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A PROMESSA

O que mais me encantava em Jeremy?

Ele nunca tentou me impressionar. Nunca me tocou sem motivo. Nunca tentou transformar nossa amizade em alguma coisa que ela não era.

Ele só procurava companhia.

Nossa solidão gritava tão alto que, de algum jeito, ficamos surdos para o resto do mundo. Já não ouvíamos as vozes ao redor, os insultos, as portas batendo, os adultos discutindo. Só conseguíamos ouvir a batida dos nossos próprios corações jovens.

Despertamos um afeto. Um sentimento bonito, companheiro.

Não nos tratávamos por obrigação. Muito menos por pena.

Tratávamos um ao outro como seres humanos.

E, talvez por isso, carregávamos todos os sentimentos do mundo.

Na segunda-feira de manhã, durante o recreio, Miguel Fangio apareceu.

Ele vinha acompanhado de alguns garotos, como sempre. Aproximou-se de Jeremy com aquele sorriso que parecia existir apenas para provocar medo.

— Então a mariquinha achou uma manicure agora!

Pollyanna se colocou imediatamente na frente de Jeremy.

— Sai daqui, seu bosta! Deixa ele em paz!

Miguel riu.

— Quer dizer que agora o retardado tem uma bruxa para proteger?

Pollyanna não recuou.

Jeremy permaneceu atrás dela.

Por vezes, eu sentia que Jeremy tinha medo de Miguel. Não era difícil entender por quê. Miguel era muito mais forte do que ele.

Mas havia também outra coisa.

Jeremy odiava Miguel.

Odiava de um jeito que assustava até a mim.

Às vezes, ele queria derrubá-lo no chão. Queria sentir o gosto do sangue na boca e acreditar que aquele sangue seria o gosto da derrota de Miguel.

Mas coragem e desespero são coisas diferentes.

E eu sabia que aquilo não terminaria bem.

Um dia...

— Bruxa manchada escrota! — Miguel gritou.

Os outros garotos começaram a cercá-los.

— Briga!

— Briga!

— Briga!

O coro cresceu ao redor deles.

Jeremy olhou para Miguel.

E, antes que alguém pudesse entender o que estava acontecendo, deu-lhe um chute entre as pernas.

Miguel caiu.

Pollyanna agarrou Jeremy pelo braço.

— Corre!

Os dois dispararam pelo pátio, atravessaram a saída do colégio e continuaram correndo até não ouvirem mais os gritos dos garotos atrás deles.

Só pararam quando chegaram a um ferro-velho.

Esconderam-se sobre o teto de alguns carros antigos, enferrujados e abandonados. Permaneceram ali até Miguel e os outros desistirem da perseguição.

Quando o silêncio voltou, ficaram deitados sobre o metal quente, olhando para o céu.

Por alguns minutos, nenhum dos dois falou.

Então Pollyanna perguntou:

— Como são seus pais?

Jeremy continuou olhando para cima.

— Nem queira saber.

Ela se sentou, abraçando os próprios joelhos.

— Posso te contar um segredo?

Jeremy virou o rosto para ela.

— Pode.

— Você jura guardar?

Ele deu um pequeno sorriso.

— Para quem eu poderia contar? Todo mundo me odeia.

Pollyanna abaixou os olhos.

— Esquece.

— Conta.

Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— O que você sofre com sua família não é exatamente um segredo. A gente ouve as fofocas por aí. E quando eu olho para você... sinto que é verdade. Que seus pais não ligam muito para você.

Jeremy respirou fundo.

— A minha vida não é justa. Meus pais não são justos comigo.

Pollyanna olhou para ele.

— Com nenhum de nós.

Jeremy ficou em silêncio.

— Quem disse que a vida tem que ser justa? — continuou ela. — E sofrimento nenhum justifica nada.

Jeremy virou o rosto para ela.

— Diga isso para você mesma.

Pollyanna não respondeu.

— Às vezes... — Jeremy hesitou. — Às vezes eu tenho vontade de me matar.

Ela parou de respirar por um instante.

— E esse desejo cresce a cada dia.

Jeremy levou a mão ao bolso.

— Eu tenho até isso aqui.

Tirou de dentro uma bala de revólver.

Pollyanna encolheu o corpo imediatamente, escondendo o rosto entre os braços.

Quando levantou a cabeça, estava furiosa.

— Meu Deus... por favor! Você é muito burro! Seu idiota estúpido!

Jeremy segurava a bala entre os dedos.

— Seria melhor se eu morresse...

Pollyanna começou a chorar.

— Seu desgraçado egoísta!

Ela deu um soco no ombro dele e arrancou a bala de sua mão.

Jeremy ficou olhando para ela.

— Mas eu mudei de ideia.

— Filho da puta!

Ele respirou fundo.

Então sorriu, quase sem jeito.

— Existe alguém chorando por mim.

Pollyanna não conseguiu responder.

Os dois se abraçaram.

Foi um abraço longo, apertado, desesperado.

Ela chorava contra o ombro dele.

Depois de alguns segundos, Pollyanna se afastou apenas o suficiente para conseguir falar.

— Sabe qual é o meu segredo? E sabe por que eu estou aqui?

Jeremy permaneceu em silêncio.

— Minha mãe... — A voz dela falhou. — Minha mãe morreu de câncer, anos atrás.

Ela limpou as lágrimas com as costas da mão.

— E meu pai... aquele desgraçado abusava de mim quando eu era criança.

Jeremy ficou imóvel.

— Eu fugi dele anos atrás. Fugi com a minha avó. Viemos para longe.

Pollyanna voltou a chorar.

Jeremy a abraçou novamente.

Dessa vez, era ele quem tentava protegê-la.

— Hoje ninguém pode te fazer mal.

Ela fechou os olhos.

Jeremy ficou alguns segundos em silêncio.

Então disse:

— Você pode me contar uma das suas piadas horríveis?

Pollyanna soltou uma risada entre as lágrimas.

— Não me faça rir! Eu ainda estou com muita raiva de você!

Mas já estava sorrindo.

Por mais que eu o odiasse naquele momento, ele conseguiu me fazer rir.

E então eu passei a amá-lo.

Não sei exatamente quando aconteceu.

Talvez tenha sido naquele ferro-velho.

Talvez antes.

Talvez depois.

Nossa amizade poderia se transformar em algo maior, mas, desde aquele dia, eu nunca mais deixei de pensar nele.

Existem momentos da vida que parecem não ter sentido.

Momentos que Deus — ou o acaso — coloca diante de nós sem nenhuma explicação.

E, às vezes, é justamente nesses momentos que encontramos um significado capaz de mudar nossas vidas e a vida das pessoas que amamos.

Foi então que ouvimos um barulho.

Um pequeno grunhido vinha debaixo de um dos carros.

Pollyanna franziu a testa.

— O que é isso?

Jeremy se levantou.

— Parece um cachorrinho.

Desceu do carro e se ajoelhou no chão.

Pouco depois, voltou carregando uma pequena cadela.

Pollyanna abriu um sorriso.

— Dá ela para mim?

Jeremy olhou para o animal.

— É ela.

Pollyanna pegou a cachorrinha nos braços.

— Ela é lindinha, não é?

Jeremy observou os olhos do animal.

— Ela tem os seus olhos.

Pollyanna arregalou os próprios olhos, um de cada cor.

— Iguais?

— Iguais.

Ela aproximou o rosto da cachorrinha e ficou comparando os olhos das duas.

— É mesmo!

Sorriu.

— Ela vai se chamar Manna. Com dois enes!

A cachorrinha tinha o pelo malhado em tons de marrom e preto, lembrando uma pequena raposa felpuda.

Manna.

Foi assim que ela entrou em nossas vidas.


Os dias passaram.

Na sala de aula, Jeremy tentava acompanhar a explicação da professora enquanto tudo ao seu redor parecia perder a velocidade.

Ou talvez fosse o contrário.

As palavras no quadro se distorciam. As vozes se aceleravam. O tempo parecia correr depressa demais.

Pela janela, uma pequena aranha descia lentamente por sua teia.

Tudo passava rápido.

Menos ela.

A aranha continuava descendo, como se o mundo inteiro tivesse sido colocado em câmera lenta apenas para que ela pudesse chegar ao outro lado.

Então a sirene tocou.

Os alunos levantaram.

Jeremy guardou suas coisas e saiu.

Na porta do colégio, viu Miguel e seus amigos.

A perseguição começou novamente.

Jeremy correu.

E, mais uma vez, conseguiu escapar.


Manna crescia.

Já não era aquela pequena cachorrinha encontrada no ferro-velho. Agora corria pelo quintal da casa de Pollyanna entre os outros animais que ela havia recolhido das ruas.

Jeremy também aparecia cada vez mais por ali.

Certa tarde, saiu de casa para visitar Pollyanna.

O pai reclamou alguma coisa ao longe.

Jeremy não respondeu.

Continuou andando.

Quando chegou à casa de Pollyanna, encontrou-a no quintal com Manna.

Entrou pela porta dos fundos.

Pollyanna apareceu logo depois segurando uma pequena câmera de vídeo.

— Sorria! Vou te filmar!

Jeremy virou o rosto.

— Não, Polly! Para com isso.

— Por quê?

— Eu detesto você.

Pollyanna sorriu.

— Detesta nada. Se detestasse, por que estaria aqui comigo?

Jeremy tentou esconder o sorriso.

Não conseguiu.

Pollyanna também começou a sorrir.

E ficaram assim por alguns segundos, simplesmente olhando um para o outro.

Algumas horas passaram.

O sol começou a mudar de posição.

Mais tarde, os dois saíram para passear com Manna.

Inês acompanhou-os até a porta.

— Cuidado! Voltem antes de escurecer.

— Pode deixar, vó!

Pollyanna segurou a coleira.

Depois olhou para Jeremy.

— Vamos levar a Manna para passear agora? Vem comigo?

Jeremy se abaixou e fez carinho na cabeça da cachorrinha.

Manna abanou o rabo.

Ele levantou os olhos para Pollyanna.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Sim.

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