Minha mãe era empregada doméstica. Chegava do trabalho e ainda arrumava a casa, cuidava dos filhos. Quando eu era criança, era muito curioso, e ela tinha paciência comigo.
Lembro de uma vez em que ela estava passando roupa. Pegou um livro que havia comprado, mesmo sabendo que não sabia ler. Era um daqueles livros de capa verde, com dicionário e regras gramaticais. Depois pegou um livro menor e me mostrou um texto. Ela não sabia ler aquilo, nem sabia o significado. Disse para eu começar no início do parágrafo e ir até o final.
Era muita coisa para uma criança de sete anos.
Naquele instante, no fundo, eu sabia que minha mãe não sabia o que estava escrito. Mas ela era minha mãe. Então eu fiz.
Quando minha mãe trabalhava na casa dos patrões, eles jogavam fora as revistas Veja, Turma da Mônica, Disney, livros velhos, enciclopédias, clássicos da literatura mundial, literatura brasileira, coleções completas de Monteiro Lobato, coleções da Folha com aqueles encartes enormes, brinquedos velhos, roupas...
Sinceramente, eu adorava aquilo.
Minha mãe me dava aquelas coisas sem saber ler. Ela sabia que eu absorvia tudo aquilo. E eu sabia que minha mãe não sabia ler.
Uma vez, ainda criança, li um livro que me chamou muito a atenção: O Corcunda de Notre-Dame. Eu não gostava tanto do livro. Gostava mais do bispo. Assim como, em Fausto, sempre gostei mais de Mefistófeles do que de Fausto.
Talvez porque eles não mentissem. Eu não enxergava neles a maldade como algo separado da realidade. Eles simplesmente não escondiam aquilo que eram.
No Corcunda de Notre-Dame, havia um trecho em que o bispo falava que a imprensa faria o livro ser jogado no lixo, que o conhecimento seria desvalorizado. Ele era contra a imprensa.
Aquilo ficou marcado em mim de uma maneira quase profética.
Anos mais tarde, entendi o porquê.
Eu conheci Victor Hugo no lixo dos patrões da minha mãe.
Foi assim que conheci Victor Hugo.
Eu tinha um quarto cheio de livros. Uma estante lotada de clássicos. Eu me formei e fui trabalhar em São Paulo. Quando saí de casa, minha mãe doou tudo.
Sem dó.
Naquele instante, senti ódio.
Mas o ódio durou poucos segundos.
Porque minha mãe, analfabeta, acabou me ensinando algo que nenhum letrado poderia ter me ensinado: o conhecimento não nasceu para ficar preso como pássaro em gaiola.
Ela me ensinou que conhecimento não é aquilo que você guarda.
É aquilo que você carrega.
Hoje não tenho uma estante cheia de livros. Não detenho o conhecimento como enfeite. Não tiro fotografias ao lado de estantes para provar que li ou que sei.
Quando vejo alguém diante de uma estante cheia de livros, conheço aquela realidade.
Às vezes não passa de uma traça do tamanho de um humano, colecionando e detendo conhecimento com o tédio de quem possui algo que as próprias traças comem e cagam.
Minha mãe não sabia ler.
Mas ela sabia que aqueles livros precisavam chegar até mim.
E talvez essa tenha sido a maior lição que ela me deu.
Eu não precisei conservar os livros para conservar aquilo que eles me deram.
E foi assim que conheci Victor Hugo.