Sete horas e vinte e um minutos.
Horário em que minha íris se encontrava com o céu e abraçava o sol.
Momento exato em que minha presença começava a ser ouvida.
Como é possível conversas e risadas altas beijarem minhas pálpebras?
A alta cortina azul-marinho grudada à janela emperrada logo cedo demonstrava o frio de toda manhã.
Pingos de umidade escorriam pelo vidro, fazendo com que as árvores parecessem tortas.
Meus dedos ardendo de frio com a baixa temperatura insistiam em desenhar um pequeno rosto feliz toda manhã no vidro embaçado.
Tentativa falha de acreditar que seria um dia alegre.
Pedras molhadas pelo sereno.
Folhas ao chão em despedida ao caule.
Olhos curiosos percorrendo os corredores vazios.
Assim se iniciava um dia típico de angústia e solidão.
O que eu poderia fazer para me salvar desse furacão rodeado de desprezo a não ser cumprimentar Ruth?
Uma mulher idosa e gentil que cuidava de toda a biblioteca no turno da manhã.
Olhos pequenos por conta de suas rugas.
Bochechas pigmentadas por rosáceas.
Unhas levemente arredondadas para não machucar os livros.
E sua xícara de café quente de todo início de expediente.
Ruth me ensinou a amar as letras, as histórias e as dedicatórias.
Livros antigos gestam livros atuais.
E os atuais nascem malcriados.
Quando foi a última vez em que você leu um livro citando o novo?
Onde estão as histórias que ninguém nunca contou?
Por que ela sempre o ama? Por que o final é sempre feliz?
Ruth me trazia livros que só ela enxergava naquela velha prateleira empoeirada.
Os de capa almofadada me confortavam e, ao mesmo tempo, me faziam esperar por um grande mistério.
Livros rasgados e malcuidados me remetiam ao desinteresse de seus leitores ao devolvê-los à prateleira.
Também havia os livros em frente à porta, os que todos abriam a boca para reservar antes mesmo de dirigir os olhos a Ruth.
Páginas levemente amassadas, revelando a ansiedade em lê-los, esclareciam o quão intrigante aquele livro poderia ser.
Mas os que atraíam os meus olhos eram os livros que Ruth mantinha em sua prateleira ao fundo da biblioteca.
Separados para serem organizados por seção, mas nunca lembrados.
Ninguém sorria para essas histórias.
Nem chegavam a pisar nos tacos colados ao chão no fim do corredor.
Mas era naquela pobre prateleira esquecida e desdenhada que existiam os poemas que me traziam à vida.
Nunca decorei seus títulos.
Um livro de poemas sobre flores e um livro com sua antepenúltima página ilustrada com belos peixes-voadores azuis e brilhantes.
Eu os lia toda manhã, renovava suas reservas toda semana.
Como letras em conjunto podem nos trazer falsas lembranças e verdadeiros sentimentos explicitamente?
Sou grata a Ruth por me mostrar um pequeno mundo rodeado de prateleiras azuis de metal com parafusos enferrujados, com centenas de vidas em páginas oxidadas em tons de amarelo e bege, roídas por pequenas traças.
Talvez eu fosse uma traça me alimentando a cada manhã de novas histórias.
Ou talvez uma prateleira enferrujada ao fundo do corredor esperando ser vista.
Ou poderia ser os dois.
A felicidade também mora na tristeza, tanto quanto a tristeza faz sala para sorrisos.
Quando Ruth faleceu, levou um pouco de tudo em que eu acreditava.
Levou as prateleiras, os livros, o café, a porta e a chave.
Ninguém nunca mais pôde devolver seus livros,
fazendo, assim, um marco de despedida a Ruth: sua última história assinada e carimbada pela biblioteca.
O livro do peixe-voador foi a minha história.
É a minha lembrança e a minha saudade que vivem em minhas mãos e em meus olhos, percorrendo cada novo parágrafo.
Rostos felizes em janelas de vidro não salvarão meus dias.
Novas capas não serão descobertas nas primeiras horas da manhã.
A lista de espera de empréstimos irá sentir saudades do pequeno lápis que escrevia a data de devolução de seus livros.
Meu amanhecer não se parecia mais com umidade e solidão.
As folhas de rosto dos livros não eram mais minhas favoritas.
Onde está você agora?
Manhãs úmidas carregam peso e lembranças amargas como final de café.
E você suporta a liberdade em admiração aos moldes de suas mãos.
Hoje abro meus olhos e meu coração na espera por dias mais quentes de sol em um céu limpo de nuvens.
Entre e se aconchegue em minha poltrona carmim, pegue esta pequena xícara de chá e coloque à mesa todos os seus medos.
Hoje você está comigo, Ruth.