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Capítulo 4: Quer Permanecer - Parte 3

aleroz

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Sábado.

No apartamento de Clarisse, o silêncio tinha cheiro de terra molhada.

Ela passou o sábado inteiro arrumando tudo.

Trocou o vaso quebrado por um novo, limpou a sala, secou o chão e organizou cada canto como se estivesse tentando colocar a própria vida no lugar.

Sobre a mesa, o notebook permanecia aberto.

Clarisse pesquisava no ChatGPT sobre cuidados com rosas escarlates, transplante de vasos, poda e recuperação de raízes.

Ao lado do computador, uma tesoura, folhas cortadas e pequenos galhos formavam um cenário de tentativa.

As flores mais antigas estavam envelhecendo com o tempo.

Mas o broto resistia.

Pequeno.

Verde.

Teimoso.

A roseira parecia sobreviver às adversidades do tempo.

E Clarisse, pela primeira vez desde a chuva, sentiu uma empolgação tímida.

Nem tudo estava perdido.

Talvez furar o teto da própria realidade fosse uma loucura necessária.

Quando terminou de arrumar tudo, sentou-se no sofá e pegou o celular.

Uma notificação apareceu na tela.

“Oie, Sasa... tudo bem? Você não me responde.”

Filipe.

Clarisse olhou para a mensagem e respirou fundo.

Digitou devagar:

“Oie... desculpa não responder. Estava muito ocupada com os trampos 💙💙”

Assim que enviou, percebeu o erro.

Corações azuis.

Amizade.

Distância.

Frieza disfarçada de carinho.

A resposta veio imediatamente.

“Sei... estava vendo aqui no meu Instagram as recomendações de amigos para seguir.”

Pausa.

“Quem são Iago e Anton?”

Outra pausa.

“Você é bem reservada. Seu perfil é privado, difícil de adicionar alguém... e você adicionou eles.”

“Só estou comentando. Só achei estranho.”

Clarisse sentiu a espinha gelar.

Respondeu rápido demais:

“São colegas da galeria.”

Ela conhecia Filipe.

Conhecia o jeito como ele transformava detalhes em perguntas.

E perguntas em suspeitas.

Ele ainda não sabia de Guillian.

Ou sabia?

A nova mensagem apareceu.

“Por que corações azuis?”

Foi como uma bola de boliche atingindo seu estômago.

Um nó se formou na garganta.

Clarisse jogou o celular para o lado.

Ainda faltavam muitas horas para a balada.

Na dúvida, não responda.

Não faça nada.

Só durma.

Ela fechou os olhos por um instante.

Depois abriu de novo e disse alto para si mesma:

— Foda-se.

Mais tarde, depois do almoço na rua, das compras feitas e do lanchinho da semana guardado na cozinha, Clarisse caiu na cama.

O celular continuou ali, silencioso.

Mas o silêncio agora pesava.


***

São 17h de sábado.

Clarisse acorda devagar.

Olha para o celular e vê as horas.

— Tenho que fazer isso sempre que tiver dúvidas: dormir.

Pela primeira vez desde a mudança para São Paulo, ela percebe o armário arrumado.

As roupas estão organizadas.

As caixas fechadas.

Os cabides alinhados.

Como se, aos poucos, o apartamento também estivesse aprendendo a respirar.

Ela abre o armário e começa a espalhar opções sobre a cama.

Vestidos.

Blusas.

Calças.

Jaquetas.

Olha para cada peça com atenção exagerada.

Indecisa.

Ansiosa.

Empolgada demais para a noite na De Leon.

De vez em quando, pega o celular.

Nenhuma mensagem de Iago.

Provavelmente fariam um esquenta antes da balada.

Comer alguma coisa.

Beber.

Conversar.

Rir até perder a noção do tempo.

Ela sorri sozinha.

Depois abre a caixa de joias e bijuterias.

Coloca colares, brincos e anéis sobre a cama, testando combinações como quem monta uma pequena exposição.

Uma notificação aparece na tela.

Filipe.

Clarisse olha por dois segundos.

Ignora.

Aquilo não tinha peso agora.

— O chato está a 1.469 km daqui.

Ela se olha no espelho, segurando uma blusa contra o corpo.

— Não posso fazer nada até conversar pessoalmente.

Prende alguns grampos no cabelo.

Faz caretas.

Muda o penteado.

Desfaz.

Tenta de novo.

— Tenho que escolher um bom perfume, arrumar o cabelo, fazer as unhas...

Ela para diante do espelho.

— Meu Deus, como eles são cheirosos.

Ri de si mesma.

— Iago tem gosto pra tudo. Gui tem uma pele linda, aquelas tatuagens fininhas... Anton... Anton gosta do conjunto.

Fica em silêncio por um instante.

Observa o próprio reflexo.

— Será que sou tão linda assim?

A dúvida vem baixa.

Quase tímida.

Então ela se lembra.

Cada um deles a chamou de linda.

Não como enfeite.

Não como elogio vazio.

Mas como presença.

Como alguém que ocupava o espaço.

Quando as pessoas no Jabuticaba olhavam para os quatro, não era só desejo.

Era curiosidade.

Era magnetismo.

Era a sensação de que aquele grupo carregava uma história que ninguém entendia direito.

Como se todos quisessem oferecer lugar em suas mesas.

Mas eles escolheram o meio-fio.

Clarisse sorri.

— Nossa... eu devo uma rodada para eles.

Clarisse se joga no sofá, ainda cercada de roupas, colares e perfumes.

Por alguns segundos, fica encolhida, abraçando as próprias pernas.

Um delírio bom.

Daqueles que sacodem o corpo sem machucar.

Então se lembra de Anton dizendo, na noite anterior, enquanto falavam de música:

“O melhor momento de ouvir Sade é antes de tudo começar.”

Ela sorri sozinha.

Ainda deitada, chama pela Alexa:

— Alexa, toque as melhores da Sade.

A voz eletrônica responde:

— Um momento... Tocando Sade — Melhores músicas.

Os primeiros acordes enchem o apartamento.

Clarisse fecha os olhos.

— Nossa, que demais... Né que o danado tem razão?

Ela levanta.

Começa a dançar pela sala.

Dança com a Alexa.

Dança com o vaso de planta.

Canta usando a escova de cabelo como microfone.

Gira no corredor.

Ri sozinha.

Por alguns minutos, o apartamento deixa de ser um lugar de solidão.

Vira palco.

Vira festa.

Vira promessa.

Depois toma banho demorado.

Faz as unhas.

Arruma o cabelo.

Escolhe a roupa.

Não estava apenas se preparando para sair.

Estava realizando um ritual.

As horas passam.

Tudo fica pronto.

Clarisse passa o perfume no pescoço, nos pulsos, atrás das orelhas.

Respira fundo.

A sensação é estranha.

Como se aquela noite prometesse mais do que uma simples esperança.

O celular vibra.

Mensagem de Iago.

“Oie... minha linda, vamos nos encontrar no Epiceno. Barzinho chiquitoso, gostoso, confortável, cheio de guloseimas leves. O lugar é um charme. Te esperamos. Um beijo 😘”

Abaixo da mensagem, várias fotos.

A localização.

O teto coberto por um emaranhado de luzinhas, como estrelas de Natal presas ao escuro.

Paredes rústicas.

Móveis industriais.

Quadros antigos e coloridos dos anos 60.

E uma foto da mesa onde eles estavam sentados: cerveja gelada e canapés de salame com cream cheese.

Na mesma hora, o estômago de Clarisse roncou.

Ela digitou rapidamente:

“Eu te odeio 😡”

Iago respondeu em segundos:

“E o pior: eu sei disso. Chega aí...”

Clarisse riu alto.

Guardou o celular na bolsa.

E, pela primeira vez em muito tempo, saiu de casa não para fugir de alguma coisa.

Mas para ir ao encontro de algo que desejava.

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Thoughts

  • fioAtras

    O Filipe pergunta dos corações azuis e nem uma vez de como ela tá. Pra mim isso diz mais dele do que de qualquer coisa que a Clarisse escondeu, e a Guillian ele ainda nem sabe que existe.

    Permalink
  • silzinha

    Dançar com o vaso kkkk

    Permalink

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