Início de um conto novo numa linguagem que não domino. Gostaria da opinião de vocês sobre esse esboço até aqui. Fico grato.
Essa história começa em uma vila afastada dos grandes centros “urbanos”. Ela era tão distante que não tinha nome; poucos moradores lá residiam, gente simples e de vida pacata. Nessa mesma vila havia uma estalagem, praticamente o único ponto de encontro e entretenimento do vilarejo. Lá as pessoas se reuniam para se socializar, confraternizar e até lamentar algum evento.
Nessa vila que vos descrevo, existia um casal de anciãos, tão velhos que os próprios moradores os descreviam como monumentos vivos. Esse par era deveras interessante: nunca haviam se traído, porém viviam em constante conflito e desavenças, essas tão antigas quanto eles mesmos. Mas o amor deles, entretanto, era inabalável. Eram frequentadores ávidos daquela estalagem.
Já ia me esquecendo: vou apresentar de antemão o personagem principal, a estalagem em si. Como fora dito, ela, além de ser um ponto de encontro e convergência entre todos os habitantes, também servia de morada para alguns. E o casal era um deles. Corriam rumores de que perderam a casa por uma aposta do marido; porém, secretamente, fora a esposa quem jogara. Isso gerava mais atrito entre os dois.
Outro personagem que não podemos esquecer de mencionar é o dono da estalagem. Muito reverenciado por todos, era viúvo, com apenas uma filha que nunca fora desposada, mas logo mais chegaremos nela. Voltando a ele, era demasiadamente calado e reservado, porém projetava uma imponência e repatrio aos moradores.
Também ligado ao estalajadeiro, vivia o seu pai, um velho bêbado que sempre cambaleava pelas ruelas da vila, mas havia algo nele que os residentes respeitavam. Ele tinha, apesar da embriaguez, uma habilidade de dar conselhos e de parecer conseguir premeditar o futuro de alguém. Isso, claro, se o encontrassem capaz de falar.
Retomando uma personagem essencial para a estrutura dessa vila: a balconista, filha do estalajadeiro. Ela era o grande tesouro e, ao mesmo tempo, o grande ressentimento de seu pai. Nunca havia sido desposada, e a idade para tal já passara há tempos. Era considerada inadequada por estar fora dos padrões estéticos daquela época. Muito gentil com todos, guardava, porém, uma tristeza que atravessava a alma.
Nessa mesma estalagem havia uma camareira, que não vale citar muito para essa história, assim como todos os demais moradores: o ferreiro, a herbalista, o bardo e tantos outros personagens excêntricos.
Porém, naqueles dias em específico, hospedava-se na estalagem um visitante que não pertencia àquela vila, um nobre que viajava com seus acompanhantes. Ele era cheio de pompa e soberba; seu único motivo de estar ali era ter profanado a esposa de outro nobre. Estava apenas de passagem e de fuga.
A vida seguia normal: durante a matina era oferecido o desjejum, havia almoços e também os famigerados ensopados, servidos à noite. Perfeito para quem estava com fome. Além, claro, de ter muito vinho, ao ponto de fazer o próprio Dioniso cair de embriaguez.
Nesse dia banal, um homem chegou à estalagem no crepúsculo. Ele era alto, magro, de cabelos compridos e olhar cansado. Como se não dormisse há muito. Adentrou o estabelecimento; todos o olharam, mas logo o ignoraram.
“Apenas mais um de passagem.
Alguns pensaram isso quando ele se sentou à mesa, a mais reclusa do recinto. Pediu à filha do estalajadeiro somente um copo de água e nada mais. Sua voz era lenta e bastante solene.
Naquele dia, em particular, não houve ceia: todos os habitantes se encontravam cansados e se retiraram aos seus cômodos mais cedo que o usual. O homem seguiu o passo dos demais e solicitou um quarto para si, afirmando que ia passar o pernoite, pois, logo mais, seus companheiros haveriam de chegar.
Todos se puseram a dormir.
…
Na manhã seguinte, o caos estava instaurado! Aparentemente, todo mundo dormira às avessas. A camareira corria de um lado para o outro, desesperada, pois, ao que parecia, alguns hóspedes haviam urinado na cama.
A estalagem abriu um pouco mais tarde, pois o estalajadeiro sofrera um pequeno acidente, nada grave, mas o bastante para lhe torcer o tornozelo. Ele afirmou aos presentes que tivera um sonho muito estranho, no qual podia voar e, quando menos esperava, se espatifava no chão. Ele pulara a janela.
O casal de velhos estava discutindo, mais uma vez, porque o velho urinara na cama inteira. Porém, ele afirmava que fora por ter sonhado que estava em um barco, no meio de uma tempestade, e que sereias começavam a chamá-lo; mas, quando deu por si, a voz delas era a da velha, sua esposa, praguejando contra ele por ter sujado os lençóis.
Pelo visto, todos os que dormiram na estalagem tiveram sonhos esquisitos: alguns bons, outros pesadelos, outros ainda com água, de certa forma. E o caso trágico do estalajadeiro.
Porém, mesmo com toda a instabilidade na hora do alvorecer, o desjejum fora preparado. O nobre e sua comitiva entraram no salão bastante desconfiados. O motivo: ele se vira beijando um de seus acompanhantes, pensando ser a própria Afrodite. Um pesadelo sem igual, transposto para a realidade.
Por fim, o homem alto e magro desceu ao salão, sentou-se à mesma mesa reclusa de antes e solicitou, dessa vez, um mingau de aveia à balconista, enquanto bocejava intensamente.
A vida pacata foi acontecendo: os habitantes do vilarejo entravam e saíam para seus compromissos, e o homem continuava a comer o mingau de forma lenta e até totalmente sem vontade.
Foi então que adentrou a estalagem outra pessoa: um homem branquelo, baixinho, de bochechas grandes e rosadas, porém de uma vivacidade tremenda. Dirigiu-se ao viajante e falou:
— Caro amigo, estás com aparência deveras acabada. Não dormes há séculos? — disse, puxando uma cadeira e sentando-se à mesa dele. — Credo, como tens coragem de comer isso?
O homem cansado olhou para o baixinho rechonchudo e deu um sorriso singelo, como se esperasse aquele encontro havia dias.
…
O dia foi se normalizando aos poucos, depois do susto matinal. As pessoas seguiram com suas rotinas. Comiam, bebiam, conversavam e voltavam aos seus afazeres.
Num dado momento, o nobre cheio de pompa começou a observar a balconista com um olhar fixo e perdidamente encantado, como se enxergasse nela a própria Afrodite dos seus sonhos. Ela, que não tinha nada de inocente, percebeu aquele olhar. Porém, era tão incomum, na verdade inédito, alguém olhá-la com tamanho desejo que ela ficou nervosa e vermelha e derrubou as canecas que acabara de enxugar. O nobre correu para ajudá-la, claro. Era o que se esperava de um cavalheiro.
No outro lado do salão, os dois viajantes misteriosos continuavam sentados, conversando.
— Sabes, meu amigo, ontem tive uma experiência deveras desastrosa em um encontro — disse o baixinho. — Ela me achou baixo demais para o seu padrão e, por isso, me dispensou.
Tomava, enquanto isso, alguma bebida que trazia consigo, em uma taça de cerâmica que, comicamente, tirara das vestes.
— Que pena. Imagino que estejas frustrado — respondeu o homem cansado.
— Faz parte do jogo das conquistas. — Soltou uma gargalhada espirituosa. — Estou acostumado com esses jogos.
O homem cansado bocejava compulsivamente, enquanto o outro dizia:
— Temos de resolver esse impasse insone que te assola — propôs, oferecendo a taça. — Vais ficar assim por quanto tempo?
— Não aguento mais. É que, desde que briguei com meu pai… — tomou um gole da bebida que lhe fora oferecida. — …comecei a ter problemas de insônia. Tenho de me desculpar com ele de antemão.
Eles continuavam a conversar e, em outro canto do salão, o casal de anciãos também conversava. Notoriamente, até de forma assustadora, riam e trocavam afeto na frente de todos, a ponto de o pai do estalajadeiro comentar que iam morrer, aos soluços, de tão bêbado. Todos se puseram a rir.
Do nada, um barulho ressoou por toda a estalagem. Uma jarra de cerâmica veio ao chão, derramando vinho por todo lado. Fora o estalajadeiro quem a deixara cair, de tão chocado que estava, pois julgava impossível o que via:
O nobre estava de joelhos, a pedir a sua filha em casamento.
Todos observaram a cena, espantados. E logo depois urraram em uníssono, para comemorar essa futura, e estranha, união.
Os dois visitantes seguiam a conversar solenemente:
— Onde será que está o resto do pessoal? — perguntou o baixinho.
— Devem estar por chegar, mas sabemos de antemão quem se atrasará.
— Na verdade, não tenho minhas dúvidas, levando em consideração de quem estamos a falar.
Com isso, como se fosse uma ironia, a porta da estalagem se abriu, e o ar foi impregnado por um perfume doce de rosas e murtas. Todos permaneciam em estase por causa do pedido de casamento, a ponto de nem perceberem a nova viajante a adentrar o recinto.
…
— Espero que não estejas a falar de mim, nanico. — Ela puxou a cadeira e sentou-se em frente ao homem desprovido de altura. — Como podes ver, cheguei até cedo.
— Não falo de ti, madame — respondeu o homem baixo, ironicamente. — Claramente, demonstraste que estávamos enganados.
Ela exalou de forma irritada.
— Por que escolheste este lugar que fede a urina?! — perguntou, sem destinatário específico.
— Foi o mais apropriado para a ocasião, alteza — debochou o homenzinho. — Mas o cheiro de mijo está perfeitamente disfarçado pelo teu perfume opulento. — Disse isso fazendo uma expressão de náusea.
— Olha como falas, seu… — interrompeu-se ao perceber que estava perdendo a compostura.
Ela respirou fundo e perguntou ao homem alto, que estava ao seu lado:
— O que aconteceu contigo? Estás mais cansado do que nunca.
— Como dizia ao nosso companheiro: problemas familiares. — Completou, bufando lentamente. — E tu, como andas a família?
— Nem queiras imaginar! Quase não consegui escapar das mãos de papai. — Ela falou, bocejando enquanto levava as mãos delicadas à boca. Continuou: — Aparentemente, terei mais um irmão fora desse casamento. Nem imaginas o clima.
Ela sorriu genuinamente, como se estivesse adorando a situação.
O homem cansado deu mais um gole na bebida que lhe fora oferecida e suspirou.
Em seguida, ela perguntou, delicadamente:
— Algum de vós trouxe algo realmente digno para beber? Na pressa, esqueci-me de trazer o meu cantil.
— Trouxe um pouco do meu, senhora — afirmou o baixinho. — Talvez não seja o que estás acostumada a beber nos teus banquetes, mas é a melhor coisa que encontrarás por aqui. — Ofereceu-lhe o cantil.
— Obrigada, querido — disse ela, educadamente. — Gostaria de ter trazido minha taça também. Será que consigo alguma por aqui?
Olhou ao redor, como se procurasse alguém para servi-la. Ao baixar os olhos para a mesa, exclamou:
— Oh, que lugarzinho eficiente! Já me serviram uma taça sem que eu sequer a tivesse pedido.
— Ora, alteza! Acho irônico ouvir isso de ti; estavas a falar mal dessa humilde e singela hospedagem. — Ironizou o homem baixo.
— Este lugar é simples, mas bastante vívido; fomos muito bem recebidos. — Bocejou o homem sonolento — As pessoas daqui não estão interessadas em nós.
— Estás equivocado, essa gente não tira os olhos de nós — observou ela. — Esperava um local mais discreto.
— Majestade, como esperavas que as pessoas reagissem à tua mera presença? — continuou o baixinho, dando mais uma golada. — Deverias estar acostumada.
— De qualquer forma, voltando ao que dizia… A família está um caos. Deveríeis ter presenciado o momento em que a esposa de papai soube da notícia — disse ela, apontando para o homem, que chamara de nanico, à sua frente. — Tu, em particular, serias muito requisitado pelos teus conselhos dignos de um romancista.
Eles gargalharam entre si.
— Eu faria de tudo para estar presente. Pena que teu pai baniu aqueles que não fazem parte da grande família. — Ele fitou o tampo da mesa. — Não sei o que houve para que isso acontecesse. Aliás, nem sei como acabamos sentados à mesma mesa.
— Ele teve seus motivos. Ainda bem, para ser sincera. — Deu um gole em sua taça e fez uma careta de desgosto. — Não me leves a mal, mas algumas pessoas não estavam se comportando adequadamente.
— Ah! Dizes isso enquanto tens o irmão que tens! — exclamou ele, pondo as duas mãos sobre a mesa. — Falando nele, onde se encontra aquele degenerado?
— Talvez esteja preso em alguma viela ou bordel. — Ela apoiou o queixo nos punhos, pensativa. — Tanto faz para ele.
Mais uma vez, todos gargalharam.
Venho me desculpando de antemão: a história fugiu do meu controle. Fui arrebatado pela presença dessa viajante que acabara de chegar, ao ponto de perder o fio na história. Ainda bem que não sou o único, pois todos os que celebravam a união ficaram profundamente impressionados com a mulher.
Para os habitantes daquela vila, foi claramente um choque, pois nunca tinham visto uma nobreza como aquela: não a daquele nobre esfarrapado hospedado na estalagem, mas uma nobreza quase deificada.
Antes de voltar à narrativa e ser menos explicativo, vou descrever esse momento como um mero plebeu haveria de percebê-lo.
O ar foi preenchido por uma fragrância de rosas e murtas. Uma opulência sutil, mas que impregnava. E havia ainda uma nota indescritível. A camareira se pegou deveras obcecada em descobrir como replicar aquele cheiro limpo e doce.
Ao adentrar o recinto, a mulher simplesmente sentou-se à mesa com os outros dois passageiros e começou a prosar e gargalhar, completamente alheia aos olhares de todos. Pudera: tinha uma altura que deixava qualquer marmanjo olhando para cima, e seus cabelos castanhos eram arrumados numa trança espessa e longa, que chegava à altura do quadril. Suas mãos compridas, seus seios fartos e o quadril milimetricamente esculpido compunham um padrão inalcançável. Por falar em esculpir, o rosto. Esse era tão perfeito e belo que se tornava um borrão para quem o contemplasse.
Com isso, o jovem nobre que acabara de noivar se viu numa enrascada, pois a mulher dos seus sonhos estava diante dele. Já a balconista, essa coitada, não tinha como competir nem como questionar o desejo do seu futuro, ou sem futuro, marido.
Esse, que já fora chamado de cavalheiro, pôs-se de prontidão para ajustar a cadeira antes de a mulher se sentar à mesa. Ao ir em sua direção, como um burro num cabresto, escorregou e caiu na poça de vinho que o seu sogro derramara, ficando desacordado. A sua noiva deu um genuíno sorriso.
O dia foi passando, e o que era solar, passou a ser uma angústia e ansiedade se instaurando naquela pequena hospedagem. Não havia um motivo certo para mudança de estação.
Ali, no quarto de hóspedes, onde moravam, o casal de idosos estavam passando por um crise. Diferente das suas discussões corriqueiras, ele estavam distantes um do outro. Aparentemente, a senhora se trancara no banheiro havia horas, tentando se arrumar. Ela sentia que o seu amado esposo não merecia uma velha em ruínas. E mais, uma velha que trouxe ruínas para essa união.
Em contrapartida, sentado na ponta da cama mijada, o senhor estava angustiado: nunca desejara outra mulher, mas agora não parava de pensar naquela sereia que cantava em seu sonho antes de ser interrompido. Ele não entendia o que estava se passando, mas era um chamado que passou a ouvir no instante que se apaixonou novamente por sua companheira.
Nos fundos da estalagem, o velho embriagado flagrou o filho estalajadeiro e a camareira dentro do estábulo. Não sabia se o que vira era real ou apenas fruto da bebida, mas ficou feliz por ver o filho, finalmente, seguir em frente depois de ter enviuvado. A camareira, tentando decifrar o cheiro que sentia, entrou numa energia afrodisíaca. Ela precisava se satisfazer sexualmente com alguém, o pobre viúvo fora o seu primeiro alvo.
Agora os acompanhantes, do jovem e infeliz nobre desmaiado, se viram numa competição para saber quem era o mais digno de cortejar a dama de passagem. Discutiam sobre poesia, status e quem tinha as melhores condições para a conquista. Coitados: se nem o nobre a alcançava, imagina eles.
Essa disputa foi escalando a ponto de gerar o primeiro soco. A senhora, trancada no banheiro, a chorar pelo que fora perdido.
O seu esposo, angustiado por uma traição que não existia. O estalajadeiro, a cochichar nos seios fartos da camareira. Essa, apenas a pensar no cheiro de rosas e murtas e no próximo alvo a se satisfazer. O nobre, com um galo na cabeça, acamado; e a sua futura esposa, a fazer uma trança nos próprios cabelos, olhando fixamente para o espelho de prata.
Ali, no meio daquele grande devaneio, o velhote embriagado olhou para a mesa dos viajantes e viu que a dama estava sem nenhuma taça para se servir. Foi cambaleando entre as discussões, os choros e as garrafas arremessadas pelo salão. Tropeçou e caiu, mas não derrubou a sua taça de vinho. Deu um último gole e deixou a taça sobre a mesa da dama, que lembrava sua mãe sempre a sonhar, mas nunca conhecera. Em seguida, sentou-se à mesa deles e, de tão bêbado, dormiu.
Continua…