Flores de papel
Minha cabeça deitada sobre o travesseiro,
girando, girando,
uma roda-gigante,
correndo com seus parafusos soltos.
Eu respiro calmamente
enquanto ainda posso.
Oh, doce respiração aguda.
Ela vem outra vez,
como um sonho.
Desce até mim
e entra pela minha boca.
Escorre para dentro
e me rouba o ar.
Eu posso morrer essa noite,
obscura de novo,
deitada sob a água do pântano.
Eu engulo minhas lágrimas
para que ela não veja.
Tão decadente.
Oh, doce lua,
escondida em meu céu púrpura,
você que me embala pela luz
de todas as almas deixadas para trás.
Meu corpo se contorce
em desgosto,
e ela pisa em minha cabeça,
afundando-me lentamente na lama.
Meu cérebro eletrocutado,
o cheiro de queimado
vem e me entope as narinas.
O cheiro da morte.
Mas, oh, doce lua,
minguante lua,
estrelas cadentes decaem
e explodem dentro da minha mente.
Trancada dentro de um corpo
gordo e porco,
eu me apaixono por minha lugubridade,
eu me amedronto de minha lugubridade,
como o sangue que uma vez escorreu
de meus braços e pernas.
Como poderia eu ser feliz
em minha eufórica felicidade?
Passageira,
de passagem,
sou apenas um passageiro
na vida.
Ela cospe em minha boca.
Deixa que seu veneno escorra
e me queime por dentro.
Não sou um sapo.
Não posso regurgitar.
Então isso me consome
outra vez,
me sufoca e eu morro.
Por mim mesma,
eu morro todas as noites.
Este leito é lavado
com meu sangue.
Flores de papel.
Meu céu púrpura
se acende outra vez.
Não posso regurgitar.
A lâmina afiada
surge sobre o pescoço.
Por um instante,
o mundo inteiro parece prender a respiração.
O sangue escorre
devagar, como um véu,
caindo do rosto
de uma bela noiva.
E se derrama sobre o veludo
enegrecido pelo tempo.
A lâmina afiada
corta dos dois lados.
Ela desce sobre os pulsos.
O sangue escorre
como chuva
num verão maldito.
E maldito seja
quem empunhou a lâmina.
O tom sombrio
não é sombrio o bastante
para louvar a amada
morta em seus braços.
Os corvos que lhe arrancaram os olhos
morreram sobre sua lápide.
Agora, uma chuva ácida
cai sobre a terra
que te sufocou viva.
A lâmina afiada
desce novamente.
Não sou um sapo.
Não posso regurgitar.
Meu estômago adoece.
Meu peito se fecha.
A lâmina encontra o silêncio
antes que eu possa nomeá-lo.
E o silêncio se dá,
senão pelo piano,
o som fúnebre
do meu velório.
Seis braços, seis mãos.
O solo molhado.
O chão gelado.
O cascalho afiado.
E, por fim,
o algoz entalhado.