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O preço de uma segunda chance parte 8 - Dores

FJS

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“Aaaaahhhhhhh! Por favor, por favor, me perdoe!”

“Aaaaaahhhhhhgggg!”

“Eu não aguento… Me perdoe! Eu fui um completo idiota… Eu… eu… AAAAAAAHHHHHHH! Alguém me ajuda, por favor!!!!!!”

Os gritos de Tyrone ecoavam no silêncio das vielas.

Christopher pisava sobre o corpo dele: começou pelos pés, subiu até os joelhos e, em seguida, atingiu as coxas. Ele se deleitava com os urros e com a força avassaladora que exibia naquele momento; ver aquele traste sofrendo trazia um gosto muito doce à sua boca. Cada golpe, além de esmagar Tyrone, abria grandes fissuras no chão de concreto. Quanta força magnífica!

“VAMOS, GRITA MAIS! EU QUERO OUVIR VOCÊ GRITAR!” Tanto os olhos quanto o sorriso de Christopher refletiam uma completa loucura.

Devido à dor extrema, o corpo de Tyrone começou a entrar em choque. Naquele instante, Christopher entrou em desespero:

“NÃO! NÃO! NÃO! VOCÊ NÃO VAI MORRER AGORA! EU VOU TE FAZER SOFRER POR TUDO O QUE FEZ À MINHA IRMÃ! TUDO! SEU…”

“Alerta: Seu tempo acabou. Entrando em estado superenfraquecido…”

“O quê? Já acabou?”

O corpo de Christopher ficou pesado e a visão, turva. Ele sentiu tudo ao redor girar, acompanhado por uma dor alucinante em cada músculo.

“Aí…” Christopher caiu no chão, bem ao lado de Tyrone. “Voc… não… vai… escap…”

Ele só conseguia enxergar a imagem borrada de Tyrone à sua frente, o suficiente para ver que o corpo do sujeito tremia sem parar. Então, Christopher apagou…

…

“HOJE NO JORNAL DA CIDADE DE DRIZZLER!

POSSÍVEL CONFRONTO NA ENTRADA DA VIELA NORTE RESULTA EM MORTE:

Foram encontrados três corpos na manhã de hoje — dois próximos à entrada da viela norte e um no interior de uma residência das imediações. Os três foram identificados como membros de uma quadrilha de traficantes. A causa exata das mortes ainda não foi confirmada, mas especialistas acreditam na participação de uma facção rival no confronto iniciado dentro do imóvel.

Seguiremos com mais informações após a previsão do tempo!”

Enquanto a notícia passava na TV, Christopher estava deitado em um colchonete, coberto por um lençol azul. Aos poucos, abriu os olhos.

“Onde… onde eu estou?”

Ele não conseguia mexer a cabeça. Enxergava o teto e, pelo canto do olho, percebeu que estava em uma sala.

“Como vim parar aqui? Tem uma televisão, mas não consigo entender nada… Minha cabeça dói demais e não consigo mover um músculo.”

“Isso se parece muito com o quarto de uma garota. Quem me trouxe para cá? E por que estou no chão? Espera, tem alguém chegando.”

Enquanto refletia, ouviu o barulho da porta se abrindo.

“É realmente uma garota…”

A jovem que acabara de entrar devia ter cerca de 19 anos. Poderia ser descrita, no máximo, como uma garota simples: traços comuns, daqueles que passam despercebidos na multidão. Tinha um olhar cansado, corpo magro e pele pálida; o cabelo preto preso em um coque desajeitado era a única coisa arrumada nela.

“Droga… Cara, quanto trabalho! Qual é o meu problema? Por que fui inventar de trazer esse moleque para cá? Tô muito ferrada, já saiu até no jornal… Vou ser presa com certeza! Como é que vou explicar isso?”

A garota demonstrava grande nervosismo, tanto que nem percebera que ele já despertara.

“Ahem… ahem…” Christopher pigarreou para chamar a atenção.

“O quê? Hum? Ah, você acordou…”

O nervosismo dela pareceu dissipar-se de repente. Aproximou-se dele e perguntou:

“Você… consegue falar?”

Silêncio.

“Mas consegue fazer barulho, né? Eu ouvi agora há pouco.”

“Hum.”

“Já é um começo. Meu nome é Mari. Eu te trouxe para cá quando te vi jogado no chão… E eu vi tudo o que aconteceu.”

Mari encarava Christopher com atenção. Ela assistira a toda a cena: vira como ele lidara com os criminosos e, em vez de horrorizada, ficara eufórica. Ele seria algum tipo de herói de quadrinhos? Naquela noite, Mari se remoera de raiva por não ter levado o celular para gravar a cena. Quando viu Christopher desmaiar, teve a ideia de levá-lo para casa. Na cabeça dela, ninguém acreditaria se dissesse que vira um “super-homem” esmagar dois traficantes; ririam ou a chamariam de louca. Mas, se o herói ficasse devendo um favor a ela… “Hehehe, eu vou ficar rica!”

Mari olhava para Christopher como se ele fosse um saco de dinheiro jogado no piso do quarto; seus olhos pareciam dois grandes cifrões dourados.

“O que aconteceu com você, afinal? Você estava tão forte naquela hora e depois ficou paralisado?” Mari cutucou as costelas dele.

“HUMMMM!!!!”

Christopher fez a pior careta possível. A dor daquela cutucada foi como se tivessem cravado uma lâmina em seu flanco.

“Desgraçaaaaa!!!”

Ele não conseguia falar, mas o olhar em chamas deixava bem evidente o que estava pensando.

“Desculpa, desculpa! Não faço mais!” Mari se retratou. “Sera que foi por causa daquela força toda? O seu corpo não aguenta? Que poder de merda você arrumou, hein?” Ela o encarou de forma engraçada.

“Qual é o problema dessa garota?”, pensou Christopher.

“Bom, você vai ficar um tempo aqui até melhorar para a gente poder conversar.” Mari estava saindo quando se lembrou de algo: “Ah, eu trouxe o corpo da sua irmã também. Achei que você pudesse fazer alguma coisa, já que tem poderes… Você pode vê-la quando melhorar.”

E saiu.

Christopher fitou o teto e uma lágrima escorreu pelo canto do seu rosto. Não importava o que tivesse acontecido, ele não podia mudar a realidade: sua irmã já havia partido para outra vida, e muito antes dele. Conseguira um momento de força, mas não poderia trazer Katrina de volta.

“Seu fraco…”

Com o passar dos dias, Christopher foi apresentando melhorias. No segundo dia, ainda não falava, mas sua expressão estava menos sofrida — até o momento em que Mari tentou dar um banho nele.

“HUMMMM!”

A dor de ser movimentado ainda era insuportável, sem contar o constrangimento.

“Vamos, eu sei que dói, mas você não quer pegar uma doença, quer? Vamos lavar esse dragão… Hehe, é grandinho! E as esferas do dragão também.” Mari estava se aproveitando da situação; afinal, não era todo dia que um “herói” enfraquecido aparecia em sua porta.

“Essa mulher é maluca!”

“Vou te virar um pouco, tá? Vamos lavar a toca do dragão.”

“NÃOOOOOO!!!!!”

Christopher usou todas as forças para gritar, mas o esforço o fez desmaiar novamente. E Mari o lavou por completo.

Ao acordar, sentiu que já conseguia articular algumas palavras. Mover-se ainda era outra história: o corpo inteiro doía e, pelas suas contas, ainda restavam quatro dias para se recuperar do estado superenfraquecido.

Pelo menos havia uma TV para passar o tempo, e Mari aparecia regularmente para checar seu estado.

“Oi, garanhão! Como está se sentindo?”, perguntou Mari, com um sorriso.

“Dá para não me chamar assim, por favor? Meu nome é Christopher…”

“Oh, você já consegue falar! Isso é muito bom!” O sorriso dela alargou-se ainda mais. “Então, Christopher, me conta: o que você é? Tomou algum remédio esquisito? Veio em uma cápsula de outro planeta? Já sei… radiação! Foi radiação, né? Você é radioativo? Merda!”

Mari começou a entrar em pânico de novo.

“Eu não sou nada disso. Sou um humano normal.”

“A última coisa que você é, é normal… Ninguém chuta alguém contra a parede e derruba a estrutura inteira.” Mari o encarava com desconfiança.

Christopher não se deu ao trabalho de responder.

“Por que me trouxe para cá?”

“Você ainda pergunta? Você é um ‘super’, né? E eu te salvei, agora você me deve. Se eu tivesse te deixado lá, com certeza estariam te dissecando em algum laboratório agora para te estudar”, Mari disse, em tom sério.

Por um momento, Christopher achou a imaginação de Mari fértil demais, mas admitiu que fazia algum sentido; sentiu até um arrepio na espinha só de pensar na hipótese de virar cobaia.

“Olha, eu não sei o que você quer de mim, mas eu não tenho nada… Nem um tostão sequer.”

Mari ficou um pouco emburrada, mas manteve-se animada: poderia obter dinheiro de outras formas com o “super”.

“Me fala: por que aqueles caras fizeram aquilo com vocês? Eles estavam atrás dos seus poderes?”, perguntou. Era muito provável que sim, mas ela queria sanar a dúvida.

“Não. Eu meio que me envolvi com quem não devia, e pelo visto essa pessoa tentou se livrar de mim o mais rápido possível…” A imagem de Pietra surgiu na mente de Christopher. Assim que se recuperasse, cobraria essa dívida.

“Que coisa… Então essa pessoa mandou aqueles caras te matarem? Foi isso? Mas por que fazer aquilo com a menina? Aliás, ela é sua irmã, certo? Eu já vi vocês dois na rua algumas vezes.” Mari fazia várias perguntas em sequência, fazendo a cabeça dele doer.

“Pelo que entendi, era para eu ter morrido antes que aqueles caras me encontrassem, para não acabar entregando quem contratou o serviço. E sobre a garota… Sim, é minha irmã. Aquele monstro já vinha nos incomodando há algum tempo… Ela não tinha nada a ver com isso.” A tristeza na voz de Christopher era evidente: ele perdera tudo — sua mãe, sua irmã e praticamente a própria vida.

“Realmente, um monstro. Eu vi o que ele fez… Tem gente muito ruim neste mundo, por isso eu quase não saio de casa”, comentou Mari.

“Você… você viu? Viu tudo?”

“Vi.”

“E por que não fez nada?”

“Tipo o quê? Ir lá encarar aqueles caras? Olha para mim! Eu seria só mais uma vítima.”

“Podia ter ligado para a polícia!”

“Você já viu a polícia por aqui alguma vez que não fosse para recolher propina? Não, né? Foi o que pensei”, debochou Mari, olhando para a indignação dele. “Quem devia estar protegendo ela era você, né, Senhor Super? Por que deixou sua irmãzinha sozinha sabendo do perigo? E ainda quer cobrar alguém pelo seu fracasso? Você já viu como todo mundo fica com medo nestas vielas… Ninguém aqui tem poderes como você.”

“EU NÃO ERA FORTE!”

“O quê? Então de onde veio essa força?”, questionou ela, analisando-o com calma.

“Eu a descobri recentemente”, Christopher respondeu. Não mentiu, mas também não revelou toda a verdade. Não conhecia Mari, mas não adiantava esconder tudo; ela já vira demais.

“Entendi… E você consegue fazer alguma coisa a respeito da sua irmã? Consegue reviver ela?”

“Não…”

“Isso é ruim. Daqui a pouco vai começar a cheirar mal.”

“Será que dá para não falar assim?!”

“Que seja. Melhora logo para me ajudar a enterrar o corpo. Eu tenho um quintal pequeno lá atrás”, disse Mari, enquanto caminhava em direção à saída.

“Essa mulher tem um parafuso a menos…”, pensou ele

Thoughts

  • Raimundinha

    Pense numa moça que leva o corpo da Katrina pra casa e já quer ajuda pra enterrar no quintal! Não confio nem um tiquinho na Mari.

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  • Laudelina

    O jornal pôr tudo na conta de uma facção rival foi sorte grande pro Christopher, e a Mari sabe disso melhor que ele. Desconfio que ela vai usar o que viu na viela pra segurar o rapaz ali bem mais que quatro dias.

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