O OLHO ESQUERDO
Mais tarde, às cinco da tarde, Jeremy Valle chegou em casa usando as mesmas roupas com que havia ido ao colégio.
Estavam sujas.
Ele parou diante da casa.
Seu pai o esperava do lado de fora.
Gilberto Valle tinha um metro e oitenta de altura, cem quilos, cabelos negros com pouquíssimos fios grisalhos e quarenta e nove anos. Era um homem rude. Vestia roupas de mestre de obras, rasgadas e cobertas de sujeira.
Na mão, segurava um cinto.
Assim que viu o filho, Gilberto se aproximou.
Estava bêbado.
— Já pra dentro, seu animal imundo!
Jeremy não respondeu.
Gilberto o atingiu ainda na porta de casa.
A fivela do cinto acertou seu rosto e deixou uma marca perfeita sobre o olho esquerdo.
— Seu burro! Estúpido! Retardado! Como você some assim?
Jeremy permaneceu imóvel.
Então Joanna Valle apareceu.
Tinha trinta e cinco anos, um metro e cinquenta de altura, cinquenta quilos, cabelos castanhos longos, olhos negros e uma pele branca, quase pálida demais.
Era a mãe de Jeremy.
E ele era seu único filho.
Joanna entrou na frente do garoto.
— Já chega, Gil. Pare!
Gilberto olhou para ela com raiva.
— Esse moleque puxou você. Fraco como uma bichinha!
Joanna não recuou.
— Sai daqui. Você está bêbado!
Gilberto apontou para Jeremy.
— Leva esse moleque pra dentro.
Joanna segurou o filho e o levou para dentro de casa.
Do lado de fora, os gritos haviam chamado a atenção da vizinhança. Algumas pessoas saíram de suas casas para descobrir o que estava acontecendo. Outras apenas observavam pelas janelas.
Gilberto percebeu.
— Nunca viram, não? Vão para suas casas, seus fofoqueiros de merda!
Entrou em casa e bateu a porta.
O silêncio que veio depois parecia ainda mais pesado.
Por que somos tão violentos e cruéis com aqueles que estão mais próximos de nós?
Talvez porque sejam justamente eles que conheçam nossas fraquezas.
O que nos torna menos violentos e cruéis é reconhecer nossas próprias emoções.
Mas isso não é fácil.
Reconhecer o que sentimos exige olhar para dentro.
E algumas pessoas preferem destruir aquilo que não conseguem compreender dentro de si.
Nos dias seguintes, Gilberto passou a sair mais cedo de casa junto com Joanna.
Jeremy ficava sozinho.
Certa manhã, enquanto os pais estavam fora, ele entrou no quarto deles.
Olhou para o armário do pai.
Subiu cuidadosamente.
Mexeu entre algumas coisas escondidas até encontrar o que procurava sem saber exatamente o que procurava.
Uma arma.
E algumas caixas de munição.
Jeremy ficou olhando para ela.
Tirou-a do lugar.
Segurou a arma com as duas mãos e apontou para o espelho.
Por alguns segundos, imaginou que estava atirando.
Um.
Dois.
Três.
Depois baixou a arma.
Olhou novamente para as balas.
Havia mais de sessenta e oito.
Jeremy pegou uma delas.
Colocou no bolso.
E guardou a arma novamente.
Mais tarde, no colégio, Jeremy sentou-se no fundo da sala.
Usava óculos escuros.
Tentava escondê-los atrás dos cabelos e permanecer o mais invisível possível.
A aula terminou.
Antes do recreio, a professora Angela começou a chamada.
— Vinte e dois. Leonardo?
— Presente!
— Vinte e três. Kátia?
— Presente!
Angela continuou.
— Vinte e quatro. Jeremy?
A sala inteira começou a rir.
Jeremy estava distraído.
A professora olhou para os alunos.
— Parem de rir. Isso é sério!
Ninguém parou.
— Jeremy? Jeremy? — chamou ela, já sem paciência. — Olha você aí no fundo! Por que está usando óculos escuros dentro da sala de aula? Tire-os. Agora!
Jeremy permaneceu em silêncio.
Apenas olhou para ela.
A professora Angela se levantou e caminhou até sua mesa.
Antes que Jeremy pudesse reagir, ela arrancou os óculos de seu rosto.
E parou.
Seu olhar mudou imediatamente.
Havia uma marca perfeitamente desenhada pela fivela do cinto sobre o olho esquerdo de Jeremy.
— Meu Deus... o que é isso?
Um dos alunos respondeu:
— Levou uma surra do macho dele!
Outro completou:
— Também, o pai dele bebe pra caralho!
A sala explodiu em risadas.
Jeremy abaixou os olhos.
A professora olhou para os alunos.
— Já chega! Parem!
Mas as risadas continuaram.
O que nos une mais pela motivação é o próprio ódio.
Se você odeia alguém, talvez seja porque odeia alguma coisa nessa pessoa que também existe em você.
O ódio sempre cerca aquilo que é diferente.
Odiamos porque não entendemos.
E não entendemos porque não somos ensinados a compreender aquilo que é diferente.
Jeremy se levantou.
Saiu correndo da sala.
Os alunos riram ainda mais.
Alguns começaram a jogar papéis nele enquanto ele atravessava a porta.
Então o sinal do recreio tocou.
Jeremy foi para o lugar mais afastado que encontrou.
Atrás de um velho muro coberto por vegetação, havia pequenos buracos entre os tijolos.
Ele se sentou no chão.
Ali ninguém podia vê-lo.
Ou pelo menos era o que esperava.
Por alguns minutos, ficou sozinho.
Então um pequeno pedaço de papel surgiu por um dos buracos.
Jeremy olhou para ele.
Pegou.
A letra era pequena e extremamente feminina.
Ele leu com dificuldade.
Quer ser meu amigo?
Sim ou Sempre.
De: sua nova amiga Polly.
Obs.: não vale responder “ou”.
Jeremy ficou olhando para o papel.
Uma caneta apareceu pelo mesmo buraco.
Ele pegou.
Pela primeira vez naquele dia, sorriu.
Escreveu:
Sim.
Devolveu o papel.
Pouco depois, outro bilhete apareceu.
Podemos sair desse muro?
Obs.: responda atrás do bilhete.
Jeremy virou o papel.
Escreveu:
Não posso. Estou com o rosto marcado.
Do outro lado do muro, Pollyanna Côrtes leu os garranchos de Jeremy com dificuldade.
Mesmo assim, conseguiu entender.
Pegou a caneta e respondeu:
Por quê?
Agora somos irmãos de marca do olho esquerdo.
Jeremy leu.
Ficou alguns segundos olhando para aquelas palavras.
Então se levantou.
Saiu de trás do muro.
E encontrou Pollyanna do outro lado.
Jeremy sorriu.
Ela o observou por alguns segundos.
— Você é estranho, caladão e misterioso! O que você sabe fazer?
Jeremy hesitou.
— Eu sei...
— Nossa, lembrei! — interrompeu Pollyanna. — Hoje é sexta!
Ela pareceu pensar em alguma coisa.
— Preciso de uma ajuda.
Jeremy olhou para ela.
— O que seria?
— Tenho que levar uma coisa ao Parque Vale às oito da noite. Bora?
Jeremy ficou confuso.
— E...
Antes que pudesse terminar, Pollyanna segurou seu braço e o puxou para outro lado do recreio.
Os dois foram até um canto mais escondido.
Pollyanna parou.
Do outro lado, estava Miguel Fangio.
Ela ficou observando o garoto.
Jeremy percebeu.
Pollyanna não disse nada.
Apenas continuou olhando para Miguel, intrigada.
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