Na porta da barbershop, Clarisse e Linda observam a cena.
Elas tinham saído para almoçar.
Linda olha para Clarisse.
Faz uma expressão como quem pergunta:
"Como eu vim parar no meio disso?"
Clarisse sente o peso daquele momento.
Parece que uma parte dela queria ficar ali.
Mas havia algo pesado no ar.
Elas se afastam em silêncio.
Ela enxuga as lágrimas.
— Por que vocês são assim?
Os três se entreolham.
Iago dá de ombros.
— Nem eu sei.
Ela sorri de canto.
— Iago... eu preciso pagar o prejuízo da barbershop.
— Não precisa. A gente deu um jeito.
— Mas...
— Não fala mais nisso. Eu não guardo rancor...
Olha para Anton.
— Só ele.
Anton faz uma cara feia.
Guillian ri.
Até Ela ri, ainda chorando.
Respira fundo.
— Por que vocês ainda são tão amáveis comigo... depois de tudo o que eu fiz?
Iago responde primeiro.
— Porque a gente também erra.
Silêncio.
— O Anton é chatão.
Guillian sorri.
— Eu sou muito legal...
Olha para Guillian.
— E a Gui... é a Gui.
— Ah, vai! — Guillian empurra o braço dele.
Eles riem.
A tensão diminui.
Mas Ela continua séria.
— Eu não consigo me perdoar.
Anton olha para ela.
— Não se torture.
Faz uma pausa.
— Eu também não me perdoo por muita coisa.
Ela abaixa os olhos.
— Eu entendo.
Anton sorri de leve.
— A diferença é que algumas das minhas não têm solução.
Guillian imediatamente segura a mão dele.
— Não fala assim.
Olha firme nos olhos dele.
— Divide esse peso comigo.
Iago coloca a mão no ombro de Anton.
— Com a gente.
Ninguém diz mais nada.
Os quatro saem da barbershop.
No centro da galeria havia um banco de madeira cercado por um pequeno jardim.
Os três caminham lado a lado, abraçados.
Ela para alguns passos atrás.
Observa aquela cena como quem olha um quadro.
Imperfeito.
Marcado.
Mas bonito.
Sorri entre as lágrimas.
— Nem somos amigos...
Faz uma pausa.
— Nem inimigos...
Outra pausa.
— Só estranhos que compartilham memórias.
Ninguém responde.
Porque todos sabiam.
Aquele grupo não duraria para sempre.
E justamente por isso, cada lembrança importava.
Ela acena discretamente.
Vai embora.
Doía deixar aquele lugar.
Mas, às vezes, maturidade não era insistir em permanecer.
Era reconhecer quando o carinho precisava continuar sem posse.
E seguir em frente.
Linda e Clarisse seguem pela Rua Augusta.
Param no sinal.
— Deixa eu te contar... quem estava na barbershop era a Ela.
— Nossa... eu vi. Que olhos...
O semáforo abre.
As duas atravessam a faixa.
Um rapaz entrega panfletos de um novo empreendimento imobiliário.
Linda pega um.
Clarisse também.
Linda olha o folheto e sorri de lado.
— Agora virou moda comprar casarões antigos da Augusta e levantar prédio novo.
Clarisse observa a imagem.
— Jardim vertical...
— Dizem que diminui o impacto ambiental.
Ela vira o panfleto.
— Três quartos em sessenta metros quadrados.
— Área gourmet.
Linda ri.
— Paredes mais finas... gaiolas individuais.
Clarisse sorri.
— Mas parece bonito.
Linda olha os prédios antigos da rua.
— Bonito até é.
Faz uma pausa.
— Só que tudo está mudando.
Respira.
— Se a Augusta não existisse, metade de São Paulo ainda seria virgem.
Clarisse ri.
— Mas a Augusta também já não é mais a mesma.
Entram no Restaurante Beco.
O garçom ajeita a mesa.
As duas se sentam.
— Vou querer um omelete com fritas e uma água sem gás.
— Para mim, filé de frango e água com gás.
— Já trago para vocês.
O garçom se afasta.
Linda sorri.
— Gostei desse "para vocês". Antes era "moço"...
As duas riem.
Clarisse apoia os braços na mesa.
— Agora conta da Ela.
Linda suspira.
— Não é fofoca.
Faz uma pausa.
— Eu vi tudo.
— O que aconteceu?
— Ela andava com eles direto.
Olha pela janela.
— Era bonito de ver.
Sorri.
— Juventude...
Clarisse espera.
— Só que ela pareceu não entender a dinâmica entre eles.
— Como assim?
— Ela entrou no estúdio da Guillian completamente alterada.
Dizia que amava os três.
Anton.
Iago.
Guillian.
Clarisse franze a testa.
— E depois?
— A Guillian se assustou.
Ela pegou um estilete para se defender furar Gullian.
A galeria inteira entrou em pânico.
Nesse momento o garçom chega com os pratos.
Coloca tudo sobre a mesa.
— Bom apetite.
— Obrigada.
O garçom se afasta.
Clarisse olha para Linda.
— Continua.
— A Guillian correu para o meu ateliê.
Entrou desesperada.
Nós trancamos a porta.
A Ela gritava do lado de fora.
Parecia fora de si.
Os olhos...
Linda balança a cabeça.
— Nunca vou esquecer aqueles olhos.
— Que medo...
— Eu ia chamar a polícia.
Clarisse fica em silêncio.
— Mas o Anton e o zelador da galeria conseguiram acalmar ela.
Anton me pediu para não ligar.
Disse que eles resolveriam aquilo entre eles.
— E resolveu?
Linda corta um pedaço do omelete.
— Resolveu...
Dá um sorriso discreto.
— Mas ninguém ali saiu inocente.
As duas ficam em silêncio por alguns segundos.
Clarisse olha para o prato.
Linda quebra o clima.
— Agora chega.
Sorri.
— Vamos comer antes que esfrie.
Após a despedida de Ela, o silêncio dura apenas alguns segundos.
Anton quebra o clima.
— Bora comer?
Guillian abre um sorriso.
— Pizza!
Iago levanta a mão.
— Bora!
Os três seguem pela parte baixa da Rua Augusta.
Passam por brechós.
Casas noturnas ainda fazendo faxina.
Bares recebendo caixas de bebidas e mercadorias.
O cheiro das chapas já anuncia os primeiros sanduíches.
Garçons gritam pedidos.
A Augusta desperta.
A calçada estreita obriga os três a caminharem quase lado a lado.
O sol do meio-dia é forte.
Mas basta entrar na sombra dos prédios para sentir um friozinho típico de São Paulo.
Cartazes de lambe-lambe cobrem os muros.
Guillian observa uma fachada de balada fechada.
— É estranho ver as baladas de dia, né?
Abraçada em Iago, ela continua olhando a rua.
— A luz revela quem somos de verdade.
Iago sorri.
— Nossa... tá poética.
Olha para ela.
— Quer que eu tatue essa frase?
— Quem sabe um dia.
Os dois encostam os narizes e riem.
Anton apenas segue caminhando.
Em silêncio.
Iago olha os letreiros das casas noturnas.
— De Leon...
Outra.
— Blitz...
Mais à frente.
— Sarajevo...
Olha para Anton.
— Quando você toca na De Leon de novo?
— Talvez essa semana.
Dá de ombros.
— Ou na outra.
— Aí eu quero entrada VIP.
Anton ri.
— Vou ver. Nem recebi o e-mail do promoter ainda.
— Mas você vai tocar aquela música que eu gosto, né?
Anton olha para ele.
— Iago... não se pede música para DJ.
Guillian entra na brincadeira.
— Mas você não é um DJ.
Faz pose.
— Você é o DJ.
Anton lança um olhar cínico.
— Se eu fosse tatuador, também não deixava a Gui tatuar qualquer coisa.
Guillian solta um grito exagerado.
— Dããã!
Anton ri.
— E você...
Olha para Iago.
— Só não vai levantar o dedinho pra cima, olhando para o teto, segurando um drink.
Iago coloca a mão no peito.
— Mas eu sinto a música.
— Eu arrepio inteiro.
Guillian ri.
— Eu sei.
Põe a mão no braço dele.
— Porque eu arrepio junto.
Os três entram na pizzaria.
Sobem para o mezanino.
Lá de cima, a Augusta parece outra.
A rua continua barulhenta.
Mas dali, tudo parecia acontecer um pouco mais devagar.
Os três fazem o pedido.
Uma pizza grande para dividir.
Enquanto esperam, Anton permanece distante.
Iago percebe.
— Tá quieto, Anton.
Ele suspira.
— A manhã foi cheia.
— A Débora...
Guillian abaixa os olhos.
— Perder um bebê...
Iago completa.
— E ainda teve a Ela.
Anton faz um pequeno sorriso.
— E vocês esqueceram da Clarisse.
Guillian ri.
— Verdade.
— Gostei dela.
— Curiosa.
O silêncio volta por alguns segundos.
Iago quebra o clima.
— Ainda fiquei pensando na Débora.
— É injusto.
Anton concorda.
— Nove meses cultivando uma vida dentro de você...
Ninguém sabe o que dizer.
Anton olha para Guillian.
— Você pensa em ter filhos um dia?
Ela sorri de canto.
— Não sei.
Olha para os dois.
— Mal sei cuidar de mim.
— Vocês já cuidam de mim.
Iago sorri.
— E sua mãe?
— Continua uma fofa.
— Sendo mãe em tempo integral.
Anton abaixa os olhos.
— Tenho inveja de você, Gui.
O silêncio pesa.
Os três conheciam a relação difícil que Anton tinha com a própria mãe.
Guillian segura a mão dele sobre a mesa.
— O cuidado que faltou para você...
Ela aperta de leve a mão dele.
— Você deu para nós.
Anton apenas sorri.
Nesse instante, a garçonete chega equilibrando uma pizza.
— Com licença... a pizza de vocês.
Ela coloca sobre a mesa.
Iago olha.
— Acho que não foi essa que a gente pediu.
A garçonete empalidece.
A respiração acelera.
— Meu Deus... desculpa... eu...
Ela tenta falar, mas falta ar.
Guillian percebe imediatamente.
Levanta um pouco da cadeira.
— Moça...
Sorri com delicadeza.
— Senta um pouquinho.
Ela hesita.
— Sua ansiedade atacou, não foi?
Anton empurra um copo de água em direção à garçonete.
Sem dizer nada.
Ela aceita.
As mãos tremem.
Iago sorri.
— Relaxa.
Olha para a pizza.
— A gente fica com essa mesmo.
— Não precisa trocar.
A garçonete encara os três.
— Tem certeza?
— Claro.
Iago dá de ombros.
— Quem nunca errou?
Sorri.
— Ainda mais errando com pizza.
A garçonete ri pela primeira vez.
A tensão desaparece.
— Obrigada...
Ela respira fundo.
— De verdade.
Anton pega o primeiro pedaço.
— Agora senta não...
Olha para a pizza.
— Porque ela vai esfriar.
Os quatro riem.
A garçonete volta ao trabalho um pouco mais leve.
Na galeria.
Débora segura o vaso.
As três rosas escarlates.
O pequeno broto.
Ela ergue a tesoura.
Respira.
Tenta cortar.
Mas para.
Atrás dela.
Iago.
Guillian.
Anton.
Iago sorri.
— Trouxe uns doces pra você.
Guillian abre os braços.
— E um abraço.
Débora sorri pela primeira vez naquele dia.
Iago a abraça.
Guillian abraça logo em seguida.
Chora por ela.
Anton observa alguns segundos.
Iago estende a mão.
— Vem, Anton.
Ele se aproxima.
Os quatro permanecem abraçados.
Sem pressa.
Nenhuma palavra.
Só o perfume dos três jovens misturado ao cheiro das flores.
Débora não chora.
Guillian chora por ela.
O abraço parece dizer tudo o que ninguém conseguia colocar em palavras.
Alguns metros dali.
Clarisse presencia a cena.
Fica imóvel.
Os quatro juntos.
Havia algo difícil de explicar.
O jeito silencioso de Anton.
A alegria de Iago.
A espontaneidade de Guillian, chorando sem vergonha.
Era bonito.
Mas também doía.
Como uma rosa.
Ela percebe a tesoura ainda na mão de Débora.
Quase sem pensar, diz:
— Débora...
Todos olham para ela.
— Não corta o broto.
Faz uma pausa.
— Eu quero esse vaso.
Débora olha para as flores.
Sorri de leve.
— Eu embalo.
Passa os dedos pelas pétalas.
— Essas rosas não me deixam em paz.
Ela entra na floricultura.
Anton cruza o olhar com Clarisse.
Um aceno quase imperceptível.
Guillian se aproxima dela.
Curiosa.
Como uma criança.
Olha nos olhos de Clarisse.
Sorri.
— Oi...
Clarisse sorri de volta, sem jeito.
Iago também se aproxima.
— Obrigado por ter ficado com a Débora nessa manhã.
— Foi de coração.
Clarisse sente os três ao redor.
Não como um cerco.
Mas como um acolhimento.
Era estranho.
Ela se sentia vista.
Sem precisar provar nada.
Pensou, pela primeira vez:
"Meu Deus... como é bom ser notada pelo que eu sou."
Débora volta com o vaso cuidadosamente embalado.
— Pronto.
Entrega para Clarisse.
— Pode levar.
Sorri.
— Depois você me paga.
Olha para o broto.
— Elas vão sobreviver ao transporte.
Clarisse segura o vaso com cuidado.
Como quem segura alguma coisa muito maior do que flores.
— O-obrigada... Débora.
Anton olha para Clarisse.
Sem rodeios.
— Quer sair com a gente?
Clarisse sente a boca secar.
Por um instante, nenhuma resposta aparece.
Iago entra no silêncio.
— Vai ser bom.
Sorri.
— Ou o mais perto disso que a gente consegue.
Guillian já se anima.
— Vamo!
Bate palmas baixinho.
— Vamo, vamo, vamo!
Clarisse permanece imóvel.
Como se alguém tivesse acabado de ler um desejo que ela nunca contou para ninguém.
Guillian percebe.
— O Anton vai tocar na De Leon.
Abre um sorriso.
— Bora com a gente?
Iago se aproxima um pouco.
— Só não fala "não", tá?
Faz cara de drama.
— Tenho trauma de levar bolo.
Ainda mais de gente bonita.
Clarisse ri pela primeira vez.
Respira fundo.
— Sim.
Guillian solta um gritinho.
— Perfeito!
Ela abraça Iago.
Os dois comemoram como crianças.
— Ela vai!
— Ela vai!
Anton apenas sorri.
Discretamente.
Cada um segue para sua loja.
Clarisse permanece parada por alguns segundos.
Na cabeça dela passam imagens soltas.
O apartamento de janelas grandes.
O Mefi.
O violão.
Os discos.
Os pufes espalhados pela sala.
As conversas.
As noites.
Respira.
"Meu Deus..."
"Tô perdida."
Ela se vira em direção ao ateliê.
Linda havia deixado a chave com ela.
Caminha devagar.
Sem olhar para trás.
O celular vibra.
Uma notificação.
Ela desbloqueia a tela.
Iago começou a seguir você.
Logo abaixo.
Guillian começou a seguir você.
Clarisse para.
Olha para trás.
Anton já vai alguns passos à frente.
Nem percebe.
Iago e Guillian ainda estão na porta.
Os dois acenam.
Mandam um beijo no ar.
Clarisse abaixa os olhos por um segundo.
Sorri.
Aceita as duas solicitações.
E continua caminhando.
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