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Capítulo 4: Quer Permanecer - Parte 4

aleroz

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Clarisse ficou contemplando o momento e a resposta de Iago.

22h15.

Ela chamou um Uber.

Saiu pela porta do apartamento e respirou fundo.

O ar da noite tinha cheiro de cidade molhada e promessa.

Seu perfume ainda estava fresco, como se tivesse acabado de sair do banho.

Clarisse cantarolava Sade baixinho.

Confiança sem arrogância.

Sem julgamento.

Era ela mesma.

Quando o Uber parou em frente ao Bar Epiceno, ela olhou para o letreiro iluminado e sorriu.

Gente bonita.

Música boa.

Conversas altas.

Um lugar com cara de noite que vale a pena lembrar.

Iago a viu primeiro.

Levantou a mão e chamou:

— Clarisse! Aqui!

Todos já estavam na mesa.

Ela se aproximou e sentou ao lado de Iago.

Por um segundo, os quatro ficaram em silêncio, olhando para ela.

Iago foi o primeiro a falar.

— Meu Deus... você está divina.

Todos na mesa olharam para Clarisse.

Guillian abriu um sorriso enorme.

— Uau... arrasou! Eu e você na balada hoje vamos causar.

Anton inclinou a cabeça, observando-a.

— Nossa... como você mudou de vibe.

Clarisse se lembrou imediatamente do que Linda havia dito:

“Ninguém muda. Só acrescenta.”

Guillian bateu palmas discretamente.

— Farmou aura!

Iago se aproximou para cumprimentá-la com um beijo no rosto.

Quando sentiu o perfume dela, fechou os olhos por um instante.

— Nossa... você vai ficar do meu lado a noite inteira, né? Que perfume bom.

Clarisse riu.

Iago continuou, dramático:

— Mas assim, não quero falar mal do seu perfume. Ele é maravilhoso. Só que eu quero te dar um da minha escolha.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Ah, é?

— É. Porque eu não quero te possuir como minha... ou talvez eu só queira uma desculpa para te dar um perfume.

Clarisse fingiu pensar por alguns segundos.

Depois sorriu, com o olhar travesso.

— Difícil, hein... acho que aceito ser possuída.

Fez uma pausa teatral.

— Ops. Quer dizer... aceito o perfume!

A mesa explodiu em risadas.

Clarisse olhou para os canapés sobre a mesa.

— Posso pegar um?

Iago abriu os braços, exagerado.

— Pode pegar todos!

Guillian encheu o copo de Clarisse com cerveja da garrafa que já a aguardava.

Clarisse pegou um canapé de salame com cream cheese.

Mordeu devagar.

A textura macia, o sabor leve e salgado, o pão delicado... tudo parecia combinar com o clima do Epiceno.

Ela sorriu.

Depois ergueu o copo.

— Um brinde?

Os quatro brindaram.

— À sorte! — disse Guillian.

Clarisse deu o primeiro gole.

Fez uma careta imediata.

A cerveja era horrível.

Amarga.

Gelada.

Estranha.

Mas havia algo divino naquela amargura.

A sensação de beber algo que o corpo rejeita no primeiro segundo e, logo depois, espera ansiosamente pelo efeito.

A reunião.

As risadas.

A mesa.

Os amigos.

Quando a cerveja desceu, Clarisse fechou os olhos por um instante.

Esperando a sensação chegar.

Ela abriu os olhos com uma expressão de sofrimento prazeroso.

— Nossa... realmente. É um amargo delicioso. Parece café sem açúcar.

Anton a encarou, indignado.

— Você é maluca!

Deu um gole na própria cerveja.

Guillian apontou para ele.

— Imagina como deve ser o coraçãozinho dele. Só tem sangue e café.

Iago levou a mão ao peito, fingindo ofensa.

— Como vocês são maldosos! Mas, falando sério... como vocês tomam cerveja, se ela é amarga?

Anton respondeu imediatamente:

— Por causa do álcool!

Guillian riu.

— Sei lá... a vida já é amarga demais pra tomar café sem açúcar, né?

Iago fingiu pensar.

— Acho que vou começar a colocar conhaque no meu café.

Olhou para Clarisse.

— E você, Clarisse? Com ou sem açúcar?

Ela respondeu, orgulhosa:

— Sem açúcar.

Guillian arregalou os olhos.

— Mentira!

Iago levou a mão ao peito, fingindo indignação.

— Vocês que não prestam. Tá vendo? Tem alguém aqui com sensibilidade para apreciar um café!

Riu no final, satisfeito por ter encontrado uma aliada.

Anton riu e apoiou o cotovelo na mesa.

— Vai abrir uma IURD do café?

Iago ficou pensativo por dois segundos.

— Nunca pensei nisso! Como seriam os Dez Mandamentos?

Guillian levantou a mão, como se estivesse em uma aula.

— Não tomarás café sem açúcar!

Iago apontou para ela.

— Herege!

Guillian continuou, entrando na brincadeira.

— Não tomarás café sem ser tomado na hora!

Clarisse riu e completou:

— Tomarás café em canecas e xícaras de porcelana!

Anton ergueu o dedo, sério demais para a piada.

— Não tomarás “cafezes” gelado!

A pronúncia errada saiu tão absurda que a mesa inteira explodiu em risadas.

Anton tentou se defender.

— É difícil quando você fala errado e depois não consegue parar de achar graça.

Guillian bateu na mesa, rindo.

— Fora os memes que vêm depois!

No Epiceno, o tempo passava sem pedir licença.

As cervejas diminuíam.

Os canapés desapareciam.

As conversas mudavam de assunto sem esforço.

Clarisse observava os três e sentia uma vontade absurda de morar naquele instante para sempre.

Ser ela mesma.

Sem amarras.

Sem precisar explicar nada.

O lado leve e livre daquela noite a fazia esquecer, por alguns minutos, o peso do quase término que ainda devastava seu peito.

Mas ela não queria pensar nisso agora.

Não podia controlar o passado.

Não podia controlar a distância.

Não podia controlar as mensagens de Filipe.

Só podia controlar aquilo que estava ao seu alcance.

E, naquele momento, o que estava ao seu alcance era simples:

rir com eles.

Beber mais um gole.

E deixar o Epiceno guardar, por algumas horas, a melhor versão de si mesma.

***

Do lado de fora do Epiceno, os quatro caminharam pela calçada da Augusta.

A noite estava cheia de pessoas estranhas e esquisitas, cada uma carregando sua própria história, seu próprio mistério.

Anton tirou um pacote de balas de menta extra forte do bolso e ofereceu a todos.

O burburinho da Augusta parecia falar por si só.

Entre eles, havia silêncio.

Mas um silêncio cheio de risos e olhares.

Quase como uma câmera lenta.

Como se uma música imaginária tomasse conta do quarteto.

Quando chegaram à De Leon, a fila era enorme.

Dava volta no quarteirão.

Clarisse sentiu uma pontada de preocupação.

Mas um dos seguranças pareceu reconhecer Anton.

Eles passaram pela entrada VIP.

Nomes conferidos.

Identidades.

Pulseiras.

A balada.

Sem dizer nada, Anton colocou seu Ray-Ban Wayfarer preto e ajeitou a jaqueta preta sobre os ombros.

Era quase a hora de ele tocar.

Antes de entrar na multidão, fez um aceno com dois dedos.

Guillian e Iago repetiram o gesto imediatamente.

Clarisse os imitou, ainda sem entender completamente.

Os três riram.

Anton se virou.

E desapareceu entre as luzes e as pessoas.

A música já pulsava.

As batidas do DJ atravessavam o peito.

Gente dançando.

Gente linda.

Uma guerra de perfumes no ar.

Luzes estroboscópicas.

Fumaça.

Uma noite de pessoas dançantes e transantes.

O simulacro da liberdade.

Homens, mulheres e quem quer que fosse.

Todos pareciam felizes.

Ou pelo menos fingiam muito bem.

A música continuava.

E agora éramos três: Guillian, Iago e eu.

Dançávamos juntos.

Sensuais.

Leves.

Caras e bocas.

Toques sutis.

Rostos colados.

Vi Iago com o dedinho para cima, apontando para o nada, de olhos fechados.

Guillian, quando tocou “I Follow Rivers”, ficou completamente perdida na balada.

Bebidas.

Mais bebidas.

E eu estava tão leve.

Tudo aquilo que Anton odiava, eu amava ver.

No fundo, era pura pirraça.

Óbvio.

As pessoas olhavam para nós e se confundiam.

Guillian me provocava com a mão no meu corpo, suave.

Iago dançava com os quadris próximos aos meus.

E era gostoso ser desejada.

Ser tocada sem vulgaridade.

Os olhares dos outros machucavam mais porque tentavam nos dar rótulos.

Mas, naquela noite, eu estava livre deles.

As trocas aconteciam sem serem anunciadas.

Apenas um saía.

Outro entrava.

O trio entendia.

De repente, Anton apareceu no palco.

Os três gritaram ao mesmo tempo.

Iago soltou um assovio tão alto que atravessou a música.

Guillian respondeu com outro ainda mais alto.

Clarisse riu.

Que inveja.

Queria saber assobiar assim, alto, como um maloqueiro de verdade.

Anton estava misterioso no palco.

De óculos escuros.

Jaqueta preta.

Concentrado.

As luzes piscavam sobre ele enquanto as pessoas dançavam.

Garotas levantavam os celulares, gravando para o Instagram.

Clarisse pegou o próprio celular.

Aproximou-se de Guillian e Iago.

Tirou uma selfie dos três.

Sorriu.

Mesmo sabendo que aquilo poderia desencadear problemas com Filipe.

Postou assim mesmo.

Em segundos, vieram as curtidas.

Os comentários.

As mensagens.

“Seja livre!”

Ela leu.

E soube.

Óbvio que Filipe tinha visto.

Mas não queria pensar nisso.

A playlist de Anton estava perfeita.

As batidas pareciam conversar com o corpo das pessoas.

Garotas cercavam o palco com intenções visíveis.

Clarisse observava Anton lá em cima e pensava:

“Todos acham que ele é só um boy bonito.”

Mas ela já sabia.

Ele era muito mais humano do que muita gente.

Duas horas passaram sem que eles percebessem.

Bebidas.

Mais bebidas.

Risadas.

Dança.

Clarisse queria mais.

Guillian estava completamente na vibe.

Ou, como ela dizia:

“Farmando aura.”

Iago desapareceu por alguns minutos.

Clarisse sentiu um pequeno susto.

Guillian se aproximou do ouvido dela e gritou, por causa da música:

— Ele foi comprar água pra gente!

Clarisse sorriu aliviada.

As duas continuaram dançando.

A balada parecia pequena de tão livres que estavam.

Dois rapazes se aproximaram delas.

Guillian, sutilmente, conduziu Clarisse para o lado.

Tão natural que ela nem percebeu.

Quando Iago voltou, estava com garrafas de água nas mãos.

O som ainda era alto demais para qualquer conversa.

Eles beberam.

Riram.

Se refrescaram.

E Clarisse olhou para Iago, segurando a garrafa de água como se fosse um tesouro.

Iago.

Cuidando da gente.

Anton voltou do palco ainda usando os óculos escuros.

Algumas meninas o cercaram, pedindo seu Instagram, sorrindo alto demais para serem ouvidas por causa da música.

Ele respondeu com educação, mas parecia mais leve quando se aproximou da mesa.

Clarisse foi até ele.

Ficou perto do seu ouvido e disse, quase gritando por cima das batidas:

— Você não dançou comigo!

Anton tirou os óculos escuros lentamente.

Antes que ele pudesse responder, Clarisse pegou os Ray-Ban de sua mão e os colocou no próprio rosto.

Anton ficou olhando para ela, sorrindo.

Um sorriso pequeno.

Encantado.

Clarisse saiu correndo de volta para Guillian, rindo.

Guillian a puxou pela cintura e as duas ficaram abraçadas no meio da pista.

Anton e Iago se aproximaram.

Os quatro se encontraram novamente no centro das luzes.

A música mudou.

Guillian segurou o rosto de Clarisse com as duas mãos.

E a beijou.

Um beijo doce.

Quente.

Cheio de coragem.

Anton olhou para Iago.

Como quem já sabia.

Como quem não precisava pedir permissão.

Iago sorriu.

E Anton o beijou.

Um beijo antigo.

Íntimo.

Daqueles que carregam histórias que ninguém de fora entende.

Por alguns segundos, o mundo pareceu diminuir.

A batida continuava.

As luzes continuavam.

Mas havia algo entre eles que não precisava ser explicado.

Iago se afastou devagar.

Olhou para Clarisse.

Ela ainda estava sorrindo, ainda tentando entender a intensidade daquele momento.

Então ele se aproximou.

Tocou seu rosto com cuidado.

E a beijou.

Um beijo leve.

Curioso.

Como uma descoberta.

Como se ele quisesse perguntar algo sem usar palavras.

Anton observou os dois por um instante.

Depois virou-se para Guillian.

Ela sorriu antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.

Anton segurou sua mão.

Aproximou-se.

E a beijou.

Um beijo cheio de cumplicidade.

De carinho.

Como se os dois soubessem exatamente onde estavam naquele instante.

Então Anton estendeu a mão para Clarisse.

Ela segurou.

Os dois começaram a dançar.

Próximos.

Rindo.

Girando devagar no meio da multidão.

Clarisse sentia o cheiro da jaqueta preta, do perfume, da menta que ainda restava no hálito dele.

Anton aproximou o rosto do dela.

E a beijou.

Naquele instante, a De Leon desapareceu.

As luzes.

A fumaça.

As pessoas.

Os celulares.

Tudo ficou distante.

Restaram apenas os quatro.

E a música.

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Thoughts

  • CarlaoDoBar

    A Clarisse fazendo careta no primeiro gole e logo chamando de amargo delicioso, isso é gente que resolveu gostar da noite antes de gostar da cerveja. Aposto que lá pela terceira ela nem sentia mais o gosto.

    Permalink
  • fioAtras

    O Filipe não aparece nenhuma vez e mesmo assim tá em tudo: no perfume que o Iago quer trocar, na selfie postada de propósito. Meu palpite é que a próxima parte abre com ela olhando o celular de manhã.

    Permalink

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