Eu estava viajando para o interior do estado com uma amiga que mantinha uma pequena ONG pessoal para cuidar de gatos de rua.
Ela vinha de uma família bem de vida da região. Era advogada e tinha seu próprio escritório na cidade. Mas havia reservado uma parte da vida para os gatos.
Passeando com ela, fui conhecer sua casa.
Era uma construção centenária, de pé-direito muito alto, quase como uma igreja. Bonita sem ser ostentosa. Poucos móveis, quase todos de madeira. Havia um rádio antigo, enorme, que parecia uma estante. Sobre alguns móveis, bordados de avó. Tudo tinha aquele charme de uma casa que parecia ter sobrevivido ao tempo sem precisar se explicar.
E havia os gatos.
Cada um tinha um nome mais engraçado que o outro.
Bechanitta era uma gata parda.
Katherine Preta Jones era uma gata pretinha.
Havia Zidane, porque era meio atirado — ou “piranho”, como diziam por ali. Vivia dando cabeçadas nas pernas das pessoas, procurando carinho.
Havia outros também. Alguns praticamente moravam na rua. Ela não tentava prendê-los. Dava comida, remédios, cama e cuidava deles quando precisavam.
Do lado de fora, as árvores eram enormes. Em uma delas, um flamboyant vermelho parecia ocupar metade do céu. Havia até tucanos pousados nos galhos.
Katherine Preta Jones, porém, estava mais interessada em outra coisa.
Avançou em direção a um saqui, um macaquinho serelepe que passava pela árvore.
Minha amiga gritou:
— Não, Preta!
O gato parou.
Ou fingiu que parou.
Foi então que chegou uma amiga antiga dela. As duas tinham estudado juntas muitos anos antes. Conhecidas de longa data, embora a amizade parecesse ter ficado mais na lembrança do que na convivência.
Ela olhou para os gatos.
— Cuidando de gatos agora?
— Sim, estou.
— Eles estão bem?
— Com certeza.
Fez uma pausa.
— E o que você anda fazendo?
Minha amiga respondeu:
— Nada.
A mulher olhou para ela. Depois para mim.
E saiu como entrou.
Sem dizer sequer oi.
Fiquei olhando.
— Quem é ela?
— Uma conhecida de muito tempo.
— Nossa...
Ela me olhou como se eu tivesse percebido alguma coisa que ela preferia não comentar.
— Que foi?
Olhei para a casa branca, para a grande janela de madeira azul e para Bechanitta, que acabava de pular no parapeito e ficava ali, cheirando minha amiga.
— Ela perguntou o que você faz. Perguntou se os gatos estão bem. Mas não perguntou se você está bem.
Parei um instante.
— Nem se você está feliz.
Aquilo me incomodou.
Acho que também incomodou minha amiga.
Mas ela não respondeu.
Talvez porque não precisasse.
Ela estava cercada de gatos. Tinha uma casa antiga, árvores enormes, tucanos no flamboyant e uma vida que, de algum modo, parecia ter encontrado seu próprio sentido.
Pouco depois, um dos gatos apareceu carregando alguma coisa na boca.
Minha amiga olhou.
Era uma barata viva.
O gato deixou o presente aos pés dela.
Ela sorriu.
— Olha só. Ele trouxe um presentinho.
E pegou a barata para tirar dali.
Talvez fosse isso que aquela mulher não tivesse conseguido perguntar.
Não se minha amiga estava fazendo alguma coisa importante.
Não se tinha prosperado.
Não se tinha vencido.
Mas se estava feliz.
Porque, naquele momento, estava.