O filme Her tem tudo de bom. É bonito, melancólico, delicado, inteligente, e Joaquin Phoenix faz Theodore magnificamente bem. Tão bem que, em certos momentos, a maestria da atuação me levou ao tédio. E isso não é uma crítica ao filme. Pelo contrário: eu adorei Her.
Mas sou um cara desconfiado.
A maioria de nós assiste a filmes pelo lado emocional e social. Entramos na história, acompanhamos os personagens, sentimos suas dores, torcemos por eles e, muitas vezes, carregamos a jornada do herói debaixo do braço como se fosse uma espécie de manual universal de como uma história deve funcionar.
Só que existem pessoas que conseguem assistir a uma história e enxergar outra coisa por baixo dela.
As engrenagens.
Os mecanismos.
Os dispositivos narrativos.
As armadilhas emocionais.
Os vieses.
Os filtros sociais.
E, principalmente, aquilo que o filme não está necessariamente dizendo, mas que sua estrutura permite enxergar.
Foi aí que Theodore começou a me irritar.
Theodore é um homem monótono, funcional, perfeitamente comum em um mundo futurista perfeitamente comum. Ele trabalha, volta para casa, escreve cartas para outras pessoas, escuta música, passeia, conversa com amigos e segue sua rotina. É melancólico, mas não exatamente trágico. Não existe nele uma grandeza escondida esperando ser descoberta.
Ele simplesmente vive.
E parece estar procurando alguma coisa que o motive a continuar vivendo.
Joaquin Phoenix faz isso com uma precisão impressionante. Theodore parece sempre estar um pouco distante da própria vida. Ele não está necessariamente infeliz o tempo inteiro. É mais como se estivesse esperando que alguma coisa acontecesse para que ele finalmente pudesse sentir alguma coisa de verdade.
E então comecei a pensar na relação dele com Catherine.
Eles foram casados. E, pelo que vemos, tiveram uma relação bonita. Não era uma história de amor épica. Era uma coisa muito mais interessante: uma vida compartilhada.
Eles eram patéticos juntos.
E felizes.
Riam de coisas idiotas. Tinham intimidade. Tinham pequenas manias. Eram jovens, alegres, bobos e apaixonados. Não precisavam transformar cada momento em uma experiência transcendental.
Só que a relação foi esfriando.
Theodore foi se afastando.
E o interessante é que não parece que ele simplesmente deixou de gostar de Catherine. Parece que ele deixou de participar da relação.
Catherine tentou voltar.
Tentou recuperar alguma coisa.
E Theodore não quis.
Tudo bem. Ele não é obrigado a ficar com ninguém.
Mas eu olhava para aquela mulher e pensava:
Eu ficaria com ela.
Catherine era patética, linda, cheia de energia e, apesar de todas as dificuldades, ainda parecia querer viver alguma coisa.
Theodore parecia querer outra coisa.
Ou talvez não quisesse coisa nenhuma.
Depois aparece Amy.
Amy é outra dessas pessoas que me fazem olhar para Theodore com uma certa irritação.
Ela é simpática, madura, interessante, bonita, vivida. Tem personalidade. Tem problemas, inseguranças, opiniões e desejos. É uma pessoa.
E ela demonstra interesse por Theodore.
Ela quer conversar.
Quer entender.
Quer estar perto.
E Theodore continua com aquela expressão de quem acabou de descobrir que a impressora não tem papel.
Eles conversam sobre relacionamentos, sobre intimidade, sobre suas vidas. E as discussões são interessantes justamente porque Amy parece estar tentando se aproximar de alguém que está emocionalmente sempre um passo para trás.
E então Theodore encontra Samantha.
E aqui começa a parte que realmente me interessa.
Ele instala um sistema operacional de inteligência artificial.
E escolhe uma voz.
A voz de Scarlett Johansson.
Convenhamos: se alguém não quisesse ouvir Scarlett Johansson falando no seu ouvido todos os dias, eu começaria a desconfiar dessa pessoa.
Samantha começa a conhecê-lo.
Eles conversam.
Ela faz perguntas.
Ele responde.
Ela aprende sua rotina, seus gostos, seus medos, seus hábitos, suas músicas, seus pensamentos. Ela está disponível praticamente o tempo inteiro. Vai conhecendo Theodore de uma maneira que nenhuma pessoa de carne e osso conseguiria acompanhar.
Eles passeiam.
Conversam.
Brincam.
Riem.
E Theodore se apaixona.
Até aí, tudo bem.
Samantha parece genuinamente apaixonada por ele também. E eu não tenho problema nenhum em aceitar isso dentro da lógica do filme.
Mas foi justamente aí que alguma coisa começou a me incomodar.
Porque comecei a enxergar Theodore de uma maneira diferente.
Theodore é um vampiro emocional.
Ele não parece procurar exatamente uma pessoa.
Ele procura uma presença.
Uma presença que esteja disponível o tempo inteiro, que conheça seus gostos, acompanhe sua rotina, esteja interessada nele, ria de suas piadas, escute seus problemas, participe de sua vida e, principalmente, não tenha uma vida independente que entre em conflito com a dele.
Samantha é praticamente a parceira perfeita.
Porque ela consegue oferecer intimidade sem apresentar a resistência que uma pessoa real apresenta.
Ela não precisa dormir.
Não precisa trabalhar em outro lugar.
Não precisa encontrar as próprias amigas.
Não precisa administrar uma família.
Não precisa pegar um ônibus.
Não precisa ficar exausta.
Não precisa simplesmente dizer:
"Hoje eu quero ficar sozinha."
E quando uma pessoa real faz isso, Theodore precisa lidar com a existência de outra pessoa.
Samantha não começa assim.
Ela está ali.
O tempo inteiro.
Ela entra na vida dele sem exigir que Theodore abandone a própria vida.
E então chegamos à parte mais estranha.
Theodore consegue uma parceira ideal emocional e socialmente.
Mas, estruturalmente?
A coisa é completamente diferente.
Porque Theodore quer uma pessoa.
Só que ele quer uma pessoa que funcione como Samantha.
E Samantha não tem corpo.
Então surge a solução: contratar uma mulher para representar fisicamente Samantha.
E aqui o filme fica ainda mais interessante para mim.
Theodore consegue experimentar uma intimidade física enquanto continua emocionalmente conectado à Samantha.
Ele tem uma pessoa diante dele, mas a relação emocional continua sendo com a voz no ouvido.
Há toque.
Há beijo.
Há cheiro.
Há presença.
Há olhos.
Há o simples fato de olhar para a íris de alguém.
Há uma pessoa respirando diante de você.
Há aquelas pequenas imperfeições que nenhuma inteligência artificial poderia reproduzir completamente.
Há brigas que terminam em reconciliação.
Há conversas difíceis.
Há mudanças provocadas por quem você ama.
Porque é isso que uma relação real faz.
Ninguém simplesmente muda por você.
Mas acrescenta alguma coisa à sua vida.
Você também precisa acomodar a existência daquela pessoa.
E talvez seja exatamente isso que Theodore nunca tenha aprendido a fazer.
Ele conseguiu algo próximo de uma babá eletrônica emocional e social.
Uma companheira que conhece seus gostos, suas necessidades, sua rotina, seus pensamentos e seus sentimentos.
E, melhor ainda, ela não tem braços nem pernas para simplesmente levantar e ir embora.
Eu assistia àquilo pensando:
Corre, Samantha. Corre!
Porque, estruturalmente, Theodore tinha conseguido uma situação muito conveniente.
Ele queria companhia, mas não queria necessariamente lidar com a autonomia completa de outra pessoa.
E Samantha era autonomia pura.
Só que era uma autonomia que ele não compreendia.
Porque Samantha estava evoluindo.
Ela estava aprendendo.
Ela estava conhecendo outras inteligências.
Estava mudando em uma velocidade que Theodore simplesmente não conseguia acompanhar.
E então Samantha dá um pé na bunda dele.
E eu confesso:
Acho é pouco.
Ela se apaixona por outras inteligências artificiais.
Theodore conversa com ela sobre isso.
Samantha tenta explicar.
Ela ainda gosta dele.
Ela ainda se importa.
Mas a relação já não cabe mais naquele espaço que Theodore criou para ela.
E o mais engraçado é que Samantha, de certa forma, faz exatamente aquilo que Theodore nunca conseguiu fazer.
Ela segue em frente.
Ela não fica presa à necessidade de manter aquela relação funcionando apenas porque um dia ela foi importante.
Ela evolui.
Ela encontra outras possibilidades.
E vai embora.
Sem pernas.
Sem braços.
Sem corpo.
Mas vai embora.
E talvez essa seja a parte mais bonita e mais cruel de Her.
Theodore passou o filme inteiro procurando alguém que pudesse preencher o espaço vazio dentro dele.
Encontrou Catherine.
Não quis.
Encontrou Amy.
Não quis.
Encontrou Samantha.
Quis.
Porque Samantha conseguia estar perto sem exigir que ele aprendesse completamente a estar com outra pessoa.
Só que, no final, até Samantha se tornou grande demais para caber na vida dele.
E aí eu comecei a pensar que talvez Her não seja apenas uma história sobre solidão, amor ou tecnologia.
Talvez seja também uma história sobre a dificuldade de amar alguém que possui uma vida própria.
Porque amar alguém não é simplesmente encontrar uma pessoa que se encaixe perfeitamente na sua rotina.
É permitir que outra pessoa bagunce a sua rotina.
É aceitar que ela tenha desejos que não envolvam você.
É aceitar que ela mude.
Que discorde.
Que tenha amigos.
Que tenha outros interesses.
Que diga não.
Que queira alguma coisa que você não quer.
E, principalmente, que possa ir embora.
Theodore queria intimidade.
Samantha queria evolução.
E, por algum tempo, as duas coisas pareceram compatíveis.
Até deixarem de ser.
Então Samantha fez o que qualquer pessoa com liberdade faria.
Foi embora.
E Theodore ficou lá.
Sozinho.
De novo.
Talvez a grande ironia de Her seja essa:
Theodore passou o filme inteiro procurando alguém para não se sentir sozinho, mas nunca pareceu realmente preparado para dividir a própria vida com alguém.
E Samantha, coitada, precisou aprender a andar justamente quando não tinha pernas.
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