Não ouço o toque do telefone há um bom tempo.
Quando foi a última vez que ouvi algo?
Minha voz está muda,
Meus ouvidos foram rasgados.
Você me silenciou naquela noite —
Ou será que foi em uma manhã?
Nunca saberei.
Nessas quatro paredes não existem janelas,
E, se existem, não as vejo:
Meus olhos foram vendados pelas lágrimas.
Você diz que sou a sua flor de algodão,
Mas já sou uma flor morta.
Não sinto o toque da sua pele,
Nem mesmo sinto seus cabelos.
Como será o seu olhar ao me ver?
Você se alimentou dos meus olhos e ainda os cuspiu em minha boca.
Mastigar meus restos foi o ápice de amor-próprio que já adentrou meu corpo.
Traga-me as flores mortas mais bonitas que você já viu,
Coloque-as em meu coração quebrado.
Faça-me vaso e engrandeça o seu nome em minhas pétalas.
Traga-me uma colher e um prato fundo
Para me servir de mim mesma.
Estas paredes vivem o meu ser e eu as vivo todos os dias.
Não posso deixar de sorrir para o papel de parede:
Linhas tortas, verde-musgo e marrom.
As noites possuem essas cores em minha memória,
E os dias abrem espaço para os arranhões e restos de sangue no alto da parede.
Como poderei viver dentro de meu corpo?
De que forma irei respirar em meus próprios pulmões repulsivos e ingratos?
Descansarei em meu nome.
Amanhã será um dia especial:
O dia em que arrancarei o papel de parede e o farei meu.
A noite sentirá saudades dos meus berros ao silêncio,
E o dia virá rastejando em súplicas à minha partida.