Isso depende do que você quer.
Se você quer seguir exatamente o que uma editora procura, ser moldado por aquilo que o mercado espera, siga as regras, os manuais e as estruturas que já demonstraram funcionar. Jornada do herói, estruturas narrativas conhecidas, fórmulas, gêneros reconhecíveis. Tudo isso pode ser útil.
Mas existe uma diferença entre aprender uma ferramenta e ser governado por ela.
Se você quer construir seu próprio estilo, permita-se escrever de maneira independente, sem tentar impressionar ninguém. A perfeição ninguém alcança. No fim, talvez a única pessoa que você realmente precise impressionar seja você mesmo.
O problema é que muita gente tem medo de escrever porque aprendeu primeiro a ter medo de errar.
Antes mesmo de descobrir o que quer dizer, já está pensando:
“Será que isso está certo?”
“Será que essa estrutura funciona?”
“Será que um escritor de verdade escreveria assim?”
“Será que um professor vai gostar?”
“Será que um crítico vai achar ruim?”
“Será que uma editora publicaria?”
E, quando percebe, a pessoa não está mais escrevendo.
Está tentando antecipar o julgamento de alguém.
Ela começa a escrever olhando por cima do próprio ombro.
É difícil criar alguma coisa quando você está o tempo inteiro imaginando alguém dizendo que está errado.
Existe um viés literário sobre como escrever. Existem técnicas, estruturas, ritmo, construção de personagens, ponto de vista, diálogos e inúmeras ferramentas que podem melhorar uma obra. Cursos podem ensinar tudo isso e podem ser um ótimo começo.
Mas uma ferramenta não deveria se transformar em uma prisão.
Eu nunca fiz curso porque, quando começava a escrever, pessoas próximas, principalmente pessoas ligadas ao meio acadêmico, diziam que eu não deveria escrever daquela maneira. Que precisava seguir determinadas regras.
E existe uma ironia nisso.
Você pode aprender perfeitamente como escrever um livro e ainda assim escrever um livro esquecível.
Porque escrever corretamente não é necessariamente escrever algo que tenha alguma coisa para dizer.
É como seguir uma estrada até um destino.
Você quer percorrer determinada estrada. Então alguém considerado especialista diz que aquele caminho é ruim e que você deveria pegar outro. Talvez ele esteja certo. Talvez aquele caminho realmente seja pior.
Mas existe uma coisa que ele não pode fazer por você:
percorrê-lo.
Você precisa descobrir o que existe naquela estrada.
Talvez existam buracos.
Talvez existam obstáculos.
Talvez você se perca.
Talvez descubra uma paisagem que ninguém havia descrito.
Talvez perceba que aquela estrada não leva ao lugar que imaginava.
Mas você só descobre isso andando.
Se alguém lhe disser constantemente qual estrada deve pegar, você pode acabar conhecendo perfeitamente os mapas e nunca conhecer o caminho.
E talvez seja isso que faça tantas pessoas terem medo de escrever.
Elas acreditam que precisam estar prontas antes de começar.
Precisam conhecer todas as regras.
Precisam dominar a estrutura.
Precisam saber escrever diálogos.
Precisam conhecer literatura.
Precisam ter uma ideia extraordinária.
Precisam saber se alguém vai gostar.
Precisam escrever como alguém que já publicou.
Mas ninguém começa sabendo.
O primeiro texto de alguém não deveria carregar a obrigação de parecer o último.
Permita-se escrever mal.
Permita-se escrever estranho.
Permita-se exagerar.
Permita-se quebrar uma estrutura.
Permita-se escrever uma cena que talvez ninguém entenda.
Permita-se descobrir que uma ideia não funciona.
Porque até o erro pertence ao processo.
Se você tentar eliminar todos os erros antes de escrever, talvez elimine também aquilo que poderia ter se tornado seu estilo.
Meus próprios erros fazem parte daquilo que reconheço como meu.
Às vezes, aquilo que alguém chamaria de erro é justamente aquilo que dá personalidade à obra.
O problema não é aprender.
O problema é acreditar que, depois de aprender as regras, você não pode mais desobedecê-las.
A crítica especializada também pode ajudar. Mas crítica é uma interpretação, não uma sentença divina. Um crítico possui repertório, referências, preferências e limitações. Muitas vezes, quando algo não se encaixa naquilo que ele conhece, a primeira reação é tentar classificá-lo.
E aquilo que não consegue classificar pode ser tratado como defeito.
Por isso, existe uma diferença enorme entre:
“isso não funciona”
e
“isso não funciona dentro daquilo que eu conheço”.
São coisas completamente diferentes.
Você não precisa ignorar quem entende.
Mas também não precisa entregar a essas pessoas o volante da sua criação.
Porque, no final, escrever é uma forma de comunicação.
E comunicação não é apenas:
“como eu escrevo”.
É:
K0M0 0 0UTR0 3NT3ND3!
Você pode escrever da maneira mais correta possível e não dizer absolutamente nada para alguém.
Pode escrever de maneira estranha e fazer alguém parar, pensar, sentir ou questionar alguma coisa.
A linguagem pode mudar.
A forma pode mudar.
A estrutura pode mudar.
Mas existe uma pergunta que permanece:
aquilo que você quis dizer chegou ao outro?
É aí que a escrita deixa de ser apenas técnica.
E começa a ser comunicação.
Então escreva.
Depois aprenda.
Depois reescreva.
Depois critique seu próprio texto.
Depois escute os outros.
Mas não deixe que o medo de fazer errado impeça você de descobrir como escrever certo para você.
Porque talvez seu estilo esteja justamente naquele lugar que alguém tentou corrigir.
E talvez aquilo que você chama de erro hoje seja exatamente aquilo que, amanhã, alguém reconhecerá como seu.
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