A manhã chegou fria.
Clarisse abriu os olhos devagar.
Ainda não estava acordada completamente.
O vento atravessava o quarto.
As cortinas batiam contra a parede em pequenos golpes secos.
Ela ficou alguns segundos ouvindo.
Vento.
Então percebeu.
A janela.
O som da chuva da noite anterior voltou na memória.
Ela pegou o celular.
06:05.
A tela iluminou seu rosto cansado.
Ela fechou os olhos novamente.
Por um instante, tentou voltar a dormir.
Até lembrar.
As rosas.
Clarisse levantou rápido demais.
Correu pelo corredor.
O chão estava molhado.
Seu pé escorregou.
Ela quase caiu.
Quando chegou à sala, parou.
O mundo ficou em silêncio.
A janela estava aberta.
A chuva tinha entrado.
A sala estava coberta de água e lama.
E no canto...
O vaso.
Caído.
As rosas espalhadas pelo chão.
Encharcadas.
Quebradas.
— Não...
Ela se aproximou.
— Não, não, não...
Pegou o vaso com as duas mãos.
Como se segurasse alguém.
— Minha plantinha...
Mas era tarde.
O barro escorria entre seus dedos.
O vaso escapou.
Caiu.
O som da cerâmica quebrando pareceu maior que a própria sala.
As rosas estavam ali.
Separadas.
Sem força.
Sem vida.
Clarisse caiu de joelhos.
Pegou uma delas.
— Não morre...
Sua voz tremia.
— Iago... Guillian... Anton...
Ela falava os nomes como uma oração.
Como se cada nome fosse uma raiz tentando prender aquilo no mundo.
Levou as rosas para a pia.
Abriu a torneira.
Tentou limpar.
Tentou salvar.
Mas quanto mais mexia, mais pétalas caiam.
Quanto mais tentava juntar, mais se desfazia.
Os espinhos entravam em sua pele.
Pequenas gotas vermelhas misturavam-se à água.
Ela apertou as rosas.
— Não...
Mais um espinho.
Mais dor.
Ela continuou.
— Burra...
Outro espinho.
— Burra...
As lágrimas começaram.
— Eu sempre estrago tudo...
Ela olhou para as próprias mãos.
Sangue.
Cortes.
As rosas destruídas.
Tudo aquilo que ela tentou proteger estava indo embora.
E pela primeira vez ela percebeu:
Os espinhos nunca odiaram ela.
Nunca quiseram machucá-la.
Eles apenas eram espinhos.
Ela caiu no chão da cozinha.
Abraçou as rosas quebradas.
O sangue escorria pelos dedos.
O frio da manhã entrou pela janela aberta.
E Clarisse gritou.
Os espinhos não julgam. Só machucam.
***
Na galeria.
Clarisse está sentada na mesa, rabiscando em silêncio.
As mãos estão enfaixadas.
Alguns arranhões vermelhos ainda aparecem entre os curativos.
Ela está séria, distante.
Linda se aproxima e coloca um café sobre a mesa.
— Obrigada, Linda.
Linda observa por alguns segundos.
— Quer conversar?
Clarisse continua olhando para o papel.
— Não.
A resposta sai seca.
Linda olha para as mãos dela.
— Mas essas marcas...
Clarisse tenta segurar.
Não consegue.
Os olhos enchem de lágrimas.
— Eu não consigo cuidar de rosas.
Silêncio.
— Se eu não sou capaz de cuidar de rosas... imagina ter filhos. Imaginar cuidar deles.
Linda não responde.
Apenas se aproxima e abraça Clarisse.
Nenhuma das duas fala.
Apenas ficam ali.
Depois de alguns segundos, Linda se afasta.
— Eu não vou te perguntar nada.
Coloca a mão sobre a mesa.
— Só toma o café que eu acabei de fazer.
Clarisse pega a caneca com as duas mãos enfaixadas.
A caneca do Garimpos Discos.
O presente de Anton.
Ela segura como se fosse algo frágil.
— Eu estou com um problema.
Pausa.
— Mas vou resolver hoje.
Linda observa.
— São os três?
Clarisse balança a cabeça.
— Não.
Olha para a caneca.
— Eles são demais...
Linda sorri levemente.
— Eu sei.
Ela olha ao redor da galeria.
— Mas não dá para esconder, sabe?
Clarisse olha para ela.
— A galeria inteira percebeu vocês. Não pelo que vocês falam... mas pelo jeito que vocês olham uns para os outros.
Linda se aproxima da janela.
Fica observando a rua.
— Às vezes eu sinto uma inveja absurda dessa juventude.
Clarisse escuta.
— Olha para vocês...
Linda aponta discretamente para fora.
— Cheios de sonhos, medo, erros, ansiedade...
Pausa.
— E eles três ainda estão procurando alguma coisa.
Ela respira.
— Mas, ao mesmo tempo, parecem ter encontrado algo que muita gente passa a vida inteira tentando achar.
Clarisse fica em silêncio.
— O que vocês têm...
Linda olha para ela.
— A maioria das pessoas nunca consegue.
Pausa.
— É tanto afeto falso, tanto carinho com açúcar, que uma hora enjoa.
Ela sorri triste.
— A gente passa a vida tentando ser amado. Fazendo o máximo. Dando tudo.
Olha novamente pela janela.
— E mesmo assim, às vezes, parece que não é suficiente.
Silêncio.
— Mas vocês três são diferentes.
Linda volta para a mesa.
— Só não esquece de uma coisa...
Ela toca a caneca.
— Até as coisas mais bonitas precisam enfrentar o tempo.
Pausa.
— O tempo vence todo mundo.
Clarisse abaixa os olhos.
Linda sorri.
— Ninguém muda. Só acrescenta.
— Mas, por enquanto... fica.
— Fica e suporta.
Clarisse olha para o relógio de ponteiros na parede.
Fica observando.
O movimento dos segundos.
Rápidos demais.
O tempo vence todo mundo.
Linda percebe.
— Quer folgar hoje?
Clarisse olha para ela.
— Você volta segunda-feira.
Clarisse respira fundo.
— Não precisa.
Pausa.
— Eu vou resolver hoje.
Linda sorri.
— Isso.
Ela pega a xícara.
— Coragem é isso. Seguir mesmo com medo.
Olha para Clarisse.
— Para o que der e vier.
Pausa.
— No fim, dando certo ou não, você ganha tempo. E quando resolve algo que estava preso dentro da gente... fica mais leve.
Linda se levanta.
— Eu não quero saber o que está acontecendo. É muito íntimo.
Sorri.
— Mas se quiser conversar... eu estou aqui, tá?
As duas riem.
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