O que acharam do novo capítulo?
Acordar e ficar encarando o teto, sem a mínima vontade de levantar.
Essa sou eu hoje.
Não porque estar deitada seja maravilhoso, mas porque eu sei que, no instante em que colocar os pés no chão e sair pela porta do quarto, uma enxurrada de coisas que não quer fazer vai cair sobre mim e me arrastar pelo resto do dia, sem sequer me dar tempo de parar.
E, para completar o desastre que será esse dia, ainda terei que suportar os olhares de todas as pessoas desta cidade. De todas as pessoas que ainda vivem neste lugar largado por Deus.
Isso me lembra do dia em que chegamos a Solares. Minha mãe havia pedido demissão da boutique de roupas onde trabalhava, depois que meu pai foi embora com sua amante. Até hoje não tenho notícias dele, não sei se está bem ou sequer se continua vivo. Ele também jamais me procurou. Talvez seja melhor assim, porque eu não gostaria de reencontrá-lo, não depois de tudo o que fez a a minha mãe sofrer.
E foi por causa do péssimo caráter do meu pai que viemos parar em Solares. Minha mãe disse que ficaríamos aqui por pouco tempo, apenas até que ela estivesse melhor, mas, infelizmente, esse dia nunca chegou.
Poucas semanas depois de nos mudarmos, percebi que essa cidade, com pouco mais de quinhentos habitantes, era um lugar difícil de conviver, especialmente para as pessoas da minha família.
Os Soares. Era assim que nos chamavam, ou simplesmente de Família Soares.
Descobri que não se referiam a nós daquela forma por respeito, mas por medo. Eles nos temiam. Ficavam apreensivos quando estávamos por perto, pois, sempre que algo misterioso ou fora do comum acontecia em Solares, nossa família era chamada. Minha avó, Marta, em especial, estava sempre presente nesses lugares.
Ela também estava constantemente envolvida em reuniões, fosse na igreja ou em nossa própria casa.
Às vezes, passava horas trancada em seu quarto. Eu costumava me esconder atrás da porta e conseguia ouvi-la pronunciar palavras que não faziam o menor sentido, como se estivesse falando em outra língua.
Ela realmente fazia jus aos comentários.
Certo dia, enquanto ela estava fora, entrei silenciosamente em seu quarto e peguei o livro que ela vivia carregando para cima e para baixo.
Com certeza estava escrito em outra língua, porque não consegui entender absolutamente nada do que havia naquelas páginas. Mas foi somente no dia da morte da minha mãe que finalmente compreendi o que realmente acontecia naquela cidade.
Eu estava completamente transtornada, recusando-me a acreditar que minha doce e bondosa mãe havia tirado a própria vida. E, para piorar, ninguém acreditava quando eu dizia que havia conversado com ela minutos antes de a encontrarem sem vida.
Minha avó tentou me acalmar, mas acabei despejando toda a minha raiva sobre ela. Disse que aquilo havia acontecido porque ela era uma bruxa e corri até seu quarto, decidida a pegar aquele maldito livro e rasgar cada uma de suas páginas. Mas o que encontrei quando o abri quase me fez enlouquecer.
Assim que abri a primeira página, preparando-me para arrancá-la, percebi que conseguia entender o que estava escrito.
Naquele momento, eu segurava o mesmo livro que, até alguns meses antes, não conseguia compreender uma única palavra. Mas agora estava lendo. Não apenas uma palavra ou uma frase, mas tudo o que havia naquelas páginas parecia estar completamente acessível para mim.
A frase que li em voz alta chamou a atenção da minha avó, que acabara de entrar no quarto.
— O mal existe.
Ela me encarou espantada, como se não estivesse preparada para aquilo. E, pela expressão em seu rosto, realmente não estava.
Quando finalmente me acalmei e exigi uma explicação, sua maneira de falar comigo mudou completamente. Antes ríspida e rígida, agora se mostrava calma e solícita.
Com um olhar de pena que não conseguia disfarçar, começou a me contar sobre o que realmente fazia.
— Querida Samantha,
Querida.
Como eu odeio essa palavra.
— Eu preciso que acredite que mal existe. Ele existe de verdade.
— Que mal a senhora está falando?
— Aquela entidade que você viu no quarto da sua mãe.
Na minha mente veio aquela figura sorrindo pra mim. Eu estava lutando para não lembrar daquela cena.
Ela acariciou meus cabelos, mantendo uma expressão profundamente entristecida, mas eu me recusava a ceder.
— Nem todas as pessoas conseguem vê-los ou ouvi-los, como eu e você conseguimos.
Naquele momento, quando ela me incluiu naquela afirmação, foi como se alguma coisa dentro de mim tivesse despertado. Tudo aquilo que meus olhos haviam ignorado durante tantos anos realmente estava ali, à espreita, esperando para ser percebido.
— Nós sabemos que Célia jamais faria mal a si mesma. Ela te amava e nunca desejaria deixá-la sozinha.
— Então o que aconteceu?
Perguntei enquanto lágrimas grossas escorriam pelo meu rosto, sem que eu conseguisse fazer qualquer coisa para contê-las.
— Uma entidade que está enraizado há muitos anos em Solares fez isso com ela. Algo que está muito além da minha capacidade de enfrentar.
— Da sua capacidade?
E foi naquele momento que minha avó finalmente me contou o que realmente fazia.
Ela enfrentava o mal que habitava em Solares. Não apenas um, mas vários. E Solares não era o único lugar onde essas entidades habitavam. Elas estão em todo lugar.
Ela me explicou que conseguia expulsá-los utilizando os conhecimentos que havia adquirido com sua mãe e com outras pessoas que possuíam dons, como ela dizia, semelhantes às dela.
E também com a ajuda daquele livro.
Era um manuscrito escrito em uma linguagem que o mal compreendia e, acima de tudo, temia.
No entanto, minha avó havia encontrado algo diferente. Um mal poderoso que se instalara em Solares e que, a cada vez que retornava, parecia estar mais forte e mais faminto.
Eu a questionei sobre a possibilidade de avisar os moradores, de contar que todos estavam correndo perigo, mas ela disse que as pessoas não compreenderiam. E que, mesmo que por algum acaso todos decidissem abandonar a cidade, aquele mal provavelmente migraria para outro lugar. Talvez outra cidade, e, se fosse maior que Solares, seria ainda mais complicado combatê-lo.
Por isso, ela permanecia ali, tentando conter uma coisa que nem sequer sabia descrever exatamente o que era. E, quando não pudesse mais continuar, passaria aquela missão para a próxima geração.
Que, nesse caso, seria eu.
A única pessoa da família, depois dela, que havia nascido com aquela conexão.
E, antes que eu pudesse protestar ou tentar negar que algum dia seria como ela, minha avó revelou que havia conseguido contê-lo, pois enquanto a polícia ainda estava em nossa casa, minha avó havia ido até a residência da minha amiga Maria.
Maria morreu no mesmo dia que minha mãe. Foi encontrada por seu irmão mais velho, Jaime, afogada na banheira.
Quando minha avó chegou à casa de Maria, aquela coisa estava lá, e ela precisou enfrentá-la.
Como isso aconteceu, minha avó decidiu não me contar. Uma parte dela não queria que eu me tornasse sua substituta e, por isso, me deixou ir embora de Solares. Ela esperava encontrar outra pessoa fora da família para assumir esse papel, mas não houve tempo. Aquela coisa havia retornado mais uma vez, e minha avó já não tinha condições de enfrentá-la novamente.
E, sinceramente, ela também não acredita que eu seja capaz de fazer isso. Mas, infelizmente, nenhuma de nós tem a possibilidade de escolher.
O que preciso fazer agora é encontrar uma maneira de acabar com essa coisa monstruosa e voltar para a minha vida, antes que eu termine presa aqui, como aconteceu com o restante da minha família.
Então, nem que eu morra tentando, aquela coisa vai pagar por todas as vidas que tirou ao longo de todos esses anos.
E, neste momento, vou quebrar a quarta parede, porque preciso dizer uma coisa muito importante a você, querido leitor. A partir de agora...
Tenha cuidado.