Ambos cansados se olharam.
Foram para uma sala de cor vermelha, iluminada apenas por luzes vermelhas.
Havia puffs espalhados pelo lugar para descansar.
Sentaram e começaram a conversar.
Entre uma frase e outra, trocavam olhares e carinhos sem malícia.
Era apenas a presença um do outro.
Guillian olhou para os amigos.
— Bora beber, Hell Flames!
Anton balançou a cabeça.
— Não, Gui. Bebemos demais.
Iago riu.
— Ainda cabe mais.
Anton olhou para os três.
— Não, gente...
Clarisse ergueu as sobrancelhas.
— Hell Flames?
Guillian abriu um sorriso.
— Hell Flames!
Anton percebeu que estava derrotado.
Odiou admitir.
Mas concordou.
Guillian puxou Clarisse pelo braço em direção ao bar vermelho.
Iago segurou Anton pelo ombro.
— Vamos.
Anton foi arrastado, derrotado.
No bar, Guillian levantou a mão.
— Garçom, quatro Hell Flames, por favor!
Ela olhou para os três.
— Gente, quando acabar a labareda, bebe de uma vez. Rápido!
O garçom colocou quatro copos sobre o balcão.
Misturou bebidas fortes, com alto teor alcoólico.
Depois jogou um líquido por cima e ateou fogo.
As chamas subiram.
Clarisse se assustou ao ver as labaredas dançando sobre os copos.
Pouco depois, o fogo cessou.
Todos pegaram suas doses.
E beberam rapidamente.
A bebida desceu rasgando a garganta.
Forte.
Amarga.
Alcoólica demais.
Guillian nem fez careta.
Apenas sorriu.
Os quatro voltaram para os puffs.
Sentaram.
Se olharam.
Não disseram nada.
Apenas sentiram a presença um do outro.
Abraçaram-se.
Ficaram assim por cinco minutos.
Cinco minutos sem precisar explicar nada.
Depois levantaram.
Era hora de ir embora.
A bebida começou a fazer efeito rápido.
Clarisse parecia estar no automático.
Anton olhou para Iago.
— Iago, vamos embora. O editor de vídeo da vida dela sumiu...
Iago riu.
— O meu está quase indo também.
Guillian segurou Clarisse.
— Eu cuido dela!
Anton olhou sério para ela.
Um olhar de aviso.
Guillian percebeu.
— Eu cuido. Eu cuido, cuido, cuido, cuido!
Anton segurou o riso.
— Então vamos para o meu apartamento. É perto daqui.
Ele olhou para os três.
— Amanhã vocês resolvem isso. Ninguém tem condição de continuar.
Anton pegou o celular.
02:40 da madrugada.
Na frente, saiu Guillian conduzindo Clarisse.
Atrás, Anton e Iago caminhavam ainda inteiros.
Do lado de fora da De Leon.
Ainda havia muita gente chegando.
A fila continuava crescendo.
Pessoas entravam animadas, enquanto outras saíam pela calçada conversando alto.
Clarisse estava no automático.
Guillian também parecia quase chegando nesse estado.
Anton olhou para as duas.
— Fiquem aqui. Vou ali comprar água. Vocês estão altas demais.
Iago encostou na parede, tentando se manter acordado.
— Nossa... volta logo. Tô quase lá.
Guillian e Clarisse riam, felizes.
— Nossa, adorei dançar com você! — disse Guillian.
Clarisse olhou para ela com os olhos perdidos.
A mente longe.
— É... hum...
Perto deles, dois rapazes fumavam.
A fumaça passou pelo rosto de Guillian.
Ela tentou resistir.
Olhou para o cigarro.
Depois desviou.
Mas o cheiro ficou.
A vontade venceu.
Ela se aproximou.
— Me dá um cigarro?
Iago, quase apagado, viu a cena.
Não disse nada.
Apenas observou.
Nesse instante, Clarisse ficou sozinha.
Sem perceber direito o que fazia, começou a caminhar pela calçada.
Deu alguns passos.
Atravessou a rua.
Anton voltou com as garrafas de água.
E viu tudo.
Viu Guillian com o cigarro na mão.
Viu Clarisse atravessando a rua movimentada.
O barulho dos carros.
As luzes dos faróis.
A noite acontecendo ao redor.
Do outro lado da rua, Clarisse chegou à calçada.
Andou mais alguns metros.
E, cansada, deitou-se perto de um grupo de pessoas em situação de rua.
Anton ficou parado.
Por um instante, tudo pareceu congelar.
Não era apenas a bebida.
Não era apenas o cigarro.
Era a sensação de que ninguém estava prestando atenção.
Ele olhou para Guillian.
O cigarro ainda entre os dedos dela.
A expressão de Anton mudou.
O rosto endureceu.
Foi tomado pela raiva.
Guillian percebeu.
Olhou para ele.
E congelou.
Pela primeira vez naquela noite, ela pareceu completamente sóbria.
Domingo.
10 horas da manhã.
Clarisse começou a acordar.
Ainda de olhos fechados, sentiu duas pessoas ao seu lado.
Com cuidado, estendeu as mãos e tocou seus rostos.
Ela sabia quem eram.
Iago.
E Guillian.
Um sorriso apareceu no rosto dela.
Então sentiu um peso sobre o peito.
Algo quente.
Respirando devagar.
E ronronando.
Abriu os olhos.
Era Mefi.
O gato de Anton.
Dormindo tranquilamente sobre ela.
Clarisse acordou com uma recepção calorosa.
Um miado baixo.
Um olhar curioso.
E o cheiro de café recém-passado vindo de algum lugar da casa.
Havia pão sobre a mesa.
Ela não levou um susto.
A sensação era estranha, mas familiar.
Parecia estar no quarto de Anton.
Mas não estava.
Levantou devagar.
Saiu do meio dos dois.
Infelizmente, acordou Mefi.
O gato abriu os olhos e soltou um miado de bom dia.
Clarisse saiu do quarto.
Então viu o apartamento.
O mesmo apartamento que tantas vezes tinha imaginado enquanto observava o Instagram deles.
Só que agora ela estava ali.
De verdade.
Caminhou pelo lugar.
Mefi foi atrás.
Como um pequeno anfitrião.
Cada miado parecia dizer:
"Seja bem-vinda."
Na mesa, um café da manhã estava preparado.
Café.
Leite.
Presunto.
Frutas.
Sucos.
Clarisse pegou uma caneca da Garimpos Discos.
Colocou um pouco de café.
Só então percebeu que estava usando a camisa de Anton.
Um moletom largo.
Aquecendo suas mãos na caneca quente, deu um gole.
Por alguns segundos, apenas ficou ali.
Em silêncio.
Guillian apareceu.
Também usando uma camisa e um moletom.
Com os pés apoiados nos puffs.
Olhou ao redor.
— Cadê Anton? Nossa... vontade louca de fazer xixi.
Clarisse olhou para si mesma.
Para as roupas.
Para o apartamento.
Ainda confusa por estar ali.
Não sentia vergonha.
Sentia cuidado.
E, ao mesmo tempo, uma pequena surpresa.
Era estranho.
Mas não havia medo.
Iago apareceu logo depois, bocejando.
Sentou-se na cadeira.
Apoiou as mãos na cabeça, com os cotovelos sobre a mesa.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Então murmurou:
— Hell Flames...
Olhou para as duas.
— Ele expulsou o nosso editor de vídeo da vida!
Guillian pegou uma caneca.
Serviu-se de café.
Depois sentou-se com as pernas encolhidas no puff.
Ficou alguns segundos olhando para a mesa.
Então perguntou:
— Alguém lembra de alguma coisa?
Clarisse balançou a cabeça.
— Nada. E você, Iago?
Iago levou as mãos até a boca.
Ficou parado.
Olhou para Guillian.
Assustado.
O silêncio tomou conta da cozinha.
Guillian percebeu.
— Fale, homem... assim você me assusta.
Iago desviou o olhar para a mesa.
Respirou fundo.
— Guillian...
Ela olhou para ele.
— Ele te viu fumando.
Uma pausa.
— Mas o pior não é isso...
A caneca escorregou da mão de Guillian.
Caiu no chão.
Quebrou.
Ela ficou imóvel.
Como se tivesse levado um golpe.
A culpa veio antes das palavras.
— Clarisse...
A voz falhou.
— Desculpa...
Os olhos começaram a encher.
— Me perdoa!
Clarisse percebeu a fragilidade dela.
A mesma Guillian que horas antes parecia invencível, puxando todos para a pista, agora parecia pequena.
Assustada.
Ferida.
Ela se aproximou e a abraçou.
— Como assim, Gui?
Segurou ela com cuidado.
— Eu não sei do que você está falando.
Iago passou a mão pelo rosto.
— Agora eu entendo por que Anton não está aqui...
Olhou para as duas.
— Ele está possesso.
Uma pausa.
— Tem tanto ódio dentro dele que parece que não cabe naquele apartamento.
Guillian começou a soluçar.
O choro veio forte.
Descontrolado.
— I-i-iago...
Ela mal conseguia falar.
— Fala com ele!
Clarisse olhou para Guillian.
Era estranho ver aquela pessoa que sempre parecia tão cheia de energia.
Tão viva.
Agora parecendo uma criança perdida.
Sozinha.
— Gui...
Ela segurou seu rosto.
— Gui, olha para mim.
Guillian tentou.
— Respira.
Mas o desespero aumentava.
— N-não...
Ela puxou o ar com dificuldade.
— Não me deixa sem Anton, Clarisse...
As lágrimas desciam pelo rosto vermelho.
— Fala com ele...
A voz quebrou.
— Por favor...
Clarisse segurou o rosto dela com delicadeza.
— Iago...
Olhou para ele.
— Você sabe onde Anton foi?
Iago ficou parado.
Como se tivesse voltado para a realidade.
— Oi?
Piscou.
— Sim... sim, eu acho que sei onde ele está.
— Onde?
Iago levantou rapidamente.
Pegou suas coisas.
— Num lugar tão grande que talvez caiba o ódio dele.
Olhou para Guillian.
Depois para Clarisse.
— Fica aqui.
Apontou para Guillian.
— Cuida dela.
Uma pausa.
— Porque agora... está difícil.
Iago saiu.
A porta fechou.
Guillian continuou chorando.
— Clarisse...
A voz saiu pequena.
— Me perdoa.
Clarisse passou a mão no cabelo dela.
— Como eu posso perdoar você sem nem saber o que aconteceu?
Fez uma pausa.
— Eu nem lembro.
Guillian tentou responder.
Mas a respiração falhou.
A crise aumentou.
Clarisse nunca tinha visto aquilo.
Não aquela Guillian.
Não aquela pessoa que parecia sempre carregar o mundo nas costas.
Ela procurou na bolsa dela.
Tentando encontrar alguma coisa.
Algum remédio.
— É...
Guillian tentou falar.
— É esse...
Clarisse encontrou.
Pegou a caneca quebrada do chão.
Jogou fora o café que restava.
Colocou água do filtro.
Entregou o remédio.
Guillian tomou rapidamente.
Depois desabou.
Chorava.
Soluçava.
Como se toda a culpa daquela noite tivesse encontrado uma saída.
Mefi apenas observava.
Em cima do roteador quente.
Piscou lentamente.
E fechou os olhos.
Clarisse olhou para o gato.
Depois voltou para Guillian.
Puxou-a para o peito.
Acolheu.
Ficou ali.
Escutando apenas os sussurros entre os soluços.
— Me perdoa...
Uma pausa.
— Me perdoa...
E, quase sem voz:
— Anton...
***
Parque Augusta.
Crianças brincavam.
Cães passeavam com seus donos.
Pequenos teatros itinerantes aconteciam pelo parque.
Casais aproveitavam o sol de domingo.
Havia atrações, algodão doce, risadas.
Pessoas sorrindo e aproveitando aquele dia bonito.
No meio de tudo isso, Anton estava sentado na sombra de uma árvore.
O sol atravessava as folhas.
O parque parecia vivo.
Mas ele carregava toda a raiva do mundo dentro dele.
Iago caminhou pelo parque até encontrá-lo.
— Achei você.
Anton nem olhou.
— É... achou.
Iago sentou-se ao lado dele, na sombra.
Não disse nada.
Ficaram assim por alguns minutos.
O barulho do parque preenchia o silêncio.
Então Iago se deitou no colo de Anton.
— Cafuné!
Anton olhou para ele.
— Você é sujo.
Iago sorriu.
— Mas com carinho.
Virou-se de lado, olhando para o parque.
Anton passou a mão pelos cabelos dele.
Observou os cílios longos de Iago.
A pequena fresta de luz que atravessava as folhas das árvores e tocava seus olhos enquanto elas balançavam com o vento.
Iago ficou alguns segundos em silêncio.
Então falou:
— Não dá para mudar alguém de uma casa jogando ela pela janela.
Anton continuou olhando para frente.
Silêncio.
Iago respirou fundo.
— Clarisse nem se lembra direito. Foi a mais envolvida naquela noite. E está lá, linda e sorridente.
Anton apertou os lábios.
— Mas poderia ter acontecido o pior.
Uma pausa.
— Isso dói.
Iago assentiu.
— Sim.
Olhou para ele.
— Dói.
Outro silêncio.
— Mas você quer controlar tudo, Anton.
Anton virou o rosto.
— Mas...
Iago interrompeu.
— Não aconteceu.
Uma pausa.
— Esquece.
O silêncio voltou.
O vento passou pelas árvores.
As folhas se mexeram.
Então Iago sorriu.
— Depois você fala que meu coração só tem sangue e café sem açúcar.
Olhou para Anton.
— Seu cretino desalmado.
Por alguns segundos, Anton tentou segurar.
Mas não conseguiu.
Os dois riram.
No meio de um parque cheio de vida.
Iago ficou alguns segundos em silêncio.
Então se levantou do colo de Anton.
Olhou sério para ele.
— Agora...
Anton ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
Iago cruzou os braços.
— Você fez besteira.
Anton franziu a testa.
— Como assim?
Iago respirou fundo.
— A Guillian está no apartamento.
Uma pausa.
— Em crise de ansiedade.
Anton ficou sério.
Iago completou:
— E a culpa é sua.
Anton se levantou um pouco.
— Mas quem está com ela?
Iago olhou para ele, incrédulo.
— Não, cabeça de mandioca com chuchu...
Anton ficou esperando.
— Com Mefi.
Uma pausa dramática.
— Aquele demônio unhudo.
Anton segurou um sorriso.
Iago apontou para ele.
— Não ri. Ele parece fofo, mas aquele gato sabe julgar uma pessoa.
Anton finalmente se levantou.
— Vamos?
Iago continuou sentado.
Olhou para o parque.
Depois para Anton.
— Vamos.
Levantou-se devagar.
Os dois começaram a caminhar pelo parque.
Deixando para trás o banco, a sombra e aquele pequeno intervalo de paz.
No apartamento de Anton.
A porta se abriu.
Como uma flecha, Guillian saiu dos braços de Clarisse.
Foi direto até Anton.
E o abraçou.
Nenhuma palavra.
Apenas o abraço.
Anton ficou parado por alguns segundos.
O silêncio tomou conta do apartamento.
Clarisse olhou para Iago.
Depois para Anton.
Para Guillian.
E para Mefi.
O gato estava sentado, observando tudo.
Esperando algum petisco, como se a única coisa importante fosse que Anton tinha voltado.
Clarisse olhou ao redor.
A grande janela da sala.
A luz entrando.
Os puffs espalhados pelo chão.
Aquele apartamento que, antes, ela conhecia apenas pelas imagens do Instagram.
Agora era o lugar onde uma amizade era reconstruída.
Ninguém precisava explicar.
Ninguém precisava justificar.
O silêncio permaneceu.
Mas não era vazio.
Era um silêncio cheio de significado.
O silêncio de quem perdoa.
O silêncio de quem entende.
Um código invisível, tão importante quanto as palavras escritas por uma mão em um caderno, em um computador ou em um livro.
Porque existem sentimentos que a mão não consegue desenhar.
Existem coisas que as palavras não conseguem carregar.
Apenas o coração entende.
Guillian apertou Anton com mais força.
Depois se afastou.
Passou a mão pelo rosto.
Respirou fundo.
E sorriu.
— Bora comer pastel na feira?
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