Aquela manhã passou devagar.
Clarisse olha pela janela do ateliê.
Lá fora, o jarro de flores.
As rosas escarlates.
O broto pequeno, mas vivo e forte.
Atrás delas, outras flores colocadas por Débora.
Ela pensa no filho que ela perdeu.
Que coisa triste.
Algo que nunca chegou a ser conhecido, mas que já fazia parte da vida de alguém.
A vida tinha dessas contradições.
Um broto nascendo.
Uma vida partindo.
Não existe como se proteger completamente do mundo.
Em algum momento, é preciso se jogar nele.
As três rosas vermelhas.
Anton.
Iago.
Guillian.
Tão intensos.
Tão delicados.
Talvez esse fosse o charme deles.
Rosas não são maçanetas de portas.
Você não segura uma rosa com força.
Você toca com cuidado, como quem respeita algo que não quer machucar.
Os espinhos estão ali.
Não precisam avisar.
São rosas.
Elas têm espinhos.
Somos jovens.
Estamos perdidos.
— Linda, você está sabendo da Débora, da floricultura?
— Não. Só sei que ela sumiu por algumas semanas.
— Ué, mas a floricultura está aberta.
— Nossa... nem reparei. Mas me conta, o que aconteceu? Sempre que começa assim é alguma morte?
Clarisse hesita.
— Ela perdeu o bebê.
Linda fica paralisada.
— Meu Deus... como assim? A gente fez até chá de bebê na galeria.
— Por isso o Anton falou com a gente. Parece que ele já conhecia ela há bastante tempo.
Linda leva a mão ao peito.
— Nossa... preciso tomar alguma coisa.
— Quer que eu faça um café? Uma água?
— Um café... não, água. Não... os dois.
Clarisse levanta.
Vai até a pequena pia e abre o armário onde ficam os cafés e os refis.
— Fiquei perdida com essa notícia.
— É... eu também. Foi um choque.
— Eu nem sabia o que dizer. Mas fiquei admirada com a forma como o Anton tratou ela.
— Como?
— Ele só abraçou. Ficou em silêncio. Não tentou falar alguma coisa para consertar. Apenas ficou ali.
Linda observa Clarisse.
— Ele é assim.
Faz uma pausa.
— No velório do pai dele, ele nem foi. Não queria encontrar a mãe.
Linda percebe o que acabou de dizer.
— Ops... contei uma fofoca.
— Tudo bem. Uma notícia dessas assusta.
Clarisse recebe mais uma informação que não veio da boca de Anton.
Primeiro, a perda da Débora.
Agora, a dor dele.
Anton parecia carregar espinhos grandes demais.
Sua melancolia assustava.
Mas também fascinava.
Porque, por trás daquele silêncio, havia algo que tocava as pessoas.
— Clarisse, não conta que eu falei isso.
Linda abaixa a voz.
— Eu odeio fofoca... faço às vezes, mas essa é pesada.
Ela olha para a porta da galeria.
— Pobre Anton.
A cafeteira apita.
Clarisse serve o café para Linda e coloca um copo de água ao lado.
— Como é difícil permanecer em algo que também nos causa feridas... — diz Linda, olhando para a floricultura de Débora.
Ela fica alguns segundos em silêncio.
— Acho que precisamos ser como as rosas. Mostrar nossos espinhos sem perder a beleza.
Ela fala mais para si mesma do que para Clarisse.
Clarisse fica pensativa.
Passa os dedos pela caneca que ganhou de Anton.
Linda toma um gole de café e depois bebe a água, ainda confusa com tudo.
Clarisse apenas observa enquanto pesquisa referências no notebook.
Ela se espreguiça e olha ao redor do ateliê.
Alguns manequins cobertos.
Outros com retalhos e tecidos de referência.
Uma prancheta de desenhos.
No canto, uma mesa digitalizadora com uma caneta.
Lá fora, um burburinho cresce na galeria.
Uma garota entra.
Era Ela.
Vai direto para a barbershop.
— Ela? Meu Deus... por favor, não quebra nada! — diz Iago, assustado.
Ela olha para ele.
— Não, Iago. Eu não vim brigar. Vim entender vocês.
Iago respira aliviado.
Pega uma cadeira.
— Ufa... senta. Quer um café? Uma água? Um suco? Sei lá... uma massagem?
Ela ri um pouco, mas a ansiedade ainda está no rosto.
— Vou chamar o Anton e a Guillian. Tudo bem?
— Tudo bem.
Iago sai como uma flecha em direção à loja de discos.
Entra na Garimpos Discos.
Anton leva um susto.
— Venha comigo agora.
— Como assim?
— E fica quieto.
Anton franze a testa.
— Iago...
Mas ele já estava puxando ele.
***
Na barbershop.
Anton vê Ela.
— Ela... tudo bem?
Ela olha para ele com os olhos marejados.
Abraça Anton.
Ele segura ela com cuidado e limpa uma pequena lágrima do rosto dela.
Iago observa.
— Vou buscar a Gui.
Faz uma pausa.
— Mesmo que eu tenha que derrubar aquele estúdio.
Iago sobe as escadas.
— Por que ela não tem uma loja no térreo? — reclama.
Bate na porta do estúdio.
Nada.
Bate novamente.
Um barulho vem de dentro.
A porta abre.
Guillian aparece.
— Tá maluco? Tá doidão?
— Cala a boca. Vai descer agora.
Ela muda a expressão.
— Ela está aqui.
Guillian fica séria.
— Não. Não vou.
— Você tem que encarar também.
— Iago...
— Nem que eu tenha que te carregar até lá.
Guillian faz uma expressão de medo.
Mas cede.
***
Na barbershop.
Anton olha para Ela.
— O que aconteceu?
Ela respira fundo.
— Eu nem sei o que dizer.
Pausa.
— Eu não sou inocente, Anton. Eu também tenho responsabilidade nisso.
Anton abaixa os olhos.
— Sim.
Ela encara ele.
— Você assustou todo mundo. A gente gosta de você, mas o grupo ficou abalado.
— Mas eu pensei que...
— Eu sei.
Anton olha para ela.
— Poderíamos.
Silêncio.
— Mas você forçou.
Ela abaixa a cabeça.
— Eu saí ferida.
Anton fica em silêncio por alguns segundos.
— Foi como aquela planta que roubamos da praça porque você queria.
Ela olha para ele.
— Ela morreu quando tiramos de onde pertencia.
Ela abraça Anton.
***
Iago entra com Guillian.
Ela vê Ela.
Guillian para.
Dá um passo para trás.
Iago segura sua mão.
— Desculpa, Guillian.
Ela olha para ele.
— Eu não deveria ter feito aquilo.
Guillian permanece em silêncio.
— Não deveria ter te ameaçado com aquele estilete no estúdio.
Pausa.
— Não foi por vocês.
Ela olha para as próprias mãos.
— Já tava quebrada antes de eu pegar ele.
O rosto de Guillian muda.
Ela lembra.
Aquilo poderia ter acabado muito mal.
Era uma situação para polícia.
Iago conduz Guillian devagar.
Ela ainda está com medo.
Mas vai.
Abraça Ela.
— A culpa também foi minha.
Pausa.
— Eu fui uma moleca.
Ela tenta responder.
Guillian coloca a mão no rosto dela com cuidado.
— Não fala nada. Passou.
Iago abraça as duas.
Anton continua parado.
Observando.
Iago olha para ele.
— Vai ficar olhando?
Anton suspira.
— Tá...
Ele se aproxima.
Os quatro se abraçam.
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