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Lembranças de um peixe-voador

JuliaFornes
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Sete horas e vinte e um minutos.

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Pensamento

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IsauraBrandao

Menina, os livros esquecidos lá no fundo do corredor eram sempre os meus também, os de capa sem nome que ninguém reservava.

Menina, os livros esquecidos lá no fundo do corredor eram sempre os meus também, os de capa sem nome que ninguém reservava.

Conteúdo da publicação

Sete horas e vinte e um minutos.

Horário em que minha íris se encontrava com o céu e abraçava o sol.

Momento exato em que minha presença começava a ser ouvida.

Como é possível conversas e risadas altas beijarem minhas pálpebras?

A alta cortina azul-marinho grudada à janela emperrada logo cedo demonstrava o frio de toda manhã.

Pingos de umidade escorriam pelo vidro, fazendo com que as árvores parecessem tortas.

Meus dedos ardendo de frio com a baixa temperatura insistiam em desenhar um pequeno rosto feliz toda manhã no vidro embaçado.

Tentativa falha de acreditar que seria um dia alegre.

Pedras molhadas pelo sereno.

Folhas ao chão em despedida ao caule.

Olhos curiosos percorrendo os corredores vazios.

Assim se iniciava um dia típico de angústia e solidão.

O que eu poderia fazer para me salvar desse furacão rodeado de desprezo a não ser cumprimentar Ruth?

Uma mulher idosa e gentil que cuidava de toda a biblioteca no turno da manhã.

Olhos pequenos por conta de suas rugas.

Bochechas pigmentadas por rosáceas.

Unhas levemente arredondadas para não machucar os livros.

E sua xícara de café quente de todo início de expediente.

Ruth me ensinou a amar as letras, as histórias e as dedicatórias.

Livros antigos gestam livros atuais.

E os atuais nascem malcriados.

Quando foi a última vez em que você leu um livro citando o novo?

Onde estão as histórias que ninguém nunca contou?

Por que ela sempre o ama? Por que o final é sempre feliz?

Ruth me trazia livros que só ela enxergava naquela velha prateleira empoeirada.

Os de capa almofadada me confortavam e, ao mesmo tempo, me faziam esperar por um grande mistério.

Livros rasgados e malcuidados me remetiam ao desinteresse de seus leitores ao devolvê-los à prateleira.

Também havia os livros em frente à porta, os que todos abriam a boca para reservar antes mesmo de dirigir os olhos a Ruth.

Páginas levemente amassadas, revelando a ansiedade em lê-los, esclareciam o quão intrigante aquele livro poderia ser.

Mas os que atraíam os meus olhos eram os livros que Ruth mantinha em sua prateleira ao fundo da biblioteca.

Separados para serem organizados por seção, mas nunca lembrados.

Ninguém sorria para essas histórias.

Nem chegavam a pisar nos tacos colados ao chão no fim do corredor.

Mas era naquela pobre prateleira esquecida e desdenhada que existiam os poemas que me traziam à vida.

Nunca decorei seus títulos.

Um livro de poemas sobre flores e um livro com sua antepenúltima página ilustrada com belos peixes-voadores azuis e brilhantes.

Eu os lia toda manhã, renovava suas reservas toda semana.

Como letras em conjunto podem nos trazer falsas lembranças e verdadeiros sentimentos explicitamente?

Sou grata a Ruth por me mostrar um pequeno mundo rodeado de prateleiras azuis de metal com parafusos enferrujados, com centenas de vidas em páginas oxidadas em tons de amarelo e bege, roídas por pequenas traças.

Talvez eu fosse uma traça me alimentando a cada manhã de novas histórias.

Ou talvez uma prateleira enferrujada ao fundo do corredor esperando ser vista.

Ou poderia ser os dois.

A felicidade também mora na tristeza, tanto quanto a tristeza faz sala para sorrisos.

Quando Ruth faleceu, levou um pouco de tudo em que eu acreditava.

Levou as prateleiras, os livros, o café, a porta e a chave.

Ninguém nunca mais pôde devolver seus livros,

fazendo, assim, um marco de despedida a Ruth: sua última história assinada e carimbada pela biblioteca.

O livro do peixe-voador foi a minha história.

É a minha lembrança e a minha saudade que vivem em minhas mãos e em meus olhos, percorrendo cada novo parágrafo.

Rostos felizes em janelas de vidro não salvarão meus dias.

Novas capas não serão descobertas nas primeiras horas da manhã.

A lista de espera de empréstimos irá sentir saudades do pequeno lápis que escrevia a data de devolução de seus livros.

Meu amanhecer não se parecia mais com umidade e solidão.

As folhas de rosto dos livros não eram mais minhas favoritas.

Onde está você agora?

Manhãs úmidas carregam peso e lembranças amargas como final de café.

E você suporta a liberdade em admiração aos moldes de suas mãos.

Hoje abro meus olhos e meu coração na espera por dias mais quentes de sol em um céu limpo de nuvens.

Entre e se aconchegue em minha poltrona carmim, pegue esta pequena xícara de chá e coloque à mesa todos os seus medos.

Hoje você está comigo, Ruth.

Thoughts

  • LuizaFontes

    A mãe aqui de casa ouviu até o fim e disse que toda cidade tem uma Ruth e ninguém agradece a tempo. Pra mim esse texto já é o agradecimento, e dessa vez ela vai ter que dar o braço a torcer.

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  • LeandroPocas

    Uma senhora que arredonda as unhas para não estragar os livros. Fiquei fã dessa Ruth logo ali.

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  • IsauraBrandao

    Menina, os livros esquecidos lá no fundo do corredor eram sempre os meus também, os de capa sem nome que ninguém reservava.

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  • GasparRibeiro

    Sete horas e vinte e um minutos, tão exacto. Aposto que era a hora do autocarro ou da escola, e a biblioteca abria antes das aulas.

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  • Doralice

    Uai, na minha cidade tinha uma dona Geralda no posto de leitura da prefeitura, que separava livro debaixo do balcão pra quem ela achava que ia gostar. Quando ela saiu de lá ninguém soube mais onde ficava nada. A lista de espera sem o lapisinho da Ruth me levou direto pra aquele posto, cê pôs o dedo num trem que muita cidade pequena já perdeu.

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  • contoDeSexta

    Ruth. Fiquei quieta.

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  • folhaSolta

    Égua, a Ruth com as unhas arredondadas pra não machucar os livros 🥹 tu ainda tem o livro dos peixes-voadores ou ele ficou lá na biblioteca?

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  • atepagina50

    Prateleira azul de metal com parafuso enferrujado e taco colado no chão. Dá pra ver o prédio todo, e a prefeitura nunca mexeu em nada ali.

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  • Ovid

    A prateleira do fundo que ninguém visitava, com os poemas que só a Ruth enxergava, me lembra que quase toda biblioteca tem uma pessoa assim, que decide em silêncio quem vai ler o quê. Aposto que ela sabia muito bem pra quem estava separando aqueles livros. Obrigado por trazer a Ruth pra cá!

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