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A Cosmovisão do Tempo.

GabrielVictor
Pensamento

Pensamento

Chemysky

Muito massa o jeito que você definiu o tempo de forma lógica de acordo com a relatividade, mas utilizando a prosopopéia para explicar de forma excelente o que o sumo do texto contém. Muito bom!

Muito massa o jeito que você definiu o tempo de forma lógica de acordo com a relatividade, mas utilizando a prosopopéia para explicar de forma excelente o que o sumo do texto contém. Muito bom!

Conteúdo da publicação

Nós inventamos o tempo

porque tivemos medo do infinito.

Dividimos o dia em pedaços,

demos nomes às manhãs,

números às horas,

datas às despedidas,

e depois construímos relógios

para vigiar aquilo

que jamais nos pertenceu.

Que arrogância a nossa.

Um homem nasce

e imediatamente começa a morrer.

Não existe intervalo.

O primeiro choro

já é uma contagem regressiva

que ninguém ouve.

E, ainda assim,

passamos a vida perguntando:

“Quanto tempo eu tenho?”

Como se o tempo tivesse sido colocado no mundo

para nos servir.

Como se o universo tivesse aberto os olhos

e decidido:

hoje começarei a contar os segundos de Gabriel.

Mas o universo não sabe nosso nome.

Não sabe quando fazemos vinte anos.

Não sabe quando nos apaixonamos.

Não sabe quando alguém parte

e deixa uma cadeira vazia à mesa.

Enquanto choramos uma ausência,

uma estrela pode estar morrendo

a milhares de anos-luz daqui.

Enquanto alguém comemora um nascimento,

uma galáxia pode estar se desfazendo

em algum lugar que jamais veremos.

Enquanto um homem olha para o relógio

e reclama que está atrasado,

a Terra gira.

Sem pressa.

Sem culpa.

Sem sequer saber

que estamos tentando acompanhá-la.

Talvez seja essa a nossa maior ilusão:

acreditamos que o tempo passa.

Não.

Nós é que passamos.

O tempo não corre.

Nós desaparecemos dentro dele.

Cada aniversário não acrescenta um ano à vida.

Subtrai.

Cada fotografia que guardamos

é uma pequena prova material

de que aquele instante

já morreu.

Olhe uma fotografia antiga.

Ali está você.

Inteiro.

Vivo naquele segundo.

Talvez sorrindo.

Talvez abraçando alguém

que hoje já não está.

Talvez usando uma roupa

que nunca mais vestiu.

E existe algo profundamente cruel

na fotografia:

ela conserva a imagem

de algo que o tempo

já conseguiu destruir.

A infância não ficou para trás.

Ela simplesmente deixou de existir

no lugar onde você ainda consegue alcançá-la.

E nós chamamos isso de passado

como se uma palavra pudesse explicar

o desaparecimento de um mundo.

Quantas versões de nós mesmos

já morreram?

O menino que fomos.

O adolescente que acreditava em certas coisas.

A pessoa que amou pela primeira vez.

Aquela que tinha medo de ficar sozinha.

Aquela que jurou

que jamais seria como os adultos.

Todas estão mortas.

E nenhuma teve funeral.

Continuamos carregando seus fantasmas

sem sequer perceber

que somos um cemitério

de pessoas que já fomos.

E mesmo assim,

que extraordinária futilidade

a nossa.

Brigamos por coisas pequenas.

Acumulamos objetos.

Disputamos status.

Queremos ser lembrados.

Queremos deixar nosso nome

em algum lugar.

Como se o universo

fosse uma plateia

esperando nossa apresentação.

Mas o universo não aplaude.

Não vaia.

Não interrompe.

Ele simplesmente continua.

Um império desaparece.

Uma floresta nasce sobre suas ruínas.

Uma língua morre.

Outra surge.

Um homem escreve seu nome numa pedra.

A chuva apaga.

E a pedra permanece

apenas tempo suficiente

para esquecer que um dia

teve um nome escrito nela.

Talvez seja isso

que mais incomode no tempo:

ele não nos odeia.

Seria mais fácil

se nos odiasse.

Mas ele não odeia.

Não ama.

Não perdoa.

Não pune.

Não recompensa.

Ele simplesmente não nos considera.

E talvez a insignificância humana

não esteja no fato de sermos pequenos.

Estejamos errados

por imaginar que precisamos ser grandes.

Porque talvez uma vida não precise

ser eterna para ser imensa.

Talvez uma existência de oitenta anos

não seja pequena

diante de bilhões de anos.

Talvez seja justamente o contrário.

Talvez o absurdo esteja

em receber uma quantidade tão pequena

de eternidade

e gastá-la tentando provar

que somos importantes.

O homem olha para o relógio

e pensa que perdeu essa hora.

Não percebeu

que perdeu uma parte de si.

Olha para o calendário

e diz:

“mais um ano.”

Como se tivesse ganhado.

Quando, na verdade,

o ano é que ganhou você.

E amanhã será igual.

O sol nascerá

sem pedir licença.

As pessoas acordarão.

O café será preparado.

Os ônibus passarão.

Alguém nascerá.

Alguém morrerá.

Alguém encontrará o amor.

Alguém o perderá.

E, no meio disso tudo,

você estará preocupado

com alguma coisa

que daqui a cinquenta anos

talvez nem mereça uma lembrança.

O universo continuará expandindo.

As estrelas continuarão queimando.

O espaço continuará engolindo distâncias

que nossa inteligência sequer consegue imaginar.

E nós continuaremos discutindo

quem tem razão.

Como se o infinito

estivesse esperando nossa conclusão.

Talvez seja por isso

que o tempo seja tão assustador.

Não porque passa rápido.

Mas porque nos revela,

sem nenhuma delicadeza,

que nunca fomos o centro.

Nunca fomos a medida

de coisa alguma.

Somos apenas matéria consciente

por alguns instantes,

olhando para a imensidão

e chamando de “minha vida”

uma pequena dobra

na superfície da eternidade.

E ainda assim...

há algo de belo nisso.

Porque se somos tão pequenos,

então talvez não precisemos

ser extraordinários aos olhos do universo.

Talvez baste sermos extraordinários

nos poucos olhos

que nos enxergam.

Talvez baste uma mão segurando outra.

Uma risada que permanece na memória.

Um abraço que acontece

antes que seja tarde.

Uma manhã comum

que, sem sabermos,

será a última.

Porque o tempo não vai parar

para que entendamos isso.

Ele nunca parou.

Nunca esperou.

Nunca esperará.

E talvez a única resposta digna

diante de uma eternidade

que não sabe que existimos

seja esta:

viver como quem sabe

que não terá outra chance

de viver exatamente este instante.

Thoughts

  • Chemysky

    Muito massa o jeito que você definiu o tempo de forma lógica de acordo com a relatividade, mas utilizando a prosopopéia para explicar de forma excelente o que o sumo do texto contém. Muito bom!

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  • emailSemLer

    Umas 29 mil manhãs. Uf.

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    Biografia Tenho 43 anos, nasci e cresci na cidade de Embu das Artes, formei-me em História e, atualmente, sou professor de leitura. A literatura é uma das tantas peças do meu ser público tanto quanto é parte dos meus ritos privados. Acho que o mundo gira porque gostamos de uma boa história. Eu gosto, e quis ver como é a outra ponta do livro. Espero que a minha história seja boa. Ela é sombria, de terror, irônica, necessária e visceral.

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