Eu nunca gostei do básico.
E acho que isso diz bastante sobre mim.
Qual é a graça de seguir um arquétipo
se ele nunca foi bem arquitetado?
Não me interessa tentar entender
aquilo que já nasceu fácil de descrever.
Porque qual a graça de colocar em palavras
algo que já cabe perfeitamente nelas?
Daí escrever em uma página e pronto?
Nenhuma.
É pouco. Sem graça.
Talvez seja por isso que, ultimamente,
as coisas parecem ter perdido a cor.
Eu lembro de quando tudo era mais colorido.
Talvez mais idiota,
mas também mais feliz.
Se questione,
qual é a graça de encontrar um sentido
quando ele já não provoca nada?
Por isso, eu procuro mais.
Quero causar sentimentos
que não saibam se explicar.
Sensações que não possam ser previstas,
que existam antes mesmo de serem nomeadas.
Eu busco o inefável.
Aquilo que está além da capacidade
do próprio código linguístico humano.
Algo que faça a mente parar,
justamente porque nenhuma palavra
é capaz de alcançá-lo.
O problema que eu quero destacar é exatamente esse:
a gente se acostumou demais
com aquilo que já sabe compreender.
Personagens, pessoas, músicas, obras,
quase tudo parece precisar caber
em algum estereótipo.
Porque é mais fácil repetir
aquilo que já sabemos que funciona.
Mas ser familiar nunca foi sinônimo de ser interessante.
Se algo pode ser substituído por milhões de outros iguais,
quanto tempo até ser esquecido?
E parece que esquecemos até o peso
da palavra “esquecer”.
Você sabe o que é esquecer aquilo que você já esqueceu?
Não.
E sabe por quê?
Porque você esqueceu.
Percebe o impacto disso?
Ser algo que um dia existiu
para depois desaparecer até mesmo da memória de alguém.
Seguir o básico para terminar apagado
no meio de milhões de outros básicos.
Se, diante da mesma luz,
existem apenas letras com o mesmo formato,
de onde viria a diferença para que qualquer uma das sombras se destaque?
Eu acho que o ser humano precisa voltar
a procurar aquilo que não consegue explicar.
Aquilo que seja grande demais para caber em uma palavra,
seja um sentimento,
ou uma experiência.
Algo que nenhum idioma consiga traduzir.
Porque é exatamente aí
que está aquilo que não pode ser substituído,
o inesquecível.
E se você terminou esse poema
sem entender exatamente o que ele quis dizer,
minha intenção se concretizou.
Porque algumas coisas
não foram feitas para serem entendidas,
foram feitas para serem sentidas.