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O preço de uma segunda chance capítulo 2

FJS

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“Tutorial? Isso é algum tipo de jogo?”

​Christopher estava confuso, com muita informação para processar. Primeiro, havia a questão de ter morrido. Christopher nunca fora muito religioso; tudo o que sabia era o que sua mãe, Samantha, lhe contara. Samantha era uma mulher devota e acreditava fielmente em Deus, mas Christopher não era assim. Ainda mais depois da perda de sua mãe, ele não acreditava em nada dessas coisas: nem céu, nem inferno e muito menos em reencarnação. Para Christopher, a vida simplesmente acabava; não havia um “depois”.

​Mas agora tudo aquilo caía por terra. Não só havia um depois da morte, como o senhor à sua frente informava que ele iria reencarnar. O garoto estava em absoluto choque. Em segundo lugar, veio a lembrança do que o Sr. Guia dissera sobre sua irmã: ela ficaria bem. Isso, ao menos, era um enorme alívio.

​Após recobrar o controle de si, Christopher ouviu com atenção as palavras do velho:

​“Isso não é um jogo, então preste bastante atenção: você só tem uma chance.”

​“Está vendo aquelas escadas?”, disse o velho, apontando com o cajado para a frente.

​Ao olhar para onde o Sr. Guia indicava, Christopher deparou-se com uma escadaria monumental. Os degraus eram feitos de ouro, com runas desenhadas em suas laterais. Ele pôde contar um total de 25 degraus extremamente largos; caberiam centenas de pessoas em um único degrau daquela imensa estrutura.

​Enquanto Christopher contemplava a escada, o Sr. Guia continuou:

​“Estes são os degraus da reencarnação. Cada degrau representa um mundo diferente para onde você pode reencarnar. Desses vinte e cinco degraus, a estrutura é dividida em 5 partes, e suas fronteiras se encontram a cada 5 degraus.”

​“Como assim partes e fronteiras?”, perguntou Christopher.

​“As partes são grupos de mundos que tecnicamente ainda podem se conectar. Um exemplo são os degraus do 11° ao 14°: as almas que reencarnarem nesses mundos podem facilmente transitar entre eles, sem a necessidade de vir para esta área e ter de passar pelos degraus novamente.”

​“Então quer dizer que, se eu for para o mundo do 14° degrau, ainda posso subir até o 11° sem precisar morrer?”

​“Não é tão fácil assim, mas sim, é possível”, respondeu o guia.

​“E qual é a diferença entre eles? Por que alguém iria querer subir?”, questionou Christopher.

​“Qualidade.”

​“Qualidade?”

​“Sim.”

​Christopher ficou em silêncio encarando o velho, com uma expressão de quem não havia entendido nada. O velho suspirou profundamente e continuou:

​“Para cada degrau acima, a qualidade do mundo melhora. Quanto mais alto subir a escadaria, maiores são suas chances de ficar mais forte ou ter uma qualidade de vida melhor — seja lá o que você procurar.”

​“Hum, acho que comecei a entender… Uma pergunta: na Terra em que eu vivia, qual era o degrau?”

​Christopher estava muito curioso agora que começara a compreender aquele lugar. Se as almas subiam as escadas para reencarnar em mundos diferentes, ele queria saber se seria possível reencarnar de volta na Terra. Se fizesse isso, poderia encontrar um jeito de cuidar de sua irmãzinha.

​“Vigésimo degrau”, disse o velho.

​“Tão baixo?” Christopher começou a imaginar: se o mundo onde vivera era tão baixo, o que aguardava nos reinos acima e nos 5 reinos abaixo? Essas dúvidas martelavam em sua cabeça.

​O Sr. Guia pareceu perceber o que se passava na mente do garoto e prontamente continuou:

​“Ahem… bom, continuando. O mundo onde você vivia era uma fronteira: o degrau de número vinte. Fronteiras são mundos de onde não é possível descer ou subir os degraus sem vir para esta área. Isso vale para os degraus 19 e 21, pois nenhum dos dois pode alcançar o degrau 20. Da mesma forma, não é possível alcançar os degraus 15, 10, 5 e o topo sem passar por aqui: todos eles são fronteiras.”

​“E o degrau 25?”, Christopher não deixou de perguntar.

​“Você não vai querer ir para lá”, o Sr. Guia disse de forma séria.

​“É tão ruim assim?”

​O Sr. Guia então deu sequência à explicação:

​“O degrau 20, o seu mundo, é considerado um mundo pobre, escasso em recursos e extremamente monótono, contendo vida somente em seu planeta. As taxas de natalidade, poder, inteligência e evolução também são bem baixas.”

​Christopher não pôde deixar de pensar que o velho desdenhava demais do seu mundo, o que lhe causou um leve desconforto. Ele não considerava sua terra natal tão ruim assim; mesmo tendo enfrentado uma vida difícil em seus momentos finais, tinha orgulho de ter vivido lá com sua mãe e sua irmã.

​O velho prosseguiu:

​“Acima do degrau 20, do degrau 19 ao 11, estão os chamados grandes mundos. Eles têm bastantes recursos e os seres desses lugares tendem a ser muito fortes. Por conta da qualidade desses mundos, os seres que neles habitam adquirem habilidades especiais de acordo com suas capacidades.”

​Ao ouvir as palavras do Sr. Guia, Christopher ficou extremamente animado. Habilidades? Que tipo de habilidades? Sua mente fervilhava em pensamentos.

​“Nesses mundos, as criaturas só são limitadas por seus corpos. Quanto mais forte for o corpo, maior a chance de adquirir uma habilidade — mas elas costumam ser aleatórias, e os seres desses níveis quase não têm controle sobre qual habilidade vão conquistar.” O Sr. Guia fez questão de incluir os alertas, mas acrescentou: “Ainda assim, são mundos muito superiores ao seu. Qualquer habilidade adquirida neles supera em muito qualquer existência do seu mundo ou dos inferiores. Mas, claro, isso só vale para as almas de primeira viagem.”

​“Primeira viagem? Quer dizer as almas que nunca reencarnaram?”, perguntou Christopher.

​“Isso mesmo. As almas que nunca passaram pelo processo de reencarnação são chamadas de almas de primeira viagem.” Aos poucos, ele ia compreendendo a mecânica daquele lugar.

​“Os degraus do número 10 ao 5 são chamados de mundos elevados. Não só são extremamente ricos em recursos, como também em energia — principalmente a mais abundante, chamada Mana.”

​Ao ouvir aquilo, Christopher não conseguiu conter suas perguntas:

​“Mana? Esses mundos têm magia? É igual nos jogos? Nas light novels?” Seria mesmo aquela Mana a mesma de que ele tanto ouvia falar nas histórias?

​“É tipo isso. A mana é como a própria vida nesses mundos; eles podem transformá-la e moldá-la ao seu bel-prazer. A capacidade desses mundos é realmente milagrosa.” O Sr. Guia parecia se animar ao falar dos reinos elevados.

​Enquanto Christopher processava as informações recém-adquiridas, o velho continuou:

​“Degraus 4 e acima são mundos divinos. Acho que não preciso entrar em detalhes.”

​Mundos divinos. O próprio nome já esclarecia tudo: tratava-se de mundos destinados a seres de nível divino. Christopher perguntou-se quantos seres viveriam naqueles patamares.

​Agora que sabia o que esperar dos mundos acima do seu, fazia sentido o Sr. Guia ter dito que, quanto mais subisse, melhor seria. Quem alcançasse os degraus mais altos viveria uma vida excelente.

​E o que dizer dos degraus mais baixos, então?

​“Os degraus abaixo do 20 são chamados de submundos.”

​Christopher recordou-se das histórias de horror que costumava ouvir.

​“Os submundos são áreas de extrema escassez e, por causa da falta de recursos, os mundos conectados estão praticamente em guerra durante todo o seu ciclo de vida.” O Sr. Guia mantinha um olhar desapontado enquanto falava.

​Nos submundos, as guerras eram constantes e quase ninguém tinha paz; diversas raças se confrontavam em busca de recursos e território. Ao ouvir aquilo, Christopher fez uma anotação mental para manter distância desses lugares. Já não bastava sua vida sofrida na Terra; se terminasse em um lugar daqueles, seu tormento seria inimaginável.

​“Bom, agora que você sabe o que esperar dos degraus, já pode se esforçar para subi-los”, disse o velho, já empurrando Christopher suavemente com o cajado.

​“Calma, calma, calma! Eu só preciso subir? Posso escolher o andar que eu quiser?”, perguntou Christopher, ainda sentindo que algo não se encaixava. Ele sentira uma imensa vontade de ir para os mundos com Mana, pois a ideia de praticar magia o deixava eufórico. Mas ainda tinha o desejo de cuidar de sua irmãzinha, então, se pudesse escolher, voltaria para o seu mundo original para encontrá-la.

​Porém, havia um detalhe: se qualquer um pudesse escolher onde reencarnar, por que Christopher nunca ouvira falar de casos assim em seu mundo? Não acreditava que, entre tantas pessoas, ninguém tivesse querido retornar à Terra. Havia uma peça faltando. Foi quando o Sr. Guia explicou:

​“Não é tão fácil quanto parece. Realmente é só subir os degraus, mas cada degrau vai exercer uma pressão intensamente forte sobre a sua alma. O quanto ela aguenta subir depende apenas de você.”

​“O quão forte estamos falando?”, perguntou Christopher, apreensivo.

​“A dor causada na alma é tão intensa quanto a de ser queimado vivo — e isso já nos degraus mais baixos. Só para chegar ao vigésimo degrau, sua alma precisa ser extremamente tenaz e forte. Raramente uma alma de primeira viagem do vigésimo andar consegue subir além dele. A pressão também desgasta a alma: quanto mais dano ela sofre, menos da memória resta. É como se a alma fosse limpa e tudo o que fazia você ser quem é fosse apagado. Por isso poucos se lembram de já ter reencarnado; já é sorte o bastante a alma conseguir reencarnar mantendo um resquício do poder de sua vida passada.”

​Christopher agora entendia a dimensão da dificuldade que enfrentaria.

​“E como se fortalece a alma?”

​O Sr. Guia já demonstrava certo cansaço de tantas perguntas, mas respondeu assim mesmo:

​“Além da força de vontade, você também pode temperar sua alma.” O conceito de temperagem não era desconhecido para Christopher, mas como aquilo poderia ser feito em uma alma? Ele não conseguia imaginar. “Um dos melhores exemplos do seu mundo é a meditação, além do jejum que muitos religiosos e monges fazem… Por conta de suas doutrinas rigorosas de não ceder aos desejos carnais, suas almas tornam-se mais fortes e tolerantes à dor. Almas que suportaram grandes sofrimentos em vida são outra exceção.”

​Enquanto escutava a explicação, Christopher pegou-se lembrando de sua mãe, Samantha. Ela sempre fora uma mulher muito religiosa, e ele nunca entendera como ela conseguira suportar tantas adversidades e continuar cuidando dos filhos sem vacilar. Agora, finalmente compreendia: toda aquela fé e perseverança não apenas demonstravam a força da alma que possuía, como também foram o combustível que nutriu a vida de seus dois filhos.

​Christopher lembrou-se de quantas vezes, mesmo exausta após um dia inteiro de trabalho, sua mãe ainda preparava seu prato favorito ou cuidava de suas roupas com carinho. Lembrou-se das noites em que, mesmo sem dormir, ela lhe contava histórias antes de ele pegar no sono.

​Lembrou-se também dos momentos mais difíceis. No dia em que faltara comida, Samantha deixara de comer para que os dois filhos pudessem se alimentar. Naquela época, as crianças eram inocentes demais para entender… Mesmo quando perguntavam: “Mamãe, onde está o seu prato?”, ela sempre respondia: “A mamãe não está com fome, meus amores.” Recordou-se de uma certa noite, quando era mais novo, em que acordara de madrugada e, ao ir ao banheiro, vira a mãe chorando sozinha no quarto. Naquele momento, mesmo sem compreender a razão, o coração de Christopher doeu.

​“Pensando bem… Sr. Guia? O senhor chegou a conhecer a minha mãe? Ela morreu há um mês”, perguntou Christopher, na esperança de que houvesse uma maneira de reencontrá-la.

​“Sua mãe? Está falando da Samantha? Sim, eu a conheci! Aquela mulher era incrível. A alma dela era tão forte que ela conseguiu subir até o 14° degrau!”

Thoughts

  • LeandroPocas

    Expliquei a escada dos 25 degraus a um amigo e baralhei-me logo nas fronteiras, o 15, o 10, o 5... Ele ficou na mesma.

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  • HoracioMelo

    O Sr. Guia a suspirar antes de cada resposta. Esse homem já explicou os degraus a muita gente, nota-se.

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  • AlmaTavares

    A mãe que dizia não ter fome entrou no meio de uma explicação sobre degraus e mundos, e foi aí que deixei de ler regras. Fiquei com a ideia de que a força da alma dela vinha dessas noites, e que o Christopher só agora o percebe, já morto. Teve de morrer para a entender, e isso deixou-me um aperto calmo.

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