URBEX — LO E BRU
Capítulo I — O Explorador do Século 25
Era Buck Rogers, o lendário aventureiro do futuro, que ajustava os controles da nave.
— Flash, você devia ter visto a cara dele quando encontramos aqueles morcegos gigantes em Vega!
Lo apontou a câmera para Buck.
— Aquilo não eram morcegos! Eram criaturas voadoras de uma espécie desconhecida!
— Você correu gritando que sua avó estava chamando você!
— Era uma estratégia de retirada!
Flash e Buck caíram na gargalhada.
Mas a diversão acabou quando um alarme começou a tocar.
BIP! BIP! BIP!
Caças de Mongo surgiram por todos os lados, disparando raios energéticos. Flash assumiu os controles, Buck correu para as armas defensivas e Lo se jogou atrás de uma poltrona.
— EU SOU UM DOCUMENTARISTA, NÃO UM SOLDADO!
— VOCÊ ESTÁ USANDO UMA ARMADURA DE COMBATE! — gritou Buck.
— É PARA PROTEGER A CÂMERA!
— Você foi corajoso, meu amigo.
Buck concordou.
— E não deixou de filmar nem por um segundo.
Lo sorriu orgulhoso.
— É isso que diferencia um profissional de um amador.
Nesse instante, Ming apareceu novamente no monitor.
— LO! EU O ENCONTRAREI, ONDE QUER QUE ESTEJA!
Lo mandou um beijo para a tela.
— Manda lembranças para Mongo!
A imagem desapareceu.
Lo cruzou os braços, encostou-se na poltrona e abriu um sorriso triunfante.
— Mais uma aventura concluída!
E então...
Lo acorda em seu quarto, tudo não passou de um sonho.
O celular toca, era o Bru, eles iam atrás de uma mansão velha na floresta.
LO: Estou pronto! Dessa vez não vou correr de qualquer barulho!
A resposta de Bru veio quase instantaneamente.
BRU: Você disse a mesma coisa antes da casa da coruja.
Lo franziu a testa.
— Aquela coruja era enorme!
Levantou-se, vestiu sua roupa de explorador, separou a câmera de mão, verificou as baterias e colocou os equipamentos na mochila.
Antes de sair, olhou para o espelho.
— Século XXV, me aguarde. Primeiro vou conquistar a floresta paulista!
— Boa noite, exploradores! Estamos aqui no interior de São Paulo, diante de uma mansão abandonada há décadas. Segundo as informações que conseguimos, os antigos proprietários desapareceram misteriosamente...
Bru interrompeu:
— Você inventou isso agora.
Lo baixou a câmera.
— Estou criando o clima!
— Cria o clima sem inventar desaparecimentos!
Lo voltou a filmar.
— Vamos descobrir o que realmente aconteceu.
Os dois atravessaram o portão enferrujado.
Um corvo levantou voo de uma árvore.
Bru deu um salto.
Os dois se viraram.
Bru apontou a lanterna para a entrada.
— Foi o vento.
Lo assentiu.
— Claro. O vento.
Mas, no fundo do corredor, alguma coisa acabara de se mover.
Nenhum dos dois percebeu.
A câmera de Lo registrou apenas um breve vulto desaparecendo atrás da escada.
E, muito longe dali, em algum lugar da imaginação de Lo, Ming, o Impiedoso, parecia estar sorrindo, sua mente brincando com ele.
Então começa a gravar e da a introdução...
— Fala, galera! Cês tão focados?! Porque hoje o negócio é diferente! Estamos aqui numa mansão abandonada, no meio da floresta, no interior de São Paulo! Dizem que ninguém entra aqui há mais de cinquenta anos!
Bru apareceu atrás dele.
— E dizem que quem entra nunca mais quer voltar!
Lo virou a câmera para o amigo.
— Isso é verdade?
— Não sei. Inventei agora.
— Ah, seu desgraçado! Você quer acabar com a credibilidade do canal!
Os dois começaram a rir.
Foi quando um barulho surgiu no teto.
CRRRR... CRRRR... CRRRR...
E então, como se o teto tivesse se aberto, dezenas de morcegos começaram a voar pela mansão!
— CORRE, LO!
— EU JÁ ESTOU CORRENDO!
Os dois dispararam pelo corredor, desviando dos móveis e das paredes.
Os morcegos voavam por todos os lados.
Bru tentava proteger a cabeça com os braços.
Lo corria com a câmera na mão, ainda filmando.
— GALERA, SE VOCÊS ESTÃO VENDO ISSO, DEIXEM O LIKE, PORQUE EU NÃO SEI SE VOU SOBREVIVER!
— PARA DE FAZER PROPAGANDA E CORRE!
Apenas árvores, neblina e uma trilha estreita que desaparecia entre os troncos.
— Ué... a gente correu tanto assim?
Bru apontou para o chão.
— E que lugar é esse?
Lo abaixou a câmera.
A pedra atrás da qual estavam escondidos tinha letras gravadas.
Ele limpou o musgo com a mão.
Os dois ficaram imóveis.
Lo ergueu lentamente a cabeça.
Ao redor deles havia cruzes antigas, túmulos rachados e lápides inclinadas. Algumas estavam quase completamente cobertas pela vegetação. Árvores retorcidas cresciam entre as sepulturas, e uma névoa rasteira cobria o chão.
Eles não estavam escondidos atrás de uma pedra.
Estavam escondidos atrás de uma lápide, no meio de um cemitério abandonado!
Na cabeça dele, dedos apodrecidos se arrastavam para fora da terra. Um cadáver estava prestes a sair do túmulo e agarrar seus tornozelos!
Lo soltou a câmera.
— AAAAAAAAH!
Bru também gritou.
— É UM ZUMBI!
Os dois tentaram correr, mas tropeçaram um no outro.
PLOFT! PLOFT!
Caíram de costas no chão.
E desmaiaram.
Completamente.
Bru começou a rezar.
— Nós nunca mais vamos entrar em casas abandonadas! Prometemos!
Trice chegou vindo pelo mesmo caminho e ficou olhando para eles, incrédula.
— Vocês estão de brincadeira comigo?
Lo fechou os olhos com força.
— Pode levar o Bru primeiro! Ele é mais pesado, mas eu ajudo!
— LO!
A voz fez os dois estremecerem.
Bru abriu um olho.
Conhecia aquela voz.
Lo também.
Os dois ergueram lentamente a cabeça.
Trice cruzou os braços.
— Graças a Deus!
Lo levantou também e correu para abraçá-la.
— Meu amor! Eu sabia que você viria nos salvar!
Trice afastou o namorado e apontou para a lápide.
— O que vocês estão fazendo num cemitério?!
Lo olhou ao redor.
— Nós estávamos fugindo dos morcegos...
Bru completou:
— E depois apareceu uma mão saindo de um túmulo!
Trice iluminou o chão.
Era apenas o galho seco.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Depois começou a rir tanto que precisou se apoiar numa lápide.
— Vocês desmaiaram por causa de um GALHO?!
Lo tentou se defender.
— Na escuridão, parecia uma mão!
— E vocês acharam que eu era um zumbi!
Bru apontou para ela.
— Você apareceu com essa cara no meio do cemitério! O que esperava?!
Trice respirou fundo, enxugando as lágrimas de tanto rir.
— Vamos voltar para a mansão. Agora!
De volta à mansão
Trice caminhava na frente, iluminando a trilha.
Atrás dela, Lo e Bru seguiam tão próximos que praticamente pisavam nos calcanhares um do outro.
Trice olhou por cima do ombro.
— Vocês podem andar lado a lado, sabem?
— Estamos protegendo a retaguarda — respondeu Lo.
— É uma formação tática — acrescentou Bru.
Um galho estalou na floresta.
CREC!
— Só estávamos confirmando! — disse Bru.
Finalmente, chegaram à mansão.
A porta dos fundos continuava aberta.
Trice entrou primeiro.
Lo se escondeu atrás dela.
Bru se escondeu atrás de Lo.
Trice parou.
Os dois quase bateram nela.
— Vocês vão ficar atrás de mim a noite inteira?
— Não — respondeu Lo.
— Claro que não — disse Bru.
Trice deu mais um passo.
Lo sorriu sem graça.
— É que você é a mais corajosa do grupo, meu amor.
— E a única que não desmaiou — acrescentou Bru.
Trice revirou os olhos.
— Vamos terminar essa exploração e ir embora.
Lo ergueu a câmera, tentando recuperar a dignidade.
— Muito bem, galera! Estamos de volta à mansão, depois de um pequeno incidente no cemitério...
Bru apareceu ao lado dele.
— Um incidente no qual o apresentador desmaiou duas vezes!
— Corta essa parte!
— Está ao vivo, Lo!
Mas a risada morreu quando Trice iluminou a escada.
No alto, a porta de um quarto acabara de se fechar lentamente.
NHEEEEEEC... TUM.
Os três ficaram imóveis.
Trice baixou a lanterna.
Lo segurou o braço de Bru.
Bru segurou a cintura de Lo.
E Lo sussurrou:
— Trice... querida...
— O quê?
— Você pode ir na frente de novo?
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Capítulo III — Não Abre! É o Fantasma!
A mansão estava silenciosa.
Trice seguia na frente, iluminando o corredor com sua lanterna. Logo atrás, Lo e Bru caminhavam tão grudados que pareciam duas crianças perdidas numa excursão escolar.
— Vocês dois poderiam parar de pisar nos meus calcanhares? — reclamou Trice.
— Estamos protegendo você — respondeu Lo.
— Isso mesmo — confirmou Bru. — Se aparecer alguma coisa, nós avisamos.
Trice virou o rosto lentamente.
— E como vocês vão avisar se estiverem escondidos atrás de mim?
Lo pensou por um instante.
— Gritando!
Trice suspirou.
Foi quando o céu explodiu!
KRRRRAAAAAA-BOOOOOOM!
Um trovão monstruoso sacudiu a mansão. As janelas vibraram, o lustre balançou e um clarão iluminou o corredor inteiro.
Lo e Bru deram um salto tão grande que quase alcançaram o teto.
— AAAAAAAH!
E saíram correndo!
— LO, ESPERA! — gritou Trice.
Mas os dois já haviam desaparecido na escuridão.
— SEUS COVARDES! VOLTEM AQUI!
Lo e Bru atravessaram o corredor, entraram na primeira sala que encontraram e bateram a porta.
BAM!
— Empurra! — gritou Lo.
Bru arrastou uma poltrona velha.
Lo empurrou uma mesa.
Os dois pegaram caixas, cadeiras, um armário pequeno e até um vaso enorme, empilhando tudo contra a porta.
ARRASTA! TUM! CRAC!
Em menos de um minuto, haviam construído uma barricada digna de um filme de guerra.
Bru respirou ofegante.
— Pronto! Agora estamos seguros!
Lo ergueu a câmera.
— Galera, se vocês estão acompanhando esta transmissão, saibam que estamos numa situação extremamente perigosa!
Bru olhou para ele.
— Você está gravando?!
— O conteúdo não pode parar!
Outro trovão ribombou.
BOOOOOOM!
Os dois se abraçaram imediatamente.
— Eu quero ir para casa! — choramingou Bru.
— Eu também! E quero minha mãe!
Então ouviram passos no corredor.
Toc... toc... toc...
Os dois se separaram lentamente.
Os passos pararam diante da porta barricada.
Uma voz feminina chamou:
— Abram!
Lo ficou branco.
Bru arregalou os olhos.
A voz repetiu:
— ABRAM! VOCÊS ME DEIXARAM PARA TRÁS!
Lo levou um dedo aos lábios.
— Não responde...
— Mas é uma mulher!
— E daí?!
Do outro lado, a voz ficou irritada.
— LO! BRU! EU SEI QUE VOCÊS ESTÃO AÍ!
Bru começou a tremer.
— Como ela sabe nossos nomes?
Lo olhou para ele, indignado.
— BRU, É A TRICE!
— Trice, querida! Você precisa entender que foi uma retirada estratégica!
— UM!
Bru começou a retirar a mesa.
— É ela mesmo!
— DOIS!
Lo puxou a poltrona.
— Estamos abrindo, meu amor!
Os dois removeram a barricada às pressas, derrubando cadeiras e caixas por todo o chão.
Quando finalmente abriram a porta, Trice estava parada diante deles, com as mãos na cintura e uma expressão furiosa.
— Vocês me abandonaram no corredor!
Lo abriu um sorriso amarelo.
— Amor, nós nunca abandonaríamos você.
Trice olhou para a barricada destruída.
— Então o que é isso?
Bru apontou para Lo.
— Foi ideia dele!
— TRAIDOR! — gritou Lo.
Trice cruzou os braços.
— Muito bem. Já que vocês gostam tanto de correr, podem ir na frente agora.
Lo e Bru se entreolharam.
— Eu acho melhor você ir na frente — disse Lo.
— Concordo — respondeu Bru.
Trice pegou a lanterna e caminhou pelo corredor.
Os dois seguiram atrás dela, novamente colados um no outro.
Mas, quando passaram pela porta da sala, ouviram um barulho lá dentro.
TUM... TUM... TUM...
Os três pararam.
Trice iluminou a sala.
A barricada estava no chão.
A janela permanecia fechada.
E uma velha cadeira de balanço, esquecida num canto, movimentava-se lentamente.
Nhec... nhec... nhec...
Lo agarrou o braço de Bru.
Bru agarrou o braço de Trice.
Trice olhou para os dois.
— Nem pensem em correr!
A cadeira continuou balançando.
Nhec... nhec...
Então um novo trovão iluminou a janela.
E, por uma fração de segundo, os três viram uma silhueta do lado de fora, olhando para dentro da sala.
O clarão desapareceu.
A janela estava vazia.
Lo engoliu seco.
— Trice...
— O quê?
— Posso fazer uma sugestão?
— Qual?
— Acho que já exploramos o suficiente por hoje!
Dessa vez, até Trice concordou.
Mas, quando os três se viraram para sair, uma porta no fim do corredor começou a se abrir lentamente...
E ninguém havia tocado nela, a chuva já havia parado, mas a escuridão era assustadora.
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Capítulo IV — O Fantasma do Velho Cowboy
A porta no fim do corredor se abriu lentamente.
Nheeeeeeeeeec...
Lo, Bru e Trice ficaram olhando.
Não havia ninguém.
Trice apontou a lanterna para dentro do quarto. Apenas móveis cobertos de poeira, cortinas rasgadas e uma janela quebrada.
— Estão vendo? Não tem nada! — disse ela. — Vocês têm medo até de porta!
Bru respirou aliviado.
— Eu sabia que não tinha nada.
Lo olhou para ele.
— Você estava escondido atrás de mim!
— Estratégia de posicionamento!
Trice revirou os olhos, e os três finalmente deixaram a mansão. Depois de uma longa caminhada pela floresta, chegaram ao carro e foram embora.
Naquela noite, Lo tomou banho, vestiu seu pijama de Mickey Mouse e se jogou na cama.
— Finalmente, minha cama! Nada de mansões, morcegos, cemitérios ou fantasmas!
Puxou o cobertor até o pescoço.
Fechou os olhos.
Então, de repente, abriu-os novamente.
— MINHA CÂMERA!
Sentou-se na cama.
Lembrou-se da correria, da barricada, dos gritos e da fuga da mansão.
—A câmera havia ficado na sala onde ele e Bru tínhamos nos escondido!
Lo passou as mãos pelo rosto.
— Não acredito! A gravação inteira está naquela casa!
Pegou o celular e pensou em ligar para Bru.
Mas olhou para o relógio. Era tarde.
— Ah, não. Se eu chamar o Bru, ele vai inventar uma desculpa, dizer que está com dor de barriga e me deixar ir sozinho.
Vestiu a roupa novamente, pegou uma lanterna e saiu.
— Vou lá rapidinho buscar a câmera e já volto. Cinco minutos!
Ele fez uma pausa.
— E, se aparecer alguma coisa, eu corro.
A volta à mansão.
Lo sentia como se algo o impusinava, como amarras de marionetes.
A floresta estava silenciosa quando Lo estacionou o carro perto da entrada.
A mansão parecia ainda mais assustadora durante a madrugada.
Ele iluminou o portão enferrujado, tinha a sensação de que algo o seguia, mas era imaginação.
— Boa noite, mansão. Vim buscar minhas coisas. Não quero incomodar ninguém, vivo ou morto.
Entrou pelo mesmo caminho e chegou à porta dos fundos.
Ela estava entreaberta.
Lo respirou fundo, a sensação de algo atrás dele o consumia, se ajoelhando rezou para ter coragem.

— Cinco minutos. Entro, pego a câmera e saio.
Avançou pelo corredor, iluminando o chão.
A madeira rangia sob seus pés.
Creeec... creeec...
— Isso é só madeira velha — murmurou.
Um cano estalou na parede.
TAC!
Lo deu um pulo.
— E isso é só um cano velho!
Continuou andando, repetindo para si mesmo que não havia nada a temer.
Finalmente, chegou à sala.
A poltrona continuava tombada. A mesa estava fora do lugar. As caixas que haviam usado para construir a barricada permaneciam espalhadas pelo chão.
E, perto da janela, estava sua câmera.
— Aí está você, minha querida!
Lo correu até ela, pegou o equipamento e verificou a gravação.
— Perfeito! Tudo salvo!
Foi então que ouviu o som de esporas.
Clinc... clinc... clinc...
Lo parou.
Olhou para a porta.
O som vinha do corredor.
Clinc... clinc... clinc...
— Tem alguém aí?
Nenhuma resposta.
Lo apertou a câmera contra o peito.
— Bru, se isso é alguma brincadeira sua, eu juro que...
Uma voz grave interrompeu a frase.
— Não conheço nenhum Bru, rapaz.
Lo girou a lanterna.
E a luz revelou uma figura parada na entrada da sala.
Era um homem idoso, de chapéu de aba larga, rosto marcado pelo tempo, barba grisalha e um velho poncho sobre os ombros. Usava botas de couro e carregava um revólver preso ao cinturão.
Sua aparência era a de um cowboy dos tempos do Velho Oeste.
Mas havia algo profundamente estranho nele.
Seus pés não tocavam o chão.
O velho tirou o chapéu educadamente.
— Boa noite, jovem.
Lo recuou um passo.
— Boa... boa noite.
— O que faz na minha casa a esta hora?
Lo olhou ao redor.
— Sua casa?
O velho assentiu.
— Foi onde morei durante meus últimos anos neste mundo.
Lo sentiu um arrepio percorrer a espinha.
— Como assim... últimos anos?
O cowboy sorriu discretamente.
— Morri há muito tempo, rapaz.
A lanterna começou a tremer nas mãos de Lo.
— O senhor é...
— Um fantasma? Sim.
Lo soltou um grito tão alto que um bando de morcegos levantou voo no sótão.
— AAAAAAAH! EU SABIA! EU SABIA QUE ESSA CASA ERA ASSOMBRADA!
O velho franziu a testa.
— Por que está gritando? Não fiz nada contra você.
— O SENHOR ESTÁ MORTO!
— Essa observação não é exatamente uma novidade para mim.
Lo tentou recuar, mas tropeçou na poltrona e caiu sentado.
O cowboy suspirou, aproximou-se e estendeu a mão para ajudá-lo.
Lo olhou para aquela mão sem sombra.
— Não me toque! Eu ainda tenho muita coisa para fazer! Tenho vídeos para publicar, seguidores para conquistar e o Bru para assustar!
O velho soltou uma risada curta.
O cowboy colocou o chapéu novamente e se apresentou:
— Meu nome é Tex Willer.
Lo ficou imóvel.
Seus olhos se arregalaram por trás dos óculos.
— TEX WILLER?! O TEX WILLER?!
— Conhece outro?
Lo levantou-se tão depressa que quase caiu outra vez.
— O lendário ranger do Oeste?! O homem que enfrentou bandidos, pistoleiros e criminosos por toda a fronteira?!
Tex sorriu.
— Já faz muito tempo que não ouço alguém falar assim de mim.
Lo apontou a câmera para ele.
— Meu Deus! Isso é inacreditável! Uma entrevista com Tex Willer! O maior vídeo da história do canal!
— Uma câmera digital! Grava imagem e som!
— Interessante. No meu tempo, precisávamos confiar na memória e na palavra dos homens.
Lo engoliu seco.
— Então o senhor realmente existiu?
Tex ficou sério por um instante e olhou para a janela.
— Existir é uma coisa. Ser lembrado é outra.
Caminhou até a velha poltrona e observou as paredes.
— Cheguei ao Brasil na virada do século passado. Estava velho, cansado de tanta luta e queria encontrar um lugar onde pudesse viver em paz. Encontrei esta propriedade e fiquei por aqui até o fim dos meus dias.
Lo abaixou lentamente a câmera.
— Vim buscar isto.
Tex assentiu.
— Um motivo razoável.
Lo respirou aliviado.
Talvez aquele fosse o primeiro fantasma educado que encontrara na vida ou melhor, o único que conheceu.
Então Tex acrescentou:
— Mas há uma coisa que você precisa saber, rapaz.
Lo voltou a ficar tenso.
— O quê?
Tex apontou para a escuridão do corredor.
— Senhor Tex... por favor, diga que é o Bru.
Tex olhou para a porta.
— Se fosse seu amigo, eu não estaria sacando minha arma.
A luz da lanterna piscou.
No corredor, uma sombra alta atravessou lentamente a parede.
Tex Willer levantou o revólver.
— Fique atrás de mim, rapaz.
Lo obedeceu imediatamente.
— Com todo o prazer!
E, pela primeira vez naquela noite, o explorador urbano não pensou em fugir para conseguir mais visualizações.
Porque, diante dele, o lendário cowboy fantasma estava prestes a enfrentar algo que nem mesmo ele parecia esperar.
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Capítulo V — O Fantasma, o Cowboy e a Bruxa do 71
A sombra continuava avançando pelo corredor da mansão.
Tex Willer sacou seus dois revólveres e apontou as armas para a figura.
— Pare onde está! — ordenou o velho cowboy. — Não sei quem você é, mas não vou permitir que ameace este rapaz!
Lo estava escondido atrás dele, segurando a câmera com as duas mãos.
— Isso mesmo! Escutou o senhor Tex? Ele é um homem muito perigoso! Já enfrentou centenas de bandidos!
Tex olhou de lado.
— Você poderia ficar quieto?
— Claro, senhor Tex!
Lo fechou a boca imediatamente.
A sombra se aproximou mais um pouco.
Toc... toc... toc...
Tex firmou os pés e manteve os revólveres apontados.
— Última oportunidade! Identifique-se!
A figura finalmente saiu da escuridão.
E então uma voz feminina bastante conhecida exclamou:
— Sassafrás!
Tex piscou.
Lo arregalou os olhos.
Diante deles estava uma senhora baixinha, usando um vestido antigo, com os cabelos arrumados e uma expressão de indignação.
Era ninguém menos que Dona Clotilde, a Bruxa do 71!
Ela olhou para os dois revólveres de Tex e colocou as mãos na cintura.
— Mas que falta de respeito! Por que está apontando essas coisas para mim?!
Tex ficou completamente confuso.
— Bruxa?!
Dona Clotilde ergueu o queixo.
— Bruxa, não! Eu sou uma senhora respeitável!
Lo congelou.
Lo congelou.
A câmera começou a escorregar de suas mãos.
— Não... não pode ser...
Dona Clotilde virou-se para ele.
— E você, menino? O que está fazendo escondido atrás desse senhor? Está pensando que eu sou algum monstro, só estou procurando meu gato Sassafrás!?
Lo tentou responder, mas só conseguiu balbuciar:
— A... a... a senhora...
— Eu o quê?
Lo fechou os olhos com força.
— só falta o Chaves e o Kiko.
— Que Chaves? Que Kiko? Do que você está falando, menino?
Tex continuava com os revólveres nas mãos.
— Senhora, não sei quem é a senhora, mas estamos numa situação perigosa.
Dona Clotilde olhou para ele.
— Perigosa? Perigoso é morar perto de um menino que vive dizendo: "Foi sem querer querendo!"
Lo começou a tremer.
— Não! Não! Isso não está acontecendo!
Dona Clotilde aproximou-se.
— E você, garoto, por que está tão assustado? Parece até que viu um fantasma!
— Isso... Isso.... Isso....
Lo abriu os olhos.
A bruxa estava bem diante dele!
Ele fechou os olhos novamente e gritou:
— ACORDA, LO! ACORDA! ISSO É UM SONHO!
E, de repente...
Tudo desapareceu.
Tex Willer.
Dona Clotilde.
A mansão.
A câmera.
A floresta.
Silêncio absoluto.
A realidade
Lo abriu os olhos lentamente.
Estava deitado em sua cama, enrolado no cobertor, com o travesseiro quase cobrindo o rosto.
A luz da manhã entrava pela janela.
Ele ficou alguns segundos olhando para o teto.
Então sentou-se de repente.
— FOI TUDO UM SONHO!
Passou as mãos pelo rosto e começou a rir.
— Eu sonhei que encontrei o Tex Willer, um cowboy fantasma, e depois apareceu a Bruxa do 71!
Olhou para o lado, procurando a câmera.
Ela estava sobre a mesinha, exatamente onde a havia deixado na noite anterior.
Lo pegou o celular e viu uma mensagem de Bru:
BRU: Bom dia, dorminhoco! Preparado para nossa próxima exploração urbana?
Lo respondeu imediatamente:
LO: Preparado nada! Passei a noite enfrentando fantasmas, cowboy morto e a Bruxa do 71!
Bru respondeu:
BRU: KKKKKKK! Você precisa parar de assistir televisão antes de dormir!
Lo começou a rir, se arruma, toma café e espera por Bru, quando a campainha toca.
Lo atendeu.
— Fala, criatura, chegou cedo!
Bru apareceu na porta com a GoPro na cabeça.
— Lo, tive uma ideia! Descobri um casarão abandonado que dizem ser mal-assombrado!
O sorriso de Lo desapareceu.
— Bru...
— O quê?
— Você não poderia descobrir uma padaria abandonada? Uma sorveteria abandonada? Qualquer coisa que não tenha fantasmas?
Bru caiu na gargalhada.
— Vamos lá, medroso!
Lo suspirou e olhou para a câmera.
— Meu nome é Lo. Sou explorador urbano. Já enfrentei morcegos, corujas, galhos, manequins e até o imaginário Tex Willer!
Fez uma pausa.
— Mas, se aparecer a Bruxa do 71, eu me aposento, e de repente ele ouve uma voz vindo do nada, Isso.... Isso.... Isso......!
FIM! 😂👻