Pouco antes de anoitecer, cidade de Drizzler, Escola Regular New Drizzler.
As aulas já estavam terminando; faltava pouco para o sinal tocar. Katrina já havia concluído seus estudos do dia e apenas aguardava a hora de ir embora. Estava ansiosa: mais cedo, seu irmão lhe dissera que resolveria o problema pelo qual estavam passando, e ela queria saber o que ele conseguira e como fizera para alcançar o objetivo.
Katrina já era uma garota muito independente, apesar de ter apenas 8 anos. Sempre que podia, tentava aprender algo novo sozinha — fosse cozinhar, limpar ou até passar a própria roupa. Ela se esforçava para que suas necessidades incomodassem o mínimo possível.
“Seria que ele já chegou em casa? O irmãozão estava tão preocupado… Já sei! Quando chegar em casa, vou preparar um chá de ervas para ele. Tenho certeza de que vai gostar”, pensava Katrina.
Enquanto estava absorta em seus pensamentos, percebeu que, próximo à sua mesa, algumas garotas cochichavam sobre ela:
“Você ouviu o que disseram? Falaram que a família daquela garota era tão ruim que o pai fugiu e a mãe se matou para não ter mais que cuidar dos filhos…”
“Ela é tão esquisita! Mesmo depois de a mãe ter morrido, fica sorrindo por aí. Minha mãe falou que a mente dela pode estar quebrada…”
Quão cruéis as crianças podiam ser? Katrina e Christopher nunca foram maus. Christopher tinha o costume de se envolver em problemas na escola, mas o motivo era sempre defender algum estudante mais fraco que estivesse sendo oprimido. Por causa disso, além de atrair muitas inimizades, fez com que diversos alunos se tornassem dependentes dele, o que acabou prejudicando seus próprios estudos. Christopher era muito esperto, mas, devido às suas desavenças na escola, dificilmente conseguia prestar atenção às aulas.
Katrina, por outro lado, era o completo oposto: não faltava às aulas, era a primeira a chegar e a última a sair. Esforçava-se para ajudar os outros alunos em seus deveres e até dava apoio aos professores. Todos os tutores e funcionários da escola a conheciam e gostavam dela, pois ela ajudava a todos — seja recolhendo o lixo, lavando a louça do refeitório, alimentando os cachorros ou conversando com o zelador, um senhorzinho muito simpático. Katrina era muito querida entre os adultos, o que atraía a inveja das outras crianças…
Frequentemente, sofria bullying das garotas, que sempre zombavam dela ou jogavam coisas em sua direção escondidas. Por conta do seu jeito, Katrina nunca revidava; simplesmente ficava em silêncio, sem incomodar ninguém. Não fazia isso por medo ou por não saber se defender, mas porque achava que as pessoas próximas a ela já enfrentavam problemas demais. Sabia que aqueles pequenos percalços não eram nada comparados à pressão que sua mãe enfrentara e que seu irmão estava passando agora.
Mesmo assim, havia quem quisesse ajudar, como o diretor da escola. Ele já havia comunicado os pais dessas crianças, mas, devido à grande influência que eles possuíam e à falta de provas, o diretor ficava de mãos atadas — não por falta de vontade, mas por impotência. Fontes externas já o haviam alertado de que, se continuasse a importunar os filhos daqueles magnatas de baixo escalão, não conseguiria outro emprego na cidade. Por ora, o único apoio de Katrina era o simpático zelador que, sempre que podia, permitia que ela se escondesse em sua sala durante os intervalos.
Enquanto Katrina ignorava os insultos, o sinal tocou: era hora de ir embora. Todos os alunos saíram às pressas, parecendo um formigueiro em movimento. Como de costume, Katrina evitou a bagunça e esperou o fluxo diminuir. Enquanto aguardava, dispôs-se a organizar a sala de aula antes de sair.
Com o término do movimento, Katrina deixou a escola.
O caminho para casa sempre fora tranquilo. Katrina e Christopher voltavam juntos, cortando caminho pelas vielas — um percurso curto, de cerca de 10 minutos. Embora as vielas ficassem praticamente vazias àquela hora, ainda eram bem iluminadas. Mas, naquela noite, Christopher não a acompanhava.
“O irmãozão está atrasado. Ele deve ter ficado muito ocupado com seja lá o que teve de fazer. Melhor eu ir para casa antes que fique muito tarde.” Katrina seguiu seu caminho.
Enquanto caminhava, observava as estrelas. Mesmo com toda a luz da viela, ainda conseguia ver algumas estrelas muito bonitas. Katrina adorava o céu noturno e amava as estrelas. Sua favorita era Canopus — para ela, a estrela mais fascinante do céu.
Canopus também era conhecida como Alpha Carinae ou “A vice-campeã do céu”. Era oficialmente a segunda estrela mais brilhante do céu noturno, superada apenas por Sirius.
Katrina sabia que esses títulos não faziam jus à sua grandeza. Sabia que, embora Sirius parecesse mais brilhante, isso ocorria apenas por estar a menos de 8,6 anos-luz de distância da Terra, enquanto Canopus estava a massivos 310 anos-luz. Se colocássemos Canopus e Sirius lado a lado, à mesma distância, Canopus seria brutalmente mais brilhante, pois sua luminosidade real é mais de 10.000 vezes maior que a do nosso Sol.
Além disso, por ser extremamente brilhante e estar posicionada longe do plano do Sistema Solar, missões históricas (como as sondas Voyager, Mariner e Apollo) utilizaram sensores chamados “Canopus trackers” para mapear sua posição e garantir que a espaçonave não se perdesse no espaço profundo.
Por isso, às vezes Katrina se imaginava como Canopus: “Assim como Canopus, você não precisa ser quem mais chama atenção ou quem está mais perto para ser a luz mais importante na vida de alguém.”
Continuando sua caminhada, aproveitava a brisa do vento; faltava pouco para chegar em casa.
CRACK…
Um arrepio percorreu a espinha de Katrina, que olhou rapidamente para trás.
“O que foi isso?… Não tem… nada.”
Katrina olhava assustada para trás, mas tudo o que via era a viela por onde acabara de passar. Não havia ninguém ali além dela. “Será que foi um cachorro? Ou um rato, talvez? Devo estar imaginando coisas, hehe.”
Katrina acelerou o passo.
Chegando em casa, viu que as luzes ainda estavam apagadas; claramente, seu irmão ainda não havia chegado. Para entrar, as crianças sempre deixavam uma chave escondida perto de um vaso. Com pressa, Katrina foi até o esconderijo.
“Ótimo, está aqui.”
Ela abriu a porta. Estava tudo escuro; o interruptor ficava próximo à entrada. Ao acendê-lo, a sala se iluminou. Era uma casa simples, mas com móveis bem cuidados: um tapete marrom antigo que sua mãe comprara em uma loja de usados, algumas fotos de família… Mesmo não sendo luxuoso, Katrina sentia o conforto de seu lar.
No momento em que entrava, antes mesmo de cruzar totalmente a porta, sentiu novamente um arrepio. Olhou mais uma vez para trás, em direção à rua.
“Nada de no…” Katrina ficou paralisada.
Antes não vira nada, mas agora conseguia ver alguém parado no final da rua, todo vestido de preto. Ainda estava longe demais para se notar qualquer detalhe, mas Katrina sabia dizer muito bem que era um homem.
Ela fechou a porta rapidamente e a trancou. Só havia aquela entrada na casa; não existiam outras portas, e as janelas tinham grades para evitar roubos. Ela não sabia se o homem estava apenas de passagem ou se a estava seguindo, mas, se fosse a segunda opção, garantiria que ele não conseguisse entrar.
Pegou uma cadeira e a travou na porta. Não ousou se afastar dali; olhava pelas frestas da janela, de forma furtiva, para observar o homem que se aproximava, sempre tomando cuidado para não ser vista.
Depois de alguns minutos…
“Ele passou direto pela casa… Ufa!” Katrina suspirou.
Mais aliviada, deixou a cadeira na porta por segurança.
“O irmãozão está demorando demais. Vou ligar para ele agora.”
Enquanto se dirigia ao telefone fixo na parede, ouviu algo:
Toc, toc, toc.
…
…
Toc, toc, toc.
… Katrina permaneceu em absoluto silêncio.
TOC! TOC! TOC!
As batidas desta vez foram extremamente fortes e lentas, trazendo um sentimento de puro pavor ao coração de Katrina.
Ela não conseguia falar; parecia que suas forças tinham se esvaído, incapaz de emitir qualquer som. Contudo, reunindo um pouco de coragem, pegou uma caneta sobre um dos móveis. Apertando-a com força nas mãos, aproximou-se da janela para ver quem estava à porta.
Ao olhar pela fresta, Katrina viu:
Lá estava ele, o homem de preto… Só que, desta vez, não estava sozinho. Estava acompanhado de alguém que Katrina já conhecia bem.
…