Quarta-feira, 31/01/2024
É de manhã, e estou no hospital.
Contei ao Victor sobre a Ariana. Neste momento, estou ajudando-o a comer. Ele ainda está fraco, então só pode ingerir alimentos leves — agora, está tomando uma sopa.
— Toma, amor. — digo, levando a colher até sua boca.
— Estou sem fome. — diz Victor, virando o rosto.
— Você precisa comer, Vossa Alteza Real. — respondo, firme. — Senão, como vai melhorar?
Ele continua resistindo.
— Come. — insisto, colocando a colher em sua boca.
Victor suspira e engole, contrariado.
— Essa facada doeu mais do que quando levei aquela espadada no coração. — comenta, depois de engolir.
— Não exagera também, né? — digo, incrédulo, já preparando outra colher. — Você foi empalado. Só não doeu mais porque você morreu.
Ele solta um leve sorriso cansado.
— Quando você vai tomar a poção da nostalgia? — pergunta, depois de engolir mais um pouco.
— Hoje ainda. — respondo, pensativo. — A que eu tinha feito, eu dei para a Ariana. — faço uma pausa. — Com as memórias da minha vida passada… vou conseguir usar melhor o livro. Ele é estranho… estão aparecendo poções que eu nunca vi antes. Parece até que as páginas mudam de lugar.
Victor me observa com atenção.
— Mas é assim mesmo. O livro tem milhares de poções. — explica. — Você só precisa aprender a usá-las.
Assinto, refletindo.
— Eu ainda preciso ir à delegacia. — digo, pensativo. — Provavelmente, a Ariana já se lembrou de toda a vida passada.
Victor fica em silêncio por um instante, como se conectasse os pontos.
— Talvez o Devorador de Íris seja um transmorfo… alguém que se transforma na aparência das outras pessoas. — diz, com um tom mais sério. — Isso explicaria por que ele nunca foi pego… ele é como um camaleão.
— Você precisa se lembrar o mais rápido possível. — diz Victor, preocupado. — Você tem que estar preparado. O Devorador de Íris pode ser qualquer um… até mesmo alguém próximo a você. Assim que eu sair daqui, vamos fugir para bem longe.
— A minha irmã é inocente. — digo, firmemente. — Eu não posso deixá-la pagar por um crime que não cometeu.
Victor aperta minha mão com mais força.
— Tem uma coisa que você precisa saber… — diz ele, sério. — Depois que eu assumi o controle do corpo, eu não ouvi mais a voz do Victor.
Sinto um aperto no peito.
— O que isso quer dizer? — pergunto, desesperado. — Você está dizendo que o meu Victor Uchiha… desapareceu?
— Eu não sei. — responde ele, com cautela. — Mas não se preocupe, amor… eu ainda estou aqui.
— Mas eu também amo o meu Victor Uchiha… — digo, aflito. — Eu não quero que ele desapareça.
Respiro fundo e aperto as mãos dele com mais força.
— Você precisa se concentrar. O Victor está em algum lugar dentro da sua mente.
Victor não responde. Apenas me encara em silêncio.
De repente, a porta do quarto se abre.
— Como está o doente? — diz o pai de Victor, entrando no quarto.
Ele observa a cena e solta um suspiro aliviado.
— Que bom que está se alimentando. — acrescenta, ao ver o prato de sopa vazio.
O pai de Victor está claramente preocupado. Ele contratou mais seguranças e reforçou toda a segurança do hospital.
Decido deixá-los a sós por um momento.
Saio do quarto e sigo direto para a delegacia.
Eu preciso ver a minha irmã.
Chego à delegacia, e o policial me permite falar com a Ariana por alguns minutos.
Ela estava deitada, mas dá um pulo assim que me vê. Corre até as grades da cela e as segura com força. Quando nossos olhos se encontram, ela sorri.
— Oi, irmã… — digo, me aproximando.
— É você… — responde Ariana, com um sorriso emocionado. — Agora eu entendo por que eu te amo tanto… — acrescenta, segurando o choro.
Franzo a testa, confuso.
— Eu não entendo, irmã…
— Eu me lembrei de tudo. — diz ela, enxugando as lágrimas. — Foi aquela poção que você me deu, não foi?
— Você agora acredita em poções mágicas? — pergunto, receoso, com um leve sorriso.
— Como não acreditar? — responde, sem tirar os olhos de mim. — Eu revivi toda a vida do Hyeon-um… vi todo o amor que ele sentia por você.
Meu coração dispara.
— O Hyeon-um… me amava? Quer dizer… ele amava o Min-jae? — pergunto, chocado.
— Sim. — Ariana assente, pensativa. — Ele te amou em silêncio… e nunca teve coragem de dizer o que sentia.
Passo a mão pelo rosto, tentando organizar meus pensamentos.
— Eu estou confuso… ainda não me lembrei da minha vida passada. — digo, em voz baixa. — Tudo o que sei foi o que o príncipe herdeiro me contou… que eu e o Hyeon-um éramos muito próximos.
Ariana respira fundo, como se estivesse conectando tudo.
— Agora eu entendo por que sinto que estou passando por uma injustiça pela segunda vez… — diz ela, incrédula. — Hyeon-um também foi vítima disso.
Ela levanta o olhar para mim, séria.
— Ele tinha um irmão… um psicopata frio.
Sinto um arrepio percorrer meu corpo.
— Isso me fez lembrar dela… — continua Ariana, visivelmente abalada.
Engulo seco.
— E você sabe muito bem de quem eu estou falando.
Meu coração acelera.
— A nossa irmã mais velha? — pergunto, horrorizado.
— O Hyeon-um tinha um irmão… o nome dele era Seo-jin. — diz Ariana, com a voz firme. — Ele era o verdadeiro assassino. Um transmorfo… capaz de se transformar em qualquer ser vivo.
Engulo seco.
— Então você suspeita que a Ana é a reencarnação do Seo-jin? — pergunto, com a voz tensa.
Ariana me encara, séria.
— Você se lembra de quando a gente tinha uns cinco anos? Aquela tragédia… a empregada nova que caiu da escada e quebrou o pescoço.
Um arrepio percorre meu corpo.
— Como não lembrar? — respondo, assustado. — Até hoje aquela cena me persegue.
A expressão de Ariana muda, tomada pelo medo.
— Eu vi o olhar da Ana naquele dia… — diz ela, em pânico. — Ela desceu as escadas e ficou encarando o corpo da mulher… fria… sem reação.
Meu coração dispara.
— Com as memórias da minha vida passada… eu sinto que aquilo não foi um acidente.
Dou um passo para trás, sentindo o chão sumir sob meus pés.
— Ariana… eu estou com medo.
— E deveria mesmo estar. — responde ela, firme. — Se a Ana for o Seo-jin… ela pode ser qualquer coisa que respira. Pode estar nos observando agora.
Ela começa a olhar ao redor, inquieta, como se esperasse encontrar alguém escondido nas sombras.
— E a Hae-in? — pergunto, com a voz trêmula. — Será que ela também voltou? O príncipe herdeiro chega a tremer só de ouvir o nome dela…
Ariana não hesita:
— Provavelmente, sim. — diz, séria. — Ela pode ser qualquer pessoa. Até mesmo… a nossa própria mãe.
Sinto meu corpo gelar.
— Se proteja, irmão. — acrescenta ela, com urgência.
Ela segura as grades com força.
— Agora eu entendo… — murmura. — Entendo por que o Devorador de Íris arranca os olhos das vítimas.
Olho para ela, em silêncio.
— Os olhos… são usados como ingrediente para o elixir que recarrega os poderes deles.
O medo toma conta de mim.
Existe a possibilidade de que o Devorador de Íris seja a Ana…
E pior ainda…
E se a Hae-in for a nossa mãe?
Meu corpo inteiro treme só de imaginar essa possibilidade.
Chego em casa tremendo. Pego o livro de feitiços — eu preciso me lembrar da minha vida passada.
— Livro, eu quero a poção da nostalgia! — digo, encarando as páginas.
Mas nada acontece.
Elas não se movem.
Suspiro, frustrado. Talvez a página onde estava a poção ainda não tenha se regenerado.
— Amanhã eu tento de novo… — murmuro, tentando me acalmar.
Agora, preciso me proteger.
— Livro, me mostre poções de ataque.
As páginas começam a se folhear sozinhas, rapidamente… até pararem em uma.
— “Poção do Dano”… — leio em voz alta.
Analiso com atenção.
É uma poção de ataque que se ativa ao sofrer uma leve pressão.
Resumindo… é como uma bomba.
— Isso vai ser útil… — digo, pensativo.
O preparo é diferente. Aqui, é necessário moer a folha junto com as ervas.
Anoto todos os ingredientes com cuidado.
Viro a página e encontro outra poção interessante.
— “Poção-Chave”…
Leio atentamente.
Essa poção permite abrir qualquer passagem.
Um leve sorriso surge no meu rosto.
— Perfeita…
Anoto os ingredientes também.
Sem perder tempo, vou atrás de tudo o que preciso.
Assim que consigo os materiais, começo imediatamente o preparo.
Não posso perder tempo.
Depois… com mais calma, preparo as outras poções de dando que existe no livro.
Mas, por enquanto, preciso me proteger. A qualquer momento, o assassino pode tentar me atacar.
As poções estão prontas.
A poção de dano se transforma em um pó fino. Eu a coloquei em pequenos saquinhos de papel. Já a poção-chave… eu ainda não entendi muito bem. Seu preparo é como fazer um giz.
— É uma poção-chave… mas não parece uma chave. — digo, confuso, observando o objeto em minhas mãos.
Pego um dos saquinhos com o pó da poção de dano.
Não posso testar isso dentro do meu quarto.
Vou até o jardim.
— Espero que funcione… — murmuro, apreensivo, antes de lançar o saquinho na grama.
Assim que ele toca o chão…
BOOM.
A explosão é tão forte que me joga para trás, derrubando-me no chão.
Quando a poeira baixa, vejo um enorme buraco no jardim.
Funcionou.
— Senhor! — grita um dos seguranças, correndo desesperado na minha direção.
Logo, todos estão ao meu redor.
— Está tudo bem! — digo, levantando-me com dificuldade. — Foi só… uma bomba caseira que eu fiz.
Eles ainda parecem em choque.
Me aproximo lentamente do buraco, observando o estrago.
Respiro fundo.
— Devorador de Íris… — murmuro, com o olhar firme. — Não sei quando você vai me atacar de novo… mas, quando vier…
Faço uma pausa.
— Eu estarei preparado.