Primavera, ano de 1765 — Dinastia Joseon
Minha mãe já teve uma vida perfeita.
Ela era filha do Ministro da Guerra. Cresceu cercada de luxo, servos e vestes finas. Nada lhe faltava.
Mas tudo mudou.
Seu pai foi acusado de traição.
Era uma armação.
Meu avô ouviu algo que não deveria… e, por isso, o rei, junto aos ministros, decidiu silenciá-lo. Ele foi condenado à morte.
E toda a sua família… foi reduzida à escravidão.
Minha avó, minha mãe e minhas tias.
Minha avó não suportou a nova realidade. Morreu consumida pela dor e pelo desgosto.
O rei era cruel.
Ele e os ministros se divertiam humilhando minha mãe e minhas tias, como se o sofrimento delas fosse um espetáculo.
E foi assim… que minha mãe começou a mudar.
Mesmo em meio à dor, ela ainda tinha suas irmãs. Elas permaneciam juntas, encontrando consolo umas nas outras.
Mas, para o rei… aquilo ainda não era suficiente.
Ele queria destruí-la por completo.
Então, deu a ordem.
Guardas as levaram para o meio da floresta.
Lá… suas irmãs foram mortas, uma a uma, diante de seus olhos.
E, em seguida, começaram a torturá-la.
Quando terminaram, deixaram minha mãe à beira da morte… cercada pelos corpos das próprias irmãs.
Mas aquele… não era o fim.
Ela foi salva por meu pai — um xamã extremamente poderoso.
Ele cuidou dela.
E, com o tempo… ensinou tudo o que sabia.
Foi assim que minha mãe descobriu algo:
Quando o coração para por um curto período… o corpo pode despertar habilidades mágicas.
Eu sou Hyeon-um.
E tenho um irmão… Seo-jin.
Minha mãe nos fez despertar nossos poderes também.
Ela possuía telecinese — conseguia mover objetos com a mente. Esse também era o meu dom… mas nunca se comparou ao poder dela.
Já meu irmão…
Ele era um transmorfo.
Podia se transformar em qualquer coisa — animais… ou até mesmo outras pessoas.
Mas esse poder tinha um preço.
Meu pai morreu por causa disso.
Usar magia em excesso… encurta a vida.
Mas minha mãe se recusava a aceitar limites.
Ela encontrou uma forma de “recarregar” nossos poderes.
Um elixir.
E o ingrediente principal…
Eram olhos humanos.
Os olhos carregam vida.
E é essa vida… que restaura nossa força.
Minha mãe criou uma poção especial… e a entregava às vítimas.
Depois que bebiam…
Seus olhos podiam ser usados.
E então…
Se tornavam parte do nosso poder.
Seo-jin, desde muito novo, sempre demonstrou uma frieza assustadora. Ele não tem empatia alguma e, ainda criança, já era cruel com animais. Nossos pais o protegiam… sempre diziam que era apenas uma fase.
Mas não era.
Quando éramos crianças, tínhamos um amigo. Um dia, estávamos brincando em uma árvore. Lembro como se fosse hoje.
Seo-jin o empurrou.
O menino caiu lá de cima… e o som do pescoço quebrando ecoa na minha mente até hoje.
Seo-jin disse aos nossos pais que foi um acidente.
Mas eu vi.
Eu vi claramente que não foi.
Mesmo assim… nossos pais encobriram tudo. Fizeram o corpo do menino desaparecer, como se ele nunca tivesse existido. Até hoje, a família dele ainda o procura… sem saber a verdade.
Agora, já adulto, Seo-jin usa a necessidade de “recarregar” os poderes como desculpa para matar.
Mas não é só isso.
Ele gosta.
Ele é cruel com suas vítimas. Não apenas tira suas vidas… ele as faz sofrer.
O povoado inteiro vive aterrorizado. Todos sabem que existe um assassino à solta… mas ninguém sabe quem ele é.
E nunca vão saber.
Porque meu irmão… nunca será pego.
Ele usa seus poderes para fugir.
E, enquanto continuar fazendo isso… ele vai continuar matando.
Depois de anos, finalmente minha mãe terá a chance de se vingar do rei e de todos que a fizeram sofrer. Ela retornou ao palácio com uma nova identidade, assumindo o cargo de dama da corte responsável pelos remédios e ervas medicinais — uma posição que lhe permite ter contato frequente com o rei.
Agora, ela está mais próxima dele do que nunca.
E está planejando sua vingança.
Eu também consegui um cargo no palácio. Trabalho como assistente nos registros reais, o que me permite circular por diversos setores e observar tudo de perto.
Já o meu irmão… como sempre, é um fantasma.
Ele não existe.
É apenas uma sombra que se move entre as pessoas, sem ser notada.
E eu sei… não vai demorar.
Os assassinatos vão começar aqui também.
Mas algo em mim está mudando.
Desde que conheci Min-jae, não consigo parar de pensar nele. Talvez seja porque ele é filho do ministro da cultura… um dos homens que mais prejudicaram a minha mãe no passado.
Mesmo assim…
Min-jae é diferente.
Ele é gentil.
Trata todos com respeito, sem distinção.
E está sempre ao lado do neto do rei… o príncipe Do-hyun.
Minha mãe finalmente conseguiu sua vingança.
Seo-jin usou seus poderes para invadir os aposentos do rei. Ele assumiu a aparência jovem da minha mãe… como um fantasma do passado retornando para assombrá-lo.
Antes disso, minha mãe já havia feito o rei beber a poção.
Agora… seus olhos seriam úteis.
Seo-jin o torturou de todas as formas possíveis. Fez tudo em absoluto silêncio, para que ninguém no palácio ouvisse.
A morte do rei foi horrível.
Ele foi forçado a ingerir uma poção que o deixou completamente paralisado. Não conseguia se mover… não conseguia gritar… mas sentia tudo.
Cada dor.
Cada momento.
Foi uma morte lenta, cruel e impiedosa.
Quando encontraram o corpo, o palácio inteiro entrou em caos.
Com a morte do rei, seu filho mais velho assumiu o trono.
Durante esse tempo… algo em mim também mudou.
Desenvolvi uma obsessão por Min-jae.
Eu o sigo.
Observo cada passo.
Procuro saber tudo sobre ele.
E foi assim que descobri… o livro de feitiços.
Um livro estranho. Antigo. Poderoso.
Repleto de poções.
Mas há algo peculiar nele:
Ninguém pode tocá-lo.
O livro só permite ser tocado… se o próprio dono autorizar.
Quando minha mãe descobriu sobre a existência desse livro… ela também se tornou obcecada.
Se eu pudesse simplesmente roubá-lo…
Seria tudo muito mais fácil.
Seo-jin matou todos os ministros… da mesma forma brutal com que matou o rei.
Com a morte do Ministro da Cultura, acabei me aproximando ainda mais de Min-jae. Eu o consolei… e, aos poucos, nos tornamos mais próximos.
Foi então que percebi.
Eu me apaixonei por ele.
Ainda não consigo acreditar… que amo um homem.
É um amor impossível.
Proibido.
Mas, mesmo assim… eu sinto vontade de cuidar dele… de protegê-lo… de beijá-lo.
Tento afastar esses pensamentos da minha mente, mas é inútil.
Eles sempre voltam.
Enquanto isso, minha mãe está completamente consumida pela vingança. Mesmo depois de se vingar de todos que a fizeram sofrer… isso não foi suficiente.
Ela quer mais.
Quer destruir até os descendentes de seus inimigos.
Mas eu descobri algo… algo que pode mudar tudo.
O livro de Min-jae possui uma poção capaz de tornar permanente o efeito de qualquer outra poção.
Se usássemos isso no elixir…
Não precisaríamos mais matar inocentes.
Nunca mais.
Enquanto eu seguia Min-jae pela floresta…
Vi algo que destruiu meu coração.
Entre as árvores, escondido nas sombras… eu os vi.
O príncipe herdeiro Do-hyun…
E Min-jae.
Se beijando.
Um romance secreto.
Meu peito se apertou de uma forma que nunca senti antes.
Vê-los juntos…
Quebrou algo dentro de mim.
Eu não quero que ele fique perto de Min-jae desse jeito. Não mesmo. Mas talvez seja melhor não me preocupar com isso, já que ele é descendente do rei… e, em breve, morrerá.
O que me conforta é que minha mãe não vai matar Min-jae, pois só ele pode preparar a poção.
Minha mãe acabou sendo exposta. Alguém a viu matando o filho do Ministro da Guerra. Agora, todos estão atrás dela. Ela precisou usar seus poderes com mais frequência para se proteger, e isso a está enfraquecendo. Ela está sacrificando cada vez mais pessoas.
Enquanto isso, tento convencer Min-jae a fazer a poção… mas sinto que o príncipe herdeiro está começando a desconfiar de mim.
O uso intenso dos poderes está cobrando seu preço: os cabelos da minha mãe estão ficando brancos. Ela tentou matar o príncipe herdeiro, mas Min-jae o protegeu usando os poderes do livro. Eu não sabia que o livro era tão poderoso.
Quando minha mãe percebeu que eles se amam, tentou ameaçar Min-jae usando o príncipe herdeiro como chantagem. Mas Min-jae sempre o protegeu, sem falhar.
A verdade finalmente veio à tona.
Min-jae descobriu que eu sou filho de Hae-in. O príncipe herdeiro passou a suspeitar que eu sou o assassino… mas, mesmo assim, Min-jae ainda acredita na minha inocência.
Estou devastado.
Minha mãe… a pessoa que eu mais amava… está morta.
E foi morta por um dos descendentes daqueles que destruíram a nossa família.
Min-jae matou minha mãe.
E, por mais que isso me consuma por dentro… eu não tenho coragem de matá-lo.
Seo-jin, por outro lado, quer a qualquer custo a poção do livro de feitiços. Com ela, ele se tornará invencível… poderá usar seus poderes sem limites.
E agora… tudo piorou.
Seo-jin está usando a minha aparência.
Todos acreditam que eu sou o assassino.
Estão me caçando.
Ele formou um exército… e agora está atacando o palácio.
Seo-jin pretendia usar a irmã de Min-jae como sacrifício… mas algo deu errado.
Por acidente… Min-jae acabou ingerindo a poção.
Agora, ele se tornou o sacrifício do elixir.
Meu irmão quer os olhos dele.
Ele invadiu a casa de Min-jae… e matou a mãe dele.
Mas, antes que pudesse matar sua irmã, o príncipe herdeiro e o próprio Min-jae chegaram a tempo de salvá-la.
Mesmo assim…
Min-jae acredita que fui eu o responsável.
Afinal…
o assassino tinha o meu rosto.
A rebelião já dura dias.
Seo-jin quer, a todo custo, tomar o poder. Ele ordenou a captura de Min-jae.
A luta é intensa.
O príncipe herdeiro e Min-jae já estão exaustos, à beira do limite… mas, ainda assim, conseguem vencer os inimigos ao redor.
Vê-los juntos… eu não aguento mais.
Não suporto mais essa cena.
Então… eu o vejo.
Meu irmão.
Seo-jin se aproxima lentamente.
Eles estão cansados demais… não serão páreo para ele.
É quando eu tomo uma decisão.
Apareço diante dos dois.
Eles me encaram com desconfiança… com dor… com ódio.
Para eles… eu sou o responsável por tudo isso.
Não há espaço para explicações.
Uso meus poderes.
E a luta começa.
Mas… não é uma luta de verdade.
É um sacrifício.
Em um único movimento, atravesso a espada nos dois… direto no coração.
Assim… a vitalidade de seus olhos se esvai mais rápido.
Min-jae reage.
Mesmo ferido… ele me atinge com um punhal.
Mas logo percebo…
Está envenenado.
Meu corpo começa a falhar.
Minhas forças desaparecem.
Caio para frente.
E, nos meus últimos momentos…
Olho para a pessoa que eu mais amo.
Min-jae.
Mas… ele não está sozinho.
E isso…
Dói mais do que a morte.