Toda menina que cresce ouvindo "e foram felizes para sempre" antes de aprender a tabuada sai da infância com uma economia particular: ela acha que casamento é o prêmio final, não a abertura de um novo jogo. Foi assim com Marina. Ela não sonhava exatamente com um príncipe — sonhava com o castelo. O príncipe era só o CPF que vinha junto.
O castelo, no fim, veio em forma de apartamento de dois quartos e um berço duplo. Os gêmeos chegaram na primeira tentativa, como se o destino tivesse pressa de testar a fantasia logo de cara. Marina pediu demissão sem dor — na cabeça dela, não era perda, era upgrade: trocava um crachá por uma coroa. Ninguém avisou que rainha, na prática, é cargo de plantão vinte e quatro horas, sem CLT e sem 13º.
Levou uns três anos para a coroa começar a apertar. Foi quando surgiram os "projetinhos" — brigadeiro gourmet no Dia das Mães, revenda de roupa infantil no grupo do prédio, curso de confeitaria que ela jurava que ia virar renda extra e virou, na prática, mais uma aba aberta na cabeça dela. Depois veio a pandemia, e com ela a palavra que prometia salvação: home office. Marina imaginou que finalmente teria as rédeas do próprio tempo — trabalhar de pijama, buscar as crianças na escola, ser CEO da própria rotina.
Na prática, o "escritório em casa" virou só mais um cômodo onde ela também não dava conta de nada: e-mail respondido com uma criança pendurada no pescoço, call de alinhamento com o áudio mudo porque tinha alguém gritando "mãe" ao fundo. O domínio sobre o tempo que ela imaginava ter conquistado era, na verdade, só mais uma ilusão com nome em inglês.
Foi nesse cenário de eficiência zero que ela descobriu a traição do marido — não por confissão, não por flagrante de novela, mas do jeito medíocre como essas coisas costumam aparecer: uma notificação errada, uma coincidência boba. Ela esperou sentir o chão sumir. Não sumiu. Porque, para ser justa, ele não tinha virado um estranho cruel; continuava o mesmo sujeito de sempre, só que com um endereço a mais na agenda. E ela, para ser justa consigo mesma, também não sentia mais aquela paixão que justificasse um escândalo. Faltava confusão, sobrava cansaço.
Foi aí que Marina teve a ideia mais sensata e mais patética da sua vida adulta: por que não trair também? Não uma separação, não uma vingança — uma compensação. Um acordo não assinado, não falado, do tipo "eu sei que você sabe, você sabe que eu sei, e a gente finge que ninguém sabe de nada". Uma relação aberta sem a abertura, sem a conversa, sem o contrato. Inconsensual raiz.
O problema é que traição, como qualquer outro projeto da vida adulta de Marina, também precisava caber na agenda.
Ela chegou a conhecer alguém — nada de sedutor profissional, nada de predador com discurso ensaiado. Era só um sujeito comum, meio sem jeito, prestador de algum serviço qualquer, que a olhava com aquela cara de quem também nunca tinha feito aquilo antes e não sabia bem o que fazer com a brecha que ela ia deixando aberta. Ele esperava um sinal mais claro. Ela nunca tinha tempo de dar.
Marcavam, e a reunião da call estourava o horário. Combinavam, e uma das crianças passava mal. Toda vez que a possibilidade batia à porta, alguma outra coisa — mais urgente, mais chata, mais dela — batia primeiro.
No fim, a rebelião de Marina não morreu de senso moral, nem de amor renovado pelo marido, nem de arrependimento. Morreu de agenda lotada. Ela, que um dia sonhou em ser rainha de um castelo, descobriu que nem sequer conseguia ser dona do próprio horário de almoço — quanto mais de um caso.
Se existe alguma lição nisso, talvez seja essa: ninguém deixa de trair por falta de vontade nesses tempos. Deixa de trair por falta de agenda livre. E fica-se casado, muitas vezes, pelo mesmo motivo.