causam ferimentos à própria alma. Ferir a própria alma tem o mesmo efeito que a pressão dos degraus, pois apaga parte das memórias vividas. Como isso é feito de forma arbitrária, as almas em questão conseguem decidir quais memórias serão perdidas. Por que fazem isso? Quanto menos informações a alma carrega, mais fácil é a subida.” Ao dizer essas palavras, o Sr. Guia não deixou de expressar um olhar um pouco deprimido, mas continuou a explicação:
“As almas são imortais e não podem ser destruídas de maneira alguma… mas podem ser limpas. Uma alma limpa é o estágio inicial de qualquer vida: elas não têm informação alguma, sem nomes, sem forma, nem sequer sabem de sua existência. Por conta disso, a pressão dos degraus não as afeta; elas podem subir à vontade. Mas aí é que está o problema: essas almas não têm vontade alguma.” O senhor fez uma pausa, respirando fundo. Depois de alguns segundos parado, olhando para a imponente escadaria dourada, retornou à explicação:
“É muito comum ver almas limpas vagando por aí, ou até mesmo almas que estão há semanas ou meses paradas no mesmo lugar. De vez em quando, uma alma limpa começa a subir os degraus e simplesmente para em algum lugar aleatório, sem qualquer indício de ter tomado uma decisão.”
“Por outro lado, as almas que escolheram se ferir apagam suas memórias de entes queridos, amigos e lugares, deixando somente as lembranças que consideram que vão ajudar na subida ou que as deixarão mais fortes. Elas consideram essas lembranças impedimentos na hora de subir. Tanto uma memória boa quanto um trauma da última vida podem ser a chave para a alma ser capaz de subir mais ou não. Muitos perderam as chances de subir por saudades de alguém ou de algum lugar, assim como muitos perderam por medo.”
Ao ouvir tudo aquilo, Christopher passou a entender melhor a situação. Os degraus não tinham as almas como alvo, mas sim as vidas que elas haviam vivido. Levando isso em consideração, compreendeu por que as almas daqueles que se feriam escolhiam esse caminho: era mais fácil se desapegar das memórias que achavam desnecessárias para subir de forma mais leve.
Christopher então pensou que não seria tão difícil assim subir os degraus. Se o preço fosse esquecer só algumas memórias, até ele estaria de acordo. Mas, ao pensar em sua mãe, mudou de ideia rapidamente. Imaginar que ela pudesse ter escolhido esquecer sua vida passada — que talvez tivesse escolhido esquecer dos filhos para subir mais alto — deixou um gosto amargo em sua boca. Perguntou, então:
“A minha mãe fez isso para subir?” Christopher estava temeroso com a resposta que receberia. O que deveria sentir se o velho confirmasse suas dúvidas?
“Esse método mesquinho? Claro que não! Eu disse que sua mãe foi incrível!” O velho esboçou animação ao relembrar a passagem de Samantha pelas escadas. “Sua mãe subiu com muita garra!”
“Mas como ela conseguiu isso?”, Christopher ainda assim perguntou.
O velho parou por um segundo, e o jovem percebeu a mudança. Parecia que o clima da conversa havia se alterado; havia um tom melancólico vindo do ancião.
“Foi por causa de você e da sua irmã…”
“…”
“…”
Christopher ficou em silêncio, esperando o restante da explicação. Passaram-se vários segundos até que o velho voltasse a falar:
“Sua mãe não impressionou somente a mim. Um dos seres do quarto degrau demonstrou interesse por ela.”
Os seres acima do quinto degrau eram de nível divino. Eles tinham certa liberdade e podiam acessar o espaço onde Christopher estava agora. Seres divinos não costumavam interferir nas vidas mais baixas, mas isso não significava que não existissem exceções.
“Esse ser em questão tentou fazer um acordo com sua mãe: ele daria apoio para que ela alcançasse o décimo quinto degrau sem restrições. Em troca, ela se juntaria ao seu grupo de fiéis”, disse o velho.
Christopher perguntou:
“E o que isso tem a ver com a gente?”
“Sua mãe recusou.”
“…”
“…”
“Bem, ela não recusou de cara. Ela meio que fez uma contraproposta.”
“Minha mãe fez o quê?”
“Uma contraproposta.”
“Eu já entendi isso, quero saber que proposta ela fez!” Christopher já esboçava irritação.
O velho ficou indignado com a atitude do garoto, pensando consigo mesmo: “Seu moleque, sabe quantos anos este velho tem? Eu devia te dar umas boas palmadas para você aprender.”
“Sua mãe fez o acordo de que, se conseguisse chegar até o décimo quinto andar sem ajuda externa e depois se juntasse aos fiéis, o ser divino deveria ajudar os filhos dela a subir os degraus no momento em que viessem para cá.”
Christopher parou. Tudo, por um momento, parou. Sua mãe fizera mesmo aquilo por eles? Não só ela se esforçara ao máximo em vida, como continuara se esforçando depois dela, superando vários limites por eles.
“Eu fiquei com essa mesma cara quando ouvi o que ela pediu”, disse o velho. “E a melhor parte: ela não só ganhou a aposta, como também passou para o décimo quarto degrau sozinha.”
O quão forte sua mãe fora não estava escrito. Mas em que estado ela chegara ao décimo quarto degrau? Christopher não achava que tora sido tão fácil para ela.
“Senhor Guia, a minha mãe chegou bem ao décimo quarto degrau? Porque, tipo… ela sofreu a pressão, não sofreu? O senhor disse que é muita dor para suportar…”, perguntou Christopher, já ciente da resposta. Queria que sua mãe tivesse passado sem nenhuma complicação, mas sabia que isso era uma ilusão.
“Sua mãe perdeu tudo o que tinha, meu jovem”, o velho disse, tristemente.
Ao ouvir aquilo, a tristeza bateu à porta de Christopher. Mesmo depois de tudo, sua mãe abandonara tudo para que os filhos tivessem uma chance.
“Ao chegar ao décimo quinto andar, sua mãe já não se lembrava nem do próprio nome. Ela não tinha nem mais a mesma aparência, era praticamente uma alma em branco. Mas… por algum motivo, não desistiu. Qualquer outra alma naquele estado já teria perdido a vontade.”
“Até que… as últimas palavras dela foram o nome de vocês dois… Naquele momento, ela deu o passo para o décimo quarto degrau e entrou na reencarnação.”
O velho novamente contemplava a escadaria, relembrando a comoção que Samantha causara.
A mãe que se esquecera de tudo, até de si mesma, não se esquecera de seus filhos…
“Foi isso o que aconteceu.”
“Foi esse o preço que minha mãe pagou para que eu e a Katrina pudéssemos ter uma vida melhor… Acho que ela deve ter se cobrado muito por tudo o que a gente passou. Hoje eu entendo que não foi nada fácil. Olhando agora, eu bem que poderia ter sido um filho melhor, né? Quem sabe se antigamente eu não tivesse feito birra por certas coisas, ou feito ela sair do serviço para ir atrás de mim na diretoria da escola… Talvez ela não precisasse se preocupar tanto e tivesse um pouco de tempo para ser feliz…” Christopher não deixava de se culpar. Ele começara a acreditar que, se sua mãe não tivesse tido filhos, talvez a situação fosse bem diferente.
“Rumpf! Não pense bobagens, garoto! Sua mãe amava vocês, não foi à toa o sacrifício.”
“Escute só: ela subiu aqueles degraus com o maior sorriso no rosto. Mesmo que nos passos finais não se pudesse mais ver o seu rosto, suas últimas palavras não tinham um tom de tristeza, mas sim de alegria.”
“Não deixe que a ansiedade atrapalhe sua subida; sua mãe não ia gostar disso, certo? Então se anime, você tem uma escada para subir!” O velho deu um sinal de positivo com o polegar para animar Christopher. No fundo, o guia tinha uma ótima impressão da mãe dele e não gostaria de ver seus esforços se esvaindo.
“Certo, o senhor tem razão. Eu preciso subir! Vou voltar para o vigésimo andar atrás da minha irmã, ainda preciso cuidar dela.” Mais aliviado, Christopher estava pronto para reencarnar. Poderia alcançar o vigésimo degrau facilmente com o apoio que sua mãe conseguira.
“Então…”
“O que foi?” Christopher estranhou a interrupção do velho.
“É sobre a sua irmã…”
“Ela subiu as escadas antes de você chegar aqui…”
Capítulo 3 - O amor de uma mãe