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Capítulo 4: Quer Permanecer - Parte 1

aleroz

Conteúdo da publicação

A manhã chegou fria.

Clarisse abriu os olhos devagar.

Ainda não estava acordada completamente.

O vento atravessava o quarto.

As cortinas batiam contra a parede em pequenos golpes secos.

Ela ficou alguns segundos ouvindo.

Vento.

Então percebeu.

A janela.

O som da chuva da noite anterior voltou na memória.

Ela pegou o celular.

06:05.

A tela iluminou seu rosto cansado.

Ela fechou os olhos novamente.

Por um instante, tentou voltar a dormir.

Até lembrar.

As rosas.

Clarisse levantou rápido demais.

Correu pelo corredor.

O chão estava molhado.

Seu pé escorregou.

Ela quase caiu.

Quando chegou à sala, parou.

O mundo ficou em silêncio.

A janela estava aberta.

A chuva tinha entrado.

A sala estava coberta de água e lama.

E no canto...

O vaso.

Caído.

As rosas espalhadas pelo chão.

Encharcadas.

Quebradas.

— Não...

Ela se aproximou.

— Não, não, não...

Pegou o vaso com as duas mãos.

Como se segurasse alguém.

— Minha plantinha...

Mas era tarde.

O barro escorria entre seus dedos.

O vaso escapou.

Caiu.

O som da cerâmica quebrando pareceu maior que a própria sala.

As rosas estavam ali.

Separadas.

Sem força.

Sem vida.

Clarisse caiu de joelhos.

Pegou uma delas.

— Não morre...

Sua voz tremia.

— Iago... Guillian... Anton...

Ela falava os nomes como uma oração.

Como se cada nome fosse uma raiz tentando prender aquilo no mundo.

Levou as rosas para a pia.

Abriu a torneira.

Tentou limpar.

Tentou salvar.

Mas quanto mais mexia, mais pétalas caiam.

Quanto mais tentava juntar, mais se desfazia.

Os espinhos entravam em sua pele.

Pequenas gotas vermelhas misturavam-se à água.

Ela apertou as rosas.

— Não...

Mais um espinho.

Mais dor.

Ela continuou.

— Burra...

Outro espinho.

— Burra...

As lágrimas começaram.

— Eu sempre estrago tudo...

Ela olhou para as próprias mãos.

Sangue.

Cortes.

As rosas destruídas.

Tudo aquilo que ela tentou proteger estava indo embora.

E pela primeira vez ela percebeu:

Os espinhos nunca odiaram ela.

Nunca quiseram machucá-la.

Eles apenas eram espinhos.

Ela caiu no chão da cozinha.

Abraçou as rosas quebradas.

O sangue escorria pelos dedos.

O frio da manhã entrou pela janela aberta.

E Clarisse gritou.

Os espinhos não julgam. Só machucam.


***

Na galeria.

Clarisse está sentada na mesa, rabiscando em silêncio.

As mãos estão enfaixadas.

Alguns arranhões vermelhos ainda aparecem entre os curativos.

Ela está séria, distante.

Linda se aproxima e coloca um café sobre a mesa.

— Obrigada, Linda.

Linda observa por alguns segundos.

— Quer conversar?

Clarisse continua olhando para o papel.

— Não.

A resposta sai seca.

Linda olha para as mãos dela.

— Mas essas marcas...

Clarisse tenta segurar.

Não consegue.

Os olhos enchem de lágrimas.

— Eu não consigo cuidar de rosas.

Silêncio.

— Se eu não sou capaz de cuidar de rosas... imagina ter filhos. Imaginar cuidar deles.

Linda não responde.

Apenas se aproxima e abraça Clarisse.

Nenhuma das duas fala.

Apenas ficam ali.

Depois de alguns segundos, Linda se afasta.

— Eu não vou te perguntar nada.

Coloca a mão sobre a mesa.

— Só toma o café que eu acabei de fazer.

Clarisse pega a caneca com as duas mãos enfaixadas.

A caneca do Garimpos Discos.

O presente de Anton.

Ela segura como se fosse algo frágil.

— Eu estou com um problema.

Pausa.

— Mas vou resolver hoje.

Linda observa.

— São os três?

Clarisse balança a cabeça.

— Não.

Olha para a caneca.

— Eles são demais...

Linda sorri levemente.

— Eu sei.

Ela olha ao redor da galeria.

— Mas não dá para esconder, sabe?

Clarisse olha para ela.

— A galeria inteira percebeu vocês. Não pelo que vocês falam... mas pelo jeito que vocês olham uns para os outros.

Linda se aproxima da janela.

Fica observando a rua.

— Às vezes eu sinto uma inveja absurda dessa juventude.

Clarisse escuta.

— Olha para vocês...

Linda aponta discretamente para fora.

— Cheios de sonhos, medo, erros, ansiedade...

Pausa.

— E eles três ainda estão procurando alguma coisa.

Ela respira.

— Mas, ao mesmo tempo, parecem ter encontrado algo que muita gente passa a vida inteira tentando achar.

Clarisse fica em silêncio.

— O que vocês têm...

Linda olha para ela.

— A maioria das pessoas nunca consegue.

Pausa.

— É tanto afeto falso, tanto carinho com açúcar, que uma hora enjoa.

Ela sorri triste.

— A gente passa a vida tentando ser amado. Fazendo o máximo. Dando tudo.

Olha novamente pela janela.

— E mesmo assim, às vezes, parece que não é suficiente.

Silêncio.

— Mas vocês três são diferentes.

Linda volta para a mesa.

— Só não esquece de uma coisa...

Ela toca a caneca.

— Até as coisas mais bonitas precisam enfrentar o tempo.

Pausa.

— O tempo vence todo mundo.

Clarisse abaixa os olhos.

Linda sorri.

— Ninguém muda. Só acrescenta.

— Mas, por enquanto... fica.

— Fica e suporta.

Clarisse olha para o relógio de ponteiros na parede.

Fica observando.

O movimento dos segundos.

Rápidos demais.

O tempo vence todo mundo.

Linda percebe.

— Quer folgar hoje?

Clarisse olha para ela.

— Você volta segunda-feira.

Clarisse respira fundo.

— Não precisa.

Pausa.

— Eu vou resolver hoje.

Linda sorri.

— Isso.

Ela pega a xícara.

— Coragem é isso. Seguir mesmo com medo.

Olha para Clarisse.

— Para o que der e vier.

Pausa.

— No fim, dando certo ou não, você ganha tempo. E quando resolve algo que estava preso dentro da gente... fica mais leve.

Linda se levanta.

— Eu não quero saber o que está acontecendo. É muito íntimo.

Sorri.

— Mas se quiser conversar... eu estou aqui, tá?

As duas riem.

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Thoughts

  • Binho

    Seis e cinco da manhã 😩

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  • levantaTerra

    Lá no capítulo 2 era o Anton segurando rosa sem força nenhuma, e agora a Clarisse sozinha na pia apertando até sangrar. Faltou alguém do lado dela pra mostrar como se segura.

    Permalink

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