Li recentemente uma notícia que me fez pensar sobre uma das poucas certezas que temos na vida: o tempo passa. E, por mais que a gente tente negociar, ele nunca parece disposto a fazer concessões.
Pesquisadores desenvolveram, com a ajuda da inteligência artificial, um medicamento experimental para tratar a fibrose pulmonar idiopática. Durante os estudos, encontraram algo surpreendente: exames de sangue indicaram alterações compatíveis com uma redução da idade biológica estimada dos pacientes. Calma. Ninguém acordou vinte anos mais jovem. Ainda estamos longe de saber se esses resultados significam algum rejuvenescimento real ou aumento da expectativa de vida. Mas a possibilidade, por mais distante que esteja, é fascinante. Principalmente para alguém como eu.
Sou movido a frio na barriga. Gosto de estar aqui, de descobrir coisas, conhecer pessoas, aprender, experimentar. Se me garantissem saúde, autonomia e qualidade de vida, eu assinaria tranquilamente um contrato para viver duzentos anos. Duzentos! Imaginem quantas histórias ainda caberiam nesse tempo. Só que comecei a pensar nas consequências dessa possibilidade.
Hoje, uma pessoa de oitenta anos costuma ser considerada alguém que já percorreu boa parte de sua jornada. Mas e se oitenta passasse a representar apenas a metade do caminho? Como seriam nossos planos? Nossas relações? Em que momento alguém seria considerado velho? Será que começaríamos uma faculdade aos noventa? Mudaríamos de profissão aos cento e vinte? Talvez a famosa crise dos quarenta fosse transferida para os cento e cinquenta. Confesso que gosto dessa perspectiva.
Mas tem uma coisa que me pega. Quanto mais a gente acha que tem tempo, mais fácil fica de deixar as coisas para depois, né?
A gente já faz isso hoje. Adia uma viagem, uma conversa, um abraço. Deixa para visitar alguém na semana seguinte. Promete começar aquele projeto no próximo mês. Guarda palavras para uma ocasião especial que talvez nunca apareça. Tudo isso sabendo que nosso tempo é limitado. Imaginem se tivéssemos a expectativa de viver duzentos anos. Será que passaríamos a valorizar ainda mais cada oportunidade? Ou a abundância de amanhãs acabaria tornando o hoje menos importante?
Também existe outra questão.
Podemos imaginar uma ciência capaz de devolver juventude às nossas células. Mas os anos vividos continuariam fazendo parte de nós. O corpo poderia recuperar alguma coisa. Nossa história seguiria carregando tudo aquilo que aconteceu. Os encontros, as despedidas, as oportunidades aproveitadas e aquelas que deixamos escapar. As pessoas que conhecemos e as que gostaríamos de encontrar novamente.
Talvez seja justamente isso que torne o tempo tão precioso. Cada instante acontece uma única vez, independentemente de quantos anos ainda tenhamos pela frente. Ainda assim, continuo querendo meus duzentos anos. Torço para que a ciência avance, para que a inteligência artificial continue contribuindo com descobertas e para que possamos envelhecer com cada vez mais saúde e dignidade.
Quero conhecer o futuro. Tenho uma curiosidade enorme sobre tudo aquilo que ainda vamos descobrir. Mas essa notícia me deixou pensando em algo que nunca havia considerado dessa maneira.
Se o amanhã pudesse esperar por mais cem anos, será que continuaríamos dando ao dia de hoje o mesmo valor?
E eu, que gostaria tanto de viver duzentos anos, talvez precise pensar um pouco mais sobre o que estou fazendo com os quarenta e seis que já tenho.