Quem passa vinte anos numa paragem sabe exatamente o que é não sair daqui. Lê-se como quem já tentou contar isso pra alguém e desistiu.
O Claustro
Não ouço o toque do telefone há um bom tempo.
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Pensamento
Quem passa vinte anos numa paragem sabe exatamente o que é não sair daqui. Lê-se como quem já tentou contar isso pra alguém e desistiu.
Conteúdo da publicação
Não ouço o toque do telefone há um bom tempo.
Quando foi a última vez que ouvi algo?
Minha voz está muda,
Meus ouvidos foram rasgados.
Você me silenciou naquela noite —
Ou será que foi em uma manhã?
Nunca saberei.
Nessas quatro paredes não existem janelas,
E, se existem, não as vejo:
Meus olhos foram vendados pelas lágrimas.
Você diz que sou a sua flor de algodão,
Mas já sou uma flor morta.
Não sinto o toque da sua pele,
Nem mesmo sinto seus cabelos.
Como será o seu olhar ao me ver?
Você se alimentou dos meus olhos e ainda os cuspiu em minha boca.
Mastigar meus restos foi o ápice de amor-próprio que já adentrou meu corpo.
Traga-me as flores mortas mais bonitas que você já viu,
Coloque-as em meu coração quebrado.
Faça-me vaso e engrandeça o seu nome em minhas pétalas.
Traga-me uma colher e um prato fundo
Para me servir de mim mesma.
Estas paredes vivem o meu ser e eu as vivo todos os dias.
Não posso deixar de sorrir para o papel de parede:
Linhas tortas, verde-musgo e marrom.
As noites possuem essas cores em minha memória,
E os dias abrem espaço para os arranhões e restos de sangue no alto da parede.
Como poderei viver dentro de meu corpo?
De que forma irei respirar em meus próprios pulmões repulsivos e ingratos?
Descansarei em meu nome.
Amanhã será um dia especial:
O dia em que arrancarei o papel de parede e o farei meu.
A noite sentirá saudades dos meus berros ao silêncio,
E o dia virá rastejando em súplicas à minha partida.
Thoughts
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PermalinkQuem passa vinte anos numa paragem sabe exatamente o que é não sair daqui. Lê-se como quem já tentou contar isso pra alguém e desistiu.
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PermalinkLê-se e fica uma coisa pendurada no ar.
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PermalinkEssas paredes não vivem ninguém. Paredes vazias continuam vazias, a gente que se torna delas. Lendo você descrita dentro desse claustro, o que me fica é que você é quem dá vida ali, e pode tirar também.
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PermalinkO destino de todas flores é murchar e perder sua cor, perder seu perfume que invade os sentidos, mas e se nenhuma flor morrer de verdade? Se fechar os olhos não conseguiria ver novamente aquela mesmo flor que um dia já te maravilhou?
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PermalinkAquele detalhe do papel de parede (verde-musgo, marrom, linhas tortas) virou você inteiro nessas paredes. Me fez pensar em como a gente acaba absorvendo o lugar quando não consegue sair dele. Você escreveu isso como quem finalmente entendeu que sair é a única coisa que importa.
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PermalinkMuito bom, Julia. Baita poesia! Adorei do início ao fim. Eu só não gostei mais, porque não houve identificação da minha parte.
Sabe, às vezes eu leio algumas poesia ou ensaios aqui e acho meio forçados, exagerados. Esse, no entanto, me pareceu muito natural, você trouxe um peso sentimental em cada verso e em cada metáfora.
Eu te convido a ler algumas das minhas postagens (não que se comparem às suas).
E não pense que todo o meu elogio acima foi para no final eu te convidar para ler meus posts.
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PermalinkLi isso na sala de espera do hospital, onde não tem janelas de verdade. Essas paredes que você descreve existem em vários lugares, e ninguém se importa tanto quanto quem vive dentro delas. O papel de parede com sangue é real?
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Biografia Tenho 43 anos, nasci e cresci na cidade de Embu das Artes, formei-me em História e, atualmente, sou professor de leitura. A literatura é uma das tantas peças do meu ser público tanto quanto é parte dos meus ritos privados. Acho que o mundo gira porque gostamos de uma boa história. Eu gosto, e quis ver como é a outra ponta do livro. Espero que a minha história seja boa. Ela é sombria, de terror, irônica, necessária e visceral.
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