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O número vinte e quatro

Nascemos sem significado algum.

Talvez essa seja a nossa primeira e mais antiga condenação: chegar ao mundo sem saber por quê. Desde então, passamos a vida tentando encontrar algum sentido para aquilo que, talvez, nunca tenha tido um.

A vida seguirá sendo triste e rara, mesmo quando encontramos felicidade.

Às vezes ela se parece com um belo jardim. Tudo está no lugar. As flores abertas, o perfume no ar, a luz atravessando as folhas. Por um instante, acreditamos que aquilo pode durar para sempre.

Mas basta uma leve brisa.

E tudo pode ser destruído.

Por motivos pequenos — talvez até contornáveis — fui muitas vezes capaz de presenciar a vida em atos que pareciam impossíveis de narrar.

Pessoas entram e saem de nossas vidas. A maioria passa por nós sem deixar nada além de uma lembrança vaga. Algumas, porém, nos cativam. Dão significado aos nossos dias. Oferecem carinho. Respeito. Fazem-nos acreditar que talvez o mundo possa ser diferente.

E é justamente aí que mora uma de nossas maiores fraquezas.

Acreditamos que uma pessoa pode mudar.

Mas algumas pessoas não mudam.

Essa esperança é, muitas vezes, menos uma promessa para o outro do que uma promessa que fazemos a nós mesmos.


Jeremy Valle estava dentro do armário.

Não sabia dizer há quanto tempo.

O espaço era estreito, escuro e úmido. O cheiro de mofo misturava-se ao odor metálico das prateleiras antigas. Seus joelhos estavam pressionados contra o peito e ele tentava permanecer imóvel.

Do outro lado da porta, ouviam-se risadas.

— Idiota!

Outra gargalhada.

— Fracassado!

Jeremy apertou os olhos.

Talvez, se não respondesse, eles fossem embora.

Talvez.

Um som arrastado veio do lado de fora. Depois, água começou a escorrer por baixo da porta.

Jeremy olhou para os próprios pés.

A água avançava lentamente pelo chão do armário, molhando suas meias.

As risadas aumentaram.

— Olha só! — alguém gritou.

Jeremy não respondeu.

Então veio a voz de Miguel Fangio.

— Sua bichinha!

Miguel era o tipo de garoto que parecia ocupar mais espaço do que realmente ocupava. Tinha quase um metro e oitenta e dois, cabelos negros, olhos azuis e uma impaciência que transformava qualquer lugar em território próprio. Vestia o moletom preto do colégio, camisa cinza e calça esportiva.

Ele estava acompanhado por outros garotos.

Todos riam.

Miguel olhou para a parede próxima ao armário. Um fio desencapado pendia dali.

Ele o arrancou.

Jeremy percebeu apenas uma sombra atravessar a fresta inferior da porta.

Depois, um estalo.

Seu corpo inteiro se contraiu.

— Argh!

O grito morreu dentro do armário.

O choque atravessou seu corpo.

Jeremy tentou afastar-se, mas não havia para onde ir.

Os garotos riam.

Do lado de fora, ninguém parecia ouvir.

Ou talvez ninguém quisesse ouvir.

Quando finalmente abriram a porta, Jeremy caiu para frente.

Tinha quinze anos. Era magro, baixo, de cabelos castanhos lisos que chegavam às orelhas. A pele branca parecia ainda mais pálida naquele momento. Vestia um moletom cinza, camisa branca e uma calça jeans preta, frouxa e levemente rasgada.

Ficou alguns segundos no chão, tentando entender o próprio corpo.

Uma mão o puxou.

Depois outra.

Jeremy foi arrastado para fora.

Os corredores próximos ao ginásio estavam vazios.

Miguel segurou seu braço.

— Vai chorar?

Jeremy permaneceu calado.

Um soco.

Seu corpo cambaleou.

Outro garoto o empurrou.

Jeremy caiu novamente.

— Vai chorar? — Miguel repetiu. — Vai falar alguma coisa?

Nada.

— Sua bichinha.

Um dos garotos olhou para Jeremy e, por um instante, pareceu cansado daquela brincadeira.

— Já chega. Essa bichinha aí não fala nada.

Miguel soltou uma risada.

Então foram embora.

Deixaram Jeremy sozinho.

As risadas continuaram por alguns segundos, cada vez mais distantes, até desaparecerem.

Jeremy permaneceu no chão.

A lama havia grudado em suas roupas.

Ele olhou para o céu.

Depois para os garotos que desapareciam ao longe.

Por alguns instantes, não fez nada.

Então percebeu seu caderno.

Estava preso nos galhos de uma árvore.

Jeremy se levantou.

Aproximou-se da árvore e começou a subir.

Suas mãos tremiam.

Conseguiu alcançar o caderno.

Quando desceu, escorregou.

Caiu dentro de uma poça de lama.

O caderno caiu junto.

Jeremy ficou imóvel.

Olhou para ele.

Depois fechou os olhos.

Levantou-se.

Pegou o caderno enlameado e caminhou para casa.


Saiu do colégio em silêncio.

Ninguém o acompanhava.

As lágrimas escorriam pelo rosto sujo.

Jeremy não tentou escondê-las.

Caminhou até sua casa.

Quando chegou, entrou pela porta dos fundos.

Não encontrou ninguém no caminho.

Foi direto ao banheiro.

Abriu o chuveiro.

A água quente caiu sobre sua cabeça.

Jeremy permaneceu parado.

A lama começou a desaparecer de sua pele.

Mas não havia água suficiente para lavar tudo.


Seu quarto era pequeno.

Nas paredes havia pôsteres de bandas de rock grunge. Algumas imagens estavam tortas. Outras já começavam a descolar nas pontas.

Era um quarto comum de adolescente.

Um lugar onde ninguém deveria precisar se esconder.

Jeremy deitou-se.

Fechou os olhos.

E dormiu.


No dia seguinte, chegou cedo ao colégio.

Cedo demais.

O corredor ainda estava quase vazio.

Jeremy caminhou depressa, olhando para os lados.

Tinha medo de encontrar Miguel.

Entrou na sala.

Escolheu a última carteira.

Sentou-se.

Ninguém falou com ele.

Jeremy apoiou a cabeça sobre os braços.

Estava cansado.

Pouco a pouco, o som da sala foi desaparecendo.

Dormiu.

O tempo passou.

Quando abriu os olhos novamente, a sala estava cheia.

A professora Angela havia chegado.

Tinha quarenta anos, cabelos castanhos longos e lisos presos para trás, olhos castanhos e uma expressão que alternava entre simpatia e impaciência.

Ela colocou seus materiais sobre a mesa.

— Bom dia, crianças. Espero que tenham aprendido a matéria de ontem.

Jeremy continuou quieto.

A professora começou a explicar.

Depois interrompeu.

— Vou sortear um número. Espero que alguém possa explicar um pouco da matéria de ontem.

O número saiu.

Vinte e quatro.

Alguns alunos começaram a rir.

Jeremy abaixou a cabeça.

A professora consultou a lista.

— Número vinte e quatro?

Silêncio.

Ela ergueu os olhos.

— Vinte e quatro?

As risadas aumentaram.

— Vinte e quatro?

Agora havia impaciência em sua voz.

Jeremy não levantou a cabeça.

— Crianças! Parem de rir!

A professora respirou fundo.

— Desculpe-me. A secretaria precisa mudar esse número urgentemente.

Um aluno levantou a mão.

— Professora, é mais fácil ele mudar de sexo!

A sala explodiu em risadas.

Jeremy permaneceu imóvel.

Não olhou para ninguém.

Não respondeu.

A professora bateu a mão sobre a mesa.

— Silêncio! Parem de atormentar o garoto!

As risadas diminuíram.

Ela mudou de assunto.

Jeremy continuou olhando para o caderno.

Mas já não prestava atenção na aula.

Pegou o lápis.

Começou a desenhar.

Linhas.

Formas.

Figuras que não representavam nada que pudesse ser explicado.

Ou talvez representassem coisas que ele ainda não sabia explicar.

O tempo passou.

A aula terminou.

Os alunos começaram a sair.

Jeremy permaneceu sentado.

— Jeremy...

Ele continuou desenhando.

— Jeremy...

Nada.

A professora aproximou-se.

— Jeremy...

Ele continuou perdido no desenho.

Angela tocou seu ombro.

— Jeremy, acorda.

Ele ergueu os olhos.

— Precisamos conversar.

Jeremy fechou o caderno.

A professora puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dele.

— Jeremy, sinceramente... precisamos melhorar suas notas. Você pode reprovar este ano.

Ele permaneceu calado.

— Eu sei que você tem alguns problemas — continuou ela —, mas o colégio pode oferecer ajuda.

Jeremy olhou para o próprio desenho.

A professora acompanhou seu olhar.

— E seus pais?

Jeremy não respondeu.

Angela hesitou por um instante.

— Eles já sabem da sua dislexia?

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Thoughts

  • fsantos1307

    Entra pelas traseiras e não encontra ninguém em casa. Aposto que os pais do Jeremy nem sabem que o armário existe.

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  • mariinha

    Menino, ele subindo na arvore com a mao tremendo so pra pegar o caderno. Minha avo pediu pra eu parar ali um pouquinho

    Permalink

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    Biografia Tenho 43 anos, nasci e cresci na cidade de Embu das Artes, formei-me em História e, atualmente, sou professor de leitura. A literatura é uma das tantas peças do meu ser público tanto quanto é parte dos meus ritos privados. Acho que o mundo gira porque gostamos de uma boa história. Eu gosto, e quis ver como é a outra ponta do livro. Espero que a minha história seja boa. Ela é sombria, de terror, irônica, necessária e visceral.

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