Capítulo 1: O Homem de Ferro
O bar estava cheio o suficiente para que o barulho abafasse qualquer conversa alheia, mas não tanto a ponto de alguém passar despercebido. Para Caio, cada pessoa naquele ambiente era uma variável. O garçom que passava apressado com a bandeja, o grupo rindo alto na mesa do canto, o cara de jaqueta de couro encostado no batente da porta. Ele media os passos, os olhares, os trejeitos. Estar em alerta constante não era uma escolha; tinha virado seu estado natural aos dezessete anos, e aos vinte e dois já era uma segunda pele.
Caio girava o copo vazio entre os dedos longos, os olhos fixos no reflexo da luz âmbar contra o vidro. Usava sua farda particular: camiseta preta, jaqueta escura com zíper pela metade e o cenho levemente franzido que funcionava como uma placa de “mantenha distância”.
— Vai ficar encarando o copo até ele rachar ou vai pedir outra? — a voz de Léo cortou seus pensamentos. O amigo se ajeitou no banco do bar, dando um tapinha leve no ombro de Caio. — Relaxa, cara. Ninguém aqui vai te atacar.
Caio ergueu o olhar, as sobrancelhas escuras arqueadas com um toque de desafio, antes de o canto dos lábios ceder em um sorriso rarefeito. Só com Léo e mais um ou dois ele baixava a guarda. Mas mesmo assim, não totalmente.
— Eu não tô tenso — mentiu com a naturalidade de quem praticava aquilo todos os dias.
— Tá sim. Você tá com aquela cara de quem calculou a rota de fuga de qualquer pessoa que se aproximar a menos de dois metros — Léo riu, balançando a cabeça. — Um dia você vai encontrar alguém que vai atravessar essa tua muralha de concreto armado e você vai ficar sem saber o que fazer.
Caio desviou o olhar para a rua escura do lado de fora através da janela empoeirada. Atravessar sua muralha? A ideia era absurda. Ele tinha construído cada tijolo daquela defesa com o próprio sangue, jurando para si mesmo que nunca mais seria pego de surpresa pela dor de uma partida.
O problema nunca foi sentir demais.
Ele sabia exatamente o quanto sentia. O peito parecia sempre à beira de transbordar com um fogo silencioso, uma intensidade que ele mantinha sob controle a ferro e fogo.
O verdadeiro problema era fingir que não sentia nada.
E, naquele momento, enquanto o vento frio batia contra o vidro, Caio não fazia ideia de que a pessoa capaz de destruir todas as suas certezas já estava a caminho.