O destino insistiu
Contado por Pedro
Depois daquela noite, eu tentei seguir a minha vida como se nada tivesse acontecido.
Não funcionou.
Eu dormi pouco. Acordava e, sem perceber, minha primeira lembrança era Clara parada diante de mim no meio da estrada.
Era estranho.
Depois de tantos anos, bastou alguns minutos ao lado dela para trazer de volta sentimentos que eu acreditava estarem completamente adormecidos.
Mas eu precisava colocar os pés no chão.
Clara tinha a vida dela.
Eu tinha a minha.
O nosso encontro tinha sido uma coincidência.
Uma dessas coisas improváveis que acontecem uma vez e depois viram apenas uma história para contar.
Era isso que eu repetia para mim mesmo.
E, durante algumas horas, consegui acreditar.
Até chegar à oficina.
Meu carro ainda precisava ser avaliado por causa da batida.
Como o estrago não parecia tão grande, imaginei que seria coisa rápida. Entrei na oficina, cumprimentei um dos mecânicos e fiquei conversando enquanto ele analisava a traseira do carro.
Eu estava distraído, falando sobre o conserto, quando escutei uma voz.
Uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar.
— Pedro...
Meu corpo inteiro parou.
Não foi exagero.
Eu simplesmente parei.
Virei lentamente.
E ela estava ali.
Clara.
Novamente.
Meu primeiro pensamento foi quase uma pergunta:
Não é possível.
Olhei para o carro dela.
Depois para ela.
Depois para o mecânico.
Queria encontrar uma explicação lógica para aquilo.
Mas não havia nenhuma.
Era ela.
A mesma mulher que eu havia encontrado na estrada.
A mesma mulher que havia ocupado meus pensamentos desde aquela noite.
E agora estava a poucos metros de mim.
No mesmo lugar onde eu tinha ido apenas para resolver um problema no carro.
Ela me olhava com a mesma expressão de incredulidade.
E, naquele momento, tive a sensação de que o destino estava rindo da nossa cara.
— Clara?
Ela assentiu.
— Sou eu.
Eu ri, porque não sabia mais o que fazer.
— O que você está fazendo aqui?
Ela apontou para o carro.
— Vim consertar o estrago do acidente.
Olhei para o meu próprio carro e depois para o dela.
— Eu também.
Ela sorriu.
E aquele sorriso me desmontou um pouco.
Eu não sei explicar o que senti naquele momento.
Na estrada, eu ainda poderia acreditar que o reencontro tinha sido apenas uma coincidência.
Mas aquilo?
Não.
Era estranho demais.
Primeiro, depois de tantos anos, eu encontro Clara no meio de uma estrada.
Depois, poucos dias depois, encontro a mesma mulher na mesma cidade, na mesma oficina, por causa do mesmo acidente.
Comecei a pensar que talvez houvesse alguma coisa que eu não estava entendendo.
Ou que eu não queria entender.
Porque, no fundo, uma parte de mim gostou de vê-la novamente.
Muito mais do que deveria.
— Isso está ficando estranho — ela disse, sorrindo.
— Um pouco.
Fiquei olhando para ela.
Clara parecia ainda mais bonita do que eu lembrava.
Mas não era apenas beleza.
Havia algo diferente nela.
Uma segurança.
Uma maturidade.
Ela carregava no olhar a experiência de uma vida que eu não conhecia.
Era evidente que muita coisa havia acontecido enquanto estivemos longe.
E, pela primeira vez, senti vontade de descobrir.
O mecânico continuava falando sobre o orçamento, mas eu mal conseguia prestar atenção.
Minha atenção estava nela.
Eu queria perguntar sobre sua vida.
Sobre Curitiba.
Sobre a empresa.
Sobre o que havia acontecido nesses anos.
Queria saber se ela estava feliz.
Mas, principalmente, queria saber se ela havia se lembrado de mim em algum momento.
Não tive coragem de perguntar.
— Então você realmente está de férias? — perguntei, apenas para continuar a conversa.
Ela sorriu.
— Estou tentando.
— Tentando?
— Meu trabalho não me deixa esquecer que existo.
Eu ri.
— Você sempre foi assim.
Ela me olhou.
— Você lembra?
A pergunta me pegou desprevenido.
Eu poderia ter respondido que sim.
Que lembrava de muitas coisas.
Mais do que ela provavelmente imaginava.
Mas apenas sorri.
— Algumas coisas a gente não esquece.
Ela desviou os olhos.
E eu não soube se havia dito demais.
Fiquei observando enquanto ela conversava com o mecânico.
Ela fazia perguntas, conferia detalhes, queria saber exatamente o que seria feito.
Era tão parecida com a Clara que eu conhecia e, ao mesmo tempo, tão diferente.
Aquela garota havia se tornado uma mulher determinada.
Talvez mais do que eu poderia imaginar.
E eu comecei a me perguntar onde eu estava naquela história.
Porque, por alguns minutos, aquela velha sensação voltou.
A de que ela havia crescido para um mundo que talvez não tivesse espaço para mim.
Eu sabia que isso era insegurança.
Mas era uma insegurança antiga.
A mesma que me fez guardar sentimentos quando éramos mais jovens.
A mesma que me dizia que talvez eu nunca fosse bom o bastante para ela.
Eu havia trabalhado muito para superar aquilo.
Mas bastou vê-la novamente para perceber que algumas inseguranças não desaparecem.
Apenas aprendem a ficar em silêncio.
Quando percebi, estávamos conversando como se o tempo tivesse diminuído a distância entre nós.
Ela perguntou sobre meu trabalho.
Perguntou se eu continuava morando na cidade.
Perguntou sobre algumas coisas que lembrava de mim.
E eu descobri que estava gostando de responder.
Gostando de contar quem eu era.
Não o rapaz que ela conheceu.
Mas o homem que eu havia me tornado.
Ainda tinha sonhos.
Ainda tinha dificuldades.
Ainda queria conquistar muita coisa.
Mas havia orgulho naquilo.
Eu não tinha uma vida perfeita.
Nunca tive.
Mas era minha.
Construída com esforço.
E, pela primeira vez, eu quis que ela enxergasse isso.
Não queria que Clara me comparasse com aquilo que tinha construído.
Queria apenas que conhecesse o homem que eu era.
Em determinado momento, o mecânico saiu para buscar algumas peças.
Ficamos sozinhos.
Eu e ela.
Mais uma vez.
Olhei para Clara.
Ela mexia no celular, mas percebi que também estava inquieta.
— É estranho ver você aqui — falei.
Ela levantou os olhos.
— Também acho.
— Depois de tanto tempo.
Ela sorriu.
— Muito tempo.
Ficamos em silêncio.
E então, sem pensar muito, eu disse:
— Você mudou.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Para pior?
Ri.
— Não.
Olhei para ela por alguns segundos.
— Para alguém que eu gostaria de conhecer.
Ela ficou em silêncio.
Meu coração acelerou assim que percebi o que havia acabado de dizer.
Talvez eu tivesse ido longe demais.
Talvez ela interpretasse errado.
Mas, pela maneira como ela me olhou, não parecia incomodada.
E isso me deu coragem para permanecer ali.
Quando o mecânico finalmente terminou de avaliar os carros, Clara recebeu a previsão do conserto.
Ela pegou a bolsa e agradeceu.
Eu não queria que ela fosse embora.
Foi uma sensação inesperada.
Tão simples.
E tão forte.
Eu precisava encontrar uma razão para prolongar aquele momento.
— Você já tomou café?
Ela me olhou, surpresa.
— Café?
— Sim.
— Ainda não.
— Então vamos tomar um.
Ela hesitou.
E aquele pequeno intervalo de silêncio me pareceu enorme.
Até que ela sorriu.
— Pode ser.
Sorri também.
Não porque estivesse planejando alguma coisa.
Nem porque soubesse onde aquilo iria dar.
Mas porque, naquele momento, eu queria apenas mais alguns minutos ao lado dela.
Queria ouvir sua voz.
Queria descobrir a mulher diante de mim.
Queria entender por que, depois de tantos anos, estar perto dela ainda fazia meu coração se comportar como se eu tivesse novamente dezessete anos.
Caminhamos até uma cafeteria próxima.
O caminho foi curto, mas para mim pareceu importante.
Ela estava ao meu lado.
Sem pressa.
Sem aquela distância que eu imaginava que existiria depois de tantos anos.
Sentamos.
Pedimos café.
E, quando comecei a conversar com ela, percebi uma coisa:
Eu não estava mais olhando para a menina que conheci.
Eu estava conhecendo Clara.
A mulher que ela se tornou.
E isso era muito mais perigoso.
Porque, pela primeira vez, eu não estava apenas lembrando do passado.
Eu estava interessado no presente.
Quando nos despedimos, ela sorriu.
— Foi bom encontrar você de novo.
Eu queria dizer que tinha sido muito mais do que bom.
Queria dizer que eu havia pensado nela desde a noite anterior.
Queria dizer que aquele segundo encontro tinha mexido ainda mais comigo.
Mas não disse.
Apenas respondi:
— Também gostei.
Ela entrou no carro.
Eu fiquei parado observando enquanto ela ia embora.
E, quando o veículo desapareceu na rua, respirei fundo.
Olhei para a oficina.
Depois para a estrada.
Depois para onde ela havia ido.
E não consegui evitar um sorriso.
Porque agora eu já não conseguia chamar aquilo apenas de coincidência.
Duas vezes.
Depois de tantos anos.
Talvez fosse apenas acaso.
Talvez fosse destino.
Eu ainda não sabia.
Mas havia uma coisa que eu já sabia muito bem:
Eu queria vê-la outra vez.
Só que, dessa vez, não queria depender de outro acidente para isso.
E essa certeza me assustou mais do que qualquer coisa naquela noite.
Porque significava que, pela primeira vez em muitos anos, eu estava começando a considerar a possibilidade de abrir uma porta que eu havia fechado há muito tempo.
A porta para Clara.
E eu não fazia a menor ideia do que encontraria do outro lado.