Na estação Sé, Clarisse aguardava para ir embora. Sentou-se em um banco, esperando a hora do rush passar.
Nas mãos, segurava o vaso com as rosas.
Três rosas escarlates.
E um pequeno broto.
Clarisse o comprara impulsivamente.
Não era apenas porque as rosas eram bonitas. Nem por pena de Débora.
Ela simplesmente não queria que o broto fosse cortado.
O filho.
A chance.
A vida.
O broto merecia uma oportunidade de pertencer, crescer, errar e até criar seus próprios espinhos.
Aquilo a fez pensar em Débora. Às vezes, a vida não é justa. Mas talvez ela também não precise ser.
A necessidade de continuar nasce justamente quando pertencemos a lugares imperfeitos.
Ninguém constrói uma cidade como São Paulo primeiro para depois alguém vir morar nela.
As pessoas chegam.
Sentem.
Trabalham.
Sangram.
Perdem.
E, no meio de toda essa imperfeição, a convivência nasce.
O pertencimento é uma semente.
O amor é a terra.
E o céu é a fé de que, um dia, essa semente queira subir.
Clarisse não entendia tudo aquilo com clareza.
Mas sentia.
Domesticar algo parecia tornar a vida monótona, previsível e sem graça.
Talvez fossem pensamentos bobos.
Inúteis.
Mas eram justamente essas pequenas coisas que davam graça à vida.
***
Já em seu apartamento, Clarisse se sentou diante do vaso.
A luz estava apagada.
A vida tinha sido tão automática naquele dia que ela nem percebeu o momento em que chegou em casa.
O apartamento parecia mais um dormitório do que um lar.
Sua vida, às vezes, parecia resumida a sonhos pequenos e à rotina do trabalho.
O celular tocou.
Era sua mãe.
— Oi, mãe. Bença.
— Tá tudo bem. Já paguei o aluguel e as contas.
— Ainda não comi, mas logo vou fazer um lanchinho.
— Não estou tão magra assim, mãe.
— Vou ao médico todo mês, sim.
— Bife de fígado? Eu odeio!
— Tomo o remédio direitinho. Eu sei que é caro, mas tomo.
— Não precisa me mandar dinheiro, mãe.
Uma notificação apareceu na tela.
PIX recebido: R$ 1.000,00
Clarisse suspirou.
— Mãe, não gasta seu dinheiro comigo.
— E o pai?
— Sim, cuidando do Napoleão e da Josefina.
— Meu Deus, mãe...
— Não fala assim. A Josefina está prenha. Depois vamos colocar os filhotes para adoção.
— Sim, mãe. Estou me alimentando bem.
— Mãe, eu continuo odiando bife de fígado!
Ela sorriu.
— Tá bom. Te amo, mãe. E o pai também. Cuida dele por mim.
Clarisse desligou o telefone.
Olhou para o vaso de rosas.
E sorriu.
***
Era quinta-feira.
As mentes já pertenciam ao happy hour.
Depois das seis, a Augusta ficaria lotada.
Clarisse chegou à galeria.
Apenas Iago estava ali, abrindo sua barbershop.
— Clarisse, bom dia, minha rosa! — disse ele, sorrindo.
Iago era doce e divertido.
Parecia conhecer a paz que todos procuravam.
Era a cola social daquele pequeno universo.
— Seguinte... hoje vamos fazer um happy hour na barbershop. Quer vir?
— Mas e o Anton e a Guillian?
— Que se lasquem...
Clarisse arregalou os olhos.
— Oxê...
Iago riu.
— Claro que eles vêm. Sempre vêm!
— Eu amo o seu sotaque.
— E eu tento esconder um pouco.
— Não perca sua baianidade. Bahia é Bahia.
Clarisse também, às vezes, tentava esconder o próprio sotaque.
Apesar de São Paulo ser uma cidade feita por tantos imigrantes, ainda existia preconceito — mesmo vindo de uma cidade construída justamente por quem veio de fora.
— Mas você vai? — perguntou Iago.
Antes que ela respondesse, Anton chegou.
Sorriu apenas fechando os olhos, daquele jeito discreto.
Iago reclamou:
— Não dá bom dia, seu mal-educado!
Anton respondeu:
— Mau dia.
E riu.
— Anton!
— Desculpa. Bom dia, Iago, meu princeso. Bom dia, Clarisse!
Iago apontou para ela.
— Chamei a Clarisse para o happy hour hoje na barbershop.
Anton olhou para Clarisse.
— Ela topou?
Os dois ficaram esperando a resposta.
Clarisse sorriu.
— Sim. Eu topo.
Clarisse entrou no ateliê sem constrangimento. Afinal, era só um happy hour.
Linda a chamou para organizar algumas referências, e ela ficou ali dentro.
Do lado de fora, Anton e Iago ainda não tinham aberto as lojas.
Iago parecia desanimado.
Anton percebeu.
— Você tá bem?
Iago deu um sorriso torto.
— Meu avô...
Anton abaixou a voz.
— De novo aquilo?
— É... mas não liga.
— Sei. Mas por dentro você sente, né?
Iago suspirou.
— Sinto. Mas vir pra cá me faz esquecer um pouco.
Olhou ao redor da galeria.
— A galeria pode ser um lugar de trabalho, de rotina...
Deu de ombros.
— Ninguém gosta de trabalhar. A gente gosta é do dinheiro pra sair e se divertir.
Anton sorriu de canto.
— Isso é verdade. Mas a rotina também faz falta.
— Pegar trânsito, ônibus, metrô...
Anton provocou:
— Mas você pega Uber sempre.
Iago fingiu indignação.
— Calado! Eu tenho privilégios, mas isso não quer dizer que eu não tenha empatia.
Anton riu.
— Nossa...
— Não sou como você, que vive com essa cara amarrada e ainda responde atravessado quando a gente tenta te fazer sorrir.
Anton arqueou a sobrancelha.
— Vem cá... você quer um abraço, né?
Iago fez uma pausa dramática.
— E um cheiro também.
Sem dizer nada, Anton abriu os braços e o abraçou.
Iago encostou a cabeça no ombro dele.
— Você me faz sorrir.
Anton respondeu sério:
— Ah, tá. Só se for por dentro. Mostra os dentes.
Iago levantou a cabeça.
— Hummmm.
Anton imitou.
— Hummmm.
Os dois ficaram se encarando, abraçados.
Iago caiu na risada.
— Chega! Você é bonito, mas esse sorriso forçado de psicopata não dá.
Anton riu de verdade.
Iago apontou para ele.
— É esse sorriso! Por isso a Guillian te irrita tanto. Você não sorri nunca.
— Que isso, Iago? Quer outro abraço?
— Não me adule. Odeio aduladores. São os piores.
Anton abriu os braços de novo.
— Vem cá. Abraço... vem... vem...
Iago fez um carão.
— Vou abrir minha loja. Ganho mais.
— Como assim? Vai me deixar no vácuo?
— Vou. Você merece.
Nesse momento, Guillian apareceu.
— Oi, mores!
Viu Iago de costas, indo abrir a loja.
— Nossa, vocês estão de mal?
Anton respondeu:
— Nada. Fui adular ele e ele achou ruim.
Iago, mexendo na porta da loja, reclamou:
— Odeio essa adulação falsa. Não quero.
Guillian olhou desconfiada para Anton.
— Anton, o que você fez?
— Ué... nem eu sei. O Iago ficou assim do nada.
Guillian se aproximou de Iago e o abraçou por trás.
— É seu avô, né?
Iago respirou fundo.
Soltou o ar devagar.
— Eu sabia.
Guillian continuou abraçada a ele pelas costas.
Sem que Iago percebesse, estendeu uma das mãos para trás e fez sinal para Anton se aproximar.
Anton entendeu.
Chegou perto.
Abraçou os dois.
Ficaram ali por alguns segundos.
Sem piada.
Sem provocação.
Só juntos.
Iago sorriu.
— Amigos?
Anton e Guillian responderam ao mesmo tempo:
— Amigos.
Guillian diz, depois de se abraçarem:
— Minha mãe vem hoje pela manhã. Ela quer falar com vocês.
Iago pergunta:
— Na barbershop ou na Garimpos?
— Aqui mesmo na galeria. Ao ar livre, né?
No ateliê, Clarisse recebe uma notificação no WhatsApp:
“Oi, Sasa. Tudo bem? Faz um mês, né? Beijos.”
Filipe.
Clarisse bufa, como se a mensagem despertasse algo que ela vinha adiando há tempo demais.
Sente o peso que imaginou que sentiria ao ir para São Paulo.
Começou ali. Pela primeira vez.
Pensou no vaso de rosas. O broto estava na sala, um pouco afastado da janela.
Parecia que a roseira lhe pedia alguma coisa.
Linda percebe o silêncio dela.
— Tudo bem, Clarisse?
— Tudo bem, Linda. Só preciso de um café.
— Ótima ideia. “Tomar café eu vou, café não costuma falhar.”
Clarisse sorri de leve.
— Gilberto Gil combina com café.
— Já que você está precisando mais do que eu, vou fazer para nós duas.
Clarisse olha para a caneca da Garimpos Discos e, por um instante, sente um pequeno alívio.
Horas depois, na galeria, uma mulher de óculos escuros redondos sobe as escadas.
Havia algo de familiar nela.
Ela observa o letreiro: ROSA SELVAGEM ESTÚDIO.
Tira uma chave da bolsa, como quem já conhece o lugar.
Entra.
A sala de espera era pequena, mas acolhedora: fotos nas paredes, pastas de portfólio organizadas, café, água e algumas guloseimas sobre uma mesa.
O banheiro estava impecavelmente limpo.
Ao lado de uma porta, uma placa dizia: “NÃO PERTURBE!”.
Música baixa vinha do fundo.
A mulher abre a porta.
— Aaaaaaaahhhhhh! — grita Guillian.
— Que isso, menina? Pra que esse susto?
— Mãeeee, não faz isso!
Guillian estava desenhando alguns exercícios. Ao lado, um notebook aberto. Na parede, um quadro branco com post-its coloridos marcando os horários dos clientes.
Havia uma cadeira de tatuagem e vários equipamentos organizados ao redor.
A mãe olha tudo, surpresa.
— Nossa, Gui... está tudo tão organizado. Por que você não é assim em casa? Eu ainda tenho que lavar suas calcinhas.
— Porque você não me ligou antes? Já inventaram o celular, sabia?
— Escute aqui, menina. Eu te conheço. Ninguém muda, só acrescenta.
Guillian faz bico.
— Humm...
— Vim ver seus negócios. Vim ver se isso aqui estava funcionando. E está. Por isso apareci de supetão mesmo.
Guillian se levanta e a abraça.
— Te amo, mãe.
— Eu também te amo, filha. Mas me diga a verdade: você está bem mesmo?
As duas se afastam um pouco e olham para o estúdio.
— Eu estou orgulhosa de você, filha — diz a mãe, com os olhos marejados.
— Mãe, para... senão eu choro junto.
— E os seus ataques de ansiedade?
Guillian respira fundo.
— Quase não tenho mais. Às vezes faço aqueles exercícios de respiração. Eles ajudam.
— Suas contas estão em dia, fico tão orgulhosa de você, Gui.
— Sim, mãezinha...
— Depois da morte do seu pai, eu não sabia onde você iria parar.
— Mãe...
As duas se abraçam novamente.
— Foram os meninos que não desistiram de você. Quero conhecê-los!
— Sim... vamos.
Elas saem do estúdio e descem as escadas até o local de convivência da galeria.
Anton sai da loja de discos. Iago está do lado de fora, mexendo no celular.
— Finalmente conheci dona Florence! — diz Iago, sorrindo. — Você é a Gui escrita!
— E você, rapaz, como é belo! Meu Deus, agora entendo. Você é o Anton! E onde está o Iago?
Iago desliga o telefone e se aproxima.
— Olha, dona Flor... ops, Florence! Já chegou abraçando.
— Iago, que nojo! Para de abraçar os outros — brinca Guillian.
Florence ri.
— Iago, que olhos lindos. Você é divino.
Ela toca o rosto dele com carinho.
— Vocês são anjos.
Florence enxuga uma lágrima. Guillian chora junto.
Anton se aproxima e abraça Florence.
— Que menino cheiroso!
— O perfume foi o Iago que escolheu — diz Anton.
— Ah, então está explicado! — Florence ri. — Antes, a Gui nem tomava banho direito!
— Mãe!
— Hoje ela fica cheirosa o tempo todo. Ela sofria muito com ansiedade. De quatro anos pra cá, vocês entraram na vida dela. Eu rezava para que ela fizesse o mínimo... Hoje ela quase não fuma mais.
Anton e Iago se olham, emocionados — mas com uma pequena expressão de reclamação pelo “quase”.
— Bem, agora vou deixar vocês, jovens. Florence olha para cima, na direção da Garimpos Discos.
— Ué, eu pensava que isso aqui era uma cafeteria. Onde estão os cafés, Anton?
— Por quê, dona Florence?
— Porque lá em casa tem canecas da Garimpos Discos por todo lado! Tem até uma no banheiro, segurando a escova de dentes da Gui. Pensei que vocês vendessem café.
— Mãe...
Anton lança um olhar cínico para Guillian, como quem finalmente encontra provas contra ela.
— Quando uma quebrou, ela chorou até dormir. Agora eu entendo.
Iago se aproxima de Anton e o abraça, rindo da situação.
Florence dá um beijo na testa da filha.
— Agora vou embora mesmo. Jovens têm pressa... eu tenho mais tempo para gastar com meus queridos.
Florence sai da galeria com os olhos brilhando de orgulho.
Guillian não havia mudado completamente.
Mas havia acrescentado novas virtudes, muito maiores do que os seus velhos vícios.
Anton olha para ela, ainda pensando nas canecas.
— Desculpinha?
Anton apenas suspira e sorri de canto.
Guillian o abraça.
Era um pedido silencioso de desculpas.
E Anton entendeu.
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