Não há vencedores neste jogo,
Se você conhece todas as regras.
Eles não irão aprovar sua vitória,
Mas, quanto mais distante você estiver,
Mais fácil será fingir que venceu.
E, num descuido,
Tudo aquilo que você guardou
Escapou pelas frestas.
Você deixou a porta aberta
Quando seus sonhos foram podados
E seus dias, até a morte, eletrocutados.
Você vai embora e diz que não é uma fuga.
A estrada se estende diante de você,
E, para você, isso é apenas a liberdade.
Nos seus dias infantis, havia regras demais para você cumprir,
E você sempre precisou de explicações, mesmo para o que era óbvio.
E, uma vez, a bebida lhe ajudou a escapar,
Usando roupas compradas num brechó.
Você ainda as usa pela casa,
Enquanto ouve todas as melodias
Que você mais amou um dia.
E o ônibus passa por entre as árvores,
Até que, então, tudo desmorona.
Você aprendeu que sorrisos valem menos
Do que respostas bem ensaiadas.
Então, seus dentes amarelos estão à mostra mais uma vez.
Você aceitou convites para festas descoladas
E se sentiu deslocada tantas vezes
Que se acostumou com a sensação.
A maquiagem borrada,
E o batom gasto.
O perfume embaçado pelo cheiro dos cigarros
E sua única esmeralda no anelar,
Que você sustenta como um anel de quem vai casar.
Nada, porém, te fez olhar para trás duas vezes.
Mesmo que ele dissesse que te ama,
Não seria o bastante
Para te parar.
Nos seus dias infantis, em que você ainda colecionava fotografias,
Você guardou as mais bonitas para expor em sua parede,
Olhando para si mesmo com um misto de admiração e medo,
Como se você fosse um desenho de Caruso.
Você diz a si mesmo que está melhor sozinha,
Enquanto ouve todas as melodias
Que você mais amou um dia.
E o ônibus passa por entre as árvores,
Até que, então, tudo desmorona.
A nostalgia, mãe de todas as saudades,
É só a maneira que você encontrou para detestar tudo o que tem.
E assim você acaba tão machucada quanto um abutre abatido,
Mas você só corre para longe,
Pois a bebida foi a solução mais fácil, pela segunda vez.
E, antes de dormir, você se arrepende de não ter vivido mais um dia.
E você volta para casa.
As luzes estão apagadas,
Mas seu olhar brilha, como seiva escorrendo de uma árvore.
Seus passos ecoam para ninguém,
E você se pergunta quando os perdeu;
Quando ficou tão velha a ponto de chorar em silêncio.
E nem mesmo a melodia
Que você mais amou um dia
Faz sentido depois de perder cada uma das melhores partes.
E o ônibus não passou por entre as árvores naquela noite,
Pois você não o pegou quando viu o letreiro.
Seus pés se cansaram da longa caminhada.
A chuva caiu ainda mais pesada.
Você voltou para casa e não havia mais nada.
Pois, então, tudo desmoronou.