Sábado.
No apartamento de Clarisse, o silêncio tinha cheiro de terra molhada.
Ela passou o sábado inteiro arrumando tudo.
Trocou o vaso quebrado por um novo, limpou a sala, secou o chão e organizou cada canto como se estivesse tentando colocar a própria vida no lugar.
Sobre a mesa, o notebook permanecia aberto.
Clarisse pesquisava no ChatGPT sobre cuidados com rosas escarlates, transplante de vasos, poda e recuperação de raízes.
Ao lado do computador, uma tesoura, folhas cortadas e pequenos galhos formavam um cenário de tentativa.
As flores mais antigas estavam envelhecendo com o tempo.
Mas o broto resistia.
Pequeno.
Verde.
Teimoso.
A roseira parecia sobreviver às adversidades do tempo.
E Clarisse, pela primeira vez desde a chuva, sentiu uma empolgação tímida.
Nem tudo estava perdido.
Talvez furar o teto da própria realidade fosse uma loucura necessária.
Quando terminou de arrumar tudo, sentou-se no sofá e pegou o celular.
Uma notificação apareceu na tela.
“Oie, Sasa... tudo bem? Você não me responde.”
Filipe.
Clarisse olhou para a mensagem e respirou fundo.
Digitou devagar:
“Oie... desculpa não responder. Estava muito ocupada com os trampos 💙💙”
Assim que enviou, percebeu o erro.
Corações azuis.
Amizade.
Distância.
Frieza disfarçada de carinho.
A resposta veio imediatamente.
“Sei... estava vendo aqui no meu Instagram as recomendações de amigos para seguir.”
Pausa.
“Quem são Iago e Anton?”
Outra pausa.
“Você é bem reservada. Seu perfil é privado, difícil de adicionar alguém... e você adicionou eles.”
“Só estou comentando. Só achei estranho.”
Clarisse sentiu a espinha gelar.
Respondeu rápido demais:
“São colegas da galeria.”
Ela conhecia Filipe.
Conhecia o jeito como ele transformava detalhes em perguntas.
E perguntas em suspeitas.
Ele ainda não sabia de Guillian.
Ou sabia?
A nova mensagem apareceu.
“Por que corações azuis?”
Foi como uma bola de boliche atingindo seu estômago.
Um nó se formou na garganta.
Clarisse jogou o celular para o lado.
Ainda faltavam muitas horas para a balada.
Na dúvida, não responda.
Não faça nada.
Só durma.
Ela fechou os olhos por um instante.
Depois abriu de novo e disse alto para si mesma:
— Foda-se.
Mais tarde, depois do almoço na rua, das compras feitas e do lanchinho da semana guardado na cozinha, Clarisse caiu na cama.
O celular continuou ali, silencioso.
Mas o silêncio agora pesava.
***
São 17h de sábado.
Clarisse acorda devagar.
Olha para o celular e vê as horas.
— Tenho que fazer isso sempre que tiver dúvidas: dormir.
Pela primeira vez desde a mudança para São Paulo, ela percebe o armário arrumado.
As roupas estão organizadas.
As caixas fechadas.
Os cabides alinhados.
Como se, aos poucos, o apartamento também estivesse aprendendo a respirar.
Ela abre o armário e começa a espalhar opções sobre a cama.
Vestidos.
Blusas.
Calças.
Jaquetas.
Olha para cada peça com atenção exagerada.
Indecisa.
Ansiosa.
Empolgada demais para a noite na De Leon.
De vez em quando, pega o celular.
Nenhuma mensagem de Iago.
Provavelmente fariam um esquenta antes da balada.
Comer alguma coisa.
Beber.
Conversar.
Rir até perder a noção do tempo.
Ela sorri sozinha.
Depois abre a caixa de joias e bijuterias.
Coloca colares, brincos e anéis sobre a cama, testando combinações como quem monta uma pequena exposição.
Uma notificação aparece na tela.
Filipe.
Clarisse olha por dois segundos.
Ignora.
Aquilo não tinha peso agora.
— O chato está a 1.469 km daqui.
Ela se olha no espelho, segurando uma blusa contra o corpo.
— Não posso fazer nada até conversar pessoalmente.
Prende alguns grampos no cabelo.
Faz caretas.
Muda o penteado.
Desfaz.
Tenta de novo.
— Tenho que escolher um bom perfume, arrumar o cabelo, fazer as unhas...
Ela para diante do espelho.
— Meu Deus, como eles são cheirosos.
Ri de si mesma.
— Iago tem gosto pra tudo. Gui tem uma pele linda, aquelas tatuagens fininhas... Anton... Anton gosta do conjunto.
Fica em silêncio por um instante.
Observa o próprio reflexo.
— Será que sou tão linda assim?
A dúvida vem baixa.
Quase tímida.
Então ela se lembra.
Cada um deles a chamou de linda.
Não como enfeite.
Não como elogio vazio.
Mas como presença.
Como alguém que ocupava o espaço.
Quando as pessoas no Jabuticaba olhavam para os quatro, não era só desejo.
Era curiosidade.
Era magnetismo.
Era a sensação de que aquele grupo carregava uma história que ninguém entendia direito.
Como se todos quisessem oferecer lugar em suas mesas.
Mas eles escolheram o meio-fio.
Clarisse sorri.
— Nossa... eu devo uma rodada para eles.
Clarisse se joga no sofá, ainda cercada de roupas, colares e perfumes.
Por alguns segundos, fica encolhida, abraçando as próprias pernas.
Um delírio bom.
Daqueles que sacodem o corpo sem machucar.
Então se lembra de Anton dizendo, na noite anterior, enquanto falavam de música:
“O melhor momento de ouvir Sade é antes de tudo começar.”
Ela sorri sozinha.
Ainda deitada, chama pela Alexa:
— Alexa, toque as melhores da Sade.
A voz eletrônica responde:
— Um momento... Tocando Sade — Melhores músicas.
Os primeiros acordes enchem o apartamento.
Clarisse fecha os olhos.
— Nossa, que demais... Né que o danado tem razão?
Ela levanta.
Começa a dançar pela sala.
Dança com a Alexa.
Dança com o vaso de planta.
Canta usando a escova de cabelo como microfone.
Gira no corredor.
Ri sozinha.
Por alguns minutos, o apartamento deixa de ser um lugar de solidão.
Vira palco.
Vira festa.
Vira promessa.
Depois toma banho demorado.
Faz as unhas.
Arruma o cabelo.
Escolhe a roupa.
Não estava apenas se preparando para sair.
Estava realizando um ritual.
As horas passam.
Tudo fica pronto.
Clarisse passa o perfume no pescoço, nos pulsos, atrás das orelhas.
Respira fundo.
A sensação é estranha.
Como se aquela noite prometesse mais do que uma simples esperança.
O celular vibra.
Mensagem de Iago.
“Oie... minha linda, vamos nos encontrar no Epiceno. Barzinho chiquitoso, gostoso, confortável, cheio de guloseimas leves. O lugar é um charme. Te esperamos. Um beijo 😘”
Abaixo da mensagem, várias fotos.
A localização.
O teto coberto por um emaranhado de luzinhas, como estrelas de Natal presas ao escuro.
Paredes rústicas.
Móveis industriais.
Quadros antigos e coloridos dos anos 60.
E uma foto da mesa onde eles estavam sentados: cerveja gelada e canapés de salame com cream cheese.
Na mesma hora, o estômago de Clarisse roncou.
Ela digitou rapidamente:
“Eu te odeio 😡”
Iago respondeu em segundos:
“E o pior: eu sei disso. Chega aí...”
Clarisse riu alto.
Guardou o celular na bolsa.
E, pela primeira vez em muito tempo, saiu de casa não para fugir de alguma coisa.
Mas para ir ao encontro de algo que desejava.
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