“O que você acabou de dizer?” Os olhos de Christopher pareciam os de um louco. Ele quase pegou o velho pela gola do manto, mas o ancião demonstrou grande habilidade em se proteger: desviou das mãos do garoto e o jogou no chão.
“Se acalme, seu idiota! O que pensa que está fazendo?”
“Por que você não me contou?! Por que não disse que ela morreu?!” Christopher gritava.
“Porque você ainda precisa subir os degraus”, disse o velho, firmemente. “Garoto, eu tenho incontáveis anos, já fiz a passagem de milhares de almas. Eu não minto para elas, mas tudo tem um preço: quanto mais você sabe, mais difícil fica para subir as escadas. Aqueles que perguntam demais acabam, muitas vezes, presos nos degraus mais baixos por conta do novo conhecimento. Eu não posso omitir essas verdades se eles insistirem em saber.”
Christopher agora entendia por que o velho não falara de sua irmã, mas ele precisava saber o que acontecera com ela.
“O que aconteceu com ela?”
“Bem, eu não sei dos detalhes, mas, quando ela chegou aqui, não falava nada. Estava completamente calada e sem expressão. Eu expliquei tudo para ela e entreguei a caixa que seu pai deixou. Então, ela simplesmente subiu para o décimo quarto degrau com a ajuda do ser divino. Só sei disso”, disse o velho, sem jeito.
Christopher não sabia o que pensar. O que acontecera com sua irmã? Como ela morrera? E como…
“Espera… caixa? Pai? Como assim?” Quase passara despercebido o que o velho dissera. “Como assim ‘caixa que meu pai deixou’?”
“Seu pai sempre deixa uma caixa dessas para cada filho dele, sempre que reencarna.”
“Sempre que reencarna? Meu pai já reencarnou várias vezes e ainda traz lembranças?”
“…”
“…e quantos filhos ele tem?”
“Com você e sua irmã, 83.”
“Descarado!”
Christopher estava perdido: sua irmã, seu pai… eram muitas informações para processar.
O velho então passou a caixa para Christopher. Ele deixou seus pensamentos de lado por um momento. O objeto parecia mais um cubo do que uma caixa e, nas mãos do velho, não aparentava nada de impressionante. Mas, quando Christopher tocou na caixa, tudo mudou: ela começou a brilar com uma luz azul, e um feixe mirou nele.
“Analisando alma… Registro de parentesco confirmado. Você gostaria de se conectar ao Sistema de Peregrinação?”
O que era aquilo?
“Seu pai era um peregrino, ficava vagando de degrau em degrau por aí. Eu não sei nada sobre essa geringonça quadrada”, disse o velho.
“Os peregrinos só ficam vagando?”, Christopher não pôde deixar de pensar no problema de seu pai. O miserável abandonara a família quando ele era mais novo e agora descobria que o homem vivia pulando de galho em galho — ou de vida em vida, melhor dizendo.
“Não exatamente. Diferente daquelas almas que abandonam suas memórias pela facilidade de subir, os peregrinos não abandonam uma única memória sequer. São conhecidos por sempre fazerem as transições com as almas intactas. Sinceramente, um ato louvável.” O velho deu um “joinha” mental a todos os peregrinos.
Christopher agradeceu mentalmente pela boa notícia: era bom saber que seu pai tinha todas as lembranças bem guardadas. Assim, seria muito melhor ver a reação dele quando Christopher chegasse acertando uma voadora com os dois pés no peito daquele cretino!
Focando novamente nos assuntos principais com os quais precisava se preocupar no momento, Christopher se endireitou. Precisava saber o que acontecera com a irmã, como ela havia morrido… Sentia que fora culpa dele ela estar sozinha. Não conseguiria olhar nos olhos de Katrina no décimo quarto degrau sem respostas.
“Velho, essa caixa… minha irmã também a ativou?”
“Sim.”
“E o que aconteceu?”
“Nada.”
Nada acontecera depois que Katrina ativou a caixa. O que poderia acontecer com Christopher? Se era um presente deixado pelo pai, não achava que fosse uma pegadinha. Voltou-se para o cubo novamente.
“Analisando alma… Registro de parentesco confirmado. Você gostaria de se conectar ao Sistema de Peregrinação?”
“Sim.”
“Conectando…”
Christopher aguardou surgir algo à sua frente ou sentir alguma alteração, mas se passaram alguns segundos e nada ocorreu.
“Conectado. Escolha um nome de usuário.”
“Chris.”
Uma tela azul apareceu em sua visão com algumas informações. O que era aquilo?
“O nome de usuário ‘Chris’ foi selecionado.”
“Calculando características…”
Nome de usuário: Chris
Memória: Avaliada em 16 anos
Alma: Comum (primeira viagem)
Habilidades: 0
Pontos de Alma: 100
“Para que serve tudo isso?”
“Aviso: O Sistema de Peregrinação atua com o intuito de fornecer suporte para as almas. Além de guardar os registros das almas conectadas, o sistema protege as almas de ferimentos externos utilizando Pontos de Alma de acordo com o dano. O sistema também faz uso dos Pontos de Alma para fortalecer a alma, adquirir habilidades e, por último, forçar a reencarnação.”
Ao ouvir aquilo, o queixo de Christopher quase caiu. Que trapaça é essa?
O sistema podia fazer por ele praticamente o mesmo que o ser divino do quinto degrau fizera por sua mãe. Não só isso: podia adquirir habilidades e até forçar a reencarnação! Era assustador pensar em se matar, mas, se o sistema resolvesse essa questão, ele não teria complicações futuras.
Que maravilha! Com aquilo, Christopher poderia facilmente ir para a Terra, descobrir o que realmente acontecera com sua irmã e, depois, usar a reencarnação forçada para seguir rumo ao décimo quarto degrau atrás de sua família. Pelo menos seu pai deixara algo útil para eles, mesmo sendo um babaca.
“Então está tudo pronto. Eu vou para o vigésimo degrau agora”, Christopher finalmente decidiu.
“Certo. Espero que reencarne próximo da sua última vida. Até mais”, disse o velho, já se despedindo.
“Tem isso também, né…” Christopher se esquecera de que poderia acabar reencarnando em qualquer lugar da Terra. Se voltasse e saísse em outro país, quanto tempo levaria para encontrar pistas sobre a irmã? Ele já não sabia o que fazer; deveria desistir da busca?
“AVISO: Durante a análise, foi constatado que o corpo da última reencarnação do usuário ainda pode ser restaurado em 30% mediante o gasto de 50 Pontos de Alma. Gostaria de restaurar o corpo durante a reencarnação?”
“SIMMM!” Christopher respondeu, sorridente.
“Você usou 50 Pontos de Alma. Chegue ao andar da última reencarnação em 30 minutos.”
Christopher percebeu que tinha pouco tempo: precisava subir imediatamente!
“Então… até mais, velho! Foi legal te conhecer. Desculpa qualquer coisa.”
“Some, pirralho! Vê se não morre!” O velho o afugentou; pelo visto, não gostava de despedidas.
Christopher se preparou para subir. Olhou para a imponente escadaria dourada. Cada degrau era monumental e cabiam facilmente centenas de pessoas. Ele só tinha 30 minutos para alcançar o 20° degrau.
Ao dar o primeiro passo naquele que seria seu caminho de volta, sentiu a pressão do 25° degrau o abater. Era uma dor excruciante. O sistema não deveria ajudar neste momento? Não está fazendo nada… Quebrou?
Christopher cerrou os dentes e continuou: teria de confiar na própria força por enquanto. Ao pisar no 24° degrau, ouviu o anúncio:
“Aviso: Sistema de Proteção da Alma ativado.”
“Até que enfim…”
“Você gastou 10 pontos.”
“Lascou!”
Christopher não sabia quanta pressão as escadas exerceriam, mas agora tinha uma certeza: os pontos que possuía não seriam suficientes para toda a subida. Felizmente, ele contava com a bênção do ser divino, embora não tivesse ideia de como ativá-la. Tudo o que podia fazer era continuar subindo.
A cada degrau, o custo aumentava: no primeiro, 10 pontos; no segundo, 15; no terceiro, 20. Agora restavam apenas 5 pontos, e ainda faltavam 3 degraus para o seu objetivo. O coração de Christopher estremeceu só de imaginar a dor de encarar os degraus sem auxílio.
Ao alcançar o 22° degrau, esperava receber uma enxurrada de dor. No entanto, uma aura de luz dourada vinda do céu o banhou, dissipando qualquer pressão.
“Isso ajuda muito!” Christopher pôde respirar novamente.
Acelerou o passo até o 20° degrau. Ao chegar, o sistema acionou novamente:
“Você deseja reencarnar neste degrau?”
“Sim.”
“Restauração concluída… Reencarnando.”