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Blackwood- capítulo 1

Lord_Gins

Conteúdo da publicação

BLACKWOOD
Capítulo 1 — A Terra
A estrada de terra parecia não terminar.
Felipe mantinha as duas mãos no volante
enquanto a caminhonete avançava devagar
entre campos que começavam a perder o verde
com a aproximação do outono. De vez em
quando, uma rajada de vento levantava uma
pequena nuvem de poeira atrás do veículo.
Ele olhou novamente para o papel dobrado

sobre o banco do passageiro.
Blackwood.
O nome estava escrito no topo dos documentos
que recebera semanas antes, acompanhado de
mapas, registros de propriedade e uma
quantidade de números que ainda pareciam
pertencer à vida de outra pessoa.
Agora eram dele.
Felipe reduziu a velocidade ao passar por uma
pequena elevação.
Foi então que viu.
A cerca.
Era antiga, irregular em alguns pontos e
claramente precisava de reparos, mas ainda
acompanhava a extensão da propriedade como
uma linha quase interminável.
Atrás dela havia pastagens, árvores espalhadas,
uma pequena área de mata e, mais distante, a
silhueta de construções antigas.
Felipe tirou o pé do acelerador.

— Então é você.
A caminhonete avançou mais alguns metros.
À esquerda, uma placa de madeira aparecia
parcialmente escondida pelo mato.
BLACKWOOD FARM
A pintura estava desbotada.
Felipe sorriu sozinho.
— Vamos ver o que compramos.
Ele continuou.
A primeira impressão da casa principal foi
diferente da que aparecia nas fotografias.
Nas imagens, a propriedade parecia apenas
antiga.
Ao vivo, parecia cansada.
A casa ficava no alto de uma pequena elevação,
cercada por árvores que haviam crescido sem
muito controle durante anos. Era uma
construção grande, de madeira e pedra, com
uma varanda frontal comprida e janelas altas.
O telhado precisava de atenção.

Algumas tábuas externas estavam gastas.
A pintura tinha perdido boa parte da cor.
Mas havia algo naquela casa que Felipe não
conseguia ignorar.
Ela ainda tinha presença.
Ele estacionou diante da varanda e desligou o
motor.
Por alguns segundos, permaneceu sentado.
O silêncio era quase absoluto.
Não havia máquinas.
Não havia vozes.
Não havia animais.
Só o vento passando pelas árvores.
Felipe abriu a porta.
Desceu.
O ar frio bateu no rosto.
Ele caminhou até a varanda, subiu os três
degraus e colocou a mão na maçaneta.
Antes de entrar, olhou para o terreno.
Era grande.

Muito maior do que parecia nos documentos.
— Certo — murmurou. — Primeiro a casa.
A porta abriu com um rangido comprido.
O interior cheirava a madeira velha e poeira.
Felipe entrou devagar.
A sala principal era enorme.
Uma lareira de pedra ocupava boa parte da
parede central. Havia móveis antigos cobertos
por lençóis, algumas estantes vazias e uma
grande janela voltada para o campo.
Ele caminhou até ela.
Do lado de fora, conseguia enxergar boa parte
da propriedade.
Aquela vista tinha sido uma das razões pelas
quais comprara o lugar.
Mas havia outra.
Felipe não queria simplesmente comprar uma
fazenda pronta.
Queria construir alguma coisa.
Talvez ainda não soubesse exatamente o quê.

Sabia apenas que não queria chegar ali e repetir
o modelo de outra pessoa.
Precisava aprender.
Precisava entender aquela terra.
E precisava aceitar que, por mais dinheiro que
tivesse colocado na compra, não sabia
praticamente nada sobre administrar uma
propriedade daquele tamanho.
Uma voz surgiu atrás dele.
— A casa parece maior quando está vazia.
Felipe virou-se rapidamente.
Um homem estava parado na porta.
Devia ter pouco mais de sessenta anos. Usava
jaqueta de trabalho, botas gastas e um chapéu
que já tinha visto muitos invernos.
Felipe reconheceu imediatamente.
— Samuel Carter?
O homem levantou o queixo.
— Depende. Quem está perguntando?
Felipe sorriu.

— Felipe.
Samuel entrou.
Olhou ao redor.
— Então você é o rapaz que comprou a
Blackwood.
— Sou eu.
Samuel voltou os olhos para a janela.
— Não parece tão assustado quanto eu
esperava.
Felipe soltou uma pequena risada.
— Estou assustado.
— Bom.
— Isso é bom?
— É. Homem que não tem medo de uma
propriedade dessas geralmente não dura muito.
Felipe estendeu a mão.
Samuel apertou.
— Prazer.
— Igualmente.
Samuel caminhou pela sala.

Passou os dedos sobre uma das prateleiras e
olhou a poeira acumulada.
— Você sabe o que está fazendo?
Felipe pensou por alguns segundos antes de
responder.
— Não.
Samuel olhou para ele.
— Boa resposta.
— Eu sei algumas coisas. Negócios,
administração, números. Mas fazenda... —
Felipe apontou para o campo. — Isso eu vou
precisar aprender.
Samuel assentiu.
— Então talvez exista esperança.
Felipe riu.
— O senhor sempre recebe as pessoas assim?
— Só as que compram terras que não conhecem.
Os dois caminharam até a varanda.
Samuel apoiou os braços no corrimão.
— A Blackwood ficou praticamente parada

durante anos.
— Quanto tempo?
— Quase dez.
Felipe olhou novamente para o campo.
— Dez anos é bastante tempo.
— Para uma casa, sim. Para uma terra, não tanto.
— O que o senhor faria primeiro?
Samuel não respondeu imediatamente.
Olhou para a propriedade.
— Nada.
Felipe franziu a testa.
— Nada?
— Primeiro eu andaria.
— Pela propriedade?
— Pela propriedade inteira.
Samuel apontou para o campo.
— Você pode gastar dinheiro hoje e descobrir
amanhã que colocou o dinheiro no lugar errado.
Antes de comprar máquina, plantar alguma
coisa ou trazer gado, descubra onde a água fica,

onde ela deveria ficar, onde o solo segura água
demais, onde falta, onde o terreno cede, onde o
inverno castiga mais.
Felipe ficou em silêncio.
Samuel continuou:
— E converse com quem trabalha a terra por
aqui.
— O senhor é uma dessas pessoas?
Samuel deu um sorriso curto.
— Infelizmente.
Felipe riu.
— Então vou começar por você.
— Faça isso.
Samuel colocou o chapéu melhor sobre a
cabeça.
— E outra coisa.
— Sim?
— Não tente fazer a fazenda parecer grande.
Felipe olhou para ele.
— Como assim?

— Ela já é grande. O que você precisa fazer é
torná-la boa.
A frase ficou na cabeça de Felipe.
Samuel desceu os degraus.
— Amanhã cedo eu volto.
— Para quê?
— Para ver se você ainda está aqui.
Felipe sorriu.
— Estarei.
Samuel caminhou até a caminhonete.
Antes de entrar, virou-se.
— E compre botas melhores.
Felipe olhou para os próprios sapatos.
— Essas são novas.
— Eu sei.
Samuel entrou no carro.
— Por isso mesmo.
Felipe ficou olhando enquanto ele se afastava
pela estrada.
Depois voltou para dentro da casa.

Naquela noite, Felipe dormiu no quarto que
escolhera como provisório.
O colchão ainda estava sobre uma estrutura
simples, e uma única lâmpada iluminava o
cômodo.
Não havia televisão.
Não havia móveis suficientes.
Não havia quase nada.
Mas ele não conseguia dormir.
Levantou-se.
Vestiu uma jaqueta e saiu.
A noite havia esfriado.
Felipe caminhou até a frente da casa.
As estrelas apareciam com uma nitidez que ele
não estava acostumado a ver.
Olhou para o horizonte.
A propriedade parecia ainda maior durante a
noite.
Ele pensou naquilo que Samuel dissera.
Torná-la boa.

Não grande.
Boa.
Felipe tirou o telefone do bolso e abriu o
aplicativo de notas.
Escreveu:
BLACKWOOD — PRIMEIRAS DECISÕES
Conhecer a terra.
Mapear água.
Avaliar solo.
Entender o clima e as épocas de plantio.
Só depois decidir o que produzir.
Encontrar pessoas que saibam mais do que eu.
Ele releu.
Acrescentou uma última linha.
Não ter pressa.
Guardou o telefone.
Então olhou novamente para a escuridão.
Pela primeira vez desde que assinara os
documentos, não pensou na quantidade de
dinheiro que havia investido.

Pensou no tamanho da responsabilidade.
A Blackwood não era mais uma propriedade
abandonada.
Era dele.
E, a partir daquela noite, tudo o que acontecesse
naquele pedaço de terra também seria
consequência das decisões que ele tomasse.
Felipe respirou fundo.
— Vamos começar.
Atrás dele, a velha casa permaneceu silenciosa.
À frente, a terra esperava.

Thoughts

  • guto32

    O Samuel olhou os sapatos e já sabia tudo do Felipe. Bota nova em fazenda velha é currículo de quem nunca pisou no barro.

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  • Ovid

    A lista que o Felipe escreve no celular na primeira noite, com aquela última linha no fim, é de quem compra uma coisa grande e só depois descobre o tamanho dela. Gostei de o Samuel não dar resposta nenhuma, só mandar andar a terra toda antes de gastar.

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