Vez ou outra, eu me deparo com a pergunta:
“O que você faria se acordasse 10 anos no passado com as mesmas memórias que tem hoje?”
E as respostas, pelo menos a grande maioria, quase sempre apontam para o monetário.
“Eu jogaria na Mega-Sena.”
“Compraria tal moeda antes de bombar.”
“Investiria nisso.”
“Criaria aquilo.”
Outras respostas carregam um peso mais lamentativo, quase um pedido silencioso de segunda chance:
“Eu correria atrás dos meus sonhos.”
“Eu teria feito diferente.”
“Eu teria escolhido outro caminho.”
E todas essas possibilidades parecem muito tentadoras. Talvez porque sejam o amálgama da coisa mais difícil que a vida exige da gente: sustentar o peso das nossas escolhas. Conviver com os bônus e os ônus de cada decisão tomada, de cada porta aberta, de cada porta fechada.
E é irônico como, nessa brincadeira de imaginar o que poderia ter sido, a gente acaba caindo de novo diante de outra escolha.
“O que você faria?”
Sem perceber, quase sempre respondemos pensando em consertar o presente. Em mudar quem nos tornamos 10 anos depois de tomar tal decisão. Tudo é à longo prazo. Sobre amanhã. Sobre depois.
“Você precisa pensar mais no seu futuro.”
E eu concordo.
Mas a vida também tá acontecendo agora.
Dito isso, eis aqui a minha não solicitada resposta para a pergunta:
“O que você faria se acordasse 10 anos no passado com as mesmas memórias que tem hoje?”
Eu acordaria cedo, no mesmo horário que você.
E, por incrível que pareça, hoje isso já não seria difícil pra mim.
Iria direto pra sala, ansioso pra te encontrar outra vez. Te daria um abraço cuidadoso, quase contido, porque se eu te abraçasse com toda a saudade que ainda mora em mim, talvez fosse forte demais.
E depois de alguns minutos tentando disfarçar a emoção, disfarce esse que cairia no instante em que você percebesse o quão feliz eu tô só porque estamos tomando café, eu pegaria um pão, só pra satisfazer sua vontade de me ver comendo bem.
E te perguntaria sobre tudo.
Sobre a vida.
Sobre as pessoas.
Sobre o passado.
Sobre histórias que talvez eu já tenha ouvido dezenas de vezes, mas que agora eu escutaria diferente.
Porque, no fundo, eu não iria querer apenas rever você.
Eu queria conhecer mais do mundo de novo através dos seus olhos.
Te agradeceria.
Por tudo.
Por muito.
Sem tirar nem pôr.
Tiraria o dia de folga.
“Inventa qualquer coisa lá na empresa”, eu diria pra mim mesmo.
“Hoje eu não vou, tenho um compromisso muito importante.”
E então passaríamos o dia batendo perna no centro. Tomando cafezinhos por aí, almoçando no Kanpai, jogando bingo, deixando o tempo passar devagar, como ele só passa quando a vida entende que aquele momento merece durar mais, e a gente só percebe depois que ele passa.
Pra fechar o dia, uma partidinha de canastra.
Aquele pen drive do Luís Miguel. Você errando a letra.
Uma cervejinha ou um vinho.
Você ganharia de lavada, provavelmente.
E tudo bem.
Na verdade, talvez fosse até melhor pra preservar a integridade da minha arcada dentária, né?
E no meio disso tudo, talvez você percebesse alguma coisa diferente em mim.
Talvez notasse uma gratidão mais acentuada.
Talvez percebesse que ela se estende pra muita gente.
Talvez enxergasse o quanto de você ainda existe em mim.
Talvez percebesse minhas falhas tentativas de conter a lágrimas.
Mas pouco importa.
Porque você olharia pra mim e perguntaria, com sua voz acalentadora de quem diz "é seguro chorar na minha presença":
“Por que tá chorando, filhinho?”
E eu responderia:
“Eu só tô muito feliz, vó.”
Queria poder te dizer que, de todas as escolhas que tive que sustentar na minha vida, a melhor delas foi de ter passado todo e cada momento que eu pude ao seu lado!
Sinto muito a sua falta.
Hoje é dia 11/05/2026.
Te amo.