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A Stroggonifficação do Empreendedor

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Aolongo da minha trajetória, tive a oportunidade de dialogar com empreendedores de diferentes idades e condições financeiras. Essas conversas revelaram não apenas as particularidades individuais de cada experiência, mas, sobretudo, as distintas formas de compreender os desafios do empreendedorismo. O ato de empreender, embora geralmente associado a uma ideologia pragmática — sintetizada na máxima “faça primeiro e questione depois” — , envolve também uma relação complexa com a noção de tempo, categoria central para a análise da mentalidade empreendedora.

A Juventude e a Pressa do Lucro

O jovem empreendedor contemporâneo vive em um contexto marcado pela fluidez do que Zygmunt Bauman denominou “tempos líquidos”. Inserido nessa lógica, tende a valorizar resultados imediatos, buscando retornos rápidos sem a devida consideração sobre as consequências. Em comparação com gerações passadas, pode ser considerado mais eficiente, mas essa eficiência cobra um preço elevado: a superficialidade das escolhas.

A multiplicidade de opções disponíveis — seja no consumo de bens materiais como automóveis, imóveis e viagens, seja nas experiências de lazer, saúde e bem-estar — molda uma mentalidade voltada para a facilidade. Esse cenário contrasta fortemente com o passado, quando o acesso a tais escolhas era restrito e a sobrevivência exigia, sobretudo, trabalho contínuo e dedicação quase exclusiva à subsistência. Assim, não se trata de classificar a geração atual como “nutella”, mas de reconhecer que ela dispõe de um leque mais amplo de possibilidades, o que inevitavelmente reconfigura suas prioridades.

“A coisificação da coisa coisificada pelo coisificante da coisomologia coisológica.” Nada A Ver

O Disfarce das Palavras Modernas

Outro aspecto notável é a linguagem que permeia o universo do empreendedorismo. Termos como “meritocracia”, “gestão”, “compliance” e “motivação” se apresentam como conceitos inovadores e sofisticados. No entanto, em muitos casos, não passam de roupagens modernas para antigas práticas de exploração: a intensificação do trabalho, a competitividade predatória e a extensão das jornadas sem a devida contrapartida. Trata-se, em grande medida, de uma retórica que suaviza a dureza de uma realidade ainda marcada pela desigualdade estrutural.

A Ideologia da Exploração e a Herança Histórica

No Brasil, observa-se que parte dos jovens empreendedores não se alinha a correntes filosóficas como o randismo — sintetizado na obra A Virtude do Egoísmo, de Ayn Rand — , que defende a liberdade individual como motor do progresso. Ao contrário, muitos reproduzem uma mentalidade de caráter exploratório, reminiscente do modelo econômico português entre os séculos XIV e XIX.

Nesse período, Portugal tornou-se a primeira potência globalizada, mas o fez a partir da extração intensiva e do aproveitamento imediato dos recursos, sem preocupação com desenvolvimento sustentável ou planejamento de longo prazo. Essa lógica de “extrair o máximo no menor tempo possível” marcou profundamente as colônias, incluindo o Brasil, que viveu um hiato de desenvolvimento entre os séculos XV e XVIII.

Ao resgatar essa herança, pode-se argumentar que parte do empreendedorismo brasileiro contemporâneo reproduz inconscientemente esse paradigma histórico: a busca incessante pelo ganho rápido, mesmo que isso implique fragilizar as bases de um crescimento sólido e duradouro.

Considerações Finais

O empreendedorismo, em qualquer época, reflete não apenas uma prática econômica, mas uma mentalidade cultural. Se, por um lado, a juventude atual dispõe de ferramentas, tecnologias e possibilidades que permitem maior inovação, por outro, corre o risco de reproduzir padrões antigos de exploração e imediatismo. A questão central que se coloca é se conseguiremos superar essa herança histórica e adotar uma concepção de tempo que vá além da pressa do lucro, permitindo a construção de um empreendedorismo verdadeiramente transformador e sustentável.

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