Nós inventamos o tempo
porque tivemos medo do infinito.
Dividimos o dia em pedaços,
demos nomes às manhãs,
números às horas,
datas às despedidas,
e depois construímos relógios
para vigiar aquilo
que jamais nos pertenceu.
Que arrogância a nossa.
Um homem nasce
e imediatamente começa a morrer.
Não existe intervalo.
O primeiro choro
já é uma contagem regressiva
que ninguém ouve.
E, ainda assim,
passamos a vida perguntando:
“Quanto tempo eu tenho?”
Como se o tempo tivesse sido colocado no mundo
para nos servir.
Como se o universo tivesse aberto os olhos
e decidido:
hoje começarei a contar os segundos de Gabriel.
Mas o universo não sabe nosso nome.
Não sabe quando fazemos vinte anos.
Não sabe quando nos apaixonamos.
Não sabe quando alguém parte
e deixa uma cadeira vazia à mesa.
Enquanto choramos uma ausência,
uma estrela pode estar morrendo
a milhares de anos-luz daqui.
Enquanto alguém comemora um nascimento,
uma galáxia pode estar se desfazendo
em algum lugar que jamais veremos.
Enquanto um homem olha para o relógio
e reclama que está atrasado,
a Terra gira.
Sem pressa.
Sem culpa.
Sem sequer saber
que estamos tentando acompanhá-la.
Talvez seja essa a nossa maior ilusão:
acreditamos que o tempo passa.
Não.
Nós é que passamos.
O tempo não corre.
Nós desaparecemos dentro dele.
Cada aniversário não acrescenta um ano à vida.
Subtrai.
Cada fotografia que guardamos
é uma pequena prova material
de que aquele instante
já morreu.
Olhe uma fotografia antiga.
Ali está você.
Inteiro.
Vivo naquele segundo.
Talvez sorrindo.
Talvez abraçando alguém
que hoje já não está.
Talvez usando uma roupa
que nunca mais vestiu.
E existe algo profundamente cruel
na fotografia:
ela conserva a imagem
de algo que o tempo
já conseguiu destruir.
A infância não ficou para trás.
Ela simplesmente deixou de existir
no lugar onde você ainda consegue alcançá-la.
E nós chamamos isso de passado
como se uma palavra pudesse explicar
o desaparecimento de um mundo.
Quantas versões de nós mesmos
já morreram?
O menino que fomos.
O adolescente que acreditava em certas coisas.
A pessoa que amou pela primeira vez.
Aquela que tinha medo de ficar sozinha.
Aquela que jurou
que jamais seria como os adultos.
Todas estão mortas.
E nenhuma teve funeral.
Continuamos carregando seus fantasmas
sem sequer perceber
que somos um cemitério
de pessoas que já fomos.
E mesmo assim,
que extraordinária futilidade
a nossa.
Brigamos por coisas pequenas.
Acumulamos objetos.
Disputamos status.
Queremos ser lembrados.
Queremos deixar nosso nome
em algum lugar.
Como se o universo
fosse uma plateia
esperando nossa apresentação.
Mas o universo não aplaude.
Não vaia.
Não interrompe.
Ele simplesmente continua.
Um império desaparece.
Uma floresta nasce sobre suas ruínas.
Uma língua morre.
Outra surge.
Um homem escreve seu nome numa pedra.
A chuva apaga.
E a pedra permanece
apenas tempo suficiente
para esquecer que um dia
teve um nome escrito nela.
Talvez seja isso
que mais incomode no tempo:
ele não nos odeia.
Seria mais fácil
se nos odiasse.
Mas ele não odeia.
Não ama.
Não perdoa.
Não pune.
Não recompensa.
Ele simplesmente não nos considera.
E talvez a insignificância humana
não esteja no fato de sermos pequenos.
Estejamos errados
por imaginar que precisamos ser grandes.
Porque talvez uma vida não precise
ser eterna para ser imensa.
Talvez uma existência de oitenta anos
não seja pequena
diante de bilhões de anos.
Talvez seja justamente o contrário.
Talvez o absurdo esteja
em receber uma quantidade tão pequena
de eternidade
e gastá-la tentando provar
que somos importantes.
O homem olha para o relógio
e pensa que perdeu essa hora.
Não percebeu
que perdeu uma parte de si.
Olha para o calendário
e diz:
“mais um ano.”
Como se tivesse ganhado.
Quando, na verdade,
o ano é que ganhou você.
E amanhã será igual.
O sol nascerá
sem pedir licença.
As pessoas acordarão.
O café será preparado.
Os ônibus passarão.
Alguém nascerá.
Alguém morrerá.
Alguém encontrará o amor.
Alguém o perderá.
E, no meio disso tudo,
você estará preocupado
com alguma coisa
que daqui a cinquenta anos
talvez nem mereça uma lembrança.
O universo continuará expandindo.
As estrelas continuarão queimando.
O espaço continuará engolindo distâncias
que nossa inteligência sequer consegue imaginar.
E nós continuaremos discutindo
quem tem razão.
Como se o infinito
estivesse esperando nossa conclusão.
Talvez seja por isso
que o tempo seja tão assustador.
Não porque passa rápido.
Mas porque nos revela,
sem nenhuma delicadeza,
que nunca fomos o centro.
Nunca fomos a medida
de coisa alguma.
Somos apenas matéria consciente
por alguns instantes,
olhando para a imensidão
e chamando de “minha vida”
uma pequena dobra
na superfície da eternidade.
E ainda assim...
há algo de belo nisso.
Porque se somos tão pequenos,
então talvez não precisemos
ser extraordinários aos olhos do universo.
Talvez baste sermos extraordinários
nos poucos olhos
que nos enxergam.
Talvez baste uma mão segurando outra.
Uma risada que permanece na memória.
Um abraço que acontece
antes que seja tarde.
Uma manhã comum
que, sem sabermos,
será a última.
Porque o tempo não vai parar
para que entendamos isso.
Ele nunca parou.
Nunca esperou.
Nunca esperará.
E talvez a única resposta digna
diante de uma eternidade
que não sabe que existimos
seja esta:
viver como quem sabe
que não terá outra chance
de viver exatamente este instante.