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Capítulo 2: Quer Ser Amada - Parte 1

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Semanas se passaram.

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Semanas se passaram.

A galeria continuava acordando cedo.

Às cinco da manhã, os zeladores trocavam de turno e as primeiras portas começavam a se abrir.

A primavera chegava devagar.

O frio paulistano já não era o mesmo, embora São Paulo insistisse em viver as quatro estações no mesmo dia.

Clarisse entrou na galeria como fazia todas as manhãs.

Algo chamou sua atenção.

Uma loja estava aberta.

Ou melhor...

Uma loja que ela jurava nunca ter visto aberta.

Era uma floricultura.

Ficava a poucos metros do ateliê.

"Será que sempre esteve aqui?", pensou.

Na vitrine, uma mulher organizava um arranjo.

Três rosas escarlates.

Vermelhas como sangue.

Ao lado delas, um pequeno broto recém-nascido.

A mulher ergueu uma tesoura.

Preparou-se para cortar o broto.

Mas sua mão parou no ar.

Ela começou a chorar.

Clarisse aproximou-se devagar.

— Olá... bom dia.

A mulher virou o rosto.

Os olhos estavam vermelhos.

— Bom dia...

— Está tudo bem? Precisa de ajuda?

A mulher olhou novamente para o broto.

A voz saiu quase num sussurro.

— Eu... perdi meu bebê.

A frase atingiu Clarisse como um soco silencioso.

Ela não encontrou nenhuma palavra.

Apenas segurou delicadamente o rosto da mulher, enxugou suas lágrimas e a abraçou.

Nenhuma das duas disse mais nada.

Naquele instante, Anton apareceu na entrada da galeria.

Ao perceber a cena, aproximou-se.

— Precisa de ajuda?

Clarisse levantou os olhos.

Anton reconheceu a florista.

Semanas antes, lembrava de vê-la passando pela galeria com a barriga já bem aparente.

Agora...

A barriga não estava mais ali.

Seu olhar passou pelas três rosas.

Depois pelo pequeno broto.

Por fim, pela tesoura ainda parada na mão da mulher.

Anton abaixou os olhos.

Não havia nada que pudesse dizer.

Algumas dores não diminuem com explicações.

Ele apenas permaneceu ali.

Em silêncio.

Às vezes, ficar é a única forma de dizer que ninguém precisa sofrer sozinho.

Clarisse deu um passo para trás.

Anton aproximou-se de Débora.

Abraçou-a com delicadeza.

Depositou um beijo em seus cabelos.

Nenhuma palavra.

Apenas o abraço.

Débora respirou fundo.

— Obrigada, Anton... você é demais.

Olhou para Clarisse.

— Vocês são demais.

Anton apenas sorriu.

Depois falou baixo:

— Débora... se precisar de qualquer coisa, estou aqui do lado.

Ela assentiu.

— Tudo bem...

Olhou para as rosas.

Para o pequeno broto.

Respirou fundo mais uma vez.

— A vida continua, né...

Naquele instante, o sistema de som da galeria começou a tocar "Amanhã", de Guilherme Arantes.

A música espalhou-se pelos corredores.

Débora voltou para dentro da floricultura sem dizer mais nada.

Anton e Clarisse permaneceram alguns segundos em silêncio.

Frente a frente.

Trocaram um olhar.

Anton quebrou o silêncio.

— Bom dia.

Ela sorriu de leve.

— Bom dia.

Ele apontou discretamente para a loja de discos.

— Quer tomar um café?

Clarisse olhou para o ateliê.

A porta ainda estava fechada.

Depois olhou para a barbearia de Iago.

Para o estúdio de Guillian.

As duas lojas continuavam fechadas.

Voltou os olhos para Anton.

— Linda ainda deve demorar um pouco...

Ele concordou com um gesto.

— Então?

Clarisse sorriu.

— Por que não?

Os dois caminharam em direção à loja de discos.

As chaves balançavam na mão de Anton, fazendo um leve barulho metálico.

Ele andava ao lado de Clarisse, com um discreto sorriso no canto da boca.

Parou diante da porta de aço.

Levantou-a.

Desligou o alarme.

Depois abriu a porta de vidro.

Deu um passo para o lado.

— Entra.

Clarisse entrou devagar.

Nunca tinha passado daquela porta.

Sentiu-se como Alice atravessando para outro mundo.

Anton sorriu, como se tivesse lido seus pensamentos.

— Siga o coelho branco.

Ela riu.

As luzes se acenderam.

A loja ganhou vida.

Anton ligou a cafeteira expresso.

— Escolhe uma cápsula. Tem vários sabores.

Clarisse abriu o pequeno organizador de cápsulas.

Passou os dedos pelas cores, lendo os nomes.

Escolheu um café de torra média.

Encaixou a cápsula na máquina.

A cafeteira fez um estalo metálico.

Logo o aroma começou a se espalhar pela loja, misturando-se ao cheiro de madeira, papel envelhecido e capas de vinil.

Enquanto o café passava, ela perguntou:

— Por que "Garimpo Discos"?

Anton colocou água na máquina.

— Era a loja do meu pai.

Ela levantou os olhos.

— E ele?

Anton sorriu com serenidade.

— Morreu.

Clarisse abaixou a cabeça.

— Desculpa... sinto muito, Anton.

Ele apenas deu de ombros.

— Tudo bem.

Sem perceber, começou a cantarolar baixinho a música que ainda ecoava da galeria.

— Amanhã será um lindo dia...

Clarisse permaneceu em silêncio.

Começou a caminhar entre as prateleiras.

Os dedos deslizavam pelas capas.

Parou.

Seus olhos brilharam.

— Nossa... você tem Sade!

Anton sorriu.

— Tenho.

— Linda...

Ela pegou o disco com cuidado.

— Parece que ela voltou a ficar em alta, né?

— É...

Anton encostou no balcão.

— Engraçado isso.

— Faz mais de dez anos que ela não lança um álbum.

— Verdade.

Clarisse passou os dedos pela capa.

— Dá uma nostalgia...

Anton sorriu.

— Sabe por quê?

Ela olhou curiosa.

— Por quê?

— Porque Sade não me lembra o passado.

Ela franziu a testa.

— Não?

Ele balançou a cabeça.

— Ela me lembra um momento.

Fez uma pequena pausa.

— Sabe quando você toma um banho demorado numa sexta-feira?

Clarisse apenas ouviu.

— Aí coloca aquela roupa que gosta...

Passa o perfume...

Respira fundo antes de sair.

Ainda nem chegou ao bar.

Nem encontrou ninguém.

Nem aconteceu nada.

Mas você sente que a noite inteira ainda é uma promessa.

Olhou para a capa do disco.

Sorriu.

— Isso é Sade pra mim.

Clarisse permaneceu em silêncio.

Anton concluiu, quase num sussurro:

— O melhor momento... é antes de tudo começar.

Clarisse e Anton permaneceram alguns segundos se olhando.

Sem pressa.

Sem desviar os olhos.

A cafeteira apitou.

Anton sorriu.

Pegou uma caneca nova da loja e colocou o café sobre o balcão.

— Seu café ficou pronto.

Clarisse segurou a caneca com as duas mãos.

Sentiu o calor.

Quando aproximou a borda dos lábios...

— Oi, Linda! Bom dia!

Ela levou um pequeno susto.

Virou-se.

Linda estava na porta do ateliê, olhando para os dois.

— Bom dia, Anton.

— Bom dia, Linda.

Ela sorriu para Clarisse.

— Vamos?

Clarisse fez um gesto afirmativo.

Foi nesse instante que Anton ouviu seu nome pela primeira vez.

— Clarisse... né?

Ela sorriu.

— Anton... né?

Os dois riram discretamente.

Anton apontou para a caneca.

— Pode levar. É cortesia da casa.

Clarisse olhou para a caneca.

— Ah... não precisa...

— Precisa, sim.

Ela acabou aceitando.

— Obrigada... pelo café... e pela caneca.

— Disponha.

Clarisse saiu ao lado de Linda em direção ao ateliê.

Anton não foi até a porta.

Permaneceu dentro da Garimpo Discos.

Apenas organizando algumas fichas de clientes, enquanto o aroma do café ainda permanecia no ar.

Anton organizava alguns discos distraidamente.

— Oi, booom dia!

Levou um susto.

— Calma... sou eu.

Era Iago.

Ele abraçou Anton por trás.

Anton sorriu.

Virou-se e deu um beijo na testa dele, seguido de um leve cheiro em seus cabelos.

Os dois apenas se olharam.

Silêncio.

Um cheiro de pão de queijo recém-assado invadiu a loja.

— Tô atrapalhando?

Era Guillian, parada na porta com um pacote de pão de queijo nas mãos.

Entrou sorrindo.

Abraçou os dois ao mesmo tempo.

— Bom dia!

Os três ficaram alguns segundos lado a lado.

Sem dizer nada.

Guillian foi direto para a cafeteira.

Ligou a máquina como se estivesse em casa.

— Ué... cadê as canecas novas?

Anton nem olhou.

— Acabaram.

— Como assim?

— Você levou todas.

— Eu não roubo...

Ela fez cara de inocente.

— ...eu pego emprestado.

Anton riu.

— Dá uma olhada no seu estúdio. Deve ter uma coleção escondida no meio daquela bagunça.

Iago entrou na brincadeira.

— A Gui não é folgada...

Fez uma pausa.

— ...ela está de férias.

Guillian deu uma gargalhada.

— Errado ele não tá.

Anton apenas sorriu de canto.

Estendeu a mão.

— Vai... me dá um pão de queijo.

— Não.

Ela abraçou o pacote.

— Tem problema!

— E o meu? — perguntou Iago.

Anton pegou um pão de queijo, partiu ao meio e entregou metade para Iago.

Guillian fingiu indignação.

Enquanto procurava uma caneca, perguntou:

— Cadê o resto?

Anton respondeu naturalmente:

— A última eu dei pra Clarisse.

Os dois pararam.

— Quem?

— Clarisse?

Anton continuou organizando os discos.

— A nova funcionária da Linda.

Iago e Guillian trocaram um olhar.

— E aí... como ela é? — perguntou Iago, curioso.

— É interessante? — perguntou Guillian, ainda mastigando.

Anton deu de ombros.

— Convidei ela pra tomar um café.

— E...?

— Ela estava consolando a Débora, da floricultura.

Os sorrisos desapareceram.

— A Débora perdeu o bebê.

Os dois ficaram em silêncio.

— Como assim? A barriga dela já estava enorme... — disse Iago, passando a mão na cabeça.

Guillian abaixou os olhos.

— Precisamos passar lá.

— Sim... nem sei o que dizer.

Anton interrompeu com calma.

— Esperem mais um pouco.

Os dois olharam para ele.

— Ela ainda está tentando voltar à rotina. Depois do almoço a gente passa lá.

Iago concordou.

— Tá certo.

Terminou o café.

— Bem, meus lindos... vou abrir a barbearia.

Já na porta, olhou para Anton com um sorriso malicioso.

— E você... cuidado.

Anton arqueou a sobrancelha.

— Por quê?

— Conversando com a Clarisse sem a gente...

Anton apenas balançou a cabeça.

Enquanto isso, Guillian encontrou uma caneca escondida no armário.

— Achei!

Preparou o café para ela mesma.

A cafeteira apitou.

Ela pegou a caneca, o pacote de pão de queijo e caminhou até a porta.

— Seu cretino... tomou café com ela sem a gente.

Saiu rindo.

Levando, mais uma vez, uma caneca da Garimpo Discos.

Anton observou a cena.

Suspirou.

Sabia que, no fim do dia, aquela caneca provavelmente nunca voltaria.

No ateliê.

— Nossa, esse Anton é fogo, hein?

— Que isso, Linda? Ele só foi simpático.

— Ah, tá...

Clarisse fica vermelha.

— Tô com inveja.

As duas riem.

— Tenho algumas sugestões do cliente sobre a coleção. Serão cinquenta peças, mas calma... sem pressa.

— As pesquisas estão me cansando. Estou há meses no Pinterest, parece que tudo ficou igual. Nem uso mais.

— Eu tenho outro site de referências, mas é pago. Só posso postar cem ideias por mês.

— Hum... deixa eu ver.

— Te mando no WhatsApp.

Clarisse pega a caneca da Garimpos Discos.

Dá o último gole.

O café já estava quase frio, mas ela olha para a caneca novamente e sorri.

Linda percebe.

— Tá vendo?

— Para, Linda!

O celular vibra.

Uma notificação.

Anton começou a seguir você no Instagram.

Clarisse olha surpresa.

Por alguns segundos, fica apenas observando a tela.

Então aperta:

Seguir de volta.

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