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Polly & Jeremy - Parte 8

aleroz

Conteúdo da publicação


O que o coração já sabe

Mais tarde, quando Jeremy chegou em casa, encontrou os próprios desenhos espalhados pelo chão.

Havia folhas por toda parte. Algumas estavam amassadas, outras rasgadas. O cheiro forte de álcool impregnava a sala.

Sua mãe estava ali.

Ela segurava uma garrafa em uma das mãos enquanto olhava para os desenhos como se fossem alguma coisa suja que precisava desaparecer.

Jeremy parou na porta.

— Mãe...

Ela não respondeu.

Seu pai apareceu atrás dele e segurou seus braços.

— Não! — Jeremy tentou se soltar. — Não faz isso!

Sua mãe despejou álcool sobre os desenhos.

— Esses desenhos só fazem mal a você, Jeremy.

— Não!

— Essa sua companhia também não faz bem. Aquela menina é uma influência ruim.

Jeremy se debateu nos braços do pai.

— Não fala dela!

— Você não vai mais vê-la — disse a mãe. — Nunca mais.

Então ela riscou o fósforo.

O fogo começou pequeno.

Uma folha se contorceu nas chamas. Depois outra.

Jeremy parou de lutar.

Apenas olhou.

Seu desenho favorito começou a escurecer pelas bordas. O papel se enrolou lentamente, transformando em cinzas aquilo que ele havia criado.

Ele chorou.

Chorou como se estivesse vendo alguma parte de si mesma morrer.

MULHER (V.O.)

Às vezes, Jeremy deixava de tomar seus remédios. Outras vezes, mergulhava ainda mais fundo na própria depressão e desenhava.

Para ele, desenhar era uma forma de respirar.

Era onde conseguia colocar para fora aquilo que não conseguia dizer.

E, naquela noite, até isso lhe foi arrancado.


No dia seguinte, Jeremy estava sozinho na sala de aula.

O lápis se movia sobre uma folha de papel.

Ele desenhava em silêncio.

A professora falava ao fundo, mas sua voz parecia distante.

MULHER (V.O.)

É raro alguém escapar dessa prisão.

Poucos encontram ferramentas para sair dela.

Jeremy encontrou as suas na imaginação, nos lápis, no papel e nos sonhos.

Cada vez que desenhava, uma pequena luz parecia surgir diante dele, indicando um caminho.

Mas é difícil encontrar essas ferramentas quando justamente aqueles que deveriam protegê-lo são os mesmos que as arrancam de suas mãos.

Seus próprios pais.


Às vezes, Jeremy dizia para Pollyanna não chegar perto de sua casa.

Dizia que o mal morava lá.

Por vezes, ela pensava que ele simplesmente não gostava dela.

Mas não era isso.

Era medo.

Medo de que ela descobrisse tudo.

Medo de que o desprezasse.

Medo de vê-la olhando para ele da mesma maneira que tantas outras pessoas já haviam olhado.


A cada semana, Jeremy aparecia na escola com novas marcas.

Queimaduras de cigarro.

Manchas roxas.

Ferimentos escondidos sob as roupas.

Às vezes, simplesmente não aparecia.

E ninguém precisava perguntar por quê.

No recreio, Pollyanna encontrou Jeremy no pátio.

Ele tentava esconder as marcas no corpo puxando as mangas da camisa.

— Oi... — disse ele.

— Oi.

Ela o observou por alguns segundos.

— O que aconteceu?

Jeremy desviou o olhar.

— Esquece.

— Por favor, Jeremy. Diz a verdade.

Ele ficou em silêncio.

Então respirou fundo.

— Minha mãe queimou meus desenhos.

Pollyanna arregalou os olhos.

— Como assim?

— Ela queimou.

— Ela não podia ter feito isso!

Jeremy abaixou a cabeça.

— Queimou... até aquele desenho.

Pollyanna ficou quieta por um instante.

Depois se aproximou.

— Não se preocupa.

Jeremy levantou os olhos.

— Eu posso fazer outro para você.

Ele sorriu fracamente.

— Pode?

— Posso.

Ela segurou seu braço.

— Quer ir lá em casa hoje à tarde?

Jeremy pensou por alguns segundos.

— Sim...

MULHER (V.O.)

Jeremy tinha um jeito simples de existir.

E, sem perceber, ele continuava me enchendo de esperança, amor e companhia.

Nunca dissemos um ao outro que estávamos juntos.

Não era necessário.

Estava em nossos rostos.

Estava na maneira como nos olhávamos.

Estava nas coisas que fazíamos sem precisar explicar.

O que sentíamos já estava ali, mesmo sem uma única palavra.


Naquela tarde, Jeremy foi até a casa de Inês e Pollyanna.

Inês estava na calçada conversando com uma vizinha.

Quando a conversa terminou, a mulher se despediu e foi embora.

Pollyanna observou a avó entrar.

— Vó, sobre o que você estava conversando com a vizinha?

— Sobre os documentos necessários para a nossa casa.

— Mas por que vocês não entraram para conversar?

Inês tirou os sapatos antes de entrar.

— Ela estava com muita pressa. Precisava cuidar da filha mais nova.

Pollyanna fez uma expressão desconfiada.

— Duas horas de conversa?

Inês olhou para ela.

— Polly.

— O quê?

— Quero que você arrume seu quarto.

Pollyanna olhou para Jeremy.

— Meu quarto?

— Está uma bagunça. E trate de se livrar daquela sua quinquilharia. Tem coisa ali que não presta mais.

Ela apontou para Jeremy.

— E você, Jeremy, ajude ela.

— Eu?

— Você mesmo.

Inês pegou a bolsa.

— Tenho alguns problemas para resolver. Vou sair e volto às sete da noite.

Ela apontou um dedo para os dois.

— E juízo!

A porta se fechou.

Pollyanna esperou alguns segundos.

Então segurou Jeremy pelo braço.

— Vem comigo até meu quarto!


O quarto de Pollyanna parecia ter sido atingido por uma pequena tempestade.

Roupas estavam espalhadas pelo chão. Havia caixas, livros, papéis e aparelhos de som antigos empilhados pelos cantos.

Jeremy olhou ao redor.

— Você chama isso de quarto?

— Eu chamo de organização criativa.

— Parece um lixão.

Pollyanna pegou uma almofada e jogou nele.

— Cala a boca.

Os dois riram.

Depois de algum tempo, sentaram no chão em meio à bagunça.

Pollyanna colocou os fones de ouvido.

Fechou os olhos.

Ficou alguns segundos simplesmente sentindo a música.

Então tirou um dos fones e colocou no ouvido de Jeremy.

Ele ficou quieto.

Pollyanna apenas o observou.

Jeremy começou a sorrir.

Quando a música terminou, ele retirou o fone.

— Que música bonita.

— Gostou?

— Muito.

Pollyanna apoiou o queixo nos joelhos.

— O que você entendeu dela?

Jeremy pensou.

— Parece uma mistura de paixão, altruísmo e uma espécie de melancolia alegre.

Pollyanna sorriu.

— É... né?

— Um amor com paixão. Um relacionamento que não começa em festa e também não termina em festa.

Ela o encarou.

— Legal, né?

— É.

— E o que você sente?

Jeremy ficou confuso.

— Bem... e você?

— Não, eu sei o que eu sinto.

Ela respirou fundo.

— Quero saber o que você sente.

Jeremy a encarou.

— Sobre a música?

— Não.

Silêncio.

Pollyanna começou a gaguejar.

— O que você sente quando... quando... e...

Ela fechou os olhos por um instante.

— Por que eu estou apaixonada por você?

Jeremy ficou parado.

Então sorriu.

— É, né?

Pollyanna abriu os olhos.

— É, né?

Jeremy continuou olhando para ela.

Pollyanna ficou vermelha.

— Para com isso! Seu bobo!

Jeremy riu.

— Bem, eu...

Ela pegou uma camiseta do chão e jogou nele.

— Não!

— Espera! Deixa eu explicar!

Outra camiseta voou.

— Não quero ouvir!

Pollyanna correu para a porta.

Jeremy se levantou e tentou alcançá-la.

Ela tropeçou.

Ele a segurou antes que caísse e os dois acabaram no chão.

Por alguns segundos, ficaram imóveis.

Jeremy olhou para ela.

— Eu estou apaixonado por você.

Pollyanna fez uma careta.

— Mariquinha!

Jeremy riu.

— Bruxa!

Ela começou a rir também.

Então os dois ficaram em silêncio.

Olharam um para o outro.

E se beijaram.

Foi um beijo simples.

Sem pressa.

Sem grandes promessas.

Apenas a confirmação de algo que os dois já sabiam.

MULHER (V.O.)

Foi a primeira vez que dissemos aquelas palavras um ao outro.

O beijo não criou o que sentíamos.

Apenas deu um nome ao que já existia.

Era como um contrato silencioso entre nossos sentimentos.

Agora só precisávamos deixar nossas mentes aceitarem aquilo que nossos corações já sabiam.

Eles permaneceram deitados no chão, entre roupas limpas e sujas, rindo baixo, conversando, trocando pequenos gestos de carinho.

O tempo passou sem que percebessem.


Quando Inês voltou, já passava das oito.

Na rua, encontrou Jeremy saindo de bicicleta.

Ele levantou a mão e acenou.

— Tchau, dona Inês!

— Tchau, Jeremy!

Ele pedalou para longe.

Inês entrou em casa.

Parou diante do quarto de Pollyanna.

Piscou.

O quarto estava arrumado.

— Milagre — murmurou.

Pollyanna apareceu atrás dela.

— Vó?

— Hm?

— Jeremy já foi?

— Foi. Estava de bicicleta.

Pollyanna correu até o quarto.

Sobre a cama estava o desenho que Jeremy havia feito dela.

Ela o pegou.

Ficou olhando por alguns segundos.

Depois encontrou uma caneta e escreveu no verso:

“Pra você lembrar de mim como eu sou com você.
Polly.”

Ela sorriu.

— Vó?

— O quê?

Pollyanna já estava pegando a bicicleta.

— Tenho que sair.

— Agora?

— É rapidinho. Já volto.

Inês cruzou os braços.

— Espera até amanhã. Para que essa pressa?

Pollyanna abriu a porta.

— Depois te conto, vó!

Ela se virou e mandou um beijo.

— Beijo!

E saiu correndo.

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Thoughts

  • Marlene

    A dona Inês a sair às pressas e a mandar arrumar o quarto, com duas horas de conversa com a vizinha pelo meio, aquilo cheira-me a sarilho com a casa. Se calhar os documentos não estão assim tão em ordem.

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  • MarcosVinicius

    Queimadura de cigarro toda semana, manga puxada no recreio, e a professora falando lá no fundo como se nada. O que mais pesa nesse capítulo é a escola inteira enxergando o Jeremy e ninguém atravessando a rua até a casa dele. Desconfio que a Polly vai acabar sendo o único adulto da história, sem ter idade pra isso.

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