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O preço de uma segunda chance

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Conteúdo da publicação

Na calada da noite. Nas vielas da cidade de Drizzler.

Christopher corria desesperado para salvar sua vida, entrando no labirinto de vielas enquanto segurava uma sacola com suprimentos. Seus pulmões ardiam de exaustão, e era possível ouvir o som de seu coração batendo nos ouvidos, acompanhado pelo som dos passos de seus perseguidores…

Christopher já estava nos seus 16 anos. Era um garoto alto e atlético, e seus cabelos castanhos costumavam atrair os olhares das jovens de sua escola. Ele vivia junto à sua irmãzinha Katrina, de 8 anos, em uma humilde casinha na cidade de Drizzler. O pai de Christopher sumiu sem deixar rastros quando sua mãe, Samantha, ainda estava grávida de Katrina, deixando para ela a responsabilidade de cuidar das duas crianças sozinha. No entanto, devido ao acúmulo de serviço e estresse, Samantha acabou adoecendo e falecendo.

Durante as semanas após a morte de sua mãe, Christopher enfrentou dificuldades para conseguir dinheiro e sustentar a si e à sua irmãzinha. Por causa dos esforços do trabalho constante de sua mãe, ele ainda tinha o suficiente para durar alguns meses. Mas, aproveitando-se da tragédia da família, um traficante chamado Tyrone, junto à sua gangue, roubou todo o dinheiro que haviam guardado. Não sem antes dar uma tremenda surra em Christopher, que quase o levou ao hospital. O motivo: não satisfeito apenas com o roubo, Tyrone havia se aproximado de Katrina com um olhar lascivo. Katrina tinha cabelos e olhos castanhos como os de sua mãe; pequena, mas não frágil, sempre fora uma criança enérgica, atraindo elogios por sua beleza e educação. Não seria difícil deduzir que a pequena garotinha, sem pai ou mãe para protegê-la, atrairia atenções indesejadas. Ao se deparar com a situação e já imaginando o que se passava na cabeça do homem, Christopher reagiu…

No dia seguinte em casa, sem dinheiro e machucado, Christopher não sabia o que fazer. A única coisa que o confortava no momento era saber que, devido às suas ações na noite anterior, o homem que possivelmente tramava abusar de sua irmãzinha havia desistido da ideia. A polícia da cidade dificilmente ajudava pessoas do subúrbio, quanto mais duas crianças sozinhas, e os outros moradores próximos tinham medo demais para sequer levantar um dedo. Seria perda de tempo pedir para alguém lidar com a gangue. No entanto, ainda havia um problema: como ambos fariam para sobreviver?

“Irmãozão, a gente vai ficar bem?”. A pequena Katrina olhou para o irmão com seus belos e preocupados olhos castanhos.

“É claro, Katy. Seu irmãozão vai dar um jeito. Só se preocupe em estudar e ficar bem inteligente, que nem a mamãe sempre falava.” Chegava a doer a garganta de Christopher ao olhar para sua irmãzinha preocupada. Ela era tão inocente e alegre que vê-la naquele estado lhe causava uma enorme angústia.

Foi então que Christopher teve a ideia de pedir um empréstimo ao banco. Era comum as pessoas fazerem isso, e ele sabia um pouco sobre o assunto devido ao que sua mãe lhe havia ensinado.

No banco, após aguardar na imensa fila de espera, Christopher direcionou um olhar sério e preocupado para a atendente…

Recusado…

“Senhorita, eu realmente preciso do dinheiro. Eu prometo que logo consigo pagar. Minha irmã e eu estamos sozinhos e sem dinheiro para nos manter. Se precisar, posso começar a trabalhar agora para pagar, mas, por favor, não nos recuse…”

Christopher olhava para a atendente com nervosismo, esperando por uma resposta positiva. Ele estava disposto a se comprometer para poder cuidar de sua irmã.

“Jovem, infelizmente eu tenho que seguir as regras da empresa. O sistema negou seu pedido e não há o que possa ser feito. Você pode tentar de novo em três meses. Então, se me dá licença, preciso chamar o próximo da fila”, disse a atendente brevemente.

“Mas… eu…”

“Próximo!”

Christopher sentiu como se tivesse tomado um balde de água fria. O que faria agora que o empréstimo havia sido recusado?

Saindo do banco, Christopher andava pelas ruas da cidade de cabeça baixa, refletindo sobre seus próximos passos. Ele precisava urgentemente de dinheiro para comprar comida. Felizmente ainda era de tarde e Katrina estava na escola; ela poderia comer a refeição fornecida por lá por enquanto. Samantha se preocupava muito com a educação dos filhos, então, com muito esforço, conseguiu colocar ambos em uma escola particular. Mesmo não sendo a melhor de todas, a “New Drizzler” ainda era uma escola regular. Não era muito cara e tinha um bom ensino; não se comparava às grandes escolas da cidade grande, mas ainda era melhor que as escolas públicas, onde constantemente sofriam bullying.

Enquanto continuava sem rumo em sua caminhada, Christopher avistou um cartaz em um dos postes da rua que chamou sua atenção:

“PRECISA DE DINHEIRO?

NA APEX PRIMECRED FAZEMOS EMPRÉSTIMOS PARA VOCÊ SEM BUROCRACIA…

LIGUE PARA O NÚMERO ########.

ESTAMOS TE AGUARDANDO!”

Ao ver o cartaz, Christopher pensou que poderia ser uma boa ideia. Ele não precisava de muito dinheiro para se manter durante aquele mês. Mesmo que fossem cobrados juros abusivos, acreditava que seria possível pagar o valor de volta se trabalhasse bastante.

Sem demora, pegou o celular para ligar para o número do cartaz. Seu aparelho era um modelo simples, mas servia ao seu propósito.

“Ligando, chamando… chamando… Apex Primecred, como posso ajudar?”

Christopher agradeceu interiormente por ter sido atendido.

“Oi, meu nome é Christopher. Vi um cartaz de vocês e gostaria de fazer um empréstimo, se possível.” Christopher já cruzava os dedos para atrair sorte enquanto falava ao telefone.

“Ah sim, claro! Você poderia comparecer ao nosso endereço para fazer uma consulta rápida agora?”

“Consigo sim!”

“Ótimo! Você pode vir à rua Plaster Raven, número 328. Vou estar te aguardando, pode procurar pelo nome de Pietra.”

A rua Plaster Raven não era desconhecida para Christopher. Realmente havia alguns estabelecimentos ali, como um restaurante barato e até uma loja de conveniência. Ainda assim, era uma parte pobre da cidade de Drizzler, mas não custava nada dar uma olhada. Se realmente ajudasse com seu problema, não importava de onde viria o dinheiro…

Cidade de Drizzler, rua Plaster Raven.

Christopher olhava de forma duvidosa para o estabelecimento de número 328.

“Então essa é a Apex Primecred… Não parece que as coisas vão muito bem.”

O estabelecimento podia ser comparado, no máximo, a uma pequena loja, com espaço suficiente para caber umas 15 pessoas. A fachada não estava nas melhores condições; era possível ver uma janela quebrada e alguns ratos passando correndo.

Sem demora, Christopher apertou a campainha. Poucos momentos depois, um homem alto e magro, usando um terno vinho todo surrado, apareceu na porta.

“Moleque, você perdeu alguma coisa por aqui?”

O homem não parecia nem um pouco educado; até seu semblante era antipático.

“Eu entrei em contato antes. Pediram para eu procurar a Pietra aqui”, disse Christopher.

“Ah, tá. Então é você. Pode entrar, ela está lá nos fundos.” Apontando com o polegar, o homem direcionou Christopher até um balcão no fundo da loja, sem se importar em acompanhá-lo.

Sem hesitar, Christopher entrou e se dirigiu ao balcão. Era normal ver pessoas com o mesmo jeito daquele homem nas áreas mais pobres; raramente se via um tratamento de qualidade, mas a maioria ainda tinha o mínimo de decência, se fosse comparar.

Chegando lá, deparou-se com uma mulher atrás do balcão que usava uma crachá na blusa com o nome “PIETRA”. Ela tinha cabelos longos com mechas douradas e vestia um blazer preto com uma camisa bege por baixo. O que realmente impressionou Christopher foi o tamanho dos seios que se escondiam sob as roupas daquela beleza; era realmente hipnotizante o volume do seu busto. Christopher usou todas as suas forças para que seus olhos não vacilassem e acabassem ofendendo a mulher. Engolindo a saliva, ele se conteve: sua vida estava em jogo.

Pietra estava ao telefone finalizando mais uma ligação enquanto Christopher aguardava bem na sua frente. Ela não conseguiu deixar de achar a cena engraçada enquanto olhava para ele: “Quem é esse cara? Será que ele nem percebeu que dá para ver na cara dele para onde está olhando? Se eu deixar esse garoto mais dois minutos aqui, ele vai acabar babando no chão todo.”

Finalizando a ligação, Pietra se endireitou e olhou para Christopher:

“Ahem… em que posso te ajudar, jovem?”

Saindo de seus devaneios, Christopher percebeu que a mulher já havia terminado a ligação e o aguardava. Prontamente, ele se apresentou:

“Boa tarde, sou o Christopher… Falei por telefone com você há uma hora.”

“Certo, certo. Então, Christopher, me conte sobre você. Quero só te conhecer um pouco melhor para a gente prosseguir.” Pietra se reclinou na cadeira e olhou fixamente para ele, esperando a resposta.

Refletindo um pouco sobre o que falar, Christopher começou:

“Hum, bom… meu nome é Christopher Palmer, tenho 16 anos e estou morando sozinho com minha irmã aqui na cidade de Drizzler. Moro na rua River, que fica depois do centro. Estou sem dinheiro no momento e preciso de pelo menos 1.200 créditos. Posso pagar no mês que vem.” Christopher não entrou em muitos detalhes.

“É bom saber que mora perto.” Pietra acenava concordando enquanto falava. “Me diga, Christopher, você tem um trabalho?”

“Não trabalho…”, disse ele, envergonhado. 1.200 créditos não eram uma quantia grande, mas era o suficiente para duas pessoas durarem um mês se fosse usado só para comida. Um trabalho simples, como caixa de supermercado ou ajudante, pagava facilmente de 1.500 a 2.000 créditos por mês. Com um emprego desses, Christopher poderia cuidar de sua irmã por enquanto.

“Então, como pretende pagar o valor se eu fizer o empréstimo?”, perguntou Pietra enquanto o encarava.

“Eu vou conseguir um emprego e te pago em um mês, eu juro!”, falou de forma direta e rápida, o que chamou a atenção dela.

Em silêncio, a bela mulher olhava para Christopher, pensativa antes de responder:

“Olha, garoto, não é que eu não queira te emprestar o dinheiro, mas é que, na minha opinião, dificilmente você vai dar conta de pagar a dívida.” Pietra deu uma pausa e continuou: “Mesmo que você encontre um trabalho nesse meio tempo, até você receber já vai ter passado o prazo. Na sua situação, dificilmente vai achar um emprego que pague bem; nesse caso, precisaria de no mínimo dois meses para me pagar.”

Christopher permanecia em silêncio enquanto ela falava.

“Fora isso, você levou em consideração como vai se virar depois? Como vai cuidar de você e da sua irmã depois desse ‘um mês’ e ainda garantir que vai ter o dinheiro para pagar o empréstimo?” Pietra então parou de falar, como se esperasse uma resposta.

Sem saber o que dizer, ele insistiu:

“Eu vou dar um jeito, eu só…”

“Você não vai conseguir pagar”, disse Pietra, interrompendo-o.

Nesse momento, Christopher sentiu o coração apertar. Se não conseguisse o dinheiro, sua irmã e ele dificilmente sobreviveriam. Não era raro ver tragédias nessas situações; diversos jovens em condições semelhantes acabavam mal, envolvendo-se com drogas, crimes e outros atos ilegais. Ele precisava desse dinheiro a todo custo. Só de imaginar a irmãzinha passando por algo assim, seu corpo fraquejava. No desespero, disse:

“Eu posso trabalhar para você, então…”

“O quê? Você? Trabalhar para mim?” Pietra fez uma cara estranha. “Hahahahah!” Ela não conseguiu se conter.

Enquanto ria, percebeu que Christopher não se abalou com a atitude dela.

“Espera… você está falando sério? Tem ideia de com o que eu trabalho, jovem?”, disse em tom sério.

Sem dar sinais de recuar, ele respondeu:

“Não me importo, mas preciso do dinheiro.”

Christopher estava decidido: faria de tudo para garantir que sua irmã ficasse bem cuidada.

Pensando no assunto, Pietra esboçou um leve sorriso:

“Pois bem, acho que posso te usar para uma tarefa… mas vai depender inteiramente de você se vai dar conta ou não.” Ela esperou para ver a reação dele; não notando nada diferente, continuou: “Vamos fazer o seguinte: você vai pegar uma encomenda para mim do outro lado da cidade e trazê-la aqui. Quando chegar, te dou os 1.200 créditos pelo serviço. Que tal? Assim, você não precisa me pagar no final do mês.” Pietra olhava para ele de forma divertida, apoiando-se no balcão de modo a projetar ainda mais o busto para a frente.

“Só isso?”, questionou Christopher.

“Só isso. É simples, não é?” Pietra o encarava com seus olhos pretos brilhantes. Estava na cara de que havia algo que ela não tinha contado.

Refletindo sobre a proposta, Christopher sentia que havia algo extremamente errado. Foi quando seu telefone vibrou.

Era uma mensagem da escola avisando que a mensalidade daquele mês já estava disponível para pagamento e venceria em breve. Christopher tinha apenas mais 23 dias para pagar a mensalidade de 1.600 créditos. Ele poderia cancelar as próprias aulas e focar em pagar apenas as da irmã; conseguiria 800 créditos até o final do mês para mantê-la, só precisava de tempo. Coisa que não tinha no momento.

Sem tempo para avaliar suas opções de forma moral, aceitou a proposta da mulher.

Com um aperto de mãos, Pietra passou os dados do serviço. Ele teria que ir a um armazém do outro lado da cidade, onde alguém o esperava para lhe entregar um pacote. Christopher deveria trazer o pacote até a loja o mais rápido possível, sem chamar atenção. Até o momento, não parecia haver grandes complicações. Pietra o orientou a não fazer perguntas sobre quem iria encontrar nem sobre o conteúdo do pacote, e recomendou usar roupas que cobrissem a maior parte do corpo. Estando pronto, ele saiu da loja.

Do outro lado da cidade de Drizzler.

Já estava escurecendo. Christopher precisava ser rápido, pois sua irmã logo chegaria da escola de perua escolar. Não haveria problema se ele se atrasasse um pouco; a irmãzinha, mesmo jovem, era bem independente, mas demorar muito poderia preocupá-la.

Chegando ao local marcado, Christopher avistou um homem encapuzado segurando uma maleta. Não era possível ver seu rosto, apenas que tinha a barba raspada e um piercing no lábio. Christopher se aproximou e disse: “Eu sou o pombo.”

O homem não deixou de estranhar a situação. “Você?” Ele não se impressionou com o que Christopher disse, mas sim com a idade aparente do garoto: impossível não pensar “é só uma criança”.

Mesmo relutante, entregou a maleta a Christopher e, em seguida, entrou rapidamente em um beco escuro, desaparecendo na noite.

Agora com a maleta em mãos, Christopher se virou e correu o máximo que pôde em direção à loja; precisava entregá-la o quanto antes. Sempre que se deparava com alguém na rua, disfarçava como se estivesse atrasado para algo importante.

“Com licença, com licença, estou atrasado para o meu curso… Vou perder a promoção do Astro Game que saiu…” Passando rapidamente pelas pessoas, Christopher acreditou que não teria problemas para finalizar o serviço.

Cidade de Drizzler, rua Plaster Raven.

“Ora, ora, veja quem chegou super rápido!”

Ouvindo o som da porta se abrir, Pietra encarava Christopher com um sorriso satisfeito. O jovem estava todo suado, parecendo ter corrido uma maratona; obviamente, tinha se empenhado bastante.

“Aqui a encomenda.” Christopher recuperou o fôlego e deixou a maleta em cima do balcão. Tinha corrido muito para garantir a entrega e estava satisfeito consigo mesmo, pois agora teria tempo e dinheiro para cuidar da irmã.

“Bom trabalho. Aqui estão os 1.200 créditos, como combinado.” Pietra tirou as cédulas do bolso e entregou a ele. Ela era uma mulher pragmática: no mundo dos negócios não havia almoço grátis, então não pagaria a mais só porque alguém fez um bom trabalho.

Pegando o dinheiro, Christopher se despediu da bela mulher e saiu da loja. Pensando que já tinha resolvido parte de seus problemas, decidiu comprar alguns mantimentos para levar para casa. A loja de conveniência na mesma rua teria o que ele necessitava.

Saindo da loja de conveniência com alguns lanches e refrigerantes, Christopher estava doido para mostrar a surpresa à irmãzinha.

Logo atrás dele, um carro preto o seguia lentamente.

Sem perceber nada enquanto caminhava, seguiu para casa absorto em pensamentos: “A Katyzinha vai ficar muito feliz hoje. Depois que a mamãe morreu, ela tem ficado tão quieta… Um docinho vai fazer bem a ela.”

Enquanto isso, no carro preto…

O veículo era um modelo antigo, do tipo que só alguns figurões usavam. Os vidros eram totalmente escuros, sendo impossível ver quem estava ao volante. Conforme se aproximava lentamente de Christopher, o carro trazia uma presença sinistra à rua escura. Nesse momento, as luzes dos postes se acenderam, declarando oficialmente a chegada da noite.

No instante em que as luzes se acenderam, Christopher começou a prestar mais atenção ao seu redor. Ao ver seu reflexo na vitrine de uma das lojas, pensou: “Tem alguém me seguindo?”

Ele percebeu a aproximação do carro. Sem gerar suspeitas, mudou de rumo. Já estava em uma área conhecida da cidade; se cortasse caminho pelas vielas, tinha certeza de que despistaria quem quer que estivesse no veículo.

Ao entrar na primeira viela, esperou tomar certa distância para começar a correr. Foi então que ouviu o barulho das portas do carro se abrindo.

Sem olhar para trás, correu com os suprimentos pela viela. Não sabia quem eram seus perseguidores, mas tinha certeza de uma coisa: estavam atrás do pacote. Enquanto corria, não pôde deixar de pensar que a decisão de aceitar a tarefa fora extremamente arriscada. Com certeza aquela mulher sabia o que estava por vir; poderia ao menos ter avisado para tomar cuidado na volta. Talvez ele tivesse chances maiores se tivesse corrido desde o início.

Em algum momento da fuga, Christopher já não reconhecia o caminho. Seria um atalho errado? “Droga!” Praguejando, acelerou para tentar abrir distância.

Um beco sem saída!

Nesse momento, sentiu um arrepio na espinha; os pelos do seu corpo se arrepiaram. Precisava encontrar uma maneira de escapar. Decidiu escalar o muro à sua frente; não era muito alto, mas o faria perder tempo.

Enquanto subia, começou a escutar passos se aproximando cada vez mais rápido; seu coração batia mais forte a cada segundo. Ao terminar de escalar, respirou aliviado: ainda tinha chance. Mas, ao saltar para o outro lado, um estampido alto ecoou.

“Isso foi um tiro? Esses caras estão armados, droga!”

Ele só tinha ouvido o disparo vindo de trás; não fazia ideia de onde a bala acertara, mas, felizmente, não sentiu nenhuma diferença no corpo.

Christopher continuou correndo pelas vielas. Não ouviu mais tiros; provavelmente tinha conseguido despistar os perseguidores. Logo encontrou a saída da viela; pegando aquele caminho, não estaria longe de casa.

Mas, quando pensou que era o fim da perseguição, um homem de preto apareceu bem na saída. Estava parado, segurando uma arma. A viela estava deserta, sem uma alma viva para pedir ajuda.

Nesse instante, o corpo de Christopher agiu por conta própria, dando meia-volta e disparando a correr. Ele corria mais do que antes, mas sua respiração estava irregular; começou a sentir dores no peito, como se estivesse pegando fogo. Não conseguia pensar em nada além de fugir.

Foi quando sentiu um gelo nas costas…

Por algum motivo, sentiu-se fraco, como se tivesse levado um empurrão. Sem forças e prestes a cair, sentiu algo quente escorrendo pelas costas. “O que aconteceu?” Devido à adrenalina e ao sangue quente, não percebera de imediato que levara um tiro nas costas.

Após alguns segundos, não aguentou mais correndo e parou. Em menos de um minuto, a dor avassaladora veio, e ele caiu de joelhos. A dor nas costas era agonizante; braços e pernas começaram a formigar, a boca ficou seca e a visão, turva. Naquele momento, a imagem de sua irmã veio à mente, e o medo tomou conta: “O que vai acontecer agora? A Katrina está me esperando… Eu tenho que levar essas coisas para ela. Eu disse que cuidaria dela…”

As lágrimas de Christopher começaram a rolar.

A sensação de não cumprir sua promessa, de imaginar a solidão que sua irmã sentiria e as dificuldades que enfrentaria dali em diante fez com que ele não contivesse o choro. “Quão idiotas foram minhas ideias?”

​Então, o momento chegou. Ele ouviu os passos do homem se aproximando. Ajoelhado, não tinha forças nem para se virar e encarar seu assassino. Um passo após o outro, lentamente, o homem chegava perto. Christopher sentia o coração bater no mesmo ritmo daqueles passos; era como se seu próprio corpo soubesse que a morte era iminente.

​Por fim, não pôde fazer nada. Ainda sentia a dor lancinante nas costas, mas o homem não dava o golpe final. “O que ele está esperando? Quer me ver sofrer, é isso?”

​Após alguns instantes, Christopher finalmente ouviu outro tiro. E então, tudo ficou escuro…

​…

​“É assim que é morrer? Bom, pelo menos não estou mais sentindo dor.”

​Em meio à escuridão, Christopher pensava alto.

​“Como a Katrina está agora? Eu queria tanto saber…”

​“...sua”

​“Hum?”

​“...sua irmã.”

​“Espera, quem está aí?”

​Em pânico, escutou uma voz que não era a sua. Parou e tentou ouvir melhor.

​“Sua irmã vai ficar bem”, disse a voz.

​“Obrigado… mas quem é você? E… onde eu estou? Pelo que sei, era para eu estar morto”, disse Christopher.

​“E você está.”

​“Hum… tá, entendi. Mas quem é você, afinal?”, perguntou.

​“Pode me chamar de ‘Sr. Guia’. Sou eu quem vai te orientar na sua reencarnação.”

​“Espera, o quê? Reencarnação? Tipo nas histórias?” Christopher gostava muito de ler contos fantasiosos e sempre se imaginava como herói quando criança.

​“Isso. Agora vou te guiar. Está vendo aquela pequena luz ali no fundo? Pode segui-la.”

​“Não dizem sempre para a gente ficar longe da luz?”, perguntou Christopher de forma zombeteira.

​“Se quiser ficar para sempre na escuridão, pode ir para qualquer outro lado. Eu não me importo, me poupa trabalho.”

​“Não, não! Tranquilo, tranquilo, eu vou para a luz!”, disse Christopher rapidamente.

​“Indo para a luz, indo para a luz, indo para a luz…”, cantarolava enquanto caminhava para passar o tempo.

​“Você não sabe ficar quieto?”, perguntou a voz.

​“Desculpa, é a primeira vez que eu morro. Não sei como reagir a esse tipo de situação.” Christopher deu de ombros enquanto seguia seu rumo.

​Chegando à luz, um espaço em branco se abriu. Agora conseguia enxergar melhor e olhou ao redor. O ambiente era totalmente alvo, com uma névoa clara aos seus pés. Logo atrás, pôde ver o dono da voz que se dizia o “Sr. Guia”.

​Tratava-se de um senhor de barba e cabelos brancos, vestindo um manto cinza-escuro. “Ele é bem simples, mas parece ser um cara bem sério.” O Sr. Guia também segurava um cajado como se fosse uma bengala, embora não aparentasse precisar dele.

​Então, o Sr. Guia proferiu as palavras:

​“Já que chegamos ao nosso destino, vamos ao tutorial.”

Thoughts

  • brunocosta

    Ó pá, o miúdo a pensar em largar as aulas dele para pagar só as da irmã. Dezasseis anos e já faz as contas como a mãe as fazia.

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  • Rui_Salgueiro

    A Pietra sabia do carro preto. Pagou os 1.200 certinhos e deixou-o sair a pé com os sacos. Essa mulher ainda volta a aparecer.

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  • Dorand2026

    Fiquei imaginando o Sr. Guia como o Gandalf.

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  • Ovid

    O Christopher ligando para o número do cartaz no poste foi onde comecei a torcer contra a decisão dele, porque aquele anúncio de empréstimo sem burocracia existe em toda cidade. Aposto que o Sr. Guia vai cobrar caro por essa segunda chance, o título já avisa. E a Katrina sozinha em casa esperando os doces vai pesar no capítulo dois :)

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