Quarta-feira, 05/03/2025
Estou completamente desesperado. Não consigo acreditar que meu relacionamento com o Daniel tenha sido exposto daquela forma. É como se o chão tivesse sumido sob meus pés.
- Filhos, venham tomar café! - chama minha mãe lá da cozinha, com a voz tranquila de quem ainda vive em um mundo onde tudo está sob controle.
Me viro para Ariana com o olhar suplicante.

- Ariana... por favor, não diz nada a eles - peço, quase implorando.
- Mas, Ariel... - ela tenta argumentar.

- Por favor. Pelo menos até eu ir para o trabalho - insisto, tentando manter a voz firme, mesmo que meu coração esteja batendo feito louco.
- Está bem, Ariel... vem, vamos tomar café - diz ela, me puxando gentilmente pelo braço.
Me sento à mesa com meus pais. A comida está ali, o cheiro do café recém-passado preenche o ambiente, tudo parece... normal. Mas meu rosto não sabe mentir. E meu olhar, menos ainda.


- Você está bem, filho? - pergunta meu pai, me observando com atenção.

- Tô bem, papai - respondo rapidamente, forçando um sorriso enquanto coloco o café na xícara com mãos que tremem levemente.
O café da manhã segue em silêncio, e cada minuto parece durar uma eternidade. Assim que termino, me levanto e vou me arrumar para o trabalho.
Minha cabeça está a mil.
Como vão me olhar no escritório? Como Daniel vai reagir? Será que os pais dele já sabem?
E, principalmente: como eu vou enfrentar tudo isso... de frente?
Chego ao trabalho e, como já esperava, uma verdadeira chuva de olhares me atinge assim que passo pela recepção. Sinto cada olhar como se fosse uma cutucada direta na alma. Provavelmente, todos da empresa já sabem.
Entro no elevador tentando ignorar, mas o clima ali dentro está péssimo. Tenso. Cortante.

Mal a porta se fecha, ouço a primeira alfinetada.

- Eu não esperava isso de você, Ariel... - diz uma colega de trabalho, com os braços cruzados.
- O quê? - pergunto, me virando para ela, tentando manter a calma.
- Bem que eu achei aquele vídeo estranho. Você e o senhor Daniel estavam... à vontade demais no comercial. Me fala: vocês já estavam tendo um caso desde aquela época? - questiona, com um ar inquisidor.
- Não seja boba, é claro que eles já tinham um caso! - diz outro, se metendo na conversa com um sorrisinho venenoso.

- Cala a boca e me deixem em paz! - rebato, já irritado e segurando a vontade de chorar.
- Ah, tá bravinho agora? - debocha um deles, fazendo os outros rirem discretamente.
Finalmente, a porta do elevador se abre. Saio rápido, quase tropeçando nos próprios pés. Meu celular começa a vibrar, são várias mensagens do Daniel.
"Podemos conversar?"
"Por favor, me responde."
"Eu tô preocupado com você."
Suspiro e digito apenas:
"Depois conversamos."
Sigo direto para a cozinha. Preparo um cappuccino, como sempre faço. Mas, dessa vez, peço para outro colega levá-lo até a sala do Daniel.
Evitar ir lá pessoalmente é melhor... senão a fofoca vai se multiplicar feito vírus.
Vou para a minha sala. Os olhares de julgamento continuam. Alguns discretos. Outros, nem tanto.
- Poxa, Ariel... por que não me disse nada? - diz um dos meus colegas mais próximos, com um olhar realmente chateado.
- Eu tava esperando a hora certa... mas, bom, já viu o que aconteceu... - respondo de cabeça baixa, sentindo o peso da culpa e do medo ao mesmo tempo.
- Vai se fazer de vítima agora, Ariel? - comenta uma colega, sem nem desviar os olhos do computador enquanto digita.
Me sento na minha mesa e respiro fundo.
- Dá pra vocês focarem no real motivo de estarem aqui, que é trabalhar? - digo, num tom mais alto, tentando soar firme... mas por dentro, só queria desaparecer por uns dias.
A hora do almoço finalmente chegou. Estou no refeitório, tentando fingir normalidade, mas todos me encaram enquanto comem. Só queria que esse dia acabasse logo.

Duas funcionárias passam cochichando, e o incômodo aumenta.
- Eu não estou aguentando mais... - sussurro bem baixinho, tentando conter o que sinto. Mas, sem querer, uma lágrima escapa.
- Dá pra vocês pararem com isso?! - grita, de repente, um dos meus colegas, totalmente indignado. O refeitório fica em silêncio por alguns segundos.
Nesse instante, Daniel aparece.
Ele me vê naquela situação, com os olhos marejados. Eu rapidamente limpo as lágrimas, tentando disfarçar.
- Tenho um anúncio a fazer. - diz ele, firme, com a voz projetada para todos ouvirem.
- Eu estou namorando o Ariel. E quero deixar uma coisa bem clara: eu me apaixonei primeiro. Fui eu quem correu atrás dele. - declara, com firmeza.
Um silêncio geral toma conta do ambiente. Daniel então caminha até minha mesa.
- Posso me sentar aqui? - pergunta, educado.
- Claro, senhor. - responde meu colega, um pouco sem graça.
Daniel se senta ao meu lado e me encara com um olhar cheio de cuidado.
- Você está bem, Ariel? - pergunta com suavidade.
- Se eu disser que sim, vou estar mentindo... - respondo, com a voz ainda triste, mas grato pela presença dele.
- Você vai fazer café pra mim? Já terminei de almoçar. - diz ele, logo abrindo um sorriso suave, tentando me animar.
- Claro que vou! - digo, e finalmente sorrio também, mesmo que de leve.
- Pensei que você não fosse fazer café depois do almoço hoje... - diz Daniel, agora com um tom mais baixo, quase triste.
- Por que pensou isso? - pergunto, confuso.
- É que ontem você não fez... - responde ele, meio envergonhado.
- Desculpa. - digo sorrindo. Ele tá agindo como uma criança... é fofo.
É de noite, quase no fim do expediente. Depois do que o Daniel disse no refeitório, os outros funcionários pararam de me importunar. Mas os olhares... ah, esses não pararam.
- Até que enfim. - diz meu colega, se espreguiçando.
- Tá com tanta pressa pra ir embora? - brinco.
- Tenho um encontro hoje com uma gatinha que conheci no aplicativo de namoro. - diz ele, sorrindo de orelha a orelha.
- Nossa! - digo, surpreso.
- Vamos logo, senão vamos perder o primeiro ônibus. - fala ele, já ajeitando as coisas às pressas.
- Tá, vamos. - digo, colocando a mochila nas costas.
- Vamos, Ariel! - diz ele, pegando minha mão. A gente sai correndo pelos corredores.
Quando finalmente chegamos à parada de ônibus...
- Eu tô morto! - digo, me agachando no chão, tentando recuperar o fôlego. Eu estava sem ar de tanto correr.
- Você é muito sedentário, Ariel. - diz meu colega, rindo.
De repente, um carro para na nossa frente. O vidro se abaixa.
- Ariel. - diz Daniel, olhando direto pra mim.
- Parece que você não vai se espremer no ônibus hoje. - brinca meu colega, com um sorriso travesso.
- Pois é, né... - digo sem jeito.
- Amor. - chama Daniel, com a voz doce.
- Já estou indo. - respondo, abrindo a porta do carro. - Até amanhã! - digo para meu colega antes de entrar.
- Até! - ele responde, com um aceno.
Daniel estaciona o carro em frente à minha casa. A gente sai e vai de mãos dadas até o portão.

- Amor, como está o trabalho? Eles ainda estão implicando com você? - pergunta Daniel, com o olhar preocupado.

- Um pouco, mas eu não ligo. - digo, tentando tranquilizá-lo com um sorriso.
- Tem uma coisa que preciso te contar. - diz ele, segurando minhas duas mãos com firmeza.
- O que foi, amor? - pergunto, já preocupado.
- Meu pai confiou em mim para fazer uma viagem de negócios. - diz Daniel, empolgado.
- Daniel, isso é ótimo! - digo com um sorriso sincero.
- É a primeira vez que o papai confia em mim para uma missão tão importante. Amanhã de manhã eu vou para os Estados Unidos conversar com um cliente. Se tudo der certo, dentro de duas semanas estarei de volta. - ele diz, radiante.
- Você falou com ele sobre... nós? - pergunto, com receio.
- O papai disse que vai conversar sobre isso quando eu voltar da viagem. - responde Daniel, um pouco mais sério.
- Não acredito que vou passar duas semanas sem te ver... - digo com a voz triste, abraçando-o apertado.
De repente, a voz do meu pai ecoa do portão:
- Ei, vocês dois! Entrem agora. Vamos conversar. - diz ele, irritado.
Provavelmente ele já sabe tudo o que os portais de notícia disseram. Eu e Daniel engolimos em seco e, em silêncio, atravessamos o portão.

Estamos à mesa agora, junto com o papai, a mamãe e minha irmã.

- Por que não disse que era o chefe do Ariel? - questiona meu pai, com o olhar sério.
- Desculpe, senhor. - diz Daniel, de cabeça baixa.
- Você sabe que relacionamento no trabalho não é algo fácil de lidar. - continua meu pai, firme.
- Papai... - digo, tentando intervir.
- Estou sendo sincero, Ariel. Já pensou no que seus colegas estão comentando pelas suas costas? - diz ele, preocupado.

- Em todo lugar tem gente fofoqueira, não é mesmo, cunhado? - brinca Ariana, sorrindo para Daniel.
- Desde quando vocês se tornaram tão amiguinhos? - resmungo.
- A questão não é essa, Ariana. O Ariel precisa entender a gravidade da situação. - insiste meu pai.
- Senhor, eu e o Ariel sabemos muito bem separar nossa vida profissional da pessoal dentro da empresa. - diz Daniel com firmeza.

- Isso mesmo, papai. A gente não está vivendo um romance colegial de ensino médio. - completo, com um leve tom irônico.
- Deixa eles, amor. São adultos e sabem resolver seus problemas. - diz minha mãe, pegando na mão do meu pai e sorrindo de forma conciliadora.
Apesar da tensão inicial, o jantar acaba sendo tranquilo. Conversamos bastante, e aos poucos meu pai foi se acalmando. Agora, estou em frente de casa, me despedindo do Daniel. Meu coração está apertado, vou passar um tempo sem vê-lo. Daniel me abraça com carinho, e ficamos em silêncio por alguns segundos, sentindo o calor um do outro.
Quinta-feira, 06/03/2025
É de manhã, e já estou na empresa. Dessa vez, todos me olharam normalmente. Claro, ainda escuto alguns cochichos quando passo, mas não ligo. Estou respondendo as mensagens do Daniel - ele já está no avião.
- Ariel, vamos beber hoje, é por minha conta! - diz meu colega, com um grande sorriso.
- Nossa, quanta alegria! Posso saber o motivo da comemoração? - pergunto, sorrindo.
- Estou namorando! Meu encontro de ontem deu certo. - diz ele, animado.
- Nossa, que rápido! - comento, surpreso.
- Ariel. - de repente, alguém me chama.
- Oi? - digo, me virando.
- O presidente quer vê-lo. Por favor, venha comigo. - diz a secretária do presidente.
Sinto um frio na barriga enquanto me levanto da cadeira. Meu colega me olha com uma expressão preocupada. Sigo a secretária até a sala. Quando chegamos, ela abre a porta e, assim que entro, ela a fecha atrás de mim.
- É um prazer, Ariel. Sente-se. - diz o presidente. O pai de Daniel. Meu sogro. Estou tremendo.
- Estou aqui, senhor. - digo, enquanto me sento, tentando manter a compostura.
- O seu relacionamento com o meu filho está causando muito tumulto - dentro e fora da empresa. - diz ele com firmeza.
- Sinto muito, senhor. - respondo de cabeça baixa.
- Não sei se você está ciente, mas o Daniel já tem uma noiva. O nome dela é Natália.
- Mas o Daniel me disse... - começo, confuso.
- A Natália é a noiva do Daniel. Não sei o que ele te contou, mas ele mentiu. Você é apenas um caso. Nada sério. Me desculpe por estar sendo tão direto. - diz o presidente, com frieza.
As minhas lágrimas começam a escorrer.
- Eu tenho uma proposta para fazer. Quero que você passe um tempo afastado da empresa. Já resolvi tudo. Você vai trabalhar em um hotel à beira-mar.
- O quê, senhor? - pergunto, incrédulo.
- É só por um tempo. Ou você prefere se demitir? - questiona totalmente impaciente.
- Não, senhor. - respondo, engolindo o choro.
- E mais uma coisa: me entregue seu celular. - diz ele, esticando a mão.
- O quê? - repito, totalmente atônito.
- Eu vou comprar outro para você. - acrescenta, seco.
O olhar dele é frio. Ele me encara com desprezo, como se eu fosse um peso que precisa remover. Não me vê como genro, mas como um amante inconveniente de seu filho, alguém de quem ele quer se livrar o quanto antes.